sexta-feira, 28 de junho de 2013

Morre Bert Stern

Bert Stern é mais conhecido por ter sido o autor das últimas fotos de Marilyn Monroe. Algumas semanas antes da morte da atriz por overdose de drogas, Bert fez milhares de fotos para a revista Vogue. Stern dizia que foi uma “experiência única ter estado com Marilyn Monroe em um quarto de hotel.”

Fotógrafo de profissão, foi ao Newport Jazz Festival “tirar algumas fotos”. Em vez disso, acabou fazendo um documentário. Foi sua única aventura no cinema. Não precisou mais: fez o melhor documentário de jazz da história. Jazz on a Summer’s Day é um clássico. O olhar de fotógrafo capta os músicos, mas, principalmente, o público, cenas de Newport em um belo dia de verão. Pena que não esteja disponível no youtube. Mas alguns trechos estão. Há uma performance inesquecível de Anita O’Day. Veja.




Veja o trailer do documentário e um pedacinho da apresentação de Thelonious Monk.




A abertura do filme. É uma maravilha, com fundo musical de Jimmy Giuffre.




Louis Armstrong.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A desbundada de Carlos Barbosa-Lima

Barbosa-Lima na capa de Siboney
Antes de iniciar efetivamente o texto é bom esclarecer o significado da palavra que se origina do verbo “desbundar” e algumas outras. Segundo o Aurélio, a gíria significa 1. perder o autodomínio, por efeito de droga (3). 2. P. ext. Perder o autodomínio; perder as estribeiras. § desbundado, adj. É uma expressão bem típica que se popularizou na década de 1970. O início do ano de 1972, no Rio de Janeiro, foi cunhado de “verão do desbunde”. Caetano Veloso e Gilberto Gil haviam voltado para o Brasil e lançaram, respectivamente, Transa e Expresso 2222. Gal Costa realizou o show Fa-Tal, dirigido por Waly Salomão. Este lançou o livro Me segura qu'eu vou dar um troço e foi um dos protagonistas do desbunde.

Antigamente, aquele que não consumia drogas era um careta. Para se caracterizar que não estava sob efeito de alguma droga, se falava “estou careta”. Era o preconceito ao contrário. Mas “careta”, no sentido mais genérico, serve para se referir a uma pessoa mais conservadora, mais para o certinho.

O violonista brasileiro Carlos Barbosa-Lima era um careta, pelo menos quando o vi pela primeira vez em uma sala inóspita e acusticamente horrível. Lina Bo Bardi, autora do belíssimo projeto do Masp e de seu mobiliário, não privilegiava muito o conforto ergonômico. O jornalista Telmo Martino, do extinto Jornal da Tarde, do grupo do Estadão, adorava exercitar seus dotes viperinos para falar mal dos bancos (isso mesmo) de madeira maciça do teatro do Masp dizendo que tinham sido feitos pela Marcenaria Garrote Vil, ou qualquer coisa do tipo. Explicação: falava-se muito do garrote vil, instrumento de tortura da época da inquisição, por conta do longa ditadura do período Franco, na Espanha. Lina tinha cabelos longos e uma franja enorme para o lado esquerdo. Telmo dizia que a arquiteta era “a última fã de Veronica Lake”.

A apresentação a que assisti aconteceu no início dos anos 1970. Era um adolescente ainda e um curioso por quaisquer manifestações musicais, roqueiras, eruditas ou populares. Lembro que era uma noite fria e, recuperando-me de um resfriado, tossia como um condenado. Acho que fiquei mais preocupado em não quebrar aquele silêncio respeitoso de uma sala de concertos a fruir o violão daquele rapaz considerado, naquele tempo, o melhor violonista clássico do Brasil. Depois disso, por muito tempo não ouvi mais falar dele.

Carlos Barbosa-Lima nasceu em dezembro de 1944 e revelou-se prodígio no violão. Com 12 anos de idade, apresentou-se pela primeira vez em uma sala de concertos, em São Paulo. Menino ainda, foi apresentado ao violonista Luiz Bonfá e este aconselhou a família a estudar violão clássico.

Com 13 anos gravou Dez Dedos Mágicos Num Violão de Ouro pela extinta gravadora Chantecler. Passou a se apresentar em várias salas do Brasil e da América Latina e fez seu debut em Washington quando tinha 23 anos. Teve a oportunidade de tocar para Andrés Segovia, apresentou-se na Europa também e teve a honra de ter obras compostas especialmente para ele por Alberto Ginastera.

Nos primeiros anos dos 1980, mudou-se para Nova York e passou a dar aulas na Manhattan School of Music. Além de ótimo virtuose, Barbosa-Lima era considerado ótimo arranjjador, adaptando temas para o seu instrumento. Tocando com o violonista/guitarrista Charlie Byrd, grande divulgador, com Stan Getz, da bossa nova, conheceu Carl Jefferson, dono da gravadora Concord. Foi dessa época que voltei a ouvir falar dele ao me deparar com um disco chamado Impressions em que faziam parte do programa Fauré, Satie, Ravel, Enrique Ubieta, Robert Scott, Villa-Lobos e Laurindo de Almeida. Na foto da capa, era o mesmo “careta” que havia visto no Masp mais de dez anos antes, com menos fios de cabelo na parte superior do crânio, vestindo costume de cor escura e gravata, empunhando seu violão Thomas Humphrey.

O fato de ser contratado de uma gravadora mais voltada ao jazz, a Concord, e, talvez por gosto, resolveu explorar seus dotes de ótimo arranjador em obras externas ao mundo erudito. Lançou, em 1982, CBL Plays the Music of A.C. Jobim e George Gershwin. Ainda pela Concord, em 1991, soltou Music for Americas incluindo composições de Irving Berlin, Dave Brubeck Bobby Scott e Ary Barroso. Detalhe: gravou mais do que isso, e as referências são apenas sobre os álbuns que estão na minha discoteca.

Novo corte. Não ouço mais falar dele. Então encontro um CD de Barbosa-Lima com o título Frenesi. É de 2004. Algo tinha mudado. O nome desse clássico de Alberto Dominguez é bem claro nesse sentido. Os arranjos ainda são sóbrios. O repertório é latino americano, incluindo um belo Chega de Saudade, e uma exceção: Don’t Cry for Me Argentina. Apesar da citação a esse país, é composição do inglês Andrew Lloyd Webber.

Desbunde em mais de um sentido é Siboney, lançado em 2004 pelo selo Zoho. A capa revela um outro Barbosa-Lima. Trajando uma camisa estampada, com um chapeu panamá, é o “retrato” desse belo álbum. é pra cima, caliente. O repertório é de primeira. Até os que não morrem de amores pela música latina mais próxima do Caribe vão reconhecer a qualidade dos arranjos. Estão incluídas, além de Siboney (leia http://bit.ly/1187Wg5), do cubano Ernesto Lecuona, Drume Negrita, La Comparsa, Ojos Brujos, Guantanamera, Lamento Borincano, do portorriquenho Rafael Hernández Marín, e Perfidia. Os temas brasileiros são os clássicos Tico Tico, Bahia e Aquarela do Brasil. Um esclarecimento final: quando alguma era muito boa, dizia-se “tal coisa é um desbunde”, ou “é desbundante”. E assim é o álbum Siboney, de Carlos Barbosa-Lima.

Deste álbum, ouça Siboney.





Tocando Odeon.




Barbosa-Lima interpreta Villa-Lobos.




Seis Milongas, de Ernesto Cordero.



terça-feira, 25 de junho de 2013

O pop bem feito de Jessica Gall

Fora do circuito da música popular americana e britânica, Jessica Gall é uma boa novidade, pelo menos para mim. Como nos casos de cantoras como Lizz Wright, Norah Jones, classificadas como intérpretes de jazz, sua música é uma mistura de country, folk e pop, executadas com arranjos de muito bom gosto.

Seu primeiro disco, Just Like You, foi lançado pela Sony alemã em 2008. O segundo – Little Big Soul – é de 2010. Lançou Riviera no ano passado e agora, Riviera Live Concert.

Tal como os de sua geração, cresceu ouvindo música popular americana. Cita em uma entrevista que seus pais ouviam Aretha Franklin e Marvin Gaye. Estudou na Hans Eisler Academy of Music.

No álbum de estreia Jessica canta algumas músicas conhecidas como Imagine, de John Lennon, Everybody’s Got to Learn Something, dos Korgis, e Should I Stay Should I Go. Os outros CDs são com canções, na maioria, em que participa como compositora.

Ouça a clássica Everybody’s Got to Learn Something.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Muito interessante a releitura de Should I Stay Should I Go, da britânica Clash.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Riviera é um disco climático com bons arranjos que privilegiam os sons de guitarra slide, dobro e teclados eletrônicos. O Riviera ao vivo não é tão bom. O gravado em estúdio é mais coeso. Você tem uma amostra nos vídeos abaixo. Todas são desse CD, à exceção de Little Big Soul. Confira.


Veja Gall cantando Close Your Eyes





Riveira





Gall canta Little Big Soul






Veja-a cantando Rain.





Veja-a cantando Rain, novamente, em ensaio.





Cantando Pardon Me em uma apresentação de TV.





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