quinta-feira, 30 de junho de 2016

Kinga, uma polonesa no jazz

O nome soa estranho em terras mais ao sul do continente americano. Não que o nome “Kinga” nos remeta foneticamente a um termo popular que está relacionado às mulheres de vida fácil. Até para os de língua inglesa soa estranho: “rei’ com artigo feminino no fim.

Seria melhor que assinasse com o nome inteiro: Kinga Heming. Ao ir às poucas referências – se procuramos por “kinga” ou “kinga singer”, encontramos no máximo o grupo inglês King’s Singers –, nada. Com um pouco de insistência, digitando também o título de algum disco seu, chegamos à Kinga e descobre-se que o sobrenome é Heming. Na minha opinião, não é um bom nome artístico.

Kinga nasceu na Polônia. Continuo a não fazer ideia se é um nome comum por lá ou se é um apelido. A família mudou-se para Amsterdam, e logo fixaram residência em Ottawa, Canadá. Tomou gosto pela música porque sua mãe vivia a ouvir Tony Bennett e Frank Sinatra pela casa (essa é clássica nas biografias, assim como ser filho ou filha de pastores) e o pai tocava jazz em cabarés.

Até onde sei, Kinga tem dois álbuns: Kinga (2007) e Guess Who I Saw Today (2016), que foi lançado também com outro nome – It’s Magic. Ao ouvi-la cantar Guess Who I Saw Today, imediatamente sua voz me faz lembrar a de Nancy Wilson, talvez porque seja ela a autora de uma das melhores interpretações dessa bela música. Às vezes, lembra a de Dionne Warwick. O que se pode dizer, com certeza, é a de que estamos frente a uma intérprete de bela voz, tremendamente segura, e que os dois álbuns fazem pensar que é estranho não ser mais conhecida.

O repertório é um ponto a favor. Do de 2007, temos standards como Crazy He Calls Me, You’ll Never Know, Two for the Road, Only Trust Your Heart, Desafinado, This Happy Madness (Estrada Branca, de Tom Jobim), Dream a Little Dream of Me e também números de sabor mais pop como You Are the Sunshine of My Life, de Stevie Wonder. O álbum tem números excepcionais como I Wish You Love (Que reste-t-il de nos amours?), de Charles Trenet, e todas as acima citadas. Daria nota 9, porque 10, só para os deuses.

É até inexplicável ter lançado o segundo álbum (estou me fiando em seu site oficial) quase dez anos depois, porque pelo que fez no primeiro merecia torná-la conhecida. Devemos considerar que, apesar da proximidade com os Estados Unidos e a língua falada em comum, um universo de ótimos intérpretes não seja muito conhecido. Só de cantoras, o Canadá tem Sophie Milman, Susie Arioli, Carol Welsman, Emile-Clarie Barlow, além, é claro, Diana Krall, que virou um sucesso depois de entrar no mercado norte americano.

Guess Who I Saw Today também é excepcional. Vai pelo mesmo caminho. Mescla clássicos como It’s Magic, de Walter Donaldson e Sammy Cahn, Mood Indigo, Love Me or Leave Me com clássicos mais recentes como This Bitter Earth, de Clyde Otis, Don’t Let Me Be Misunderstood, conhecida nas vozes de Eric Burdon e Nina Simone, I Think Is Gonna Rain, de Randy Newman, What a Difference a Day Made, da mexicana Maria Grever, eternizada por Dinah Washington, e a genial Ain’t No Sunshine, de Bill Whiters. Acompanhada por uma super banda com um naipe de sopros muito bom, os arranjos de Bill King não são convencionais como costuma ser em álbuns desse tipo.


Ouça This Bitter Earth.




Ouça What a Difference a Day Made.




Ain’t No Sunshine.




Veja o clipe oficial de It’s Magic.



Se você quiser ouvir o álbum na íntegra: http://www.kinga-jazz.com/ Clique em “music”

Sobre outras cantoras canadenses, clique sobre os nomes:
Ranee Lee,  Carol Welsman, Sophie Milman, Sophie Milman II.
Leia também: Sobre cantoras canadenses.

terça-feira, 28 de junho de 2016

O tempo em movimento com Jack DeJohnette

Matthew Garrison, Ravi Coltrane e Jack DeJohnette
Há muito tempo, tive um dilema singular. Quem era o melhor: Jack DeJohnette ou Tony Williams? Não era uma escolha científica do tipo “quem é mais rápido?”. É um tanto bobo esse tipo de questão. É algo como discutir se Sophia Loren teria sido mais bonita que Claudia Cardinale quando no auge de suas belezas.

Se me perguntarem hoje, diria que o meu preferido é Jack DeJohnette, por uma razão bem simples: está vivo e continua na ativa. Infelizmente, Tony, apesar de dois anos mais novo que Jack, morreu cedo; aos 52 anos teve um ataque cardíaco após uma cirurgia de vesícula. Vivo, estaria tão na ativa quanto Jack, com certeza. Como este, sempre procurou ir além, explorando outros gêneros. Tocou até no Public Image Ltd., de John Lydon – Johnny Rotten, nos tempos dos Sex Pistols. Foi também um dos pioneiros do fusion jazz, com a Lifetime.

Brevemente, Jack
DeJohnette tem seu início ligado à cena do jazz de Chicago. É o berço da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), organização que em sua origem tem nomes da avant garde como Henry Threadgill, Muhal Abrahms e Roscoe Mitchell. Tocou na banda de Charles Lloyd. Saiu logo. Não era o que queria. Foi baterista de Abbey Lincoln, Jackie McLean e Bill Evans antes de entrar na banda de Miles Davis.

O destino aproxima Jack dos Coltranes e Garrisons
Mais de acordo com alguém que tem raízes na cena de Chicago, antes de Lloyd, tocou com Sun Ra e com John Coltrane. Foram apenas três vezes, na nova banda que o saxofonista montara com a mulher Alice Coltrane; era o segundo baterista; o primeiro era Rashied Ali. Dessas sessões de 1966, descobriram recentemente uma foto de Jack com John e Jimmy Garrison. Por uma dessas conjunções do destino, Ravi, filho de John, e Matthew, filho de Jimmy, estão tocando com aquele mesmo Jack, cinquenta anos depois.

Mais que os elos profissionais, existem os pessoais entre Matthew Garrison e Jack. Depois da morte de Coltrane, Jimmy entrou em depressão e tentou o suicídio. Nunca mais tocou pois na tentativa houve o comprometimento dos tendões. Morreu com 42 anos. Matt tinha cinco. Passou a infãncia com a mãe na Itália. Aos 18 anos teria de voltar aos Estados Unidos para fazer o serviço militar. Afilhado de DeJohnette, foi morar com ele e Lydia, sua mulher, em Woodstock. Mais tarde, entrou na Berklee College of Music.

Ravi Coltrane estudou no California Institute of Arts. Em 1991, Ravi e Matt tocaram juntos pela primeira vez com DeJohnette em uma jam improvisada em Woodstock na sua festa de aniversário, na qual também estavam Betty Carter, Kenny Burrell e Al Foster.

Os filhos de John Coltrane e de Jimmy Garrison, em razão das ligações familiares, tinham anteriormente recebido propostas de tocarem juntos. Mas isso só iria acontecer quando se juntaram a Jack e não por alguma sugestão de alguma gravadora ou produtor. Aconteceu porque talvez estivesse escrito nas estrelas que um dia as peças se encaixariam. Foi como o baterista afirmou em matéria da Downbeat (junho 2016): “Mas quando você combina a música com as conexões pessoais, o espiritual, o emocional, conexões históricas e familiares, ela passa a ter uma característica completamente diferente.”

Em movimento

O trio reuniu-se em fevereiro de 2013. Apresentaram-se em festivais e clubes. Houve uma primeira conversa com Manfred Eicher em Nova York, mas nada ficou definido. O produtor não queria que o álbum fosse um registro ao vivo, pois o anterior de Jack, Made in Chicago, fora. De 2013 até a gravação de In Movement, o período foi de muita experimentação em improvisos grupais. Quando entraram no estúdio para gravar, a banda estava madura e com o repertório mais definido.

A referência à John Coltrane não está somente pela participação de Ravi e de Matthew. A primeira faixa é a emblemática Alabama, composta por Coltrane depois do ataque da Klu Klux Klan a uma igreja batista, neste estado, causando a morte de quatro pessoas. Outra é a música Rashied, homenagem ao baterista de Coltrane. Os “Jimmys” de Two Jimmys são Jimi Hendrix e Jimmy Garrison, pai de Matthew. Duas composições são de Jack: Soulful Ballad e Lydia, que é o nome de sua mulher. Completam o álbum a música título, Blue in Green, jazz standard de Miles Davis e Bill Evans, e Serpentine Fire, da banda Earth, Wind and Fire. Os destaques são as duas últimas. O clássico de Davis tem um belo solo de Ravi, e em Serpentine Fire, o baixo elétrico de Matthew faz a diferença, sem contar a atuação de Ravi no saxofone soprano.

Com 73 anos, há mais de 50 anos como músico profissional e o velho Jack continua como um dos protagonistas da música. Participou da revolução fusion de Miles Davis e é o baterista de um dos trios mais longevos da história do jazz, com Keith Jarrett e Gary Peacock. Além das baquetas é um craque ao piano. Por conta disso, tem uma das baterias mais melódicas e poucos têm a sua versatilidade.

Assista ao vídeo promocional do álbum.



Como foi dito, no período anterior à feitura do álbum, o som do trio estava bem experimental. Veja-os em Lusanne, Suiça, em show de 2014.




Veja também o trio tocndo Wise One, no Blue Note de Milão.