quinta-feira, 13 de junho de 2013

Hélène Grimaud, o “Cravo Bem Temperado”, de Bach, e suas várias interpretações

Hélène Grimaud
Duas matérias recentes em O Estado de S.Paulo sobre Hélène Grimaud, por conta de apresentação na Sala São Paulo, em maio, trazem referência aos animais. O título de matéria/entrevista de João Luiz Sampaio (9/5/2013) é “Dança com lobos”. Grimaud, além de pianista, tem dois livros publicados e criou e cuida de uma fundação dedicada à preservação de lobos. Em outra, João Marcos Coelho (11/5/2013) inicia o texto da seguinte forma: “Além da beleza felina, a francesa Hélène Grimaud é uma pianista excepcional, que faz do palco a arena de saltos mortais sem rede.” Sendo mais direto, é uma gata, se bem que essa é uma expressão que está caindo em desuso.

A beleza é a primeira qualidade referida. Os versos iniciais de Retrato de mulher – “As muito feias que me perdoem/ Mas beleza é fundamental. É preciso/ Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso” –, de Vinícius de Moraes, ditas e escritas de memória e ouvidas de outrem foram aliteradas e pouco distorcidas. No final, querem dizer a mesma coisa. Se beleza não é fundamental, pelo menos, ajuda, independente de gênero.

Hélène e os lobos
Mesmo em um mercado como o da música erudita, a beleza tem sido explorada. Vai longe o tempo de intérpretes geniais como Wanda Landowska, Ingrid Haebler, Birgitt Nilsson ou Montserrat Caballé, que não primavam pelos atributos físicos. Nem conta o fato de que Elisabeth Schwarzkopf, Martha Argerich e Kiri Te Kanawa fossem belas. É que tal predicado não era importante como chamariz para vender discos. O mundo sob a avalanche da exploração de celebridades e consumismos tornou-se mais frívolo. Intérpretes atuais como Anna Netrebko, Anne-Sofie Mutter, Anne Sophie Mutter, Sol Gabetta, Alison Balsom, e a própria Hélène Grimaud são talentosas e beleza entra como o chantilly do bolo.


Hélène Grimaud, Bach e uma comparação com outras interpretações
Num claro sinal de que estou ficando velho, tenho pouca curiosidade de conhecer novos intérpretes. Elegi meus preferidos e tendo a ouví-los ou sou obrigado em razão de tê-los disponíveis nas minhas prateleiras. Habitam-nas Sviatoslav Richter – falo de pianistas –, Glenn Gould, András Schiff, Willhem Kempff, Valdimir Ashkenazy, Walter Gieseking, Artur Schnabel, Alfred Brendel, Claudio Arrau, Arturo Benedetti Michelangeli, Maurizio Pollini, Maria João Pires, Martha Argerich, Nelson Freire, Radu Lupu e alguns outros. Acho que os meus preferidos estão entre os citados. Por insistência de um amigo, ouvi Lang Lang. Muito bom. Não sei se compraria um CD dele. Meu senso crítico, em relação à música, é limitado: passando de bom, para mim é ótimo.

Dois intérpretes mais jovens (dos com menos de 60), entretanto, me impressionaram: Grimaud e Paul Lewis. Nunca imaginei que um dia pudesse ouvir um Schubert melhor do que o de Richter e Brendel. Enganei-me. E não é só Schubert. Lewis é magistral executando Beethoven. Um terceiro nome interessante é o de Yuja Wang. A pequena chinesa – de novo a referência à beleza – se apresenta com roupas bem ousadas, curtas e (ou) decotadas. Quando a vi, usava um longo preto com um corte lateral de deixar qualquer cristão perturbado. Até hoje fico a pensar de como consegue usar os pedais do piano com aqueles sapatos com salto 15.

Grimaud é uma mulher de atitude. Foi muito noticiado o entrevero que teve com o Claudio Abbado. Maestros são como imperadores – ou ditadores? Suas ordens devem ser obedecidas e, pronto. Abbado foi o escolhido para suceder o “kaiser” Herbert von Karajan na Filarmônica de Berlim. Ficou pouco em razão de ter tido um câncer no estômago. Alguns dizem que foi por culpa dos músicos.

Pela gravidade da doença, não se imaginava, mas voltou e tem gravado bastante e, atualmente está à frente da Orquestra Mozart, de Bolonha. A história com HG aconteceu na gravação do Concerto nº 23 para Piano e Orquestra, de Mozart. Grimaud queria tocar a cadenza de Busoni e Abbado preferia a de Mozart. É raro pianistas criarem suas próprias cadenzas. Poucos têm essa capacidade improvisativa, tão comum no jazz. A francesa não foge à regra.

Abbado concordou e a registrada foi a escolhida por Grimaud. Depois que a orquestra foi dispensada, este pediu que ela gravasse a de Mozart, separadamente. Quando a Deutsche Grammophon enviou a gravação para a aprovação de Hélène, esta percebeu que a cadenza que escolhera fora substituída. Nos bateres de pés, o disco não saiu: disse que a parte do solista quem decidia, por direito, era ela.

Pegou mal para Abbado. Manchou a reputação do defensor do meio ambiente, criador de uma orquestra de jovens da Europa e ainda, historicamente ligado ao Partido Comunista Italiano. Bom, mas Abbado, apesar da fama de democrático, agiu como muitos de seus pares. Músicos têm relação problemática com maestros. É só lembrar do filme Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini, ou até dos problemas enfrentados por Roberto Minczuk com membros da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro.

A personalidade decidida de HG, de certo modo, se reproduz nos rubatos vigorosos de seu estilo de tocar. Impressiona a clareza de digitação, mesmo em andamentos rápidos. É uma coisa que fica muito evidente em sua interpretação do Prelúdio nº 2 do Cravo Bem Temperado, livro 1, que está no álbum Grimauld Plays Bach (DG, 2008).

Impressionado com o andamento rapidíssimo que imprime à peça. resolvi ouvir outras para comparar. Comecei pelo meu Cravo preferido (ela muda de tempos em tempos), que é o de Sviatoslav Richter. Para minha surpresa, a dele é tão rápida quanto. A próxima que ouvi foi a de Glenn Gould, meu intérprete preferido antes de conhecer a de Richter. É bem mais lenta e sincopada (devido à velocidade imprimida por Grimaud e Richter, os contrastes são menores). Conclusão: preciso voltar a ouvir o Cravo de Gould. Fala-se menos dele nos dias de hoje. Seus pontos de vista idiossincráticos resultaram em discussões apaixonadas. São conhecidas as polêmicas com o violinista Yehudi Menuhim e com o maestro e compositor Leonard Bernstein. Era um gênio e em relação à Bach é a referência. Suas gravações das Suítes Inglesas e Francesas são as melhores, na minha opinião.

Sempre em relação ao 2º Prelúdio e Fuga do Livro 1 de Bach, a de Edwin Fischer, de 1930 e tanto, é tão acelerada quanto a de Grimaud e de Richter. A diferença do tempo de gravação entre as três é de um segundo apenas, enquanto a de Gould a duração é de 4:08 minutos, e a de András Schiff, 3:36 minutos, e a do jazzista que se aventura no erudito Keith Jarrett, 3:18.

Para as comparações, ouça o Prelúdio tocado por Hélène Grimaud, e a seguir, a de Glenn Gould.


A de Grimaud.




A de Gould.




Veja HG interpretando o 4º Concerto para Piano e Orquestra, de Beethoven.


terça-feira, 11 de junho de 2013

James Farm, Esperanza Spalding, Egberto Gismonti, as atrações do BMW Jazz Festival

O saxofonista Joshua Redman
Os tais “festivais de jazz” no Brasil trocam de patrocinadores, mas o nível tem se mantido alto. O público teve oportunidade de ouvir desde músicos de vanguarda como Cecil Taylor, consagrados, como Ahmad Jamal, e novos, como Ambrose Akinmusire. Toy Lima, o programador anterior, trouxe vários músicos que, dificilmente viriam ao Brasil. Neste BMW Jazz Festival, a produção foi da Duetto, de Monique Gardenberg. A edição de 2013 não fugiu à regra de trazer nomes novos, ou menos conhecidos do público brasileiro em geral e também os consagrados. As atrações de sexta-feira, único dia que fui, são um bom exemplo dessa diversidade.


James Farm
A curiosidade que não foi citada em nenhum momento – não sei se é importante, porém – é a de que o nome James Farm não se refere a uma pessoa, e sim a um grupo de instrumentistas que têm as suas iniciais no nome James: “J”, de Joshua Redman, “A”, de Aaron Parks, “M”, de Mat Penman, e “E”, de Eric Harland. Citei isso no post sobre o álbum Walking Shadows, de Redman (leia http://bit.ly/1jphgFQ). Teoricamente, o líder seria Joshua, pelos vários álbuns lançados com seu nome. Mas James Farm, como o próprio saxofonista tem feito questão de frisar, é um projeto coletivo. E, realmente, foram executados na noite de sexta composições de todos os membros, inclusive uma do baterista Eric Harland. Aliás, este foi uma atração à parte. É um grande baterista. Pela segunda vez, vem ao Brasil. Toca usualmente na banda de Charles Lloyd, que se apresentou no ano passado (leia http://bit.ly/MxItaq). De Joshua, nem é preciso falar. É um dos melhores saxofonistas da atualidade. Com solos vigorosos, estraçalhou.

Veja a apresentação do James Farmer no Jazz Standard tocando Chronos. Este tema foi um dos destaques da sexta-feira.




Esperanza Spalding
Das três atrações, a principal era a de Esperanza Spalding, pelo menos quanto às expectativas. Nem tem 30 anos, já lançou três álbuns e é bem conhecida no Brasil, até por ter gravado Ponta de Areia, de Milton Nascimento. Ela faz parte de uma geração que tem fundamentos baseados no jazz e pés em outros gêneros musicais. Exemplos: Cassandra Wilson (leia http://bit.ly/1152miO e http://bit.ly/12gBEoV), Lizz Wright (leia http://bit.ly/WkImI5), Norah Jones (leia http://bit.ly/KDx20a) e Jamie Cullum. Celebrada, não apenas pelo público geral, mas pela crítica especializada, é um fenômeno em vários sentidos. Vá, é um charme especial ver uma mulher com menos de 1,70 m tocando um contrabaixo. E mais: bem. Se não fosse não teria feito parte da banda do consagrado Joe Lovano. Não tocou muito o acústico, privilegiando o elétrico, mas manda muito bem nos dois. O Radio Music Society conta com dois trombonistas, dois trompetistas, três saxofonistas, um guitarrista, um tecladista, um baterista e um vocalista. Posso estar esquecendo de algum músico. Eram muitos. Alguns se destacam: o guitarrista Ricardo Vogt, não por ser brilhante, mas por ser (foi o que ficou subentendido), namorado de Esperanza, o tecladista, o argentino Leo Genovese, a trompetista Leala Cyr, pelo belo vocal que fez com a baixista, lembrando vocalises de Bobby McFerrin, e, principalmente, Tia Fuller, arranjadora e saxofonista alto. Fez solos eletrizantes.

O cabelo de Esperanza, na apresentação, estava menos Angela Davis (para quem não conhece essa ativista, veja em http://bit.ly/H2pvtr). É uma moça miúda, bela, carismática e, antes disso, talentosa. Evidente que fez o maior sucesso. Simpaticíssima, declarando várias vezes amor pelo Brasil e por sua música, falando um pouco de português, não tinha como deixar de cair nas graças do povo. Não cantou nenhuma de seu compositor favorito – Milton Nascimento –, mas Inútil Paisagem, de Jobim, fez parte do set.

Na última votação da Downbeat (60th Annual Critics Poll), como contrabaixista ficou em terceiro, deixando Dave Holland, Stanley Clarke e Ron Carter para trás. No baixo elétrico ficou em segundo, atrás apenas do genial Christian McBride, deixando para trás Stanley Clarke, Marcus Miller e Steve Swallow. Como cantora, ficou em terceiro, à frente de Dianne Reeves, Dee Dee Bridgewater, Diana Krall e outras de mesmo calibre. A moça está com prestígio, sem dúvida. Estou achando que sou o único neste planeta que não acha tudo isso dela. É, sem dúvida, muito boa, mas considero-a superestimada (overrated).

Para discordar de mim, assista a uma apresentação dela com o Radio Music Society no prestigiado Vitoria-Gasteiz Jazz Festival, de 2012.




Egberto Gismonti
Qualquer apresentação de Egberto Gismonti é um acontecimento. Vi dezenas do multinstrumentista e compositor. A primeira foi em um parque nas proximidades do Jóquei Clube de São Paulo. Em meados dos anos 1970, todos os domingos, aconteciam apresentações, em sua maioria, de música instrumental. Foram manhãs maravilhosas em que ouvi Hector Costita, Johnny Alf e João Bosco cercado de árvores e trilhas.

O carioca de Carmo é um músico que não parou no tempo. Sempre surpreendente. Dentre os brasileiros é quem, na música instrumental, arrematou maior prestígio internacional, juntamente com Hermeto Pascoal.

A genialidade de Gismonti não está apenas em suas composições ou na maestria com que toca piano, violão e flautas. Gravou em todos os formatos possíveis usando seu talento como arranjador. O último álbum lançado pela ECM, em 2009, o duplo Saudações, Sertões Veredas - tributo à miscigenação, é com a Camerata Romeu, orquestra cubana. Antes, gravou com orquestra Academia de Danças (EMI-Odeon, 1974), Corações Futuristas (EMI-Odeon, 1976), Nó Caipira (Carmo/ECM, 1978), New Tango, Brazilian Touch (Milan, 1991) e, mais recentemente, Meeting Point (ECM, 1997), com a Lithuanian State Symphony Orchestra.

Na apresentação no BMW Jazz Festival, Gismonti veio com mais uma surpresa. A educadora e diretora Tina Pereira formou uma orquestra de jovens. Em 2008 EG passou a colaborar com a orquestra. Com a morte súbita de sua diretora, deu continuidade ao projeto. Essa formação, constituída por 22 jovens passou a se chamar Orquestra Corações Futuristas. E foi com ela que Gismonti se apresentou como regente. Em apenas um pequeno trecho do show sentou-se ao piano. Grande apresentação. É emocionante ver a energia que emana de jovens encantados com a oportunidade de estarem com o mestre.

Impressionante a rapidez com que se registram apresentações no youtube. O show foi agora e um trecho já está lá. Veja.




Veja uma outra apresentação, desta vez no Rio de Janeiro.