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quinta-feira, 3 de maio de 2018

Seal e a dor suportável

Estiloso Seal
Quem trouxe Seal para o estrelato desapareceu quase sem deixar rastros. Adamski ficou famoso com “Killer”. Foi dissolvido nas nuvens da “acid house”. Deve estar ainda discotecando pelas casas noturnas londrinas. Seal emergiu do fog e emplacou belíssimos hits desde então. É um cantor que não lança um álbum por ano. “Standards”, que saiu em novembro de 2017, é seu décimo lançamento. O penúltimo, “7”, é de 2015.

Seal tem aquela voz que, de cara, identificamos ser a de um negro. É inglês, mãe nigeriana e pai brasileiro. Adotado por uma família, em Westminster, Inglaterra, conseguiu estudar e não deve fazer o figurino típico do negro pobre. Começou cantando em clubes e a parceria com Adamski, que colocou letras em “Killer”, alçou-o  na cena musical. Dono de belíssima voz, trouxe com ela a dor intrínseca de ser parte de uma minoria no meio de uma população, em sua maioria, branca. Posso estar tirando conclusões sem tanto fundamento, mas é a dor de alguém que cresceu longe dos pais biológicos, com o agravante de ter ficado com cicatrizes bem acentuadas no rosto devido a um tipo de lúpus.

Onde o inglês sente-se à vontade é em canções com um toque “torch”, como em “Prayer for the Dying”, “Kiss from a Rose” e “Love”, de “7”, álbum que nem chegou ao “top ten”. Era de se prever que Seal ao interpretar standards, passasse uma angústia, algo como sendo uma versão masculina de Nina Simone, por exemplo.

“My Funny Valentine”, “The Nearness of You” e “Autumn Leaves” seriam ótimos veículos para sua voz “torchy”. Não é o que acontece, porém, quem sabe, pelos arranjos de Chris Walden, inspirados em orquestrações de Nelson Riddle e de outros da era do swing. Aliás, a referência maior, creio, é o “modelo” Frank Sinatra. A suposição é decorrente da escolha de “It Was a Very Good Year”, de Ervin Drake, que foi uma de suas marcas registradas, claro, além de “Strangers in the Night”, “New York, New York” e “I’ve Got You Under My Skin”, esta, presente no álbum. A outra é “Santa Claus Is Coming to Town”, clássico composto por Mel Tormé, que o americano também cantou.


Há, aliás um vídeo bem interessante com Seal fazendo os vocais com Sinatra. Veja.





 Em alguns casos, a forma de interpretar os standards não traz algum acréscimo em comparação à milhares de versões existentes, como no caso de “Love for Sale”. Em “My Funny Valentine” não chega a comprometer, com o solo discreto e correto de Till Brönner. Em números que são standards mais recentes, como “Anyone Who Knows What Love Is”, Seal é mais convincente.

“

Outra que funciona bem com ele, nessa mesma classificação, é “I Put a Spell on You”, mas sem aquela intensidade de uma Nina Simone.




quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Seal é jazz

Seal e a mulher Heidi Klum
No fim dos anos 1980, falava-se muito de um cara chamado Adamski. Num cenário pleno de rótulos como dance/ acidhouse/ electropop/ technopop, esse bretão circulava pelos clubes ingleses com seus instrumentos eletrônicos debaixo dos braços, aparecia com frequência na MTV, enfim, era “o” falado. Em 1990, lançou um disco do qual uma das faixas dele se chamava Killer, cantada por um certo Seal. De hoje em dia, nem se fala mais de Adamski. Seal explodiu.

Quando Seal Henry Olusegun Olumide Adeola Samuel (esse é seu nome de batismo) ficou conhecido, passou-se a falar que era filho de um brasileiro com uma inglesa de origem africana. A verdade, dita por ele próprio, é que o avô por parte de pai era brasileiro. Bom, independentemente de que tenha sangue brasileiro, Seal impressiona; pelo tipo físico – é um homenzarrão, careca, de olhar profundo, um tanto triste e sério, tem o rosto marcado por um tipo raro de lúpus que deve ter contraído ainda jovem – e, principalmente, por uma voz (muito) especial, meio-rouca, que carrega certa melancolia.

Num primeiro olhar, seria improvável se imaginar que alguma música de Seal pudesse virar tema para intérpretes ligados ao jazz. Depois de saber que duas pianistas gravaram Kiss from a Rose – música que foi tema de um dos Batman –, constatamos que belas melodias sempre serão temas ricos à exploração e improvisação instrumental.

Rachel Z (esq.), e Julia Hülsmann (dir.)
Coincidentemente, os dois registros são de mulheres. Segundo, são de duas intérpretes que não estão ligadas ao mainstream do jazz. A gravação mais antiga que conheço é a de Rachel Z, de 2004. A marca dessa pianista tem sido a de procurar novos temas do universo pop e explorá-los jazzisticamente. Além de Seal, gravou Peter Gabriel, Sade, George Harrison, Johnny Cash e Sting.

A alemã Julia Hülsmann gravou alguns discos pela Act e, atualmente grava pela ECM. Como Rachel Z, tem procurado explorar temas no pop, como as de Nick Drake, Sting e Randy Newman. Enveredando por um viés mais intelectualizado, musicou poemas de Emily Dickinson e e.e. cummings. Julia é uma intérprete a quem devemos prestar atenção.

Ouça Kiss from a Rose por Julia Hülsmann.



Ouça a de Rachel Z.



Kiss from a Rose por seu compositor, Seal.