quinta-feira, 8 de julho de 2010

Mutações de Peter Gabriel

Desde 2002, Peter Gabriel não lançava algum disco. Agora, neste ano, sem muito barulho, saiu o Scratch My Back. Como sempre, Gabriel invariavelmente tem uma surpresa. Fez um disco de covers. Bem, até aí não é nenhuma novidade: tantos fizeram! O diferencial é o conceito. Desta vez se propôs a gravar músicas alheias, e a seus compositores foi proposto que gravassem as suas. Ele fez a parte dele. A contrapartida, como ele mesmo diz, “acontecerá mais tarde.” O título é referente a essa ideia: “você coça as minhas costas e eu, a de vocês.”
Desde o início de sua carreira, esse hoje jovem senhor de 60 anos, “fez diferente” e continuou em sua jornada de ser um indivíduo mutuante, como David Bowie. 

A originalidade vem dos tempos em que formou o Genesis. Representantes do rock progressivo britânico, apesar de certa pretensão em suas propostas em realizar álbuns como suítes, em que as partes se completam, várias bandas dessa época conseguiram fazer discos que, até hoje, se sustentam. Um diferencial do Genesis eram as apresentações ao vivo, sempre teatrais. Gabriel costumava se apresentar mascarado ou maquiado em roupas extravagantes.

Depois de sair do Genesis, construiu uma carreira solo representativa. Dessa época as músicas mais conhecidas são Biko, Shock the Monkey, I Don’t Remember, Not One of Us, Sladgehammer, San Jacintho e mais uma penca de sucessos. Compôs música para cinema – Birdy e A Última Tentação de Cristo. Criou a gravadora Real World e produziu uma série de discos com músicos árabes, africanos e sul-americanos até então pouco conhecidos no mercado do Primeiro Mundo. Foi, com o tempo, perdendo os cabelos e hoje se parece um pouco com o escritor Paulo Coelho, mas diferente deste, conservou o talento.

Qualquer receita depende dos ingredientes. Em Scratch My Back, prescinde da cozinha tradicional – bateria, baixo e guitarra – e fez um CD com orquestração John Metcalfe. A energia em todas as faixas é contida, e as músicas são, sem exceção, melancólicas e reflexivas. Juntou um punhado de canções preferidas e construiu versões personalíssimas de David Bowie (Heroes), Paul Simon (The Boy in the Bubble), Lou Reed (The Power of the Heart), e Neil Young (Philadelphia), dentre outros. Antenado, gravou composições mais contemporâneas como My Body Is a Cage (Arcade Fire), Street Spirit (Radiohead) e Regina Spektor (Après Moi). Esta última é um dos pontos altos do disco. Apesar da orquestração, às vezes, lembrar Philip Glass e Steve Reich, compositores eruditos minimalistas, o resultado geral é brilhante. Mais uma vez, Peter Gabriel surpreende.

Ouçam Après Moi, de Regina Spektor:

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Nada que se compare à Sinead O’Connor

Certa vez, com o amigo Marcio Uehara – Magoo desde os tempos de FAU-USP – falávamos de Sinead O’Connor, que “cantava” no aparelho de som.  A conversa era sobre os nomes irlandeses e as maneiras específicas de pronunciá-los. No escritório onde trabalhava, em Paris, tinha três irlandeses.

Quando entrou Nothing Compares to U, perguntou se sabia se era dela. Respondi que era de Prince. “— Ah, é do Prince? Só podia ser. Esses versos, ‘It’s been seven hours and fifteen days since you took away’…, bem coisa dele.” O comentário era sobre as “sete horas e quinze dias”.

Sinead fez e falou o tanto suficiente para criar inimigos e fatos. Pediu a renúncia do Papa Bento XVI, rasgou a foto de João Paulo II e deixou Frank Sinatra irado – mandou-a “kick her ass” – por ter se recusado a se apresentar em New Jersey se fosse tocado o hino americano. Tinha peito, a moça! Mas agora, sumiu. Ou não. Fotografaram-na saindo do filme do show do U2. Irreconhecível. Sua “reaparição” serve para lembrar da bela interpretação da música de Prince.

Vejam e ouçam. A de Prince está no link http://www.youtube.com/watch?v=lWBZINmN7Ts&feature=youtube_gdata

Veja a de Sinead:

terça-feira, 6 de julho de 2010

Estranho, muito estranho este Carlos Nuñez

De estranho, Carlos Nuñez não tem nada. Estranho mesmo é, em nome da justiça ou da liberdade, cometerem-se as maiores atrocidades e ignomínias. Desse modo, as fronteiras europeias quando pareciam consolidadas no fim do último século continuaram a mudar. Os vizinhos de ontem se tornaram inimigos de hoje. Ancestrais mudanças dos limites geográficos, em parte, são a razão do espanhol Nuñez tocar gaita de fole.

A Galícia, seu berço natal, possui raízes celtas. Esse nome se origina de Gallaecia, assim identificados esses habitantes da Península Ibérica no tempo do Império Romano. Valores culturais são perenes. A presença dos jesuítas no Japão no século XVI ou a de holandeses e judeus no Nordeste brasileiro na  época de Maurício de Nassau são percebidos até hoje. Os celtas habitaram uma boa parte da Europa no Mundo Antigo, mas a associação mais imediata, nos dias de hoje, acontece com países como a Irlanda, o País de Gales, a Escócia e regiões próximas. Quem faz música com raízes no folclore celta? O primeiro a ser lembrado é um grupo que existe há 40 anos, o The Chieftains. Nos anos 1960 e 70, algumas formações como o Fairport Convention e o Clannad – de onde saiu Enya consagrar-se internacionalmente – foram associadas a essa corrente. Na esteira de Enya, cujo nome de batismo é Eithne Patricia Ni Braonain – em gaélico significa “Eithne, filha de Brennan” –, surgiu outra boa intérprete: Loreena McKennitt.

Não é de surpreender, então, o fato de Nuñez, além da gaita de fole, mais associada à imagem dos desfiles de homens paramentados de saias e meias xadrezes, tocar uma flauta conhecida como “pan whistle”. Pelo que registra Fernando Conde, autor das notas incluídas no encarte, a gaita de fole é o instrumento folclórico mais comum na Galícia. Ainda ligando os pontos dessa “transculturalidade”, isso que tem raízes na cultura celta, ramifica-se até o Brasil. A maior parte dos imigrantes de origem espanhola, no Brasil, são galegos. Nos anos 1910-20 aportaram cerca de 25 mil espanhóis na Bahia. Outro lugar que recebeu uma grande leva – cerca de 50 mil – foi a Argentina. O bisavô de Nuñez emigrou para o Brasil, mas seus parentes nunca mais tiveram notícias. As terras nacionais poderiam até ser consideradas como uma “extensão” da Galícia. Segundo Conde, o português e o galego nasceram do “galego-português medieval, língua criada a partir do latim” e por essa razão são próximas. O galego era a língua oral das classes populares que vigeu até o século XV e foi sendo substituída pelo castelhano.

A ideia de gravar o CD Alborada do Brasil, pois então, é uma forma de “amarrar” essas conexões ancestrais da música. Nuñez tem como convidados a cantora Fernanda Takai, o pernambucano Lenine, o baiano Carlinhos Brown, o baterista Wilson das Neves – cantando! –, os gaúchos Yamandú Costa e Adriana Calcanhoto, o acordeonista Dominguinhos, o niteroiense/paulista André Mehmari, além do produtor Alê Siqueira. E o que poderia ter virado uma salada indigesta resultou em bela alquimia de signos culturais diversos. Na primeira faixa, Alborada de Rosalía, Fernanda Takai solta a voz doce numa língua que, prestando-se um pouco de atenção, nota-se que realmente é muito próxima à portuguesa.

O texto de Fernando Conde é extenso e procura explicar – ou aclarar – que, em verdade, tudo se cruza e se encontra em algum lugar. Esse lugar chama-se mundo. Que aconteça, na rota Brasil-Galícia-países celtas, tudo emboca no lugar dos cruzamentos interculturais. É a riqueza do trovadorismo medieval que se encontra nas formas musicais nordestinas, por exemplo. Nessa busca, Carlos Nuñez produz estados de encanto como o encontro da cultura europeia com a brasileira que “gera” o choro Vou Vivendo de Pixinguinha, ou em que Lenine canta “conexões galegas e irlandesas“ em Nau Bretoa – já que a Bretanha é “considerada uma das sete nações gaélicas”, que, por sua vez, se conecta às raízes bretãs do pernambucano – seu avô era bretão –, ou no xote, que segundo Conde, vem de “chotis, Scottish, uma espécie de ‘show reels’ – como são chamados na Irlanda e Escócia – ou ‘rilos’ – como se diz no Brasil” tocado por Dominguinhos ou nas composições “sanfonísticas” de Luiz Gonzaga, que por fim, desemboca em Maxixe de Ferro, composição de um certo José M. Nunes – e Pixinguinha, encantado, gravou – que, muito bem pode ser José Maria Nuñez, o avô de Carlos Nuñez, responsável por esse belo registro que é Alborada do Brasil (Sony, 2009).

Veja e ouça:
Mar Adentro

Muiñeira de Chantada:

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Obsessões de Patrice Leconte

O mundo não vive nem necessita de obras-primas para existir. Poderíamos viver sem elas, mas coisas belas e/ou sublimes fazem bem ao pensamento, aos olhos e à vida. Pode-se prescindir de Hitchcock, Godard, Fellini, Ozu, ou Antonioni. Se o mundo não fica melhor com filmes desses excepcionais diretores, pelo menos, fica mais interessante. O que são consideradas obras-primas correspondem a uma porcentagem muito pequena entre milhões de filmes excelentes, bons, ruins e péssimos. Mas todos, sem exceção, estão capacitados a fazer o gosto de alguém. O foco aqui é o cinema, mas essa ideia pode ser expandida para qualquer outra forma de manifestação artística.

Um filme recentemente lançado em formato DVD em junho deste ano e exibido em circuito comercial em 1990, O Marido da Cabeleireira, é um daqueles que a crítica especializada não colocaria no panteão das obras-primas. Mas, suponho que, muitos como eu, o classificaria como “inesquecível”, por uma série de razões. Tenho a certeza de que muitos homens ficaram sonhando com Anna Galiena, a cabeleireira, depois de terem visto o filme, tanto como a personagem interpretada por Jean Rochefort, o voyeur que, menino ainda, tem fixação pela senhora (bem) acima do peso, peitos fartos e coxas grossas, dona, presumivelmente, da barbearia (era assim que se chamavam, antigamente, os estabelecimentos em que se cortava cabelo e se fazia a barba). Um dia, o menino entra na barbearia e a encontra caída no chão. De seu ângulo, o que vê é um par de pernas e, onde se unem, um pequeno triângulo branco, uma nesga de sua roupa de baixo. Ela está morta.

O menino cresce e “vira” Jean Rochefort (Antoine). Continua a frequentar o salão, em que o dono agora é um senhor de idade que, posteriormente, passa o comando à sua funcionária predileta, Mathilde. A atriz Anna Galiena, que representa a cabeleireira, não é nenhum modelo de beleza. Assim mesmo é bela. Essa qualidade não está na perfeição dos traços de uma boca, no formato de um rosto ou nas suas curvas. Encontra-se, isso sim, na harmonização das partes. Galiena é o conjunto que pode muito bem alimentar as fantasias de um espectador do sexo masculino ou alimentar a fixação obsessiva de Antoine por cabeleireiras, e claro, das mulheres também. Enfim, casa com Mathilde. Pelo que fica subentendido, depois que casa, não faz nada além de admirá-la cortando o cabelo ou fazendo a barba dos clientes. Aparentemente não é só ele quem se sente feliz no casamento. Mas a felicidade tem um limite, até pelo medo de perdê-la.

Leconte tem outro filme, tido por muitos como o seu melhor: Um Homem Meio Esquisito (Monsieur Hire, 1989). Assistindo-se a ele compreende-se melhor O Marido da Cabeleireira. Hire, interpretado pelo “esquisitão” Michel Blanc, é um alfaiate que passa a acompanhar a vida da bela Alice (Sandrine Bonnaire), moradora do prédio da frente, como em Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. A história é baseada em romance de Georges Simenon. O filme é sombrio, com belas luzes e maravilhosa trilha – um quarteto de cordas de Brahms, não me lembro qual. Em ambos é a obsessão voyeurista. Um parêntesis: o título “meio esquisito” de Mr. Hire foi dado por Jean-Gabriel Albicocco, à época, presidente da distribuidora Gaumont. Albicocco teve uma carreira meteórica como diretor de cinema emplacando um grande sucesso crítico quando tinha apenas 24 anos. A Garota dos Olhos Dourados (La fille aux yeux d’or, 1961) lançou a jovem Marie Laforêt e foi considerado por Susan Sontag como o grande filme da estética por ela designada “camp”. Depois de alguns fracassos desistiu da carreira de diretor, encantou-se pelo Brasil e tornou-se responsável pela vinda da maior empresa cinematográfica francesa a este país.

Parabéns à Lume Produções, responsável por esse e tantos outros bons lançamentos. A única coisa imperdoável é a capa criada pela empresa para O Marido da Cabeleireira – quatro imagens de cachos de cabelos. É horroroso e quase horripilante. É inexplicável que não tenham usado a imagem original, um plano fechado sobre Galiena, de vestido vermelho, sentada à contraluz, absorta com alguma revista enquanto espera um cliente. Algumas versões de cartazes usaram um corte mais radical: a imagem fechada mostrando apenas o vestido e as pernas cruzadas.

O DVD lançado no começo de junho está à venda no site da 2001 Vídeo, possuidora do melhor acervo de filmes de arte. Tenha em sua coleção. Vale a pena.