quinta-feira, 25 de junho de 2015

O jazz rock revisto por Rez Abbasi

Índia, Goa, Bangladesh ou Paquistão não são países com tradição no jazz. A música dessa região exerceu forte influências na música popular ocidental, seja em suas formas mais tradicionais, por meio dos sons de Ravi Shankar e Nusrat Fateh Ali Khan ou de instrumentistas menos “puros”, como L. Shankar (nenhum parentesco com o citarista), Zakir Hussain, Badal Roy, Trilok Gurtu e Christine Correa. Esta última, nascida em Bombaim, é a única que pode ser dlassificada como “jazz”. A cantora é conhecida por dois álbuns em duo com o pianista Ran Blake. Fora do espectro da música popular, o indiano mais famoso é Zubin Mehta. De origem judaica, natural de Bombaim (atual Mumbai), é um dos maestros vivos mais respeitados.

Curiosamente, dois músicos de jazz de origem indiana estão entre os melhores atualmente: Rudresh Mahanthappa e Vijay Iyer. Ambos nasceram no mesmo ano – 1972 –, mas vieram de lugares diferentes. O primeiro nasceu em Trieste, Itália, e logo emigrou para os EUA. Vijay é de Albany. É formado em matemática e física pela Yale University. Poderia seguir uma brilhante carreira acadêmica, considerando-se o currículo, mas preferiu ser brilhante como pianista. Cada qual seguiu por uma seara, mas um dia se cruzaram lançando o brilhante Raw Materials (ACT, 2006). Apresentaram-se juntos em um dos BMW Jazz Festival, no Brasil. Na revista Downbeat, que estará nas bancas em alguns dias, Iyer é a capa. É o “Artist of the Year” pela votação dos críticos. De quebra, ganhou na modalidade “Jazz Group” e Break Stuff (ECM, 2015) ficou em sétimo entre os discos do ano. Mahantappa não ficou atrás: Bird Calls (ACT, 2015) foi considerado o “Record of the Year”. Leia sobre Bird Calls em http://bit.ly/1RtjEfM.

Como Rudresh Mahanthappa, Rez Abbasi não é americano por acidente. Nasceu em Karachi, Paquistão, país de maioria muçulmana. É paquistanês, como foi dito, por um acidente geográfico. Sequer fala a língua pátria. Ao contrário do primeiro, não se interessou pelas formas musicais indianas. Seu gosto moldou-se pela música ocidental.

Como nasceu em 1967, na adolescência estava gostando da geração que se firmava fazendo um jazz pós-Bitches Brew, eletrônico, com influências da sonoridade do rock e menos no jazz mainstream. É um diferencial relevante. Seus ídolos declarados em seu instrumento são Pat Metheny, Bill Frisell e Jim Hall. E deve ter crescido ouvindo Chick Corea e Herbie Hancock em suas fases jazz-rock, Weather Report, John McLaughlin e outras bandas que se projetaram nos anos 1970 e 1980.

O referência do mais recente álbum de Abbasi é justamente essa música que ouviu na adolescência. A pedra de toque de Intents and Purposes (Enja, 2015) é a de reinterpretar clássicos do jazz eletrônico apenas com instrumentos acústicos. Seu “acoustic quartet” é composto por ele no violão, Bill Ware no vibrafone, Stephan Crump no contrabaixo e Eric McPherson na bateria. Boa sacada.

Na lista estão clássicos do Weather Report (Black Market), Herbie Hancock (Butterfly), Pat Martino (Joyous Lake), Mahavishnu Orchestra (Resolution), Return to Forever (Medieval Overture), Billy Cobham (Red Baron), Larry Coryell (Low-Lee-Tah) e Tony Williams (There Comes a Time).

Intents and Purposes é um prato cheio para os fãs do Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, e do Return to Forever, de Chick Corea, Al Di Meola, Stanley Clarke e Lenny White.

Ouça Black Market na interpretação acústica do Rez Abbasi Acoustic Quartet.




Veja o Weather Report em apresentação em Montreux executando Black Market.





A melhor faixa do CD de Abbasi é Medieval Overture. Ouça.






Ouça no original do Return to Forever. A guitarra é de Al DiMeola.







terça-feira, 23 de junho de 2015

Mais um álbum póstumo de Charlie Haden

É oito ou 80. Gonzalo Rubalcaba toca com rapidez estonteante, a ponto de nos deixar tontos, ou toca tão lentamente, que nos causa sono. Claro. Há exceções, dentre elas seu último Suite Caminos, um retorno às raízes cubanas. É um CD um tanto esquisito, na acepção do termo em português, e não na que nomeia alguns bons charutos cubanos – “exquisitos” –, termo usado quando o objeto é de grande refinamento ou de muito bom gosto.

Rubalcaba é o nome do tornado vindo de Cuba e arrebatou críticos e amantes do jazz. Todos foram pegos de surpresa. Quem era aquele pianista que tocava tão bem e parecia ter surgido do nada? Sua apresentação em Montreux, em 1990, virou disco e, apropriadamente chamou-se Discovery. O trio era ele, Charlie Haden e Paul Motian. O baixista o conhecia desde que havia se apresentado em um festival de música em Cuba.

A amizade musical entre Haden e Rubalcaba persistiu por muitos anos. Depois de Montreux, reencontraram-se em várias oportunidades. Haden participou de The Blessing (Blue Note, 1991), Suite 4 y 20 (Blue Note, 1992), Imagine (Blue Note, 1994). Rubalcaba participou das gravações de Nocturne (Verve, 2001), Land of the Sun (Verve, 2004) e de The Montreal Tapes, registrado em 1989 e lançado em 1994. A série The Montreal Tapes é composta de gravações feitas na ocasião em que Haden era o homenageado. Em cada noite o convidado (ou convidados) era algum músico que tocara anteriormente com ele.

Depois da morte dele, em julho do ano passado, foram lançados alguns discos com registros mais antigos. O primeiro foi Goodbye (ECM, 2014), duo com Keith Jarrett, depois foi a vez de Charlie Haden – Jim Hall (Impulse, 2014). Agora, em junho, sai Tokyo Adagio, duo com Gonzalo Rubalcaba. Os registros foram retirados de duas apresentações no Blue Note de Tóquio em 2005.

Naturalmente, não faltam números latinos. Além de En la orilla del Mundo e Solamente Una Vez, temos um standard (My Love and I), uma composição de Ornette Coleman (When Will the Blues Leave), um tema do cubano (Transparence), e Sandino, dos dois.

En la Orilla del Mundo e Transparence são de Nocturne, e Solamente Una Vez, de Land of the Sun. Até um tema de andamento médio, como When Will the Blues Leave, de Coleman, fica lento. O “adagio” do título até poderia ser trocado por “largo”. O tom das músicas segue o gosto de Haden. Ele sempre gostou de andamentos lentos que tendem à melancolia. É só ouvir os álbuns do Quartet West, a sua banda retrô.

E não é à tôa que a melhor faixa é My Love and I, anteriormente gravada em Always Say Goodbye (Verve, 1993), com o Quartet West. O tema do filme Apache, é de Johnny Mercer, David Raksin. Ouça.



Ouça Sandino.





Tokyo Adagio é o segundo lançamento de Charlie Haden do selo Impulse, que estava desativado há um bom tempo, depois de ter sido responsável – há muito tempo – de gravar o melhor John Coltrane. O primeiro foi o duo com o também falecido Jim Hall. Os dois álbuns não são os únicos lançados por este selo. Liberation Music Orchestra, de 1969, é um dos grandes discos do baixista. Este faz parte de sua faceta “engajada”. Seu engajamento político de inclinações esquerdistas resultou em grandes discos. Além deste, o grande destaque é The Ballad of the Fallen (ECM, 1982). Dizem que arte engajada nem sempre dá em grande coisa. Nesse caso, deu certo. Leia mais sobre essa fase de Charlie Haden em http://bit.ly/1SF0SV8.