quinta-feira, 23 de julho de 2015

O meu Neil Young preferido

Capa de On the Beach, de Neil Young
Meu disco preferido de Neil Young – tenho certeza – não será o da maioria dos seus fãs. A paixão por On the Beach (Reprise, 1974) vem desde seu lançamento. Antes da invenção dos CDs, eram os chamados LPs, que estão voltando à moda em edições especiais, feitos em vinis de 120 gramas. Naquele tempo, se você quisesse estar em dia com as novidades, a única saída era o aeroporto – assim mesmo bilhetes aéreos tinham preços proibitivos – ou ir até uma das poucas lojas especializadas. Para se ter uma ideia, em São Paulo, a opção única era o Museu do Disco, cujo gerente, o Odair, era conhecido por todo fanático por música. No Rio de Janeiro, tínhamos mais opções: a Modern Sound e a Billboard, ambas situadas na rua Barata Ribeiro. Considerando-se que o Museu era a única especializada em rock, o Rio disponibilizava o dobro, já que lá existiam duas. Nenhuma sobreviveu aos novos tempos, assim como a Tower, a Virgin e a HMV, fora do Brasil.

Prazer. O aspecto mágico dos LPs e que inexiste em CDs e muito menos nas imagens visualizadas nos tocadores de mp3 era (e é) a sua presença física. Manipulá-los, retirar o disco de uma capa que mede 31 x 31 cm, colocá-lo sobre o prato (é esse o nome mesmo) e pousar o braço que, em sua extremidade, possui algo chamado cápsula, com uma agulha de diamante, cuja pressão sobre o disco não passa de 2,5 gramas, é um ritual que fez parte da vida de muita gente. Um disco preto roda à velocidade de 33⅓ de rotações por minuto; antes do início da primeira música, ouvem-se chiados quase imperceptíveis: é o contato do diamante sobre o vinil. Os primeiros sons invadem a sala; daí em diante, é o deleite de você estar ouvindo música.

Voltando ao meu LP favorito de Neil Young que, salvo engano, não foi lançado no Brasil, meu encanto começou pela capa. Em primeiro plano, tem um guarda sol amarelo na parte externa com uma estampa de flores em fundo em um pouco mais escuro em seu verso. A estampa é mesma das duas cadeiras de tubos de alumínio. No lado esquerdo vê-se a ponta traseira de um carro que era conhecido como “rabo de peixe”, também amarelo. Mais ao fundo, vê-se um homem de cabelos longos vestindo camisa amarela e calça branca de costas olhando para o mar, tendo de um lado um par de botas e do outro uma outra cadeira de praia, com a mesma estampa, tipo espreguiçadeira. Certamente é Neil de costas. Quando quase todos querem mostrar seus rostos na capa, ele, aqui, prefere observar o mar. O envelope que protege o LP tem a mesma estampa de flores. Uma explicação: os discos americanos vinham com envelope de papel, enquanto que, no Brasil, eram de um plástico translúcido bem fino.

Depois que saiu do Canadá, Young formou com Stephen Stills e Richie Furay a banda Buffalo Springfield. Logo chamou a atenção por suas belas composições e a voz meio anasalada. Banda com muito cacique não dura. Músicas como Expecting to Fly, Broken Arrow, Mr. Soul são dessa época. Lançou o primeiro solo em 1968. Em seguida vieram Everybody This Is Nowhere (1969), After the Gold Rush (1970) e Harvest (1972), todos excepcionais, mas com o último, estourou. Foi o álbum mais vendido do ano nos EUA. Nesse meio tempo, passou a fazer parte do Crosby, Stills, Nash & Young, antes, Crosby, Stills & Nash. Essa sim, era uma banda de caciques. Não durou também, porém, pode ser considerada uma das melhores de todos os tempos. Stills montou o Manassas, com Chris Hillman, a banda de quatro virou simplesmente, Crosby & Nash.

Aparentemente, Neil Young não se sentia à vontade com a fama. Harvest era um álbum para cima, até onde era possível a uma personalidade como ele. É certo que uma das canções, The Needle and the Damage Done, não pode ser considerada um exemplo de canção desse tom.

Veja e ouça Neil Young em The Needle and the Damage Done, versão acústica.



Quando se esperava uma “continuação” de Harvest, Young vem com um álbum soturno, pesado, com uma capa anti-estrela. A revista Rolling Stone classificou-o como “um dos discos mais desesperançados da década”. Logicamente, vendeu bem menos que Harvest. E saiu de catálogo em 1980. Enquanto todos os antigos LPs eram relançados no formato CD, On the Beach, não foi. Virou cult e foi considerado o “álbum mais desejado que não foi lançado em CD”. Fizeram até uma petição com cinco mil assinaturas de fãs. Quase trinta anos depois de seu lançamento ganhou sua versão em CD. Antes de On the Beach, tinha gravado Tonight’s the Night, mais soturno que este, e acabou por ser lançado depois.

Ouça a música título. Ouvindo hoje, penso como gostava dessa música e do quanto ouvi em 1974 e 75.



See the Sky about to Rain.



A última do disco era a minha segunda preferida: Ambulance Blues.


terça-feira, 21 de julho de 2015

Uma noite especial com Antony

Capa do programa do show de Antony and The Ohnos
Em 1º de junho de 2010, morreu Kazuo Ohno. Cinco anos e um mês depois, seu filho Yoshito Ohno apresentou-se no Sesc-Vila Mariana, São Paulo, ao lado de Antony Hegarty e Johanna Constantine. Estivesse vivo, estaria completando 108. Atuou até os 100, sentado em uma cadeira de rodas.

O Brasil teve a oportunidade de vê-lo por três vezes. A primeira foi em 1986. Até então, poucos conheciam o butoh, movimento surgido no clima pós-guerra no Japão. Quem assistiu às apresentações de Ohno no Sesc-Anchieta foram arrebatados pela força de sua dança.

Antony, inglês de nascimento, cresceu nos EUA. Tinha 10 anos quando o pai, engenheiro, mudou-se para a Califórnia. Podemos considerá-lo um americano, portanto. Sua identidade sexual estava revelada quando tinha doze ou treze anos, segundo ele mesmo. Nunca foi uma questão tão complicada e diz que nem sofreu muito com o bullying por sua aparência andrógina. Hoje, prefere ser tratado pelo pronome feminino. Diz que é assim tratado pelos familiares e amigos. Afirma: ““ele” [he] é um pronome invisível para mim, me nega.”

Em 1990, mudou-se para estudar na New York University. Montou um grupo performático com Johanna Constantine, chamado Blacklips.

Ohno.  “A primeira vez que vi uma imagem de Kazuo Ohno foi quando eu frequentava uma escola em Angers, França, aos dezesseis anos. Fui imediatamente enfeitiçado. Quem era aquele belo ser, usando um vestido vitoriano e maquiagem pesada, pendendo em direção às estrelas?” Nem sabia quem era Ohno.

Cinco anos depois, em Nova York, assistia a um filme experimental chamado Just Visiting this Planet, de Peter Sempal: “Num certo ponto, um performer amdrógino aparece na tela dançando ao lado de um penhasco, espelhando as rochas despedaçadas com suas mãos expressivas. Fui transportado por essa graça infantil, uma graça de partir o coração: comecei a chorar. Fui para casa e fiquei chocado ao perceber que aquele homem era o mesmo do pôster sobre minha cama, agora dançando diante de meus olhos.” 

A imagem de Kazuo Ohno vestido de mulher, com uma flor presa nos cabelos, é a capa de seu CD mais conhecido: The Crying Light (Rough Trade, 2008). As outras são as da dra. Julia Yasuda, PhD. em matemática, nascida com síndrome de Kinofelter – ou 47,XXY – anomalia em que pessoas do sexo masculino nascem com dois ou mais cromossomos “x’; e a terceira é de Johanna Constantine.

Rob, Antony, Johanna e Yoshito
Antony poderia adotar seu verdadeiro nome como artista. Preferiu adicionar “Johnsons” – Antony and the Johnsons. Imagina-se que “os Johnsons” sejam os membros de uma banda. Mas não é. O “Johnsons” é uma referência à Marsha P. Johnson, drag queen americana, negra, ativista pelos direitos das minorias sexuais, que, mais tarde, morreu em decorrência da aids.

Assim como era “Johnsons”, nas apresentações no Sesc-Vila Mariana, SP, a banda virou Antony and the Ohnos. São dois os “Ohnos”: Kazuo, que aparece em cenas projetadas em uma grande tela de filó, e seu filhoYoshito em carne e osso. O terceiro “membro” é, justamente, Johanna Constantine, homônima de personagem da HQ Sandman, de Neil Gaiman, companheira de suas primeiras performances. Uma quarta figura, a única “normal”, é Rob Moose, violinista e violonista que, discretamente, senta-se ao lado de Antony.


O início. As luzes se apagam e uma música eletrônica ensurdecedora e irritante serve como fundo para a entrada de Johanna vestindo o mesmo figurino de outras apresentações: um collant branco manchado de vermelho imitando sangue que escorre do seu rosto até os seus pés, que se equilibram em um sapato que aumentam ainda mais sua estatura. Cenas do vídeo Mr. O’s Book of the Dead, com Kazuo, são projetadas. Quando sobe a cortina/tela, vemos Antony sentado ao piano, cantando os primeiros versos de Hope There’s Someone, do CD I Am a Bird Now. Emenda com You Stand Above Me.

Vê-lo pela primeira vez me causa a mesma impressão de quando pus o CD I Am a Bird Now (Secretely Canadian, 2004). Ficara encantado com a força dessa canção e a sensação vulnerabilidade e fragilidade em sua voz. Era diferente de tudo o que até então ouvira. Pensei em alguma relação com  Marc Almond. Sua figura, ao fazer uma busca na internet, era a de, segundo um amigo diria mais tarde, era a versão Boy George com alguns quilos a mais, na capa de seu disco anterior, que iria conhecer logo depois, ao recebê-lo pelo correio. 

O encarte de I Am a Bird Now mostrava uma imagem que parece a de um manequim com peitos que parecem reais, outra com os dizeres “hope” e “box 3” grafadas no que parece ser uma parede, uma foto em PB de uma loura deitada com uma rosa sobre o lençol e dois vasos de flores ladeando-a, e, finalmente, uma figura andrógina com cada olho pintado de uma cor, que era Antony.

A magia para todo fã é a de reconhecer cada canção aos seus primeiros versos e acordes. Antony, sempre ao piano, segue com My Lady Story, Cripple and the Starfish, Hope Mountain, Epilepsy Is Dancing, You Are My Sister, The Crying Light e algumas outras que não lembro. Fecha com um clássico dos anos 1930: Falling in Love Again. Certamente, a referência de Antony para essa canção deve ser a de Marlene Dietrich.

Veja Antony e orquestra na pungente Cripple and the Starfish.


Hope There’s Someone foi a faixa que abre a apresentação de Antony. Veja-o no programa de Jools Holand.



Oh! No! Onde entra Yoshito Ohno? Dançando em algumas canções. A dança de Yoshito não tem a força expressiva do pai. As entradas de Johanna – no início e no fim – também, e os trechos do vídeo, não formam um conjunto harmonioso com a música de Antony. Falta liga para os quatro elementos. Nesse sentido, o que valeu mesmo a pena, para mim e para muitos que foram assistir ao espetáculo, foi a oportunidade de ver Antony ao vivo. 

Mas tudo é estranho em Antony. Prefere ser chamada no feminino. Mas é difícil, se chama-se ainda Antony. E, apesar dos cabelos longos, não se veste como mulher – prefere calças pretas e botas –, não tem os corpos com formas femininas e tem um pouco mais de 1,8 metros. É um transgênero, enfim. É inclassificável, até musicalmente.


Veja o clipe de The Spirit Was Gone, com imagens emocionantes de Kazuo Ohno e o filho Yoshito.


Veja o clipe de Epilepsy Is Dancing, canção que fez parte do show de São Paulo.


Veja o clipe de Twilght, canção que é parte do filme Turning, de Charles Atlas, com Antony e Johanna.