quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Ralph Towner (1/3/1940 – 18/1/2026)
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
As multifases do polirrítimico Jack DeJohnette
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| Jack e seu arsenal percussionístico |
Aos 74 anos, completados em agosto último, é ainda um dos melhores bateristas do mundo. E o melhor, continua a nos surpreender. Basta dizer que seus últimos dois álbuns, “Made in Chicago” (ECM 2015), com a ‘velha” vanguarda, que atende pelos nomes de Muhal Richard Abrams, Henry Threadgill, Roscoe Mitchell e Larry Gray, e o mais recente “In Movement” (ECM 2016), com os jovens Matthew Garrison e Ravi Coltrane, ambos filhos dos geniais, respectivamente, Jimmy Garrison e John Coltrane, demonstram que sempre esteve na ponta da evolução do jazz. Não é fácil. São mais de 50 anos como profissional.
Quando criança, estudou piano clássico com professores em casa e depois no Chicago Conservatory of Music. Entrou na cena musical como pianista e baterista. Teve os horizontes ampliados a partir do contato com músicos da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), o mais importante centro da vanguarda do jazz.
Passou pouco tempo na banda de Charles Lloyd, a mesma que teve outro membro em início de carreira e, como ele, genial. Por obra do destino, os dois, DeJohnette e Keith Jarrett, com o baixista Gary Peacock, no futuro, iriam formar um dos trios mais consagrados e longevos.
Os caminhos de Keith e Jack foram se cruzando em vários momentos. Tocaram com Miles Davis nos anos 1960 e depois partiram para brilhantes carreiras solo. O primeiro lançou seus primeiros discos pelos selos Atlantic e Impulse. Jack lançou, em 1968, seu primeiro como líder: “The Jack DeJohnette Complex”, pela Milestone, e logo depois, “Have You Heard” (1970). Passou para a Prestige e lá saíram “The Sorcerer” (1974) e “Cosmic Chicken” (1975).
Os dois passaram a gravar também pelo selo ECM. Jarrett lança seu primeiro LP em 1971: “Facing You”. No ano seguinte, com DeJohnette, em duo, gravam “Ruta and Daytia”. Se não me engano, é a última vez que toca algum instrumento eletrônico. Aqui, desdobra-se no piano acústico, elétrico, flauta e órgão. Jack toca bateria e vários instrumentos de percussão. Não foi um disco que teve tanta receptividade, mas é muito bom, principalmente, por ser bem experimental e ter a percussão como protagonista.
Ouça “You Know, You Know”, uma das faixas mais interessantes, com Keith ao piano elétrico.
Primeiros na ECM
Depois desse álbum, DeJohnette participa de “Timeless”, de John Abercrombie. Grava mais alguns com o guitarrista como membro da banda Gateway.
Em seu primeiro como líder, na ECM, “Untitled” (1976), sua banda Directions conta com John Abercrombie, seu companheiro na Gateway, Warren Bernhardt nos teclados, Alex Foster nos saxes soprano e tenor, e Mike Richmond no contrabaixo. A maioria das composições ou é de DeJohnette sozinho ou em parceria. Há poucos bateristas que compõem, comparados a outros instrumentistas, mas Jack é um caso à parte, por ter aprendido a tocar piano, além de arranhar no saxofone. É por isso também que a sua bateria apresenta um colorido tonal. Manfred Eicher conseguiu imprimir uma marca, que até ficou conhecida como “ECM sound”. “Untitled” não foge à regra, e é uma grande estreia de Jack nessa gravadora.
Um grande tema é “The Vikings Are Coming”. Ouça.
Jack participou de vários álbuns de outros do cast da gravadora, como Kenny Wheeler, Bill Connors, Gary Peacock e Terje Rypdal, dentre outros. Com o seu Directions, lançou “New Rags” (1977).
Ouça “Seasons”, do brilhante álbum em que o baterista toca com Miroslav Vitous e a guitarra impressionante de Terje Rypdal. Esse álbum, lançado em 1979, é uma de suas grandes participações.
Novas direções
Com nova formação – Lester bowie no trompete, Eddie Gomez no baixo, e o mesmo Abercrombie na guitarra –, lançou o álbum “New Directions” (1978). Seria ainda lançado uma ao vivo dessa banda, em 1979, o “New Directions in Europe”.
Ouça “Silver Hollow”, com DeJohnette ao piano, em composição própria. O trompete é de Lester Bowie.
É de 1980 o melhor disco de Jack DeJohnette, na minha opinião. Fiquei chocado quando ouvi pela primeira vez. Deixou de ser Directions e montou a Special Edition, com músicos mais ligados à avant garde: David Murray no sax tenor e na clarineta baixo, Arthur Blythe no sax alto, Peter Warren no baixo e violoncelo, e Jack, an bateria, piano e melódica. Duas das composições são de John Coltrane (“Central Park West” e “India”), e as três restantes, de sua lavra: “One for Eric”, “Zoot Suite” e “Journey to the Twin Planet”. As referências, ou homenagens, são claras. A primeira, para Eric Dolphy, precocemente falecido, um gênio no sax alto, flauta e clarineta baixo; a segunda, para Zoot Sims.
Ouça a genial “One for Eric”.
Como Jack DeJohnette’s Special Edition, lançou mais dois álbuns de estúdio – “Tin Can Alley” (1981) e “Album Album” (1984) – pela ECM, igualmente bons, mas não como o primeiro. Também, seria demais, porque é um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos. Com formações diferentes, o comum é o contraste entre instrumentos de sopro mais agudos e mais graves. Em “Tin Can Alley”, Chico Freeman toca sax tenor, e John Purcell o alto e o barítono, além dos dois na flauta. No seguinte, são três: Purcell no alto e no soprano, David Murray no tenor, e Howard Johnson na tuba e no sax barítono. Pela ordem, o primeiro é o melhor, o último é o segundo, e “Tin Can Alley”, o menos bom. Em “Album Album”, temos uma outro tema genial, que vale o disco inteiro.
É “Ahmad The Terrible”. outra referência a um grande músico. Ouça. Os saxes são maravilhosos.
O outro caminho
Para quem imaginava que DeJohnette e Keith Jarrett não mais se encontrariam, engano. Lançaram “Standards 1”, pela ECM, em 1983, com Gary Peacock no contrabaixo e estava formado um dos trios mais longevos da história. São cerca de 20 álbuns lançados pela ECM. O último, se não me engano, é “Somewhere”, de 2009. Nada impede que voltem a gravar juntos. Vamos esperar.
Septuagenário, Jack não para. O último álbum lançado é coisa fina, como se dizia antigamente. Foi comentado neste blogue. O link está no primeiro parágrafo.
terça-feira, 7 de julho de 2015
Os melhores álbuns pela Downbeat: do 11º pra frente
Antigamente, se não me engano, colocavam apenas os 10 melhores do ano. Foram aumentando e, na última, citam 42. Naturalmente, não ouvi todos. Vou relacionar apenas alguns que achei interessantes – outros menos –, que podem despertar a curiosidade de alguns.
Billy Childs, Map to the Treasure: Reimagining Laura Nyro (11º). O pianista é um bom arranjador e nesse álbum em que faz tributo à compositora e cantora, morta precocemente aos 49 anos. O álbum conta com várias participações especiais como a de Renée Fleming, a celebrada soprano americana, de conhecidas cantoras como Rickie Lee Jones, Lisa Fischer, Alison Krauss, Dianne Reeves e a emergente Becca Stevens e músicos como Esperanza Spalding (cantando), Wayne Shorter, Chris Botti, Chris Potter e a estrela erudita Yo-Yo Ma. Os álbuns de Childs são sempre instigantes pelos bons arranjos.
Ouca Map to the Treasure, com vocais de Lisa Fischer. Para quem não sabe, é a backing dos Rolling Stones.
Chris Potter, Imaginary Cities (12º). o saxofonista tenor, que tocou por muito tempo na banda de Dave Holland e é um bons (ficou em 4º lugar em seu instrumento pela Downbeat). É o segundo que grava pela ECM. Fez parte da Unity Band, com Pat Metheny, Ben Williams e Antonio Sanchez. Foi lançado um único álbum deles, em 2012.
Chris fal sobre Imaginary Cities.
Mark Turner, Lathe of Heaven (13º). Não está entre os meus saxofonistas tenor preferidos, mas isso quer dizer apenas que tudo é questão de gosto. Até por isso, Lathe of Heaven está em 13º. Sinal de que muitos não concordam comigo.
Ouça The Edenist.
The Cookers, Time and Time Again (14º). Os “cookers” são Billy Harper, Donald Harrison nos saxofones, David Weiss e Eddie Henderson, trompetse, George Cables, piano, Cecil McBee, contrabaixo, e Billy Hart na bateria. Não dá para ignorar uma formação dessa. É bem bom. Estaria na minha lista dos dez.
Veja os “cookers” em Sir Galahad. Nada como a experiência. David Weiss é o mais novo. Grande Billy Harper.
Anat Cohen, Luminosa (14º). Faz alguns anos que não tem ninguém para Anat, na clarineta. Na última votação teve exatamente o dobro do segundo, que foi o cubano expatriado Paquito D’Rivera. Há uma coisa em comum entre esses dois: são apaixonados pela música brasileira. A israelense tem sangue latino. Toca choros como ninguém. Sua paixão é tão grande que seu álbum tem esse título que tão bem combina com ela e sua música. Anat merece um texto separado. Só para adiantar, ela abre com Lília, de Milton Nascimento. Não para por aí. Tem K-Ximbinho, Edu Lobo e Severino Araújo. Na minha lista estaria entre os dez melhores.
Ouça Anat em In the Spirit of Baden.
Keith Jarrett/Charlie Haden, Last Dance (16º). Tudo o que os dois gravaram é, no mínimo bom. É o que é esse álbum. É o complemento de Jasmine. Todos os registros foram feitos na casa do pianista em 2007. Ouça e leia em http://bit.ly/1IuEue8. Leia também sobre os duos de Haden com outros grandes músicos em http://bit.ly/1LWaQ0u.
Ouça alguns trechos de Last Dance.
Sonny Rollins, Road Shows 3 (17º). Noutro dia (re)li uma história ótima sobre a imprevisibilidade do saxofonista. Na década de 1950, o saxofonista tenor era celebrado como um dos grandes, depois de lançar os hoje clássicos Saxophone Colossus e Tenor Madness. Antes, já tinha passado uma pequena temporada na cadeia por roubo e lutava contra o vício de heroína. Um certo comportamento errático, dando várias pausas na carreira, tornando-se muçulmano e depois abraçando seitas orientais, foi morar na Índia, e ficou por lá um tempo fazendo ioga e meditação. Max Gordon, dono do clube Village Vanguard, em certa feita, soube que ele estava em Nova York. Conseguiu falar com ele ao telefone. Sonny foi encontrar-se com Max vestido com uma túnica branca que ia até os pés e com a cabeça calva, com o cabelo desenhando uma cruz no topo. Este lhe ofereceu um drink. O saxofonista disse-lhe que não bebia mais. Naquela terça-feira de abril, em 1976, Sonny apareceu com sua banda. Estava em forma ainda. Arrebentou. Depois de um intervalo de meia hora, aconteceria a segunda parte do show. A banda voltou, mas Sonny tinha sumido, para a surpresa de todos.
Por excelência e por sua imprevisibilidade, Sonny é uma lenda viva. Tem 84 anos e ainda toca. É Road Shows 3, porque já foram lançados dois. O primeiro foi o disco do ano pela Downbeat em 2009. Este terceiro merece eatr entre os vinte melhores do ano, até pelo que Sonny fez pela música. Max Gordon considerava-o o melhor tenorista de sua geração, melhor que Billy Harper, Dexter Gordon e Johnny Griffin. Bom, Gordon é um dos meus preferidos. Rollins está abaixo na minha lista. Mas, o velhinho manda bem. Tem fôlego para fazer solos espetaculares ainda.
Ouça Biji, a primeira faixa.
Tony Bennett e Lady Gaga, Cheek to Cheek (19º). O que esperar de um ancião quase nonagenário e uma cantora que adora mostrar as suas nem tão divinas tetas? Bem, chamar Tony de ancião é um insulto. Impressionante como mantém a verve de grande cantor. E Lady Gaga, para a minha, a nossa e a sua surpresa, manda bem nos standards. Sobre esse álbum, leia http://bit.ly/1MpEQpH.
Veja Tony e Lady Gaga cantando Anything Goes, Cheek to Cheek e They All Laughed.
Marc Ribot Trio, Live at The Village Vanguard (20º). Sem ser um virtuose, Marc se diferencia pelo som original que tira da guitarra. É o que faz, por exemplo Ry Cooder. Suas participações em álbuns de outros músicos são sempre interessantes. Deve ter tocado com todo mundo. Tocou em vários discos de Tom Waits. Este ao vivo é muito bom.
terça-feira, 12 de maio de 2015
O “criacionismo” de Keith Jarrett
Por algum mal entendido, o piano Bösendorfer 290 Imperial não estava no teatro. Havia apenas um da mesma marca, de modelo inferior, usado apenas para os ensaios. Técnicos passaram a tarde tentando afiná-lo e constataram deficiências nas notas mais altas e graves. Keith tinha acabado de chegar de Zurique, Suiça, de carro. Ao saber da situação, disse que não se apresentaria. O staff da gravadora ECM estava com os equipamentos para registrar o show e a produtora estava à beira do desespero. Com muito custo, convenceram o americano.
Aquele dia 24 tornou-se histórico. Jarrett sentou-se ao piano e começou a improvisar do “nada”. O teatro lotado caiu aos seus pés com a apresentação antológica. O prenúncio de que seria um desastre, por milagre, foi glorioso. Deus devia estar por lá.
Apesar de ter feito o mesmo em outras ocasiões, registradas no álbum Bremen-Lausanne, o álbum que dele resultou – Köln Concert – tornou-se o disco de jazz mais vendido de todos os tempos.
Keith, antes e depois
No início da carreira, Jarrett tocou nas bandas de Charles Lloyd e Art Blakey. Por breve período, esteve com Miles Davis também. Montou um trio com Charlie Haden e Paul Motian, com quem gravou o primeiro solo, em 1967. Seus primeiros são pela Vortex e, a seguir, pela Atlantic, Impulse e Columbia. Quando passou a lançar seus discos pela ECM, montou seu “quarteto europeu” com Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen. Era o contraponto ao seu “quarteto americano”, composto por ele, Haden, Motian e Dewey Redman.
Jarrett já era bem conhecido quando Köln Concert foi lançado. Mas foi a sua consagração como compositor e pianista. A sólida formação e o interesse pela música erudita fê-lo enveredar por várias vertentes. Estimulado por Manfred Eicher, dono da ECM, registrou álbuns diferenciados. Dessa época do disco do recital de Colônia, destacam-se Arbour Zena, com orquestra, Haden e Garbarek, Ruta & Datya, um interessante duo com Jack DeJohnette, quando tocou pela última vez algum instrumento elétrico. Gravou também clássicos de Johann Sebastian Bach, Shostakovich, Handel e Mozart.
Ouça o belíssimo álbum Arbour Zena, com Charlie Haden, Jan Garbarek e orquestra, na íntegra.
Gravou, no início dos anos 1980, dois álbuns intitulados Standards I e II, no formato mais tradicional do jazz, o trio, com Gary Peacock e Jack DeJohnette. Ficou afastado um tempo do piano em razão da CFS, a síndrome de fadiga crônica que o acometeu no fim dos anos 1980. Após o restabelecimento, passou a gravar solos com maior frequência que seguiam o modelo de Köln Concert, na maioria, tiradas de apresentações ao vivo.
O solo novo
De hoje em dia, tudo se grava, tudo se fotografa e tudo se registra por meios mais simples. Basta um telefone celular ou um iPad. Ficou fácil gravar, com qualidade. Como as horas de estúdio são caras, óperas e concertos são captadas “ao vivo”. E vamos combinar: “improvisos” são espontâneos. É mais fácil ‘inspirar-se” com gente ouvindo do que na solidão de um estúdio.
Quase todos os álbuns do pianistas lançados nos últimos anos são registros de shows, inclusive os de seu trio com Peacock e DeJohnette. As exceções são The Melody at Night, With You (1998) e os duos Jasmine e Last Dance, com Charlie Haden, gravados na casa de Jarrett. Os últimos solos são Radiance (2002), Carnegie Hall Concert (2005), Paris/London: Testament (2008) e Rio (2009). São todos de qualidade superior. Tudo o que sai de suas mãos é muito bom, tão bom que parece que está sempre fazendo mais do mesmo, e assim mesmo, original.
Acaba de ser lançado mais um. O título é um pouco pernóstico: Creation. Mas, perdoa-se, se é a música de Jarrett. Desta vez, as músicas não fazem parte de uma cadeia de “inspirações”, normalmente intituladas Part I, Part II etc. Bem, os títulos são esses, mas cada parte foi tirada de apresentações em Toronto (Roy Thomson Hall), Paris (Salle Pleyel), Tóquio (Kioi Hall e Orchard Hall) e Roma (Auditorium Parco della Musica), mas mesmo assim, a escolha de cada trecho apresenta uma unidade.
A Parte I se inicia em tom menor, dramática, e não faltam os grunhidos característicos de fundo. Jarrett exige que a plateia fique em silêncio e já chegou a interromper apresentações por causa de gente tossindo. Só ele pode fazer os seus “barulhos”. Não é o pioneiro em “cantar” junto. Thelonious Monk é um que fazia isso, assim como Charles Mingus e Massabumi Kikuchi. Os “grunhidos”, no entanto, mais célebres são os do pianista erudito Glenn Gould.
É difícil destacar alguma parte. Pelo meu gosto, prefiro as do meio para a frente, a partir da Part VI, que é uma das minhas preferidas. A seguinte é muito boa também. A mão direita faz a base e boa parte da melodia flui nas notas médias com a mão esquerda.
Nota: Tentei disponibilizar o áudio de uma das “partes” no YouTube, mas não foi possível por razões de direitos autorais. Era apenas uma forma de divulgar e não era por razões comerciais.
Ouça um sample de Creation.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
A última dança de Charlie Haden com Keith Jarrett
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| Charlie Haden e Keith Jarrett no estúdio do pianista |
Mas, e se for um golpe mercadológico do produtor Manfred Eicher? Agora que Haden está morto, sabe-se que padecia de uma enfermidade grave, consequência de uma variante da poliomielite contraída quando tinha quinze anos e comprometera-lhe os movimentos da face e as cordas vocais. É por isso que tinha aquela expressão de estátua. A doença ceifou seu desejo de ser cantor profissional, que era o que fazia na Haden Family. Para muitos que o conheceram como baixista devem ter se surpreendido quando o ouviram cantar Wayfairing Stranger, a última faixa de Art of the Song (1999). Em Rambling Boy (2008), álbum que relembra a família musical – dessa vez, com participação das filhas Petra, Rachel, Tanya e Josh, mais a mulher Ruth Cameron – Haden canta Oh Shenandoah, um tema tradicional do folk americano. Shenandoah é a cidade natal do baixista. Em ambas as canções ouvimos uma voz muito fraca e extremamente afinada.
My Old Flame, My Ship, ’Round Midnight, Dance of the Infidels, It Might as Well Be Spring, Everything Happens to Me, Where Can I Go Without You, Everytime We Say Goodbye e Goodbye são as canções que compõem Last Dance. O CD é complemento do anterior Jasmine (ECM, 2009). Todas foram gravadas no estúdio de Keith Jarrett, em 2007. Em Jasmine, a chamada de venda, assinada pelo pianista, era: “Chame sua mulher, esposa ou amante tarde da noite, sentem-se e ouçam.” Serve para Last Dance, também. É relaxante ouvir o piano e o contrabaixo dos dois. São temas em tempo lento, em sua maioria. Mesmo Dance of the Infidels, de Bud Powell, cujo original é mais uptempo é executada em tempo médio.
Haden ficou mais conhecido quando fez parte do conjunto de Ornette Coleman, Jarrett, como pianista da banda de Charles Lloyd. Montaram uma banda infernal com o diabólico saxofonista Dewey Redman e o ex-baterista de Bill Evans, Paul Motian. Gravaram álbuns excepcionais.
terça-feira, 15 de julho de 2014
Charlie Haden morre
Interessando-se me jazz, muda-se, em 1957, para Los Angeles e trava contato com o pianista Hampton Hawes. Foi seu início profissional no gênero. Tocou com Paul Bley e Art Pepper, mas tornou-se conhecido mesmo quando passou a tocar com Ornette Coleman. Junto com o texano nascido em Fort Worth, participou da revolução do free jazz.
Em 1967, passou a fazer parte do quarteto de Keith Jarrett. É dessa época o meu primeiro contato com o baixista. Era um quarteto excepcional em que os outros membros eram Dewey Redman e Paul Motian. O primeiro álbum solo dele foi Closeness (Horizon, 1976). Lembro-me até hoje do quanto ouvi esse disco de duos com Keith Jarrett, Ornette Coleman, Alice Coltrane e Paul Motian. Nesse mesmo ano, lançara também As Long As There’s Music, com o fabuloso pianista Hampton Hawes, o músico que procurara ao chegar em Los Angeles.
Ouça Irene, duo de Haden com Hampton Hawes.
Ouça a belíssima Ellen David, composição para a sua mulher à época, em duo com Keith Jarrett.
Ao mesmo tempo em que participava do quarteto de Jarrett, montou o Liberation Orchestra Music, com Carla Bley. Com essa formação, Haden revelava a sua faceta militante. É discutível usar a música como um meio político. Há um certo equívoco em se imaginar que é possível fazer uma revolução assim, a não ser que essa revolução aconteça no âmbito estritamente formal. Mas, antes de comunista militante, Haden era um tremendo músico. Em nome de seu ideal compôs belas canções como Chairman Mao, Sandino, Song for Che, La Pasionaria e For a Free Portugal. Aliás, por sua postura militante contra as tiranias e o colonialismo, foi expulso de Portugal na era salazarista, quando foi se apresentar no Festival de Jazz de Estoril. Teve a capacidade também de, junto com Carla Bley, de fazer arranjos sensacionais a partir de temas relacionados à Guerra Civil Espanhola (Els Segador), a El Salvador (The Ballad of the Fallen), ao Chile (The People United Will Never Be Defeated), a Portugal (Grandola Vila Morena) e com a música de Hans Eisler (Song of the United Front).
Haden tinha, à essa altura, um rol de admiradores e era reconhecido pela crítica como grande instrumentista. Foi por muitos anos o melhor contrabaixista na votação da revista Downbeat, e The Ballad of the Fallen (ECM) foi considerado o melhor disco do ano pelos críticos da Downbeat, em 1984.
Ouça La Pasionaria, de The Ballad of the Fallen.
Ouça Silence, uma das mais belas composições de Haden.
Outra formação importante dele é a série de álbuns gravados com o Quartet West. Nesses discos, deixa a militância política de lado e foca no ambiente noir. São interpretações que evocam os anos 1930/40/50. Os temas são melódicos fincados na grande tradição musical americana. Insere, inclusive, vozes de Jo Stafford, Jeri Southern, Billie Holiday, solos de Coleman Hawkins, Django Reinhardt, Duke Ellington, Stéphane Grappelli, em muitas delas, com arranjos luxuriantes para orquestra de Alan Broadbent, o pianista da banda.
Veja uma apresentação do Quartet West, em São Paulo, no Heineken Jazz Festival, tocando Retrato em Branco e Preto.
Veja o Quarteto em First Song (for Ruth), composta para a sua mulher, desta feita, a segunda. Haden tocava protegido por uma redoma de acrílico devido ao seu problema auditivo.
São importantes também, em sua discografia, a formação que ficou chamada de Old and New Dreams, com Don Cherry, Dewey Redman e Ed Blackwell. São discos vigorosos, de alta octanagem. O melhor deles é Playing (ECM, 1981).
O Old and New Dreams interpreta um dos clássicos de Ornette Coleman: Lonely Woman.
Com uma produção dessas, Charlie Haden fica na história não apenas como um dos grandes baixistas da história, junto com Charles Mingus, Ray Brown e Scott LaFaro, mas como um dos propulsores da música instrumental, partícipe de várias reviravoltas importantes. Haden faz parte daquela classe especial em que seus admiradores o amavam incondicionalmente. Desde já, deixa saudades.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Aaron Parks arrasa em estreia na ECM
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| Aaron Parks, um craque no piano |
O “A” [Aaron] tinha 18 anos quando passou a tocar na banda de Terence Blanchard. Quem ficou impressionado com o seu piano foi Kenny Barron. Não era pouco. Não lançou muita coisa como líder, no entanto, participou de shows e discos de Lage Lund, Kurt Rosenwinkel, Christian Scott, Ambrose Akinmusire, Mike Moreno, Kendrick Scott e a jovem cantora Gretchen Parlato. São todos mais ou menos jovens, como ele que, atualmente, tem 30 anos.
Lançou um (tanto estranho) CD no começo do ano, com Yeahwon Shin, chamado Lua Ya. São canções de ninar coreanas. Está explicado o “estranho”. Será “lua” uma palavra da língua de Yeahwon? Em português sabemos que existe. Explicação da pergunta: seu álbum anterior, chamado apenas Yeahwon (2010), é composto de nove músicas brasileiras, a maioria cantadas em português e conta com participações de Egberto Gismonti e Cyro Baptista.
O álbum que gravou com Yeahwon Shin foi seu primeiro trabalho pela ECM. Agora, acaba de ser lançado seu primeiro como líder por esta gravadora. Arborescence é um piano solo. À maneira de Keith Jarrett, a partir do “nada”, desenvolve os temas musicais. A comparação com o genial pianista é inevitável. Apesar de não ser verdadeira a afirmação de que tenha inventado o improviso “espontâneo”, depois de lançado o famoso Köln Concert (ECM 1975), essa forma ficou como que uma marca registrada.
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| Arborescence (ECM 2338) |
O título Arborescence é perfeito. É uma palavra que consta nos nossos dicionários e “arborescer” significa “1. tornar-se árvore. 2. Crescer como a árvore; desenvolver-se” (Dicionário Aurélio). Perfeito. Os temas de improvisos “brotam” e Parks os desenvolve, construindo belas paisagens sonoras..
No solo, o instrumentista depara-se consigo mesmo. É uma viagem solitária, sem a “conversa” com um contrabaixo, uma saxofone ou bateria. Arborescence é o primeiro álbum de Parks nesse formato. Estávamos acostumados a ouví-lo em trios ou quartetos e nem se poderia imaginar que pudesse gravar um disco tão bom. É claro que Keith Jarrett tem seu estilo, ou mesmo Richie Beirach que, aproveitando a onda, andou gravando (bons) piano solo, e Parks tem o seu. Vai na tradicão da música modal, do aprendizado que passou pelos impressionistas como Debussy e Ravel, ou mesmo pelos românticos, mas conseguiu desenvolver linguagem própria, e, o rapaz tem apenas 30 anos. Promete. Arborescene – já estamos em novembro – é um dos melhores lançamentos do ano. Pode comprar sem vacilar.
Ouça Asleep in the Forest, a primeira do álbum.
Ouça In Pursuit. Preste atenção nos contrastes dos graves.
Veja Parks em um solo no YouTube.
Veja Aaron e Mike Moreno no clássico All the Things You Are.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Hélène Grimaud, o “Cravo Bem Temperado”, de Bach, e suas várias interpretações
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| Hélène Grimaud |
A beleza é a primeira qualidade referida. Os versos iniciais de Retrato de mulher – “As muito feias que me perdoem/ Mas beleza é fundamental. É preciso/ Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso” –, de Vinícius de Moraes, ditas e escritas de memória e ouvidas de outrem foram aliteradas e pouco distorcidas. No final, querem dizer a mesma coisa. Se beleza não é fundamental, pelo menos, ajuda, independente de gênero.
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| Hélène e os lobos |
Hélène Grimaud, Bach e uma comparação com outras interpretações
Num claro sinal de que estou ficando velho, tenho pouca curiosidade de conhecer novos intérpretes. Elegi meus preferidos e tendo a ouví-los ou sou obrigado em razão de tê-los disponíveis nas minhas prateleiras. Habitam-nas Sviatoslav Richter – falo de pianistas –, Glenn Gould, András Schiff, Willhem Kempff, Valdimir Ashkenazy, Walter Gieseking, Artur Schnabel, Alfred Brendel, Claudio Arrau, Arturo Benedetti Michelangeli, Maurizio Pollini, Maria João Pires, Martha Argerich, Nelson Freire, Radu Lupu e alguns outros. Acho que os meus preferidos estão entre os citados. Por insistência de um amigo, ouvi Lang Lang. Muito bom. Não sei se compraria um CD dele. Meu senso crítico, em relação à música, é limitado: passando de bom, para mim é ótimo.
Dois intérpretes mais jovens (dos com menos de 60), entretanto, me impressionaram: Grimaud e Paul Lewis. Nunca imaginei que um dia pudesse ouvir um Schubert melhor do que o de Richter e Brendel. Enganei-me. E não é só Schubert. Lewis é magistral executando Beethoven. Um terceiro nome interessante é o de Yuja Wang. A pequena chinesa – de novo a referência à beleza – se apresenta com roupas bem ousadas, curtas e (ou) decotadas. Quando a vi, usava um longo preto com um corte lateral de deixar qualquer cristão perturbado. Até hoje fico a pensar de como consegue usar os pedais do piano com aqueles sapatos com salto 15.
Grimaud é uma mulher de atitude. Foi muito noticiado o entrevero que teve com o Claudio Abbado. Maestros são como imperadores – ou ditadores? Suas ordens devem ser obedecidas e, pronto. Abbado foi o escolhido para suceder o “kaiser” Herbert von Karajan na Filarmônica de Berlim. Ficou pouco em razão de ter tido um câncer no estômago. Alguns dizem que foi por culpa dos músicos.
Pela gravidade da doença, não se imaginava, mas voltou e tem gravado bastante e, atualmente está à frente da Orquestra Mozart, de Bolonha. A história com HG aconteceu na gravação do Concerto nº 23 para Piano e Orquestra, de Mozart. Grimaud queria tocar a cadenza de Busoni e Abbado preferia a de Mozart. É raro pianistas criarem suas próprias cadenzas. Poucos têm essa capacidade improvisativa, tão comum no jazz. A francesa não foge à regra.
Abbado concordou e a registrada foi a escolhida por Grimaud. Depois que a orquestra foi dispensada, este pediu que ela gravasse a de Mozart, separadamente. Quando a Deutsche Grammophon enviou a gravação para a aprovação de Hélène, esta percebeu que a cadenza que escolhera fora substituída. Nos bateres de pés, o disco não saiu: disse que a parte do solista quem decidia, por direito, era ela.
Pegou mal para Abbado. Manchou a reputação do defensor do meio ambiente, criador de uma orquestra de jovens da Europa e ainda, historicamente ligado ao Partido Comunista Italiano. Bom, mas Abbado, apesar da fama de democrático, agiu como muitos de seus pares. Músicos têm relação problemática com maestros. É só lembrar do filme Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini, ou até dos problemas enfrentados por Roberto Minczuk com membros da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro.
A personalidade decidida de HG, de certo modo, se reproduz nos rubatos vigorosos de seu estilo de tocar. Impressiona a clareza de digitação, mesmo em andamentos rápidos. É uma coisa que fica muito evidente em sua interpretação do Prelúdio nº 2 do Cravo Bem Temperado, livro 1, que está no álbum Grimauld Plays Bach (DG, 2008).
Impressionado com o andamento rapidíssimo que imprime à peça. resolvi ouvir outras para comparar. Comecei pelo meu Cravo preferido (ela muda de tempos em tempos), que é o de Sviatoslav Richter. Para minha surpresa, a dele é tão rápida quanto. A próxima que ouvi foi a de Glenn Gould, meu intérprete preferido antes de conhecer a de Richter. É bem mais lenta e sincopada (devido à velocidade imprimida por Grimaud e Richter, os contrastes são menores). Conclusão: preciso voltar a ouvir o Cravo de Gould. Fala-se menos dele nos dias de hoje. Seus pontos de vista idiossincráticos resultaram em discussões apaixonadas. São conhecidas as polêmicas com o violinista Yehudi Menuhim e com o maestro e compositor Leonard Bernstein. Era um gênio e em relação à Bach é a referência. Suas gravações das Suítes Inglesas e Francesas são as melhores, na minha opinião.
Sempre em relação ao 2º Prelúdio e Fuga do Livro 1 de Bach, a de Edwin Fischer, de 1930 e tanto, é tão acelerada quanto a de Grimaud e de Richter. A diferença do tempo de gravação entre as três é de um segundo apenas, enquanto a de Gould a duração é de 4:08 minutos, e a de András Schiff, 3:36 minutos, e a do jazzista que se aventura no erudito Keith Jarrett, 3:18.
Para as comparações, ouça o Prelúdio tocado por Hélène Grimaud, e a seguir, a de Glenn Gould.
A de Grimaud.
A de Gould.
Veja HG interpretando o 4º Concerto para Piano e Orquestra, de Beethoven.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Diferenças entre o gosto da patuleia e o da crítica, de acordo com a lista dos melhores de 2012
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| Radio Music Society, de Spalding é o melhor do ano |
Todo ano, pouco depois de publicada a lista dos melhores eleitos por uma junta de críticos convidados, a Downbeat envia aos seus assinantes, por e-mail, um link para que seus leitores votem nos melhores do ano. Para cada categoria são sugeridos alguns nomes, mas é possível se votar em algum outro. É inevitável uma certa contaminação pelo fato de se votar depois de se saber o que os críticos escolheram.
Na edição de dezembro, que é lançada logo no início de novembro, sai o resultado do Readers Poll. É normal que os críticos especializados sejam mais sofisticados e informados que o chamado povão, mesmo em gênero tão específico como o jazz.
A lista dos melhores CDs na opinião dos leitores
1. Esperanza Spalding, Radio Music Society
2. Ahmad Jamal, Blue Moon
3. Tony Bennett, Duets II
4. Vijay Iyer, Accelerando
5. Keith Jarrett, Rio
6. Brad Mehldau Trio, Ode
7. Sonny Rollins, Road Shows, Vol. 2
8. Arturo Sandoval, Dear Diz (Everyday I Think of You)
9. Corea, Clarke & White, Forever
10. Trombone Shorty, For True
Na dos melhores pela crítica, Accelerando (ACT 2012), do pianista Vijay Iyer, ficou em primeiro lugar com quase o dobro do segundo – Road Shows, vol. 2, de Sonny Rollins. Na do povão, em primeiro ficou Radio Music Society, de Esperanza Spalding. Como foi lançado em abril do ano passado, nem consta na lista dos 30 melhores da crítica. É o caso, provavelmente, de outros álbuns como Ode, de Brad Mehldau, e de Dear Diz (Everyday I Think of You), de Arturo Sandoval, lançado em junho. Spalding é nova, belo penteado black (lembra a ex-ativista Angela Davis), canta e toca um instrumento do seu tamanho – o contrabaixo acústico – e é talentosa, mas supervalorizada, devido ao seu carisma. Meu voto foi para Rio, de Keith Jarrett. Na lista dos críticos ficou em terceiro. É um dos melhores registros do pianista nos últimos anos. Leia e ouça em http://bit.ly/MF8xTA.
A divergência mais perceptível é a não classificação – entre os 30 melhores – do álbum Be Good, de Gregory Porter (ouça e leia sobre ele em http://bit.ly/TVkW98). Inexplicável. Merecidamente, Sonny Rollins e o “retorno” de Forever, de Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White constam nas duas listas. Faz o gosto da patuleia e da crítica. Corea é sofisticado e pop ao mesmo tempo.
Os dez discos classificados devem ser ouvidos e cada um preenche um “pedaço” de prazer do fã do jazz. Não ouvi apenas os de Arturo Sandoval (leia sobre seu Time for Love, lançado em 2010, em http://bit.ly/VvMdf5) – mas tudo o que grava é bom –, e o de Tony Bennett, apesar de considerá-lo “the best” como cantor, não tenho a mínima curiosidade de conhecer. Esses “duets”, moda iniciada com Frank Sinatra no crepúsculo de sua carreira, em 1993, dividindo os vocais com Julio Iglesias, por exemplo, são um saco de gatos; se bem que dividiu também com Bennett, Bono, do U2, e Aretha Franklin. Têm cara de caça níqueis. Em Duets II, Bennett divide vocais com k d lang, Norah Jones, Andrea Bocelli, Amy Winehouse, o que não é mal, mas também com Lady Gaga e Mariah Carey.
Veja Body and Soul, com Amy Winehouse. Amy é Amy, ou melhor, foi. Era bem talhada para interpretar standards do cancioneiro americano. Basta ouví-la a cantar (There Is) No Greater Love, em Frank (2003). Foi uma de suas gravações derradeiras.
Os melhores instrumentistas
Apenas para registro (e poucos comentários) listo os melhores de alguns instrumentos.
Piano: Brad Mehldau (leitores) e Vijay Iyer (crítica)
Sax alto: Kenny Garrett (L), Rudresh Mahanthappa (C)
Sax soprano: Wayne Shorter (L), Branford Marsalis (C)
Trumpete: Wynton Marsalis (L), Ambrose Akinmusire (C)
Flauta: Hubert Laws (L), Nicole Mitchell (C)
Guitarra: Pat Metheny (L), Bill Frisell (C)
Trombone: Trombone Shorty (L), Wycliff Gordon (C)
Vocalista feminina: Diana Krall (L), Cassandra Wilson (C)
Em alguns instrumentos concordam em quem são os melhores: baixo acústico (Christian McBride), sax tenor (Sonny Rollins), bateria (Jack DeJohnette), sax barítono (Gary Smulyan; na lista dos leitores empatou com James Carter), clarineta (Anat Cohen), entre outros.
Pelas diferenças percebe-se o óbvio: os críticos adoram Vijay Iyer e Rudresh Mahanthappa, e os leitores ainda estão se acostumando com eles mas, no básico, não existe grande diferença entre o que eles gostam e nós, membros da patuleia.
Ouça duas interpretações de Ahmad Jamal, do CD Blue Moon (Jazz Village, 2012). Leia sobre esse CD em http://bit.ly/V6khVi.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
“Sleeper”, a apresentação perdida de Keith Jarrett com seu quarteto europeu
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| Jarrett e seu quarteto europeu. Jan Garbarek é o da esquerda |
Jarrett formou um quarteto na Europa e gravou um disco chamado Belonging (ECM 1974), com o saxofonista Jan Garbarek, o baixista Palle Danielsson e o baterista Jon Christensen. Antes do sucesso estrondoso do solo Köln Concert (leia em http://conteudodalata.blogspot.com.br/2010/09/dalva-herivelto-e-keith-jarrett.html), Quando começou a gravar pela alemã ECM já era bem conhecido. Participara das bandas de Charles Lloyd e de Miles Davis. Os discos lançados pela Columbia Records, Impulse e Atlantic, entre 1967 e 1976, sem exceções, são muito bons. O primeiro álbum de Jarrett pela ECM é um duo com o baterista e percussionista Jack DeJohnette, que, mais tarde, se tornaria membro efetivo de seu trio, junto com Gary Peacock. Ruta and Daitya (ECM, 1971), salvo engano, é seu último disco em que toca algum instrumento eletrônico. Antes de Wynton Marsalis ter se lançado como guardião do som acústico, o pianista já havia optado por isso. Não precisava ser eletrônico pois o som que tirava do piano era eletricidade pura.
Jan Garbarek não é Dewey Redman e Redman não é Jan. Apesar de o pianista ser o mesmo, os quartetos são bem diferentes entre si. Jarrett gravou Belonging em 1974 pela ECM Records. Lembro que os mais antenados logo “descobriram” o disco. Não era para qualquer antenado, pois discos importados eram bem caros e nem tudo vinha para cá. Às vezes, era preciso encomendar e esperar dois meses até chegar. Vida difícil; e revistas importadas vindas por via aérea eram caríssimas. A internet mudou tudo isso: democratizou a informação mas, surpreendentemente, não deixou as pessoas mais inteligentes.
Conheço ferrenhos inimigos do sax soprano, mas a juventude que gostava de jazz na década de 1970 era fã de Wayne Shorter no Weather Report; e Shorter era fã do Brasil: sua mulher era brasileira e adorava Milton Nascimento. E muitos tinham Shorter como referência para gostarem do som do sax soprano. Um tempo depois, fazendo caminho inverso, fui ouvir My Favorite Things, de John Coltrane. Por distorções naturais (fomos criados ouvindo Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin), a maioria dos da minha geração que passou a gostar de jazz começou ouvindo os sons eletrônicos de Chick Corea, Miles Davis e Herbie Hancock e depois descobriram Duke Ellington, Bill Evans e John Coltrane.
O gosto pelo som do soprano, naturalmente, me fez passar a prestar atenção em Jan Garbarek a partir de Belonging. Dois álbuns gravados nessa época, com Palle Danielsson, Jon Christensen e Bobo Stenson no lugar do americano – Dansere e Witchi-Tai-To –, são superiores aos de sua parceria com Jarrett.
O norueguês gravou dezenas de discos pela ECM. Explorou sons orientais e nórdicos, com Fateh Ali Khan, Anouar Brahem, Zakir Hussain, L. Shankar e com a cantora folclórica conterrânea Agnes Buen Garnås. Em discos mais vinculados à música erudita teve como parceiros a Hilliard Ensemble, Kim Kashkashian e David Darling. É um músico importante, goste-se ou não dele.
Mais de trinta anos depois do último lançamento do quarteto europeu de Jarrett, a ECM lança Sleeper, álbum duplo com uma apresentação em Tokyo’s Nakano Sun Plaza, de abril de 1979. Com a exceção de uma, a do bis, todas as faixas têm mais que dez minutos, sendo duas com mais de vinte. Na primeira vez, fiquei com a impressão de que “envelheceu”, quem sabe, por ter enjoado do sopro de Garbarek, um tanto estridente para o meu gosto (gostava, mas depois que conheci Ben Webster, Coleman Hawkins e Lester Young, meus parâmetros mudaram). Depois de ouvir cerca de cinco vezes, passei a gostar mais, mas não é um disco excepcional. Para aqueles que ainda gostam de Belonging, Sleeper é um prato cheio.
A faixa que abre o disco é Personal Mountains, com um drive excepcional da bateria de Christensen. Sendo um número bem longo, com 21:12 minutos, inicialmente enérgico, instrumentação vigorosa, a menos de sete minutos do fim, há uma mudança de andamento, tornando-se melancólica. Bem Jarrett: ele adora alternar climas em uma mesma música. É um dos destaques. Outra muito boa é Oasis. Inicia com uma percussão com som parecido ao da kalimba e logo depois, uma flauta executada por Keith. Meio africana, combina com o título. Então, entram a bateria, o piano e o sax soprano tenso de Garbarek. Prism, de andamento mais lento, é outra faixa que deve ser destacada.
Ouça “Personal Mountains”
quinta-feira, 15 de março de 2012
Os duos de Charlie Haden
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| Haden e o baixo |
Os primeiros que lançou como solista foram Closeness (A&M, 1976) e Golden Number (A&M 1977). Não é mera coincidência que os dois consistam de duetos com alguns expoentes do jazz com quem já havia tocado (Ornette Coleman, Don Cherry, Paul Motian e Keith Jarrett). Quando Closeness foi lançado, o conhecia pelos discos que havia feito como sideman de Keith Jarrett, e mais tarde, pelo álbum Free Jazz (de 1961), de Ornette Coleman.
Fiquei ‘paralisado” ao ouvir a primeira música de Closeness: Ellen David, em homenagem à mulher com quem era casado. Muitos amigos conheceram Haden por essa música. Todos os que vinham em casa eram “obrigados” a ouvir esse maravilhoso dueto com Keith Jarrett. Das três restantes, a outra preferida era For Turiya, com Alice Coltrane na harpa. A com Ornette Coleman, não gostava; a com Paul Motian era interessante, mais pelo viés político.
Curiosamente, o comunismo (naquele tempo existiam muitos militantes de esquerda, de variados matizes) de Haden era específico, voltado mais aos países latinos Espanha, Portugal e América Central. Na época, o General Franco era um cadáver ambulante, mas teimava em não morrer. António Salazar estava morto (1889-1970), mas o salazarismo não. Portugal era um dos últimos países a viver do colonialismo, com braços na África e no Oriente. Era dirigido por Marcelo Caetano quando aconteceu o que ficou conhecido como a Revolução dos Cravos, a 25 de abril de 1974.
No crepúsculo do regime salazarista, Haden se apresentou no primeiro Cascais Jazz, em novembro de 1971. As atrações eram de primeira: Miles Davis, Ornette Coleman, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Art Blakey, Phil Woods e Dexter Gordon. Charlie Haden (estava tocando com Ornette Coleman) dedicou Song for Che aos movimentos de libertação de Angola e Moçambique. Delírio: os portugueses não aguentavam mais. Viam-se faixas com a inscrição “Abaixo a Guerra Colonial”. Apesar de a apresentação não ter sido interrompida, Haden foi interrogado pelo Pide, a versão lusa do nosso Dops, e de lá, mandaram-no direto para o aeroporto.
Pois, a última faixa de Closeness – For a Free Portugal – é uma colagem com percussões de Paul Motian e cantos da guerrilha angolana. Percebemos perfeitamente sons de tiros e vozes cantando palavras de ordem, na língua portuguesa, contra o colonialismo.
Mais ou menos nessa época, a amiga Lucila Wroblewsky, que sempre viajava para fora do país – coisa que não era tão fácil como é agora –, me emprestou um LP de Haden com o pianista Hampton Hawes: As Long A Thre’s Music (1978). Virei fã definitivo do baixista: tenho quase tudo dele, principalmente, as gravações em duos, que não são poucos. Além dos citados acima, gravaram com Haden, Chris Anderson, John Taylor, Hank Jones, Kenny Barron, Denny Zeitlin (pianistas); Antonio Forcione, Christian Escoudé, Carlos Paredes, Pat Metheny (violões e guitarras); e, Egberto Gismonti (violões e piano).
O último disco lançado foi Come Sunday, comentado anteontem (http://bit.ly/A2oxHE). Antes dessa gravação com o pianista Hank Jones, lançou Jasmine (ECM, 2010), com Keith Jarrett (sobre esse disco, leia http://bit.ly/rLYSsm), Foi considerado um dos melhores do ano pela crítica especializada, em revistas de jazz.
Ouça a bela Ellen David, com Haden e Keith Jarrett.
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| Haden e Gismonti |
Em 1989 aconteceu uma série de apresentações de Charlie Haden no Festival de Montreal. Paulatinamente, foram lançados discos em que foram (re)unidos músicos que colaboraram com o baixista durante a carreira. Em 30 de junho, apresentou-se com Joe Henderson e Al Foster (Verve, 2004); em 1º de julho, com a pianista Geri Allen e o baterista Paul Motian (Verve, 1998); em 2 de julho, com Don Cherry e Ed Blackwell, velhos parceiros musicais da banda de Ornette Coleman e do Old and New Dreams (Verve, 1994); em 3 de julho, com o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba e Paul Motian (Verve, 1997); no dia 5, com Pat Metheny e Jack DeJohnette (não foi lançado); no dia 6, com Egberto Gismonti (Verve, 2004); com Paul Bley e Paul Motian, no dia 7 (Verve, 1994); e em 8 de julho com o Liberation Music Orchestra (Verve, 1999).
Em 1999, por ocasião da apresentação de Charlie Haden e seu Quartet West, no Teatro Alfa, São Paulo, Egberto Gismonti foi o convidado especial. É desse show que você vai ouvir Palhaço.
Como sou fã de carteirinha de Haden, tem sido assunto recorrente nas minhas publicações.
Leia sobre o CD Sophisticated Ladies: http://bit.ly/ycnxYm
Haden toca Moments musicaux, de Rachmaninov: http://bit.ly/wVnmDW,
além dos que foram assinalados no meio do texto.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
As vidas de Paul Motian
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| Motian em ação |
Fico sabendo da morte de Paul Motian pelo blogue da Lúcia Guimarães, de O Estado de S. Paulo, ocorrido em 22 de novembro. Tinha 80 anos e, segundo a nota, sofria de um problema na medula óssea. Lúcia diz que uma vez cometeu “o mau passo de pedir a ele uma declaração sobre mais uma temporada no Vanguard”.
Assisti a uma dessas apresentações que, costumeiramente, fazia com o saxofonista Joe Lovano e com o guitarrista Bill Frisell. Era uma formação interessante. Lançaram alguns CDs pela ECM. Sem o contrabaixo, a “alma” rítmica era a bateria; O som de Frisell é uma história específica: parece som havaiano — se é que isso existe —, sem deméritos, lembra aquelas mulheres dançando vestidas com sarongues coloridos. “Atirou” para todos os lados: tocou com músicos mais ligados ao avantgarde, como Don Byron, brasileiros, fazendo som “mexicano”, como Vinícius Cantuária, e em muitos — e coloque-se muito — dos álbuns que lançou, seu jazz pende para a música folk e country americanas. O saxofonista Joe Lovano, dos três, é o cara “mais jazz”. Passou a chamar atenção quando já não era mais um garotinho, porém, a partir daí, “desembestou”: grava um disco atrás do outro e há anos está entre os melhores tenoristas, com justiça.
Uma observação: é tão bom assistir às apresentações no Village Vanguard! É um lugar pequeno, em dois níveis, que dão para o palco montado em uma das pontas da sala. Enquanto se espera para entrar, vemos os músicos chegando, pedindo “com licença” para passar no meio dos que estão na fila. Estávamos lá e, de repente, passa um senhor franzino, de óculos e com um gorro, numa noite quente de fins de agosto: era Paul Motian.
A primeira participação de que tenho notícia de Motian é na do lendário trio de Bill Evans; o terceiro era ninguém menos que Scott LaFaro, morto bem jovem. Dias antes de morrer, em 1961, num acidente automobilístico, havia gravado Sunday at The Village Vanguard e Waltz for Debby. Foi o suficiente para entrar na história como um dos maiores baixistas de todos os tempos. Chales Mingus o odiava: é o suficiente, não? Pura inveja.
A outra formação excepcional da qual Motian participou foi a da banda de Keith Jarrett. Como solista, além de gravar alguns pela ECM, fez outros pela também alemã Winter & Winter (caracteriza-se pelas embalagens diferenciadas), JMT (que deve ter sido, não tenho certeza, o embrião da Winter & Winter, pois era comandada por Stefan Winter), e pela italiana Soul Note. Nunca parou.
Paul Motian (pronuncia-se “moriân”, e não “môchian”, como costumeiramente se falava, pois era de origem armênia) não é um baterista por excelência, desses como Elvin Jones, Max Roach ou Art Blakey. Sua “potência” não está no ritmo; está mais numa certa polirritmia que é só dele. Os discos que assinou como líder sempre se caracterizaram pela diversidade. Uma das formações mais interessantes foi a que tinha dois guitarristas. O “mau passo” a que Guimarães se refere foi quando perguntou-lhe, por telefone, sobre a temporada no Village em que estava “tocando com Lovano e Frisell”. Silêncio glacial do outro lado da linha. ‘Você quer dizer, eles estão tocando comigo’ corrigiu o baterista.” Lucia disse que foi a entrevista mais curta que jamais fizera.
Relevando um pouco a possível arrogância de Motian, façamos uma homenagem a esse instrumentista ímpar, que tocou até morrer.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Keith Jarrett no Rio de Janeiro
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| Jarrett grunhe, dá gritinhos, mas toca muito |
Quando fez essa apresentação, em 24 de janeiro de 1975, Jarrett já era um talento reconhecido: tinha feito parte da banda do “flower power” Charles Lloyd, participara da formação elétrica de Miles Davis, e gravara discos pelos selos Atlantic e Impulse com sidemen poderosos (Dewey Redman, Charlie Haden e Paul Motian).
Depois de Köln Concert faria outros discos em que, sentado ao piano, no qual os sons se encadeavam em ondas de improváveis improvisos. Várias performances posteriores, sempre ao vivo, foram disponibilizadas em discos pela ECM Records: Bremen-Lausanne, The Sun Bear Concerts (Osaka, Tóquio, Kioto, Nagoya e Sapporo, em 1976), Paris Concert (1988), Vienna Concert (1991), La Scala (1995), Paris/London – Testament (2009) [leia em http://bit.ly/rZjOMg], e agora, nos brinda com a lindíssima apresentação realizada, no Rio de Janeiro, em seu tour por terras brasileiras, no ano passado.
É uma “fórmula” de mais de 35 anos. Haveria, naturalmente, um desgaste ou diluição nesse eterno “repetir-se a si mesmo”. Não é o que acontece, porém. A exemplo das dezenas – e um quase milhar de apresentações – de discos gravados com o baixista Gary Peacock e o baterista Jack DeJohnette, num dos formatos mais tradicionais – o trio –, quase que exclusivamente compostos de standards conhecidos do público apreciador de jazz, mesmo assim, apresentam algo de original.
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| Capa do último álbum de Keith Jarrett |
Rio se divide em quinze partes. A primeira, quebrada em síncopes marcadas pela mão esquerda, é um solo de pouco mais de seis minutos que causa certa estranheza do público que acaba de entrar em “contato” com Jarrett. A Parte II é em tom menor e representa algo mais “musical”, prenúncio de que os improvisos possam se inclinar por essa vertente. É reflexiva, tateante e explorativa como se estivesse a procurar uma linha. A apresentação segue um tanto morna, sem deméritos; morna porque o que esperamos de Jarrett é sempre o máximo, por conta das expectativas em que nele depositamos. Seria o caso de se perguntar qual é a amplitude da capacidade de um instrumentista como ele em ser sempre inovador. Não é difícil, portanto, percebermos cacoetes – cacoetes como um sotaque, como um modo constituinte de cada ser – que estavam presentes em solos de discos tão antigos como Fort Yahuh (1973), ou El Juicio (Atlantic, 1971).
A Part VII, que corresponde à primeira do segundo CD, é de linha melódica simples e próxima de códigos que associamos naturalmente aos valores do belo. A próxima parte (a oitava) é quase uma ruptura desse estado que tendemos a desejar que se mantenha, mas os primeiros acordes de sabor impressionista e toques orientalizantes da nona nos jogam em terrenos etéreos e, parcialmente, ao penúltimo. As “partes” não se interligam necessariamente, mas percebe-se que os solos nesse segundo CD parecem mais bem construídos, menos tateantes, e os ouvintes, mais comprometidos com o clima da apresentação, respondem mais calorosamente por meio de aplausos. As partes XII e XIII são emocionantes, principalmente a última. É difícil dizer se Rio é melhor (ou pior) que o solo anterior – Paris/London –, mas para nós, brasileiros, com uma ponta de orgulho patriótico, nos sentiremos orgulhosos por ter esse disco gravado no Rio de Janeiro.
Ouca a Parte XII do maravilhoso Rio.
Leia também sobre Jasmine, duo do pianista com Charlie Haden: http://bit.ly/rLYSsm
“Keith Jarrett em São Paulo”: http://conteudodalata.blogspot.com/2011/06/keith-jarrett-em-sao-paulo.html
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Jasmine: prazer de ouvir novamente Keith Jarrett e Charlie Haden
Ouvir música sozinho é uma opção. Jazz não é um gênero fácil de combinar com momentos românticos, principalmente se for instrumental. Alguns preferem ouvir axé com centenas de pessoas ao lado. Ouvir um disco é diferente de estar em sintonia com um bando de gente gritando e pulando. É um ato coletivo e a catarse de descobrir a beleza de alguma coisa acontece em circunstâncias muito diferentes. Ouvir um disco sentado num sofá, sozinho, é um ato reflexivo, antes de mais nada: é você e a música. Aquela convergência que acontece entre pares ouvindo alguma melodia que emociona a ambos em perfeita sintonia é um acontecimento inesquecível. É raro acontecer, e quando acontece, marca.
Não tive esse prazer compartilhado com o novo CD dos dois geniais músicos que se reencontram depois de muitos anos. Som de primeira: apenas baladas, clássicos como For All We Know, Where Can I Go Without You, No Moon at All, I’m Gonna Laugh You Right Out of My Life, Body and Soul, Goodbye e Don’t Ever Leave Me, de Jerome Kern e Oscar Hammerstein II.
As interpretações de Jarrett são contidas, reflexivas. Como são a de seu acompanhante. A harmonia de “casal” existe sim, entre eles, não a de amantes, é certo. Muitos anos depois, reúnem-se e a magia interativa não deixou de existir. Antes, muito antes, nas décadas de 1970 a 80, tocaram juntos e produziram grandes discos com o saxofonista Dewey Redman e Paul Motian.
Infelizmente, Jasmine é mais um CD que não será lançado no Brasil. A sugestão é adquiri-lo em lojas físicas que ainda valorizam a boa música, ou comprar através de sites como a Amazon. Sai até mais barato que os discos nacionais. Com as despesas de frete, fica por volta de 45 reais. Cada tostão gasto nessa aquisição será regiamente gratificado com prazer sem preço. No YouTube, várias faixas do CD estão disponíveis (em áudio, com a imagem da capa). É uma opção. Nesse post está disponibilizado um belíssimo standard. Ouça.
Goodbye
















