O musical “Dance Me a Song” ficou pouquíssimo tempo em cartaz, mas uma canção que fazia parte dele tornou-se um clássico. Composta por James Shelton, “Lilac Wine” é uma torch song daquelas. O tal do “vinho lilás” o leva a um delírio etílico em que busca o amor que ele próprio não está convencido de sentir: “Quando eu penso mais do que quero pensar/ Faço tantas coisas que nunca deveria fazer/ Bebo muito mais do que devo beber/ Porque isso me leva de volta pra você…/ Vinho rubro é doce e faz a cabeça, como meu amor/ Vinho rubro, eu me sinto inconstante, como meu amor/ Escute-me…/ Eu não consigo ver claramente.” Shelton inspirou-se, pelo que se sabe, em uma linha do romance “Sorrow in Sunlight”, de Ronald Fink: “offering a light lilac wine, sweet and heady.”
A versão mais conhecida – ou a que você conhece – deve ser a de Nina Simone. É excepcional, sem dúvida, mas é uma música que, acredite, até ficou boa com Miley Cyrus. Uma das primeiras a gravá-la foi Eartha Kitt, em 1953. Outra grande cantora gravou “Lilac Wine”, em 1955: Helen Merrill.
Ouça a de Kitt.
Ouça a de Helen Merrill. É uma das minhas preferidas.
A consagração absoluta veio mesmo é com a de Nina Simone, em 1966. É de Nina o melhor “Listen to me…/ I cannot see clearly.” É dramaticamente belo o breve silêncio do piano.
Ouça a de Nina.
Jeff Buckley, se quisesse ser outro alguém, queria ser a Nina Simone. Era um apaixonado por ela. Não poderia ter deixado de gravá-la. Ouça. É grande. Combinava com sua persona. Não é à tôa que morreu daquela maneira. [sobre a morte dele, leia “O morto Jeff Buckley”
Veja Buckley cantando “Lilac Wine” em Chicago.
Aqui e agora
Estava a ouvir “Wonder Wheel”, de André Fernandes, bom guitarrista português, e a última faixa do álbum é justamente “Lilac Wine”, cantada por Inês Souza. Muitos devem desconhecer que Portugal é um grande pólo do jazz, não só pelo tradicional festival de Cascais. Há uma enormidade de bons nomes como os de Mário Laginha (o pianista desse disco), Susana Santos Silva, Bernardo Sassetti, Rodrigo Amado, Sara Serpa, Carlos Martins e Julio Resende, dentre outros.
Veja Inês Souza, com a banda de André Fernandes a cantar “Lilac Wine”.
Em um primeiro momento, você irá pensar que colocou o CD errado no player. Às primeiras notas, você pensará que colocou “Kind of Blue”. E é “The Sting Variations”, o álbum mais recente da Tierney Sutton Band.
Em 1988, Sutton estreou com “Introducing Tierney Sutton”. Em 2000, lançou o primeiro em uma gravadora de porte maior, a Telarc: “Unsung Heroes”. Esse mesmo ano foi o da estreia de Jane Monheit, com “Never Never Land”. Comprei os dois, o de Jane porque quem a acompanhava era Kenny Barron e sempre avalio cantores desconhecidos por quem é o pianista . No line up de “Unsung Heroes”, aparecia o nome de outro bom tecladista: Christian Jacob. As duas eram afinadas, boas cantoras, belas, mas como diria uma amiga baiana, “não tinham borogodó”. Nas suas perfeições faltava aquela pegada selvagem de uma Dianne Reeves, de uma Dee Dee Bridgewater, um pouco mais velhas que elas. Fiquei com uma ponta de decepção, mas nunca deixei de ouvir cada CD lançado por elas posteriormente.
Meu juízo em relação à Sutton foi mudando, não a ponto de fazê-la uma das minhas preferidas, mas perceber que é uma das boas intérpretes da atualidade. Prestando um pouco mais de atenção, percebi que seus álbuns não eram uma repetição do repertório Tin Pan Alley. Em cada um deles percebia-se um conceito mais ou menos definido, ora centrado em Bill Evans, em Frank Sinatra, mas não de maneira óbvia. Outra qualidade perceptível foi a de que na maioria dos novos lançamentos, passava a assinar The Tierney Sutton Band. Era uma evidência de que os músicos não eram meros acompanhantes. A participação de Christian Jacob é capital, tanto quanto a voz e a peculiar formação, com dois baixistas (Kevin Axt e Trey Henry), e a bateria de Ray Brinker.
Com “American Road”, assinando The Tierney Sutton Band, e “After Blue”, como Tierney Sutton simplesmente, a cantora tem conseguido boa recepção pela crítica. É uma cantora ciente da sua qualidade, demonstrando a maturidade que só o tempo traz. No primeiro explora standards de Gershwin (“Summertime”, “My Man’s Gone Now” e “It Ain’t Necessarily So”), clássicos populares como “Tenderly”, assim como canções emblemáticas do cancioneiro americano como “Amazing Grace”, “Wayfaring Stranger”, “Shenandoah” e “The Water Is Wide”. [sobre “America Road”, leia “Preciso rever os meus conceitos sobre Tierney Sutton”]
“After Blue”, o leitor mais arguto deve estar desconfiado: é um álbum com a música de Joni Mitchell. Do extraordinário “Blue”, Sutton canta a música título e “All I Want”. Apesar de não contar com sua banda de costume, os arranjos são excepcionais e originais, com a participação do Turtle Island Quartet, de Larry Goldings no Hammond B-3, Hubert Laws na flauta e Al Jarreau fazendo o duo em “Be Cool”. É um álbum tão bom quanto “River: The Joni Letters”. Recebeu 4 estrelas e meia. Próximo da perfeição.
Ouça “Woodstock”.
Veja Sutton a cantar “Don’t Go to Strangers”, no Blue Note de Milão.
Entre o pop e o jazz
Outro compositor e intérprete que fica no crossover entre a música popular e o jazz é Sting, um dos três da extinta banda pop/rock Police. Logo depois de desfeita, gravou álbuns com a presença de alguns jazzistas como Kenny Kirkland e Branford Marsalis. Mais tarde, suas ambições musicais chegaram à música erudita, tendo inclusive lançado discos pela Deutsche Grammophon. Pretensões maiores não querem dizer muita coisa em termos de qualidade superior.
As músicas mais populares de Sting, no entanto, continuam sendo as da época do Police. Composições posteriores não são melhores que “Every Breath You Take”, “Every Little Thing She Does Is Magic”, “Walking in Your Footsteps”, “Driven to Tears”,“Synchronicity I” e “Message in the Bottle”, incluídas em “The Sting Variations”, recém lançado álbum de Sutton. “If You Love Somebody Set Them Free”, “Consider Me Gone”, “Fortress Around Your Heart” e “Shadows in the Rain”são de “The Dream of the Blue Turtle”, primeiro solo do inglês.
A escolha da maioria das canções, sendo da época do Police e o álbum solo imediatamente posterior, traem o gosto de Sutton, condizente com o que acha boa parte dos fãs de Sting. De suas composições, a mais popular entre os cantores de jazz é “Fragile”. Caiu no gosto deles, não sei por que. As restantes são “Fields of Gold” e “Language of Birds”.
Ouça“Fragile”. Aqui a banda faz um medley com “Gentle Rain”, um dos maiores clássicos da música brasileira, de autoria de Luiz Bonfá. Essa faixa é um dos destaques do álbum.