Toda vez que penso em Paul Simon, lembro-me de uma cena ocorrida no show em que reuniu-se com Art Gafunkel para rememorar o clássico Simon & Garfunkel, no Central Park, em 19 de setembro de 1981. A apresentação foi longamente preparada para arrecadar fundos para a conservação do parque. Simon cantava The Late Great Johnny Ace, quando um espectador subiu no palco e correu em sua direção. Foi pego pela segurança e Paul continuou cantando. A imagem que ficou registrada foi a sua expressão de espanto.
Por coincidência, a letra versava sobre Johnny Ace, morto em 1954, com um tiro, aparentemente, brincando de roleta russa. A letra, em primeira pessoa, dizia que não era um grande fã de Ace, mas lembrou-se de que era o primeiro astro da música a morrer de forma violenta de que teve notícia. Em 1964, estava morando em Londres, era o ano dos Beatles, o ano dos Rolling Stones, e fazia um ano que John Kennedy tinha sido assassinado. Na terceira estrofe, andando pelas ruas enfeitadas para o Natal, um transeunte perguntou se sabia que John Lennon tinha acabado de morrer. Os dois foram a um bar e ficaram até fechar.
Um tempo depois, perguntado sobre o incidente, no programa de David Letterman, Simon disse que não ficou com medo. Mas, até hoje, quando reassisto ao show gravado em DVD, sinto que se sentiu vulnerável.
Em um momento contrastante ao que acontecera com Paul, Art não se conteve frente a energia de 500 mil pessoas presentes no reencontro da antológica dupla, disse: “I’m in the mood!”. Na celebração de uma América rica e civilizada, estava exposto o seu lado negro, por meio de um maluco que poderia sair atirando em alguém.
A América de Simon
Descobri o que significava “hitchhike” em America, canção composta por Paul Simon, lançada em Bookends (CBS, 1968). Nela, Paul narra a história de namorados que viajam de carona em busca da “América”. Um verso ficou registrado na memória: “Ela disse que o homem de terno de gabardine era um espião/ Eu disse, cuidado, a gravata borboleta deve ser uma câmera”. America era uma celebração. A câmera camuflada era um comentário despretensioso sobre a Guerra Fria. Os Estados Unidos viviam uma fase de prosperidade, mas entrariam em duas guerras depois de 1945, a da Coreia e a do Vietnam. Contraditoriamente, país em que as transformações sociais aconteciam com vigor quanto aos direitos civis, ao mesmo tempo, passava a viver sob o medo da violência, a de assassinatos perpetrados por indivíduos que agiam solitariamente. Na década de 1960, quando a música foi composta, um presidente era assassinado, um governador racista sofria um atentado que o deixaria paraplégico, um candidato à presidência era assassinado. Esses atos isolados não transpareciam na América de Paul Simon. Nem a guerra fria era levada tão a sério.
Ouça America com Simon & Garfunkel.
Dica do amigo Marcio Uehara (Magoo). Grande interpretação de David Bowie.
Outra grande interpretação é a do grupo Yes. Poderosa. Veja.
Veja Sting cantando America. Ele e Paul Simon fizeram uma excursão juntos em 2014.
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terça-feira, 10 de maio de 2016
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Charles Lloyd voltou americanizado
Após uma longa temporada como contratado da ECM (1989–2013), gravando um disco bom atrás do outro, desde o ano passado, Charles Lloyd está no selo americano Blue Note. I Long to See You, lançado agora em janeiro, já é o segundo. Lloyd estreou com Wild Man Dance. Este foi tirado de uma apresentação no Jazztop Festival, em Wroclav, Polônia. Para quem ouviu ou conhece os últimos álbuns do saxofonista e flautista, encontrarão uma conexão deste com Athens Concert, duplo que saiu em 2011. Nele não conta com a cantora Maria Farantouri, mas inclui dois músicos gregos: Sokratis Sinopoulos, na lyra, que havia participado do concerto de Atenas, e Miklos Lucacks num instrumento chamado cimbalon. Orestante é o básico de um quarteto, mas a presença dos gregos imprime um caráter mais “world music”.
Uma coisa em comum, apesar da diferença de idade, com Sonny Rollins, também saxofonista tenor, foi o interesse pela música e cultura oriental e pelo rock’n’roll. Rollins, que foi comparado a John Coltrane, teve uma carreira um tanto errática devido a uma certa irresponsabilidade com os compromissos firmados. Passou mais de uma temporada afastado do meio musical. Interessou-se pela ioga e meditação e visitou a Índia algumas vezes. Interessou-se pelo rhythm’n’blues, o rock e o funk. Incorporou guitarras elétricas e chegou a participar de gravações com os Rolling Stones.
Lloyd despontou um pouco mais tarde, no início dos 1960 e passou a gravar como líder em 1964, quando assinou contrato com a Columbia Records. No espírito da época, arregimentou a guitarra de Gabor Szabo e não seguia a tradição do bop. Teve entre seus liderados Keith Jarrett e Jack DeJohnette. Como Rollins, interessou-se por outras culturas e pelo rock. Foi para a costa oeste e embebeu-se da cultura hippie e passou uma temporada tocando com os Beach Boys.
Depois da Columbia, Lloyd foi para a Atlantic e por razões diferentes, passou uma década um tanto esquecido. Gravou pela Elektra e teve o ascendente Michel Petrucciani tocando com ele. A virada acontece quando lança Fish out of Water, em 1989, pela ECM. Não tinha mudado radicalmente. Vista hoje, a sua música dos anos iniciais apenas foi sendo depurada. Sob as mãos do produtor Manfred Eicher, parecia que toda a intensidade dramática e melódica do som do seu tenor e da flauta atingia uma maturidade produzindo sons que o aproximava da beleza intensa do John Coltrane da época de Meditations e A Love Supreme. E foi assim, num continuum de grandes discos. Os músicos podiam ser diferentes em cada um, mas essa atmosfera de espiritualidade hipnotizante é o grande elo entre eles.
Agora, quase octogenário, mudou de ares. No novo álbum, esse músico nascido nos Estados Unidos, está menos ECM e mais americanizado. Essa mudança, que pode até assustar um pouco, é bem evidente em I Long to See You. Não é à toa que a música de abertura seja Masters of War, de Bob Dylan. Simbolicamente, é como se ele voltasse aos anos 1960.
Ouça Masters of War.
Outro fator a se levar em consideração, é a de que Lloyd toca com dois guitarristas. Teve Calvin Newborn e Gabor Szabo, e durante os anos ECM, contou com a participação de John Abercrombie. No novo álbum, os dois são Bill Frisell e Greg Leisz. Suas participações dão o tom “americanizado”. Ambos não seguem a tradição de Django Reinhardt ou de Charlie Christian, Estão mais para Greg Allman, da lendária Allman Brothers.
Uma coisa em comum, apesar da diferença de idade, com Sonny Rollins, também saxofonista tenor, foi o interesse pela música e cultura oriental e pelo rock’n’roll. Rollins, que foi comparado a John Coltrane, teve uma carreira um tanto errática devido a uma certa irresponsabilidade com os compromissos firmados. Passou mais de uma temporada afastado do meio musical. Interessou-se pela ioga e meditação e visitou a Índia algumas vezes. Interessou-se pelo rhythm’n’blues, o rock e o funk. Incorporou guitarras elétricas e chegou a participar de gravações com os Rolling Stones.
Lloyd despontou um pouco mais tarde, no início dos 1960 e passou a gravar como líder em 1964, quando assinou contrato com a Columbia Records. No espírito da época, arregimentou a guitarra de Gabor Szabo e não seguia a tradição do bop. Teve entre seus liderados Keith Jarrett e Jack DeJohnette. Como Rollins, interessou-se por outras culturas e pelo rock. Foi para a costa oeste e embebeu-se da cultura hippie e passou uma temporada tocando com os Beach Boys.
Depois da Columbia, Lloyd foi para a Atlantic e por razões diferentes, passou uma década um tanto esquecido. Gravou pela Elektra e teve o ascendente Michel Petrucciani tocando com ele. A virada acontece quando lança Fish out of Water, em 1989, pela ECM. Não tinha mudado radicalmente. Vista hoje, a sua música dos anos iniciais apenas foi sendo depurada. Sob as mãos do produtor Manfred Eicher, parecia que toda a intensidade dramática e melódica do som do seu tenor e da flauta atingia uma maturidade produzindo sons que o aproximava da beleza intensa do John Coltrane da época de Meditations e A Love Supreme. E foi assim, num continuum de grandes discos. Os músicos podiam ser diferentes em cada um, mas essa atmosfera de espiritualidade hipnotizante é o grande elo entre eles.
Agora, quase octogenário, mudou de ares. No novo álbum, esse músico nascido nos Estados Unidos, está menos ECM e mais americanizado. Essa mudança, que pode até assustar um pouco, é bem evidente em I Long to See You. Não é à toa que a música de abertura seja Masters of War, de Bob Dylan. Simbolicamente, é como se ele voltasse aos anos 1960.
Ouça Masters of War.
Outro fator a se levar em consideração, é a de que Lloyd toca com dois guitarristas. Teve Calvin Newborn e Gabor Szabo, e durante os anos ECM, contou com a participação de John Abercrombie. No novo álbum, os dois são Bill Frisell e Greg Leisz. Suas participações dão o tom “americanizado”. Ambos não seguem a tradição de Django Reinhardt ou de Charlie Christian, Estão mais para Greg Allman, da lendária Allman Brothers.
Bill sempre teve uma queda pelo country folk. Chegou a gravar um disco cujo título é Nashville. Não é o único em sua discografia que vai por essa levada. Com Greg, que toca “pedal steel-guitar”, instrumento típico do country-folk, isso fica patente. Mesmo com Lloyd como líder, em princípio, o que predomina é isso. Não é uma crítica. É uma constatação. Frisell e Leiz são os “marvels” de Lloyd, com com Reuben Rogers e Eric Harland, que já tocavam com o saxofonista nos discos da ECM.
A segunda faixa é Of Course, Of Course. É boa, mas não tem o tom do que conhecemos dele.
Os propósitos mais comerciais da Blue Note estão evidentes com as participações especiais. Uma é de Willie Nelson em Last Night I Had the Strangest Dream, que faz par conceitualmente com Masters of War, outro número anti-bélico dos anos 1960. A outra participação é de Norah Jones em You Are So Beautiful, de Billy Preston, que virou carne de vaca após a morte de Lady Di. Com ela, fica bem mais interessante do que a com Joe Cocker. Uma constatação quando ouvimos os solos melancólicos de Charles Lloyd: tem um dos mais belos sons no sax tenor atualmente.
Confira.
La Llorona não é novidade no repertório de Lloyd. O tom melancólico da canção combina perfeitamente com as guitarras de Frisell e Leisz. Junto com outra tradicional, que é a conhecida Shenandoah, e Barche Lamsel, a última e mais longa, são os destaques.
Ouça La Llorona. Uma observação. O YouTube, geralmente, bloqueia arquivo de gravadoras mais conhecidas. O álbum tinha sido postado na íntegra, mas foi tirado. Corra e ouça antes que isso aconteça.
A segunda faixa é Of Course, Of Course. É boa, mas não tem o tom do que conhecemos dele.
Os propósitos mais comerciais da Blue Note estão evidentes com as participações especiais. Uma é de Willie Nelson em Last Night I Had the Strangest Dream, que faz par conceitualmente com Masters of War, outro número anti-bélico dos anos 1960. A outra participação é de Norah Jones em You Are So Beautiful, de Billy Preston, que virou carne de vaca após a morte de Lady Di. Com ela, fica bem mais interessante do que a com Joe Cocker. Uma constatação quando ouvimos os solos melancólicos de Charles Lloyd: tem um dos mais belos sons no sax tenor atualmente.
Confira.
La Llorona não é novidade no repertório de Lloyd. O tom melancólico da canção combina perfeitamente com as guitarras de Frisell e Leisz. Junto com outra tradicional, que é a conhecida Shenandoah, e Barche Lamsel, a última e mais longa, são os destaques.
Ouça La Llorona. Uma observação. O YouTube, geralmente, bloqueia arquivo de gravadoras mais conhecidas. O álbum tinha sido postado na íntegra, mas foi tirado. Corra e ouça antes que isso aconteça.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Billl Frisell e sua guitarra astronáutica
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| Bill Frisell e sua guitarra |
O parágrafo acima é repetição do início de outro post (“A mulher que não dá samba, segundo Vanzolini”: http://bit.ly/1xTupCt), mas serve perfeitamente para início deste sobre o CD Guitar in the Space Age, de Bill Frisell, que teve lançamento oficial agora, em 6 de outubro. A sacada da diferença entre americanos e soviéticos não é minha: foi exposta em um filme do dramaturgo, roteirista e cineasta Robert Lepage.
Bill Frisell nasceu em 1951, portanto é um ‘baby boomer”. São assim chamados os filhos americanos que nasceram logo depois do fim da guerra. Bill mal tinha passado dos dez anos e entrou na adolescência sob a égide da guerra do Vietnã, dos sons da explosão do rock britânico com os Beatles e Rolling Stones, e do florescimento do rock flower power californiano, que teve como um dos destaques os Beach Boys, de Brian Wilson.
O mundo, depois da Segunda Guerra, ficou dividido em dois grandes blocos. A guerra mal havia terminado e iniciaram outra: a “guerra fria”. E resolveram também “brigar” no espaço. No início, a primazia foi dos soviéticos, com Laika, o primeiro animal a ir para o espaço, e Yuri Gagarin. Os americanos, para não ficar para trás, mandaram um macaco. A NASA importou o gênio nazista da Guerra, Von Braun, para auxiliar no desenvolvimento do projeto espacial.
Frisell é um guitarrista prolixo, não só pela quantidade de gravações e shows que participou, mas pela facilidade com que transita por vários gêneros. Por falta de opção para rotulá-lo, é considerado jazz. Se cantasse também, provavelmente, classificariam-no como country, tal o gosto que tem por explorar esse gênero. Não é unanimidade, mas é alguém que inventou um estilo, um som próprio. Entre altos e baixos, ou melhor, entre coisas que fazem o gosto de uns e de outros, é músico prestigiado pela crítica e tem um público perenal.
Bill é genuinamente americano. Suas inspirações têm sempre como ponto de partida a América. Por essa razão, entram muitos elementos do folk e do country e do chamado country western. Não é um guitarrista que vem da tradição de Wes Montgomery, Joe Pass ou Jim Hall, apesar de ter sido aluno deste último na Berklee College of Music. Preferiu seguir por uma seara bem própria.
O meu gosto
Gosto de um álbum em especial, que é Angel Song (ECM, 1997), quem sabe, pelos que estão com ele: Kenny Wheeler, Lee Konitz e Dave Holland. Os seus com Paul Motian e Joe Lovano são muito bons também (It Should I’ve Happened a Long Time Ago, ECM, 1985; On Broadway vol. III, JMT, 1992; e I Have the Room Above Her, ECM, 2005). Assisti a uma apresentação de Bill, Lovano e Paul Motian no Village Vanguard, Nova York, e foi fantástico. Parecia uma reunião de velhos conhecidos. Enquanto aguardávamos na fila, vimos eles chegando, como se morassem a um quarteirão de lá.
Ouça Kind of Folk, de Angel Song.
O astronauta Frisell
Quem que era adolescente à época dos lançamentos das Apolos não se encantava com as viagens espaciais? Era sempre um acontecimento. Enquanto Bill assistia às aventuras galácticas pela televisão, rádios americanas tocavam bandas como The Byrds, The Kinks, Beatles e Rolling Stones. Guitar in Space Age é memorialístico, nesse sentido. A guitarra é o “símbolo” do rock. Algo relacionado a esses tempos deve tê-lo feito interessar-se por aprender a tocá-lo, já que começou com a clarineta.
Nesse álbum, Frisell conta com um parceiro que dá a tônica do álbum. Greg Leisz toca a lap steel guitar e a pedal steel guitar, que partem do mesmo princípio. É tocada sobre o colo do músico ou em uma base fixa. Ambas são executadas com um cilindro metálico que produzem um som contínuo e trêmulo, bem parecidos com o das tais guitarras havaianas. Aliás a “lap steel guitar” é chamada de guitarra havaiana, cuja sonoridade Bill gosta bastante.
Os dois primeiros números são canções associadas à surf music. Pipeline, que é um tipo de onda – corrijam-me, surfistas, se estou errado – é também o título de um sucesso dos Chantays, do início dos anos 1960. A segunda é o clássico Turn, Turn, Turn, de Pete Seeger, que ficou conhecida mesmo foi com o The Byrds, de David Crosby, Roger McGuinn e Gene Clark. A quarta – Surfer Girl –, é de outro ícone dessa década e, californiana, também: os Beach Boys, do gênio Brian Wilson.
Ouça Surfer Girl.
Veja também uma entrevista com Bill, e de quebra, um solo de Surfer Girl.
Veja o making of de Guitar in Space Age. Aqui você tem uma amostra de alguns números. Não deixe de ver porque é muito bom.
Bill resgata composições de autores que devem ser mais conhecidos pelos americanos de sua geração. Um deles, por exemplo, Duane Eddy, autor de Rebel Rouser, é um guiarrista que fez sucesso no início dos anos 1960, assim como Speedy West, de Reflections from the Moon, craque no pedal steel guitar. São guitarristas que Bill deve ter ouvido e gostado na adolescência. Jimmy Bryant, outro autor elencado, de Bryant’s Boogie, segundo a Wikipedia, era chamado de “the fastest guitar in the country”. São compositores bem específicos e servem de lembrança dos tempos da corrida espacial.
Ouça a bela Reflections of the Moon.
Muito boa, não?
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