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terça-feira, 7 de julho de 2015

Os melhores álbuns pela Downbeat: do 11º pra frente

Adoro listas, como o protagonista de Alta Fidelidade (High Fidelity), de Nick Hornby. Presumo que não sou tão diferente de muitos que habitam este planeta. Tenho amigos que adoram fazer listas das mais variadas coisas. Como ouço música até para dormir – ou mal dormir –, nada mais natural que distrair-se com listas, vendo o meu ídolo por tantos anos no sax barítono e no soprano, John Surman, depois de ficar tanto tempo em primeiro, estar em 11º na primeira categoria e, na segunda, nem constar na “63rd Annual Critics Poll”, da Downbeat.

Antigamente, se não me engano, colocavam apenas os 10 melhores do ano. Foram aumentando e, na última, citam 42. Naturalmente, não ouvi todos. Vou relacionar apenas alguns que achei interessantes – outros menos –, que podem despertar a curiosidade de alguns.

Billy Childs, Map to the Treasure: Reimagining Laura Nyro (11º). O pianista é um bom arranjador e nesse álbum em que faz tributo à compositora e cantora, morta precocemente aos 49 anos. O álbum conta com várias participações especiais como a de Renée Fleming, a celebrada soprano americana, de conhecidas cantoras como Rickie Lee Jones, Lisa Fischer, Alison Krauss, Dianne Reeves e a emergente Becca Stevens e músicos como Esperanza Spalding (cantando), Wayne Shorter, Chris Botti, Chris Potter e a estrela erudita Yo-Yo Ma. Os álbuns de Childs são sempre instigantes pelos bons arranjos.

Ouca Map to the Treasure, com vocais de Lisa Fischer. Para quem não sabe, é a backing dos Rolling Stones.



Chris Potter, Imaginary Cities (12º). o saxofonista tenor, que tocou por muito tempo na banda de Dave Holland e é um bons (ficou em 4º lugar em seu instrumento pela Downbeat). É o segundo que grava pela ECM. Fez parte da Unity Band, com Pat Metheny, Ben Williams e Antonio Sanchez. Foi lançado um único álbum deles, em 2012.

Chris fal sobre Imaginary Cities.




Mark Turner, Lathe of Heaven (13º). Não está entre os meus saxofonistas tenor preferidos, mas isso quer dizer apenas que tudo é questão de gosto. Até por isso, Lathe of Heaven está em 13º. Sinal de que muitos não concordam comigo.

Ouça The Edenist.




The Cookers, Time and Time Again (14º). Os “cookers” são Billy Harper, Donald Harrison nos saxofones, David Weiss e Eddie Henderson, trompetse, George Cables, piano, Cecil McBee, contrabaixo, e Billy Hart na bateria. Não dá para ignorar uma formação dessa. É bem bom. Estaria na minha lista dos dez.

Veja os “cookers” em Sir Galahad. Nada como a experiência. David Weiss é o mais novo. Grande Billy Harper.




Anat Cohen, Luminosa (14º). Faz alguns anos que não tem ninguém para Anat, na clarineta. Na última votação teve exatamente o dobro do segundo, que foi o cubano expatriado Paquito D’Rivera. Há uma coisa em comum entre esses dois: são apaixonados pela música brasileira. A israelense tem sangue latino. Toca choros como ninguém. Sua paixão é tão grande que seu álbum tem esse título que tão bem combina com ela e sua música. Anat merece um texto separado. Só para adiantar, ela abre com Lília, de Milton Nascimento. Não para por aí. Tem K-Ximbinho, Edu Lobo e Severino Araújo. Na minha lista estaria entre os dez melhores.

Ouça Anat em In the Spirit of Baden.




Keith Jarrett/Charlie Haden, Last Dance (16º). Tudo o que os dois gravaram é, no mínimo bom. É o que é esse álbum. É o complemento de Jasmine. Todos os registros foram feitos na casa do pianista em 2007. Ouça e leia em http://bit.ly/1IuEue8. Leia também sobre os duos de Haden com outros grandes músicos em http://bit.ly/1LWaQ0u.

Ouça alguns trechos de Last Dance.




Sonny Rollins, Road Shows 3 (17º). Noutro dia (re)li uma história ótima sobre a imprevisibilidade do saxofonista. Na década de 1950, o saxofonista tenor era celebrado como um dos grandes, depois de lançar os hoje clássicos Saxophone Colossus e Tenor Madness. Antes, já tinha passado uma pequena temporada na cadeia por roubo e lutava contra o vício de heroína. Um certo comportamento errático, dando várias pausas na carreira, tornando-se muçulmano e depois abraçando seitas orientais, foi morar na Índia, e ficou por lá um tempo fazendo ioga e meditação. Max Gordon, dono do clube Village Vanguard, em certa feita, soube que ele estava em Nova York. Conseguiu falar com ele ao telefone. Sonny foi encontrar-se com Max vestido com uma túnica branca que ia até os pés e com a cabeça calva, com o cabelo desenhando uma cruz no topo. Este lhe ofereceu um drink. O saxofonista disse-lhe que não bebia mais. Naquela terça-feira de abril, em 1976, Sonny apareceu com sua banda. Estava em forma ainda. Arrebentou. Depois de um intervalo de meia hora, aconteceria a segunda parte do show. A banda voltou, mas Sonny tinha sumido, para a surpresa de todos.

Por excelência e por sua imprevisibilidade, Sonny é uma lenda viva. Tem 84 anos e ainda toca. É Road Shows 3, porque já foram lançados dois. O primeiro foi o disco do ano pela Downbeat em 2009. Este terceiro merece eatr entre os vinte melhores do ano, até pelo que Sonny fez pela música. Max Gordon considerava-o o melhor tenorista de sua geração, melhor que Billy Harper, Dexter Gordon e Johnny Griffin. Bom, Gordon é um dos meus preferidos. Rollins está abaixo na minha lista. Mas, o velhinho manda bem. Tem fôlego para fazer solos espetaculares ainda.

Ouça Biji, a primeira faixa.




Tony Bennett e Lady Gaga, Cheek to Cheek (19º). O que esperar de um ancião quase nonagenário e uma cantora que adora mostrar as suas nem tão divinas tetas? Bem, chamar Tony de ancião é um insulto. Impressionante como mantém a verve de grande cantor. E Lady Gaga, para a minha, a nossa e a sua surpresa, manda bem nos standards. Sobre esse álbum, leia http://bit.ly/1MpEQpH.

Veja Tony e Lady Gaga cantando Anything Goes, Cheek to Cheek e They All Laughed.




Marc Ribot Trio, Live at The Village Vanguard (20º). Sem ser um virtuose, Marc se diferencia pelo som original que tira da guitarra. É o que faz, por exemplo Ry Cooder. Suas participações em álbuns de outros músicos são sempre interessantes. Deve ter tocado com todo mundo. Tocou em vários discos de Tom Waits. Este ao vivo é muito bom.

Ouça Sun Ship.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Mais um álbum póstumo de Charlie Haden

É oito ou 80. Gonzalo Rubalcaba toca com rapidez estonteante, a ponto de nos deixar tontos, ou toca tão lentamente, que nos causa sono. Claro. Há exceções, dentre elas seu último Suite Caminos, um retorno às raízes cubanas. É um CD um tanto esquisito, na acepção do termo em português, e não na que nomeia alguns bons charutos cubanos – “exquisitos” –, termo usado quando o objeto é de grande refinamento ou de muito bom gosto.

Rubalcaba é o nome do tornado vindo de Cuba e arrebatou críticos e amantes do jazz. Todos foram pegos de surpresa. Quem era aquele pianista que tocava tão bem e parecia ter surgido do nada? Sua apresentação em Montreux, em 1990, virou disco e, apropriadamente chamou-se Discovery. O trio era ele, Charlie Haden e Paul Motian. O baixista o conhecia desde que havia se apresentado em um festival de música em Cuba.

A amizade musical entre Haden e Rubalcaba persistiu por muitos anos. Depois de Montreux, reencontraram-se em várias oportunidades. Haden participou de The Blessing (Blue Note, 1991), Suite 4 y 20 (Blue Note, 1992), Imagine (Blue Note, 1994). Rubalcaba participou das gravações de Nocturne (Verve, 2001), Land of the Sun (Verve, 2004) e de The Montreal Tapes, registrado em 1989 e lançado em 1994. A série The Montreal Tapes é composta de gravações feitas na ocasião em que Haden era o homenageado. Em cada noite o convidado (ou convidados) era algum músico que tocara anteriormente com ele.

Depois da morte dele, em julho do ano passado, foram lançados alguns discos com registros mais antigos. O primeiro foi Goodbye (ECM, 2014), duo com Keith Jarrett, depois foi a vez de Charlie Haden – Jim Hall (Impulse, 2014). Agora, em junho, sai Tokyo Adagio, duo com Gonzalo Rubalcaba. Os registros foram retirados de duas apresentações no Blue Note de Tóquio em 2005.

Naturalmente, não faltam números latinos. Além de En la orilla del Mundo e Solamente Una Vez, temos um standard (My Love and I), uma composição de Ornette Coleman (When Will the Blues Leave), um tema do cubano (Transparence), e Sandino, dos dois.

En la Orilla del Mundo e Transparence são de Nocturne, e Solamente Una Vez, de Land of the Sun. Até um tema de andamento médio, como When Will the Blues Leave, de Coleman, fica lento. O “adagio” do título até poderia ser trocado por “largo”. O tom das músicas segue o gosto de Haden. Ele sempre gostou de andamentos lentos que tendem à melancolia. É só ouvir os álbuns do Quartet West, a sua banda retrô.

E não é à tôa que a melhor faixa é My Love and I, anteriormente gravada em Always Say Goodbye (Verve, 1993), com o Quartet West. O tema do filme Apache, é de Johnny Mercer, David Raksin. Ouça.



Ouça Sandino.





Tokyo Adagio é o segundo lançamento de Charlie Haden do selo Impulse, que estava desativado há um bom tempo, depois de ter sido responsável – há muito tempo – de gravar o melhor John Coltrane. O primeiro foi o duo com o também falecido Jim Hall. Os dois álbuns não são os únicos lançados por este selo. Liberation Music Orchestra, de 1969, é um dos grandes discos do baixista. Este faz parte de sua faceta “engajada”. Seu engajamento político de inclinações esquerdistas resultou em grandes discos. Além deste, o grande destaque é The Ballad of the Fallen (ECM, 1982). Dizem que arte engajada nem sempre dá em grande coisa. Nesse caso, deu certo. Leia mais sobre essa fase de Charlie Haden em http://bit.ly/1SF0SV8.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A última dança de Charlie Haden com Keith Jarrett

Charlie Haden e Keith Jarrett no estúdio do pianista
Duas coisas são curiosas, pensando na morte de Charlie Haden aos 76 anos, na semana passada: o título do CD mais recente, em duo com Keith Jarrett, é Last Dance, e a última faixa é Goodbye. Seria uma premonição. Sendo assim, serve como testamento de um dos maiores baixistas da história do jazz.

Mas, e se for um golpe mercadológico do produtor Manfred Eicher? Agora que Haden está morto, sabe-se que padecia de uma enfermidade grave, consequência de uma variante da poliomielite contraída quando tinha quinze anos e comprometera-lhe os movimentos da face e as cordas vocais. É por isso que tinha aquela expressão de estátua. A doença ceifou seu desejo de ser cantor profissional, que era o que fazia na Haden Family. Para muitos que o conheceram como baixista devem ter se surpreendido quando o ouviram cantar Wayfairing Stranger, a última faixa de Art of the Song (1999). Em Rambling Boy (2008), álbum que relembra a família musical – dessa vez, com participação das filhas Petra, Rachel, Tanya e Josh, mais a mulher Ruth Cameron – Haden canta Oh Shenandoah, um tema tradicional do folk americano. Shenandoah é a cidade natal do baixista. Em ambas as canções ouvimos uma voz muito fraca e extremamente afinada.

My Old Flame, My Ship, ’Round Midnight, Dance of the Infidels, It Might as Well Be Spring, Everything Happens to Me, Where Can I Go Without You, Everytime We Say Goodbye e Goodbye são as canções que compõem Last Dance. O CD é complemento do anterior Jasmine (ECM, 2009). Todas foram gravadas no estúdio de Keith Jarrett, em 2007. Em Jasmine, a chamada de venda, assinada pelo pianista, era: “Chame sua mulher, esposa ou amante tarde da noite, sentem-se e ouçam.” Serve para Last Dance, também. É relaxante ouvir o piano e o contrabaixo dos dois. São temas em tempo lento, em sua maioria. Mesmo Dance of the Infidels, de Bud Powell, cujo original é mais uptempo é executada em tempo médio.

Ouça Goodbye, de Gordon Jenkins.



Ouça também Everytime We Say Goodbye.



Haden ficou mais conhecido quando fez parte do conjunto de Ornette Coleman, Jarrett, como pianista da banda de Charles Lloyd. Montaram uma banda infernal com o diabólico saxofonista Dewey Redman e o ex-baterista de Bill Evans, Paul Motian. Gravaram álbuns excepcionais. 

A primeira vez em que ouvimos os dois em duo foi com Ellen David, em Closeness (A&M, 1976). Lançaram, pela ECM, Arbour Zena, com orquestra e o saxofonista Jan Garbarek. Belíssimo. Algo muito diverso do som do quarteto americano. A maior característica do som de Haden era o lirismo e a predominância do melódico e menos da potência rítmica de Ray Brown. Aliado ao lirismo do piano de Jarrett, fizeram uma parceria quase perfeita. Assim como Jasmine, Last Dance não é aquele álbum que tem lugar na história como um Kind of Blue, de Miles Davis, mas tem um lugar bem especial na estante de qualquer amante do jazz.

Ouça a maravilhosa Ellen David, duo de Haden e Jarrett, em Closeness.



Ouça na íntegra o álbum Arbour Zena (ECM, 1976). 



terça-feira, 15 de julho de 2014

Charlie Haden morre

Natural de Shenandoah, Iowa, Charlie Haden cresceu no meio de uma família musical, em uma fazenda. A Haden Family Band participava de programas de rádio e apresentavam-se em teatros da região tocando música do gênero country e folk. O menino Charlie era um deles. Contraiu um tipo de poliomielite que lhe comprometeu as cordas vocais e os músculos da face. Não podia mais cantar, que era do que gostava. As vicissitudes da vida o obrigaram a mudar os seus anseios. Assim, tornou-se baixista; e não continuou pelos caminhos da folk music. Interessou-se pelo jazz. Em 2008, Haden lançou um disco que resgata essa fase em que participava da banda da família. Arregimentou a mulher Ruth, os filhos Jason e Petra e outros músicos como Bruce Hornsby, Elvis Costello, Rosanne Cash, Vince Gill, dentre outros, para gravar Rambling Boy, um álbum voltado ao folk e ao country.

Interessando-se me jazz, muda-se, em 1957, para Los Angeles e trava contato com o pianista Hampton Hawes. Foi seu início profissional no gênero. Tocou com Paul Bley e Art Pepper, mas tornou-se conhecido mesmo quando passou a tocar com Ornette Coleman. Junto com o texano nascido em Fort Worth, participou da revolução do free jazz.

Em 1967, passou a fazer parte do quarteto de Keith Jarrett. É dessa época o meu primeiro contato com o baixista. Era um quarteto excepcional em que os outros membros eram Dewey Redman e Paul Motian. O primeiro álbum solo dele foi Closeness (Horizon, 1976). Lembro-me até hoje do quanto ouvi esse disco de duos com Keith Jarrett, Ornette Coleman, Alice Coltrane e Paul Motian. Nesse mesmo ano, lançara também As Long As There’s Music, com o fabuloso pianista Hampton Hawes, o músico que procurara ao chegar em Los Angeles.

Ouça Irene, duo de Haden com Hampton Hawes.




Ouça a belíssima Ellen David, composição para a sua mulher à época, em duo com Keith Jarrett.




Ao mesmo tempo em que participava do quarteto de Jarrett, montou o Liberation Orchestra Music, com Carla Bley. Com essa formação, Haden revelava a sua faceta militante. É discutível usar a música como um meio político. Há um certo equívoco em se imaginar que é possível fazer uma revolução assim, a não ser que essa revolução aconteça no âmbito estritamente formal. Mas, antes de comunista militante, Haden era um tremendo músico. Em nome de seu ideal compôs belas canções como Chairman Mao, Sandino, Song for Che, La Pasionaria e For a Free Portugal. Aliás, por sua postura militante contra as tiranias e o colonialismo, foi expulso de Portugal na era salazarista, quando foi se apresentar no Festival de Jazz de Estoril. Teve a capacidade também de, junto com Carla Bley, de fazer arranjos sensacionais a partir de temas relacionados à Guerra Civil Espanhola (Els Segador), a El Salvador (The Ballad of the Fallen), ao Chile (The People United Will Never Be Defeated), a Portugal (Grandola Vila Morena) e com a música de Hans Eisler (Song of the United Front).

Haden tinha, à essa altura, um rol de admiradores e era reconhecido pela crítica como grande instrumentista. Foi por muitos anos o melhor contrabaixista na votação da revista Downbeat, e The Ballad of the Fallen (ECM) foi considerado o melhor disco do ano pelos críticos da Downbeat, em 1984.

Ouça La Pasionaria, de The Ballad of the Fallen.




Ouça Silence, uma das mais belas composições de Haden.




Outra formação importante dele é a série de álbuns gravados com o Quartet West. Nesses discos, deixa a militância política de lado e foca no ambiente noir. São interpretações que evocam os anos 1930/40/50. Os temas são melódicos fincados na grande tradição musical americana. Insere, inclusive, vozes de Jo Stafford, Jeri Southern, Billie Holiday, solos de Coleman Hawkins, Django Reinhardt, Duke Ellington, Stéphane Grappelli, em muitas delas, com arranjos luxuriantes para orquestra de Alan Broadbent, o pianista da banda.

Veja uma apresentação do Quartet West, em São Paulo, no Heineken Jazz Festival, tocando Retrato em Branco e Preto.




Veja o Quarteto em First Song (for Ruth), composta para a sua mulher, desta feita, a segunda. Haden tocava protegido por uma redoma de acrílico devido ao seu problema auditivo.




São importantes também, em sua discografia, a formação que ficou chamada de Old and New Dreams, com Don Cherry, Dewey Redman e Ed Blackwell. São discos vigorosos, de alta octanagem. O melhor deles é Playing (ECM, 1981).

O Old and New Dreams interpreta um dos clássicos de Ornette Coleman: Lonely Woman.




Com uma produção dessas, Charlie Haden fica na história não apenas como um dos grandes baixistas da história, junto com Charles Mingus, Ray Brown e Scott LaFaro, mas como um dos propulsores da música instrumental, partícipe de várias reviravoltas importantes. Haden faz parte daquela classe especial em que seus admiradores o amavam incondicionalmente. Desde já, deixa saudades.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Stéphane Kerecki e John Taylor. Ou, o gosto que leva ao outro

Kerecki e o pianista John Taylor
Antes de mais nada, não confunda o John Taylor pianista com o John Taylor baixista do Duran Duran. O primeiro não é um galã como o segundo e nem um pop star. Nasceu na Inglaterra também, mas preferiu ir pelos caminhos do jazz. Tocou com a nata musical britânica: Alan Skidmore, John Surman e Kenny Wheeler, este, canadense de nascimento, radicado desde 1952.

John não é de aparecer muito. Fez parte do Azimuth, com Wheeler e a cantora Norma Winstone. Tocando em discos de John Surman, pela beleza de seu piano, passei a prestar atenção em gravações que participa, como muitos de Kenny Wheeler, Surman e Marilyn Mazur.

Descobri um disco de John Taylor com Stéphane Kerecki chamado Patience. Piano e contrabaixo é sempre uma boa combinação. Devo ter todos os que Charlie Haden gravou com Keith Jarrett (sobre o álbum Jasmine: http://bit.ly/Qs0QEe), Hampton Hawes, Chris Anderson, Hank Jones, Kenny Barron e Denny Zeitlin (sobre os duos de Haden: http://bit.ly/UcDyS0).

As composições de Patience são de Kerecki, à exceção de Jade Vision, do grande Scott LaFaro, baixista de Bill Evans no curto período de fins da década de 1950 e início da próxima, morto em um acidente automobilístico em 6 de julho de 1961, com 25 anos.

O álbum segue a estrutura de uma suíte, com prólogo (a primeira), interlúdio (a sexta) e epílogo (a 12ª e última).

São, na maioria, temas bem melódicos. Além da música título, outra, muito boa, é Gary, com um piano especial de Taylor. Apesar de uma música se chamar Kung Fu – muito estranho em um disco desse teor – e uma outra, Bad Drummer, no geral, são títulos meio abstratos, impressionistas, como é o clima geral deste álbum.

Veja Taylor e Kerecki no Duc des Lombards interpretando Patience.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Egberto Gismonti e Charlie Haden sem Jan Garbarek

Gismonti e Haden
Sem a “interferência” de Jan Garbarek, aconteceu uma apresentação de Egberto Gismonti e Charlie Haden, lançada pela ECM com o título In Montreal. Faz parte de uma série de apresentações acontecidas em 1989, em que o homenageado foi o baixista. Em dias diferentes, Haden dividiu o palco com Joe Henderson e Al Foster (30/6), Geri Allen e Paul Motian (1/7), Don Cherry e Ed Blackwell (2/7); Gonzalo Rubalcaba e Paul Motian (3/7), Pat Metheny e Jack DeJohnette (5/7), Gismonti (6/7), Paul Bley e Paul Motian (7/1), e o Liberation Music Orchestra (8/7). Todas, com exceção da apresentação com Metheny e Jack DeJohnette, foram lançadas em CD ou DVD (o do Liberation Music Orchestra). 

A de Montreal, certamente, não foi a única vez em que tocaram apenas os dois. Presenciei, uma vez, apresentação de Haden com seu Quartet West, no Teatro Alfa, em São Paulo, em que Gismonti tocou alguns números como convidado especial. Foi em 1999.

Haden era a estrela, mas a maioria das composições é de Gismonti. Haden tem poucas e ótimas composições. As duas do CD – First Song e Silence –, para quem conhece a discografia de Haden, são conhecidíssimas. As sete restantes são do brasileiro: Salvador, Maracatú, Palhaço, Em Família, Lôro, Frevo e Don Quixote.

A música de improviso tem uma qualidade: mesmo que os temas não sejam inéditos, é sempre possível uma leitura diferente, porque depende do momento e da interação dos músicos. O entendimento entre os dois parece, a meu ver, mais natural sem Jan Garbarek, um pouco em razão de o piano e o violão de Gismonti brigarem menos com uma certa estridência do saxofone do norueguês. É uma combinação mais harmônica. Questão de gosto, como disse dezenas de vezes, e está sujeita a discordâncias.

Os temas de Gismonti são bem conhecidas pelos brasileiros. Então, vamos ouvir um de Haden: Silence. Essa música foi gravada pela primeira vez em The Ballad of the Fallen (ECM, 1982). Não tenho absoluta certeza sobre essa informação, mas meu palpite é de que foi em 1982 mesmo.

Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Veja Gismonti em duo com Haden em São Paulo, no Heineken Concerts, tocando Palhaço.


Outros sobre Haden no blogue:
“Jasmine”, o duo de Keith Jarrett e CH: http://bit.ly/Qs0QEe
“Sophisticated Ladies”: http://bit.ly/T9fqNd 
CH e Rachmaninoff: http://bit.ly/10lYR5a
Hank Jones e CH, O último disco de Hank: http://bit.ly/OlS6MD
Os duos de CH: http://bit.ly/UcDyS0
O post anterior, sobre “Carta de Amor”: http://bit.ly/Wt424a

Bom, deu para perceber que sou fã de carteirinha do baixista, não?



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A “Carta de amor” de Gismonti

Gismonti, Haden e Garbarek (Ralph Quinke/ECM)
Quem é fã de Egberto Gismonti vai comprar o álbum duplo Carta de Amor, lançado pela gravadora internacional do brasileiro, a ECM. São registros de uma apresentação no Americanhaus, em Munique, acontecidas em abril de 1981. A Borandá tem distribuído alguns bons CDs da ECM, poucos, é certo. Os CDs físicos são importados e o encarte e o box são produzidos aqui mesmo. Sai um pouco mais barato. Por este álbum duplo paguei 69 reais. Com a facilidade de se baixar de graça, sai caro. Tenho minhas dúvidas se deveria ter esperado um pouco e deixar de gastar meu precioso dinheirinho. Vi, em pelo menos dois sites, disponível para ser baixado em mp3 “de grátis”, como dizem por aí.

A ECM deve ter montes de registros guardados como esse, e agora, resolveu lançá-los. Tem cheiro de estratégia “caça-níquel”. Pouco tempo atrás, lançou Sleeper, com o quarteto europeu de Keith Jarrett. Um músico que está nos dois discos é Jan Garbarek, saxofonista norueguês. (sobre Sleeper, leia http://bit.ly/RV0JOn)

Quem conhece razoavelmente os discos da ECM, sabe que Manfred Eicher gosta de unir seu cast em formações eventuais. Em uma delas, juntou Gismonti, Charlie Haden e Jan Garbarek. O brasileiro tem cartaz com o alemão. Além de continuar a gravar com total liberdade, conseguiu lançar por lá vários títulos que haviam saído pela EMI-Odeon brasileira e outros de seu selo Carmo.

Mágico e Folk Songs foram os discos lançados pelo trio. Ambos foram gravados em 1979, o primeiro em junho, e o outro, em novembro. Quem tem os dois não vai se decepcionar com o álbum ao vivo, pois algumas são inéditas. De Gismonti são Carta de Amor, Dom Quixote e Branquinho. A “inédita” de Haden é La Pasionaria, composição que saiu no genial The Ballad of the Fallen (1976), homenagem à Dolores Ibarruri, figura legendária da Guerra Civil Espanhola. Haden sempre esteve engajado politicamente com a esquerda e procurou levar isso à sua música. Não sei até onde funciona efetivamente como instrumento de luta, mas, pelo menos, musicalmente, deu certo com a sua banda em parceria com Carla Bley, a Liberation Music Orchestra. A outra de Haden é All That Is Beautiful.

Após Two Folk Songs, de Jan Garbarek, em meio aos aplausos, ouve-se um espectador dar um grito. Catarse… por estar vivendo aquele instante único. Fico a pensar acerca do grito. Depois de ouvir uma composição do “gélido” norueguês? Emoções são muito particulares e peculiares. Não vi algum motivo para esse “orgasmo musical”.

Juntando a “temperatura” de Jan com a de Gismonti (alta), o resultado final em Carta de Amor é morno. Garbarek tornou-se conhecido por um público maior quando se tornou membro da banda de Keith Jarrett, mas já era da ECM desde 1969, quando a gravadora tinha sido criada.

Na mesma época em que fez parte do quarteto de Jarrett, gravara dois discos superiores, na minha opinião, com o pianista Bobo Stenson, Palle Danielsson (baixo) e Jon Christensen (bateria): Witchi-Tai-To (1973) e Dansere (1975).

Se considerarmos a música de improviso como jazz, aí sim, Garbarek é do ramo. Mas não é assim. Por seus registros posteriores, percebe-se que seus interesses musicais são bem mais amplos. Enveredou pela música erudita com o Hilliard Ensemble, fez releituras do canto gregoriano e o que chamam por aí de world music. Seu disco Ragas and Sagas (1992) é dividido com Ustad Fateh Khan e outros músicos paquistaneses. Twelve Moons – a segunda faixa, Psalm, cantada por Agnes Buen Garnås, é maravilhosa – explora o folclore escandinavo. Por essas e outras gravações, muitos o classificam como um representante da world music e até, erroneamente, da música new age. Os dois citados e Dansere, com o trio de Bobo Stenson, são muito bons e demonstrativos da versatilidade do norueguês.

Depois de ter falado tão bem de Garbarek, vou falar mal. Enjoei do sopro estridente de seu sax, principalmente no soprano. Ouvindo Carta de Amor, percebo que seus discos gravados com ele e Charlie Haden não se incluem entre os melhores de sua discografia. Minha opinião, certo? Agora, os registros existentes de Gismonti com o baixista (In Montreal, ECM, 2001), em 1989, são pra lá de bons. É uma perfeita combinação. Haden é cool e, com Gismonti, atingem a temperatura ideal. Até que não seria má ideia comentar sobre esse disco posteriormente.

Bom, posso considerá-lo médio, mas não quer dizer que seja ruim, por favor. Ouça a música-título.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Os duos de Charlie Haden

Haden e o baixo
O lugar do contrabaixo, ou baixo, como é chamado com maior frequência, é na “cozinha”; como a bateria. Quem sola é o piano, a guitarra, o sax ou alguns outros instrumentos. Cabem ao baixo e à bateria solos no meio das músicas, mas, quase sempre, a primazia é dos outros instrumentistas. Isso não tira a importância de um Oscar Pettiford, um Ray Brown ou um Jaco Pastorius. Um formato, no entanto, propicia maior presença ao baixo: os duos, principalmente, se os músicos forem Charlie Haden, Red Mitchell ou David Friesen. Dos três, Haden é o que mais gravou discos nesse formato.

Os primeiros que lançou como solista foram Closeness (A&M, 1976) e Golden Number (A&M 1977). Não é mera coincidência que os dois consistam de duetos com alguns expoentes do jazz com quem já havia tocado (Ornette Coleman, Don Cherry, Paul Motian e Keith Jarrett). Quando Closeness foi lançado, o conhecia pelos discos que havia feito como sideman de Keith Jarrett, e mais tarde, pelo álbum Free Jazz (de 1961), de Ornette Coleman.

Fiquei ‘paralisado” ao ouvir a primeira música de Closeness: Ellen David, em homenagem à mulher com quem era casado. Muitos amigos conheceram Haden por essa música. Todos os que vinham em casa eram “obrigados” a ouvir esse maravilhoso dueto com Keith Jarrett. Das três restantes, a outra preferida era For Turiya, com Alice Coltrane na harpa. A com Ornette Coleman, não gostava; a com Paul Motian era interessante, mais pelo viés político.

Curiosamente, o comunismo (naquele tempo existiam muitos militantes de esquerda, de variados matizes) de Haden era específico, voltado mais aos países latinos Espanha, Portugal e América Central. Na época, o General Franco era um cadáver ambulante, mas teimava em não morrer. António Salazar estava morto (1889-1970), mas o salazarismo não. Portugal era um dos últimos países a viver do colonialismo, com braços na África e no Oriente. Era dirigido por Marcelo Caetano quando aconteceu o que ficou conhecido como a Revolução dos Cravos, a 25 de abril de 1974.

No crepúsculo do regime salazarista, Haden se apresentou no primeiro Cascais Jazz, em novembro de 1971. As atrações eram de primeira: Miles Davis, Ornette Coleman, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Art Blakey, Phil Woods e Dexter Gordon. Charlie Haden (estava tocando com Ornette Coleman) dedicou Song for Che aos movimentos de libertação de Angola e Moçambique. Delírio: os portugueses não aguentavam mais. Viam-se faixas com a inscrição “Abaixo a Guerra Colonial”. Apesar de a apresentação não ter sido interrompida, Haden foi interrogado pelo Pide, a versão lusa do nosso Dops, e de lá, mandaram-no direto para o aeroporto.

Pois, a última faixa de Closeness – For a Free Portugal – é uma colagem com percussões de Paul Motian e cantos da guerrilha angolana. Percebemos perfeitamente sons de tiros e vozes cantando palavras de ordem, na língua portuguesa, contra o colonialismo.

Mais ou menos nessa época, a amiga Lucila Wroblewsky, que sempre viajava para fora do país – coisa que não era tão fácil como é agora –, me emprestou um LP de Haden com o pianista Hampton Hawes: As Long A Thre’s Music (1978). Virei fã definitivo do baixista: tenho quase tudo dele, principalmente, as gravações em duos, que não são poucos. Além dos citados acima, gravaram com Haden, Chris Anderson, John Taylor, Hank Jones, Kenny Barron, Denny Zeitlin (pianistas); Antonio Forcione, Christian Escoudé, Carlos Paredes, Pat Metheny (violões e guitarras); e, Egberto Gismonti (violões e piano).

O último disco lançado foi Come Sunday, comentado anteontem (http://bit.ly/A2oxHE). Antes dessa gravação com o pianista Hank Jones, lançou Jasmine (ECM, 2010), com Keith Jarrett (sobre esse disco, leia http://bit.ly/rLYSsm), Foi considerado um dos melhores do ano pela crítica especializada, em revistas de jazz.

Ouça a bela Ellen David, com Haden e Keith Jarrett.



Haden e Gismonti
Egberto Gismonti e Charlie Haden. O primeiro disco gravado por Egberto Gismonti pela alemã ECM foi um sucesso. Dança das Cabeças, em duo com o percussionista Naná Vasconcelos, recebeu 5 estrelas – cotação máxima – da revista Downbeat, em 1977. Dança propiciou ao brasileiro uma longa cooperação com a gravadora de Manfred Eicher. Nos álbuns colaborativos que a ECM costuma produzir, Egberto gravou Sol do Meio Dia (1978), com Collin Walcott, Ralph Towner e Jan Garbarek. Depois disso, lançou Solo (1979), e em 1979, dois discos com Jan Garbarek e Charlie Haden: Mágico (1980) e Folk Songs (1981).

Em 1989 aconteceu uma série de apresentações de Charlie Haden no Festival de Montreal. Paulatinamente, foram lançados discos em que foram (re)unidos músicos que colaboraram com o baixista durante a carreira. Em 30 de junho, apresentou-se com Joe Henderson e Al Foster (Verve, 2004); em 1º de julho, com a pianista Geri Allen e o baterista Paul Motian (Verve, 1998); em 2 de julho, com Don Cherry e Ed Blackwell, velhos parceiros musicais da banda de Ornette Coleman e do Old and New Dreams (Verve, 1994); em 3 de julho, com o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba e Paul Motian (Verve, 1997); no dia 5, com Pat Metheny e Jack DeJohnette (não foi lançado); no dia 6, com Egberto Gismonti (Verve, 2004); com Paul Bley e Paul Motian, no dia 7 (Verve, 1994); e em 8 de julho com o Liberation Music Orchestra (Verve, 1999).

Em 1999, por ocasião da apresentação de Charlie Haden e seu Quartet West, no Teatro Alfa, São Paulo, Egberto Gismonti foi o convidado especial. É desse show que você vai ouvir Palhaço.



Como sou fã de carteirinha de Haden, tem sido assunto recorrente nas minhas publicações.
Leia sobre o CD Sophisticated Ladies: http://bit.ly/ycnxYm
Haden toca Moments musicaux, de Rachmaninov: http://bit.ly/wVnmDW,
além dos que foram assinalados no meio do texto.

terça-feira, 13 de março de 2012

A despedida de Hank Jones em disco com Charlie Haden

Hank no Steinway
Por ocasião em Hank Jones se apresenta com Joe Lovano, no Jazzbaltica, o pianista, já quase nonagenário, é entrevistado. No preâmbulo, o entrevistador fala do talento musical familiar (Hank era irmão do baterista Elvin Jones e do cornetista Thad Jones) e, naturalmente, da idade. Hank está quietinho, ouvindo-o. Na hora de responder, começa a balançar o corpo como se sofresse do mal de Parkinson; gagueja como um caquético. Ri da própria graça e se mostra senhor de suas ideias, muito lúcido.

Bom, uma hora, todos morrem. Inevitável. Jones se manteve na ativa até pouco tempo antes de falecer, em 2010. Gravou, nos últimos anos, com seu trio (George Mraz e Willie Jones), dois belos discos com Frank Foster e andou tocando com Joe Lovano. Agora, há pouco tempo, é lançado Come Sunday, um duo com o baixista Charlie Haden, três meses antes de morrer em decorrência de um câncer na próstata. Foi a segunda parceria. O outro foi em 1995: Steal Away. Ambos são compostos de músicas tradicionais americanas, spirituals, hinos religiosos, canções folclóricas e gospels.

Come Sunday pode ser considerado uma continuação – ou complementação – do anterior Steal Away (1994). Não é disco de grandes arroubos. É intimista e é música executada para ser ouvida assim, distraidamente, curtindo as discretas intervenções do piano de Jones e do baixo de Haden. É incrível como Jones, tendo ultrapassado os noventa, na ocasião em que o disco foi registrado, não passar, em nenhum momento, alguma fragilidade, executando um piano pulsante, exato, majestático dosando exatamente a pressão em cada nota e em cada acorde, nem mais nem menos, na precisa intensidade para imprimir a beleza única que sempre o marcou, seja em trios ou em duos com o outro pianista (Tommy Flanagan, John Lewis e George Shearing) ou com instrumentistas, como o saxofonista Joe Lovano (Kids: Live at Dizzy’s Club Coca-Cola, 2006), Frank Wess (Hank and Frank, 2003), a cantora Roberta Gambarini (You Are There, 2005; perfeito), e o baixista Red Mitchell (Duo, 1987), ou tocando com Ella Fitzgerald. Aliás, como Flanagan, era um mestre em acompanhar cantoras. Gravou discos interessantes fora dos contextos mais comuns no jazz: Sarala (1995), com Cheik-Tidiane Seck, músico de Mali, e Hank Jones with The Meridian String Quartet (1990).

Algumas músicas têm menos de dois minutos; a maioria tem perto de três minutos; a exceção é a primeira (Take My Hand, Precious Lord, com 4:26). O tempo, portanto, não propicia espaços maiores para improvisações. As peças são, praticamente, a apresentação das melodias em breves improvisos que pouco fogem do tema. A beleza está nos pequenos brilhos que cintilam na superfície de cada canção. A estrela mais fulgurante é Come Sunday, de Duke Ellington. As outras, quase tão belas, são Take My Hand, Precious Lord, God Rest Ye Merry Gentleman, Goin’ Home (com uma abertura meio sombria antecedendo um belo solo e bela mão esquerda de Jones), Blessed Assurance, It Came Upon a Midnight Clear, Give Me That Old Time Religion (solo de Haden) e The Old Rugged Cross.

Ouça Come Sunday.



Apesar de Come Sunday ser um bom disco, acredito que o anterior – Steal Away – é um pouco melhor. Ouça Nobody Knows the Trouble I’ve Seen. O baixo de Haden é marcante e quando entra o piano de Jones, que belo “fecho”!



O clássico Sometimes I Fell Like a Motherless Child.



O amigo Érico Cordeiro possui um belo blogue, rico em informações, diferente do meu, que trata dos assuntos de forma mais ocasional. Se você quer conhecer mesmo a vida de intérpretes do jazz, é lá que você deve ir: http://ericocordeiro.blogspot.com/
Caminhos para os textos de Érico sobre os irmãos Jones:

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O feliz encontro de Charlie Haden com Sergei Rachmaninov

O baixista Charlie Haden passou a ser conhecido como integrante da banda de Ornette Coleman. Ótimo início. Nascido em uma família musical, desde cedo acostumou-se aos palcos, afinal, estreou com dois anos de idade. Os familiares se apresentavam em programas de rádio cantando músicas dos gêneros folk e country. Devido a um problema de saúde, aos quinze anos, que afetou suas cordas vocais, foi obrigado a parar de cantar (apesar da voz frágil, ousou cantar quase cinquenta anos depois em The Art of the Song (Verve, 1999). Aprendeu a tocar no contrabaixo do irmão mais velho e o resto é história.

Em 1957, mudou-se para Los Angeles e passou a tocar com o pianista Hampton Hawes. Entrar na banda de Ornette Coleman foi um pulo. Desde então, faz parte do primeiro time dos instrumentistas do jazz. Cansou de ganhar prêmios como melhor baixista dos anos 1960 em diante.

Suas qualidades não se resumem ao instrumento que toca. É, antes de mais nada, um artista que ousou e explorou possibilidades no campo da música. Participou de outra lendária formação com o pianista Keith Jarrett, com o baterista Paul Motian e o saxofonista Dewey Redman nos anos 1970 e 80. Paralelamente participou de um projeto musical “revolucionário” (as aspas são propositais) com a compositora e pianista Carla Bley. Criaram a Liberation Music Orchestra e produziram música com viés político elegendo temas como a Guerra Civil Espanhola, o colonialismo e o apartheid sul-africano. Esse engajamento resultou até em uma deportação quando se apresentou no Festival de Estoril, em Portugal, durante a vigência do governo salazarista. À parte da questão da eficácia ou não de se usar a arte como instrumento político, sob esse propósito produziu grandes discos, principalmente com a LMO. O álbum The Ballad of the Fallen (ECM, 1982), é um clássico e uma coleção de músicas lindíssimas.

Como líder, um dos projetos de maior sucesso – ou mais acessível – é o do Quartet West, Com o pianista e arranjador Alan Broadbent, Ernie Watts e Laurence Marable, gravaram uma série de álbuns em que revisitam o repertório antigo do cancioneiro americano. Uma das pedras de toque é a utilização de gravações antigas, como interpretações de Helen Forrest e Billie Holiday e, sobre elas, fazem releituras. Uma bela atmosfera sonora, que nos traz à memória aqueles filmes noir dos anos 1930 e 40, “veste” canções em belos arranjos para o quarteto, e muitas, com orquestra.

A capa diz bem: é um disco de Charlie Haden
Destaco aqui, entretanto, uma exceção: uma brilhante interpretação do terceiro Moments Musicaux, op. 16, de Rachmaninov. É uma mostra do virtuosismo de Haden no contrabaixo e também a de que é um músico que transita bem em qualquer gênero. Explico; disse que o repertório dos álbuns do Quartet West é de música americana. Art of the Song, apesar de constar como do Quartet West, é um disco com algumas participações especiais. Uma, mais que especial é de Shirley Horn, e a outra é de Bill Henderson. Como disse no primeiro parágrafo, ouvimos a voz (afinada, porém “frágil”) de Haden, em Wayfaring Stranger. Vendo pelo mais recente CD do Quartet, Sophisticated Ladies, nota-se que há uma sensível mudança de rota: nos dois, participações especiais de cantores. Até nas capas é perceptível: em Art of the Song, uma foto de Charlie Haden em preto e branco – e não do Quarteto, se considerarmos que não é um disco solo do baixista –, e no último um desenho de uma “sophisticated lady”.

Tendo sua foto estampada na capa, Haden fez um disco que até foge um pouco do espírito dos anteriores gravados pelo Quartet West. Até por isso, torna-se explicável a peça de Rachmaninov.



Ouça o original, interpretado por Nikolai Lugansky.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

As “sophisticated ladies” de Charlie Haden

Um início como esse é infalível. Melody Gardot canta If I’m Lucky (Edgar De Lange e Josef Myrow). É uma intérprete que vai se firmando com muita propriedade. Tem uma voz envolvente, é dramática na medida certa, como algo prestes a explodir, mas não explode; contém-se. [sobre ela, leia em http://bit.ly/gkVOri]

A próxima é o que dá o plot do CD: Sophisticated Lady, instrumental. É pessoal: tenho algum problema em relação ao saxofone de Ernie Watts; confesso minha dificuldade de gostar de seu sopro; acho meio despersonalizado. As referências de juventude – paixões pela trinca Lester Young/ Coleman Hawkins/ Ben Webster – atrapalharam em avaliações posteriores quanto aos tenores. Preconceito é preconceito; quem não os tem? A outra “bronca” era com Norah Jones. Deixei de ter. A bronca, creio, foi mais pela forma de que foi “vendida” para o público. Norah tem aquela voz que parece cantada por alguém que está deitado do seu lado numa noite calma de meia-estação. Seu Ill Wind, em vez de ser “ill”, é suave. Sem ser uma crítica, Norah é um pouco monocórdica. É seu jeito de cantar e, pronto.

Charlie Haden começou tocando, em 1957, com o pianista Hampton Hawes, porém tornou-se conhecido tocando com o revolucionário Ornette Coleman. O baixista é um artista multidirecional: foi, ou é free, modal, country folk e – sem isso serem gêneros –, marxista, engajado (foi expulso de Portugal por ter falado mal do ditador António Salazar num Festival de Jazz em Estoril, quando este senhor governava com mãos de ferro), e nostálgico: tem a ver com alguma coisa ser nostálgico e ser marxista ao mesmo tempo? Desculpe-me pela ironia: ser marxista e nostálgico não é um pleonasmo?

O lado nostálgico de Haden é o Quartet West (CH, baixo; Alan Broadbent, piano; Ernie Watts, sax tenor; Larance Marable, bateria – no começo foi Billy Higgins), criado em1987. Para quem gosta de música dos anos 1930-50 é um prato cheio. Os discos lançados são aulas magistrais de bom gosto. Os arranjos de Broadbent mesclam o som do quarteto com o da orquestra. São, basicamente, baladas. Haden e o pianista inseriram trechos de registros antigos de cantoras como Billie Holiday e Helen Forrest, e os resultados são pra lá de interessantes. Com frequência, somos levados a montar um cinema imaginário noir ouvindo as músicas do Quartet West, visualizando louras de olhares esgazeados e homens com seus costumes impecáveis envoltos por névoas, em jogos visuais de claros/escuros.

Nos primeiros, as cantoras eram “ressuscitadas” e mixadas nas performances do Quarteto. Sophisticated Ladies é o segundo em que há cantoras vivas convidadas. O primeiro foi Art of the Song (1999), com as participações de Shirley Horn – já morreu – e Bill Henderson. No recente, além das duas citadas acima, há Cassandra Wilson cantando My Love and I; Ruth Cameron, mulher de Haden e cantora ocasional, com Let’s Call It a Day; Diana Krall (Goodbye); e a cantora lírica Renée Fleming (A Love Like This).

Reconheça-se que Art of the Song é mais estruturado, mas esse último não deixa de ser um belo disco. De um tempo para cá, resolveram falar mal de Diana Krall – muita gente odeia aquelas que ficam muito conhecidas e caem demais no gosto popular –, mas é ainda uma cantora classuda e, pronto. Outra classuda é Cassandra Wilson, convenha-se, apesar dos rompantes experimentalistas em seus discos solo. O tom grave de sua voz é pura presença e pede silêncio quando a ouvimos. A melhor surpresa, no entanto, é Renée Fleming. É ela que vamos ouvir.





Ouça Melody Gardot cantando If I’m Lucky.




Para a felicidade dos brasileiros, o CD foi lançado aqui.


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Jasmine: prazer de ouvir novamente Keith Jarrett e Charlie Haden

No adesivo colado no CD Jasmine, duo de Keith Jarrett e Charlie Haden, na “chamada” assinada pelo pianista está escrito: “Chame sua mulher, esposa ou amante tarde da noite, sentem-se e ouçam.” Não tive chance de fazer isso, ainda, mas ouvi o disco pelo menos umas dez vezes em uma semana. Quem quiser seguir a recomendação de Jarrett, “muito que bem”, como diria uma amiga de muito tempo.

Ouvir música sozinho é uma opção. Jazz não é um gênero fácil de combinar com momentos românticos, principalmente se for instrumental. Alguns preferem ouvir axé com centenas de pessoas ao lado. Ouvir um disco é diferente de estar em sintonia com um bando de gente gritando e pulando. É um ato coletivo e a catarse de descobrir a beleza de alguma coisa acontece em circunstâncias muito diferentes. Ouvir um disco sentado num sofá, sozinho, é um ato reflexivo, antes de mais nada: é você e a música. Aquela convergência que acontece entre pares ouvindo alguma melodia que emociona a ambos em perfeita sintonia é um acontecimento inesquecível. É raro acontecer, e quando acontece, marca.

Não tive esse prazer compartilhado com o novo CD  dos dois geniais músicos que se reencontram depois de muitos anos. Som de primeira: apenas baladas, clássicos como For All We Know, Where Can I Go Without You, No Moon at All, I’m Gonna Laugh You Right Out of My Life, Body and Soul, Goodbye e Don’t Ever Leave Me, de Jerome Kern e Oscar Hammerstein II.

As interpretações de Jarrett são contidas, reflexivas. Como são a de seu acompanhante. A harmonia de “casal” existe sim, entre eles, não a de amantes, é certo. Muitos anos depois, reúnem-se e a magia interativa não deixou de existir. Antes, muito antes, nas décadas de 1970 a 80, tocaram juntos e produziram grandes discos com o saxofonista Dewey Redman e Paul Motian.

Infelizmente, Jasmine é mais um CD que não será lançado no Brasil. A sugestão é adquiri-lo em lojas físicas que ainda valorizam a boa música, ou comprar através de sites como a Amazon. Sai até mais barato que os discos nacionais. Com as despesas de frete, fica por volta de 45 reais. Cada tostão gasto nessa aquisição será regiamente gratificado com prazer sem preço. No YouTube, várias faixas do CD estão disponíveis (em áudio, com a imagem da capa). É uma opção. Nesse post está disponibilizado um belíssimo standard. Ouça.


Goodbye