quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Arne Jansen, sem malabarismos

A internet é um lugar curioso. É você a entrar na vida dos outros sem bater a porta. Depois de ouvir um guitarrista de quem nunca tinha ouvido falar, resolvi fazer uma pesquisa. O primeiro Arne Jansen músico que me apareceu, nasceu em 1951 e morreu em 2007. Não era o Arne que procurava. Este, nascido nos Países Baixos, além de cantor, era treinador de cães policiais e criava pôneis em sua fazenda. Cometeu suicídio quando tinha 56 anos. Essas informações têm o seu lugar: o do bau dos esquecimentos.

Ao filtrar um pouco mais, em vez de “Arne Jansen music”, troco o segundo termo por “guitar”, chego ao seu site. Visualmente bem limpo, o destaque é para o seu álbum mais recente: “Nine Firmaments”. No item “Bio”, são poucos os dados, o que me leva a recorrer à manjada “Wikipedia”, nem sempre confiável. Vejo que nasceu em 1975, bem depois que seu homônimo cantor, e é alemão. As informações não somam muito ao do site do guitarrista.

Encontro afinal dados mais específicos em outros sites. Arne desde cedo desejava aprender a tocar guitarra. Por não considerar um instrumento sério, a professora de violino de sua irmã convenceu-o a aprender a tocar clarineta. Mas o desejo de tocar guitarra era imperioso, As tardes em que ficava a ouvir CDs de Jimi Hendrix, Dire Straits, Joni Mitchell, Bob Dylan e Pink Floyd moldaram o seu gosto. Já adolescente, com quase 18 anos, conheceu a música de Pat Metheny e John Scofield. Não apenas decidira pela guitarra, mas anteviu um novo universo, mais rico, onde poderia explorar novas harmonias, enriquecer temas por meio de improvisações.

Profissionalmente, participou da Federal Jazz Orchestra. Em 2008, montou o Arne Jansen Trio. Nesse formato está no terceiro disco. Antes de “Nine Firmaments”, lançou “The Sleep of Reason – Ode to Goya” pelo prestigiado selo alemão ACT, em 2013. A partir do último, minha curiosidade cresce em relação aos seus outros álbuns.

A capa de “Nine Firmaments”
A ideia de “Nine Firmaments”, segundo ele, surgiu de um trabalho do artista plástico e amigo de longa data, Timo Nasseri. Em exposição do artista com esse título, Jansen disse que “gosta da definição de firmamentos como uma camada de conexão entre o mundo terreno e os poderes superiores, especialmente quando isso pode se relacionar à música. Fora isso, de acordo com a mitologia, os nove firmamentos são a morada para o coro dos anjos. Para a imagem da capa do álbum, Nasseri calculou a de como poderia ser a configuração das estrelas sobre Alexandria no dia da morte do histórico visionário, filósofo e astrônomo Hypatia.”

Por ter nascido em 1975, é bem provável que seu primeiro ídolo na guitarra não tenha sido Wes Montgomery, Jim Hall, Tal Farlow e muito menos Django Reinhardt. Em 1975, Pat Metheny acabava de entrar na banda de Gary Burton e lançaria “Bright Size Life” no ano seguinte. Se quem nasceu nos anos 1950 cresceu ouvindo rock and roll, imagina-se que o interesse de Jansen pelo jazz se dá pela música instrumental posterior às transformações provocadas por Miles Davis e seus seguidores como Chick Corea, Herbie Hancock e Joe Zawinul.

Nem tão radical quanto eles e bem menos que Ornette Coleman, Cecil Taylor e Anthony Braxton, Pat Metheny seguiu por um som mais melodioso e mais apetecível, permeado por suas influências roqueiras, apesar da paixão que tinha pelas composições de Ornette. Apesar de “Bright Size Life”, álbum de estreia de Pat na ECM, e de três álbuns belíssimos, contando com a preciosa companhia do pianista Lyle Mays, estourou com o roqueiro “American Garage”.

Poucos guitarristas pós-Metheny não sofreram a influência de seu estilo, assim como, difícil foi ser baixista e não ter como referência Jaco Pastorius. Mas, como o mundo gira, o som de Pat mudou e Arne desenvolveu uma sonoridade pessoal.

Uma das boas qualidades de Arne é a de não fazer o estereótipo do que gosta de exibir a sua rapidez como “o mais rápido do oeste”, como boa parte dos guitarristas, ou de fazer um som cheio de distorções e efeitos. Busca a simplicidade e por meio dela criar paisagens sonoras, sejam elas climáticas ou mais “roqueiras”. Ele afirma que não é grande fã de efeitos, preferindo preservar a integridade dos temas. A forma mais “straight” de tocar tem a ver com o fato de ter se convertido ao budismo e ser praticante da meditação há alguns anos. Confira.

Ouça “Here We Go”, a primeira do álbum.




Ouça a climática “It’s Always Night”.




Ouça “He Who Counts the Stars”, a faixa final.