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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Lyle Mays morre

Lyle Mays e Pat Metheny, quando pareciam ter vindo diretamente de “Wayne’s World”.

Há tempos não ouvia falar de Lyle Mays. Quando ouço — ou melhor, leio no zap por meio de um amigo —, é para saber que morreu. Segundo os noticiosos, sucumbiu a uma "longa batalha contra uma doença recorrente", em 10 de fevereiro, em Los Angeles.

Lyle ficou conhecido depois que passou a participar da banda de Pat Metheny. Este último, depois de ter tocado com Gary Burton em dois álbums pela ECM, lançou o primeiro como líder “Brigth Size Life”, em brilhante formação jazz trio, com o ainda pouco conhecido Jaco Pastorius e Bob Moses. Logo depois, em 1977, foi a vez de “Watercolors”, outro grande disco, com Eberhard Weber, Dan Gottlieb e Lyle Mays. Foi a primeira vez que ouvi falar dele. Este, menos jazz que o primeiro, enveredava por paisagens sonoras erigidas por violões e guitarras, o contrabaixo lúgubre de Eberhard Weber e o piano discreto de Mays. Todas as composições eram de Pat. A sonoridade de sua guitarra influenciou muitos, inclusive o brasileiro Toninho Horta, que chegou a contar com sua participação em um disco de 1990, em “Manoel, o Audaz” e “Prato Feito”.

Depois de “Watercolors”, em que Mays tem uma participação discreta, Metheny formou um quarteto com ele, Mark Egan e o mesmo Gottlieb. É de 1978 “Pat Metheny Group”. Juntos, lançaram mais um: “American Garage” (1979). Bem roqueiro, foi quando Pat tornou-se super conhecido. Tive a felicidade de vê-los no festival de jazz que aconteceu no Rio de Janeiro, em 1990, se não me engano. O jazz rock estava no auge. Na mesma ocasião assisti a uma apresentação inesquecível do Weather Report, com Jaco Pastorius arrasando.

Entre um e o outro, Pat e Lyle fizeram um disco primoroso: “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls”. Lyle toca piano, órgão, sintetizadores, todos os teclados. Acho que deve ter sido a melhor coisa que fez. E de Pat, uma das melhores. É uma música climática, de momentos intensamente belos e dramáticos, de poesia pura. Que pianista foi Lyle! Contando com a preciosa e criativa percussão de Naná Vasconcelos, esse é um disco que nunca vou cansar de ouvir.

Pela ECM ainda, em 1982, o Pat Metheny Group lançou “Offramp”, em 1983, o ao vivo “Travels”, e em 1985, “First Circle”. Os dois continuaram juntos, já em outro selo, a Geffen Records:  “Still Life (Talking) (1987), “Letter from Home” (1989), “We Live Here” (1985), “The Road to You” (1993), “Quartet” (1996), “Imaginary Day” (1997), “Speaking of Now” (2002) e “The Way Up” (2005). Os dois, ainda, são autores da trilha sonora de “The Falcon and the Snowman” (1985). 

De Lyle, como líder, ouvi apenas “Fictionary” (Geffen 1983). Nunca mais soube dele, fora como membro do grupo de Pat Metheny. Só agora. Estou a ouvir todos os que gravou com Pat, no meu amplificador valvulado, com muitas saudades das sensações que tive à época em que ouvi esses discos pela primeira vez, e de lembranças de um tempo em que achei que era mais feliz do que hoje. E isso me causa uma certa dor. Acho que não tem melhor homenagem que dizer isso sobre aquele magrelão de cabelos rebeldes que vi um dia tocar no Rio de Janeiro.

Nesse momento, gostaria que todos estivessem fazendo o mesmo que eu. Ouvir Lyle com Pat. Ouça o álbum “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls”, no Spotify.







quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O duo perfeito de Sean Foran e Stuart McCallum


Para os que leram a postagem de duas semanas atrás, esta é uma continuação. Nã exatamente, mas é por ser sobre um álbum em que tocam juntos de novo. Chama-se “Counterpart”, lançado neste ano.

Sobre Foran. Natural da Austrália, ficou conhecido pelo trio Trichotomy, dele com Samuel Vincent e John Parker, em 1999. Além da fama local, encontraram boa acolhida na Inglaterra.

Sobre McCallum. O inglês é um dos bons guitarristas da nova geração. Eclético, tocou com músicos associados ao jazz — John Surman, Kenny Wheeler, Ira Coleman e Ari Koenig, dentre outros —, mas seu universo não se restringe apenas a esse gênero. Participou também em projetos de Björk, Manu Delago e José James, dentre outros. Em seu interessante álbum solo “City” (2015), envereda pelo terreno do pop. Em outro, divide a liderança com Mike Walker — “The Space Between” (2016) —, interessante diálogo de guitarras, com o último na guitarra, e McCallum ao violão e instrumentos eletrônicos. Há o acréscimo de um quarteto de cordas em quatro números.

“Counterpart”. O disco pode ser ouvido, praticamente, como uma continuação, como escrevi sobre “Frame of Reference”. É a mesma guitarra climática, intervenções belas e econômicas ao violão sem floreios entremeado de sonoridades brilhantes. Neste Foran toca também piano elétrico. O Fender Rhodes aparece pouco, e serve para dar um colorido suplementar.

“Stasis” é um início espetacular. As poucas notas do piano elétrico se fundem de modo quase imperceptível ao solo de Sean, para depois entrar o violão, e  Stuart voltando ao tema principal, na guitarra, beiram a perfeição.

Na maior parte do tempo, ambos, com Sam Vicary no contrabaixo e John Parker na bateria, nos levam a temas noturnos, como noites, que, em alguns momentos, vemos estrelas a brilhar no céu outonal. É assim com “November”, “While the Trees Waltz”. Em “Panorama”, McCallum é primoroso. Umas poucas notas no piano elétrico fecham o tema. “Triple Bypass” evoca algum tempo passado ou remoto. Sean e Stuart, sem volteios delirantes, com simplicidade impressionante e sonoridades belas nos levam a um mundo inaudito, que não habitamos antes. O que fazem é poesia sonora.

Ouça o álbum. Preste atenção na guitarra na faixa final. É uma bela conclusão.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Sean Foran e a melancolia


Pelo dicionário de Antonio Houaiss, a melancolia pode ser um “estado afetivo caracterizado por profunda tristeza e desencanto geral”, e, por extensão, “sentimento de vaga e doce tristeza que compraz e favorece o devaneio e a meditação.” Tentemos ver então como um “sentimento de vaga e doce tristeza”. Bom, mas existe uma “doce tristeza”? A tristeza é quase sempre amarga. No máximo então, vamos considerar a melancolia como um estado que, não sendo antônimo efetivo de “alegria”, seja aquele em que entramos em “um sentimento de vaga e doce tristeza”, tristes até, mas não tanto como o jovem Werther, personagem de Goethe. Tentemos então como algumas das belas passagens das três últimas sonatas de Franz Schubert.

Permito-me a entrar em outra seara: artistas que nos levam à melancolia e à tristeza não são, necessariamente, melancólicos e tristes.Confunde-se comumente a obra com o autor. Não necessariamente um gênio é um bom caráter, boa gente. Fala-se bastante de que Pablo Picasso, além de misógino, foi um mau pai. A dramaticidade de um lied de Schubert, como em “Im Abendrot”, ou “Die liebe hat gelogen”, no melancólico “Andante con moto” do “Piano Trio no. 2, op. 100”, não combinam com a história do compositor austríaco, bon vivant, que vivia às custas dos amigos ricos, e teve a morte prematura em consequência da sífilis. Isso não combina exatamente com suas composições sublimes, ternamente melancólicas.
Essa breve digressão é em razão do início de “Room with a View”, primeira faixa de “Frame of Reference”, do australiano Sean Foran, lançado em 2016. Nessa canção, iniciada com arpejos de Foran ao piano, é seguida de timbres melancólicos do violoncelo de Ben Davis e da guitarra atmosférica de Stuart McCallum, que entra logo a seguir, enriquecida com a bateria de Joost Hendricks. No todo, é um tema em que os instrumentos interagem em perfeita harmonia, melodicamente rica, colorida, em que as luzes solares atravessam nuvens escuras.

Os arpejos de Sean Foran ao piano assemelham-se com a sonoridade do guitarrista Pat Metheny. A comparação não tem o propósito do demérito, pois ele mesmo citou o americano como influência musical. Lembro da época em que Pat tinha o tecladista Lyle Mays como seu parceiro musical. 

Uma boa imagem de como as composições de Foran evoluem — li em uma resenha não assinada e me permito citá-la — como o desabrochar de uma flor. Ao som de seu piano, entrelaçam-se a guitarra, o violoncelo e o saxofone de Julian Argüeles. Tudo é finamente construído, combinando lirismo, melancolia, climas cinematográficos — penso numa paisagem a percorrer o meu horizonte visual —, que encantam por sua beleza impressionista. “A Room with a View”, “Frame of Reference”, “A Fine Balance”, essas três, penso eu, combinam bem com o que tentei expressar nesse breve texto.


Ouça o álbum.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Gustavo Pinheiro e o Art Ensemble of Chicago que não vimos

Eram raras as apresentações de músicos de jazz no Brasil antes da criação dos festivais. Mesmo assim, músicos do quilate de Miles Davis e Bill Evans estiveram por aqui. No I Festival São Paulo-Montreux, em 1978, em uma só leva vieram Benny Carter, Dizzy Gillespie, Frank Rosolino, Harry Sweets Edison, Zoot Sims, Milt Jackson, Jimmie Rowles, Chick Corea, Larry Coryell, Philip Catherine, Ray Brown, Mickey Rocker, George Duke, John McLaughlin, Hermeto Pascoal, Helio Delmiro, Luiz Eça, Etta James, Raul de Souza, Marcio Montarroyos, Stan Getz e Ahmad Jamal. Depois disso, entramos no primeiro mundo da música.

Em 1980, a antiga capital do Brasil montou o seu Rio Jazz Monterrey Festival. E as atrações não ficavam nada a dever à edição paulista de Montreux. Constavam da lista Weather Report, considerada a melhor banda do chamado jazz fusion, o “iniciante” Pat Metheny, o ex-pianista de John Coltrane, McCoy Tyner, e uma das mais conhecidas formações da avant-garde, o Art Ensemble of Chicago. Era um a programação menos mainstream do que a de São Paulo.

Não que a experiência de ver Gillespie, Frank Rosolino ou o pianista Ahmad Jamal, venerado por Miles Davis, não tivesse sido sublime. Aqui entra o Gustavo Pinheiro.

Meu amigo Domingos Darsie estudava arquitetura em Mogi das Cruzes. Por ele, conheci o Guga. Logo, por conta de gostos comuns – charuto e jazz –, ficamos amigos. Tínhamos duas paixões em comum: Ben Webster e Coleman Hawkins. Ficávamos ouvindo os discos que gravaram pelo selo Verve identificando os solos de cada um. O Guga era a única pessoa conhecida que possuía um Selmer Mark VI, o rei dos saxofones. Para a sua infelicidade, todo mundo queria “tocar” um pouco no Selmer. Ele colocava uma palheta Vandoren mais usada e deixava, fazendo cara de poucos amigos.

Ouça Rosita, com Ben Webster e Coleman Hawkins.




Ao sabermos do festival que aconteceria no Rio, combinamos de ir. O Domingos era uma peça chave na história: apesar de detestar pop e jazz e ter uma paixão doente por música erudita tinha que topar em ir conosco. Sua tia era dona de um pequeno quarto e sala na rua Barata Ribeiro. Bom, mas éramos três: eu, o Guga e o “dono”. No quarto havia uma cama de casal e um sofá na sala. O Domingos já foi falando que a cama de casal era dele. Como disse, era o “dono”. De três, passamos para cinco. A Marcia G, colega de turma dos dois na faculdade, estava no Rio e decidiu ficar conosco. A Marcia conhecia o Pipoca, diretor de TV dos shows musicais da TV Cultura, que não tinha onde se hospedar. Imagine cinco em 30 metros quadrados, se tanto. Mas tudo valia para ver o Weather Report no seu auge, com Wayne Shorter, Joe Zawinul, Jaco Pastorius e Pater Erskine. Outra grande atração aguardada com ansiedade era o Art Ensemble of Chicago.

O Rio de Janeiro era (é) uma festa. O festival aconteceu no Maracanãzinho. A acústica era péssima. Shows mais pesados como a do Weather Report, tudo bem, ouvia-se. O de McCoy Tyner, um dos que aguardávamos com expectativa, foi um desastre. Não se ouvia nada. A maioria dos que estavam lá não estavam nem um pouco interessados em ver o grande pianista das melhores formações de John Coltrane. Ouvia-se mais aquele burburinho de muita gente falando alto. Aqueles paulistas branquelos queriam ouvir música. Mas compensou pelo número de gente bonita e bronzeada. Os patins estavam na moda. E as meninas deslizavam seus pares de pernas pelo Maracanãzinho. Nem precisava de música.


Pat Metheny e Weather Report
Zezé Motta subiu ao palco para apresentar um “gato” (na opinião dela, claro). Era o Pat Metheny. O quase garoto de pouco mais de vinte anos já era um sucesso, conhecido até no Brasil, em razão de terem sido lançados alguns itens da ECM. O álbum mais “roqueiro” dele – American Garage – tinha acabado de ser lançado. E foi sucesso mundial. Ficou conhecido como um dos guitarristas da banda de Gary Burton. O primeiro solo – Bright Size Life –, justamente, com Pastorius no baixo, hoje, é considerado um clássico. (sobre esse álbum, leia: http://bit.ly/1b8NRAH)

Ouça American Garage, de Pat Metheny.




O Rio foi uma das cidades que fez parte da turnê do Weather Report e resultou no álbum duplo 8:30. Com Pastorius, a apresentação foi antológica, como era de se esperar. Leia em http://bit.ly/18QHIDn.

Veja o solo de Jaco Pastorius no baixo Fender fretless. Foi um dos pontos altos do Festival do Rio.




Art Ensemble of Chicago

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A AACM – Association for the Advancement of Creative Musicians – é uma organização criada em Chicago pelo pianista Muhal Richard Abrams, Jodie Christian, Steve McCall e Phil Cohran. Uma verdadeira constelação do jazz moderno e do avant garde é egressa da associação. Passaram por lá Jack DeJohnette, Leroy Jenkins, Chico Freeman, Anthony Braxton e Wadada Leo Smith. Duas bandas importantes surgiram lá: o Air (Henry Threadgill, Fred Hopkins, Steve McCall) e o Art Ensemble of Chicago (Lester Bowie, Roscoe Mitchell, Joseph Jarman, Famodou Don Moye, Malachi Favors).

Pouco antes do Festival tinham lançado Nice Guys, do AEC. Era um som de vanguarda mas sem a aridez de um Peter Brötzmann ou um Cecil Taylor. Era avant garde com humor, interessante. Diziam que suas apresentações eram acontecimentos. Roscoe Mitchell era o mais discreto. o trumpetista Lester Bowie apresentava-se invariavelmente vestindo um jaleco branco, iguais aos dos enfermeiros, e os três restantes vestiam roupas de inspiração africana e pintavam seus rostos. 

Dias antes ficamos sabendo que o Art Ensemble havia cancelado a vinda para o Rio, para nossa frustração. Estávamos ávidos por vê-los. Fora isso, a viagem ao Rio foi muito boa.

Ouça Nice Guys.



Veja um trecho de uma apresentação do AEC, de 1981.







terça-feira, 30 de abril de 2013

Pat Metheny, o professor Pardal do jazz

A música de Pat muda, o cabelo continua igual
Hoje, um senhor de 58 anos, Pat Metheny continua músico irrequieto ou, como se dizia antigamente, “não sossega o facho”. Seu último projeto chama-se “Orchestrion”. É uma coisa meio de “professor Pardal” (era um inventor desastrado, personagem da Disney).

No encarte do primeiro álbum, de 2010, conta que quando passava férias na casa dos avós, em Manitowoc, Wisconsin, divertia-se com seus primos brincando com a coleção de cerca de 50 “piano rolls” que o avô Delmar Bjorn Hansen possuia. Para quem não conhece, no início do século XX tornou-se moda um piano preparado para tocar peças musicais sem a necessidade de um instrumentista. As músicas eram gravadas em rolos de papel perfurado. Há registros de gravações de George Gershwin, Maurice Ravel, Claude Debussy, Prokofiev, Jelly Roll Morton e de muitos outros nesse tipo de mídia. As perfurações em rolos ou fitas, no fundo, são precursores das fitas magnéticas e discos rígidos dos nossos atuais computadores. O “cérebro” das antigas máquinas de calcular eram fitas perfuradas. Todas as operações matemáticas eram programadas nelas.

Como é complicado explicar o que são esses pianos, veja um em funcionamento. A música é Swanee, de George Gershwin.




Metheny sempre teve gosto pelas experiências, não só musicais. A fim de explorar novas sonoridades encomendou um violão para a luthier Linda Manzer com 42 cordas. Veja-o tocando no Pikasso (é o nome do modelo).




Nas liner notes do álbum Orchestrion fala sobre o projeto:
“‘Orchestrionics’ é o termo que estou usando para descrever o método de desenvolvimento de uma música orientada à orquestração usando instrumentos musicais acústicos e eletro-acústicos que são mecanicamente controlados por uma variedade de meios usando solenóides e ar comprimido [pneumatics]. Com uma guitarra, caneta ou teclado eu sou capaz de criar um detalhado ambiente composicional ou, espontaneamente, improvisar com as peças sobre esta gravação em particular, mais inclinada para o lado da composição do espectro [leaning toward the compositional side of the spectrum]. Pat afirma que “o projeto é resultado de um sonho longamente acalentado que remonta a minha juventude.”

Obs: nas chaves deixei as partes em inglês que tive dificuldades em traduzir.

São dois os discos do projeto. O primeiro, Orchestrion, foi lançado em 2010, e agora em 2013, Orchestrion Project. Como tem dito, não deixará de atuar e gravar nos formatos tradicionais (solo, duetos, trios, quartetos, quintetos etc.). Na apresentação que fará no Brasil no BMW Jazz Festival, virá com a Unity Band. Não sei se os músicos que virão serão os mesmos do álbum (Chris Potter no sax, Ben Williams no baixo e Antonio Sánchez na bateria). Se for, o espetáculo está garantido. Veja o restante da programação do BMW em http://abr.ai/110mIqu.


Pat fala do projeto Orchestrion.




A engenhoca em funcionamento. Veja.




Veja Pat executando um trecho de Improvisation #2, que está no último Orchestrion Project.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Céu de brigadeiro na vida de Pat Metheny

Pat Metheny e Toninho Horta (ac Museu Clube da Esquina)
Pat começou a despontar no quinteto de Gary Burton. Participou de Ring (ECM, 1974) e Dreams So Real (ECM, 1975). São dois belíssimos álbuns de uma banda composta de duas guitarras, a dele e a de Mick Goodrick.
O rapaz era tão bom que lhe foi dado a chance de gravar um disco sob seu nome. Bright Size Life (ECM 1975) é um clássico. É excepcional em vários sentidos. Primeiro, pela qualidade dos músicos. A guitarra de Metheny é única e o baixista, bem, nem é preciso falar. Jaco Pastorius é outro que “reinventou” o som do baixo elétrico. Os dois gravaram juntos pela primeira vez acompanhando o pianista Paul Bley em disco lançado em 1974 pela Improvising Artists. A partir daí, foi só céu de brigadeiro. Ao sabor dos ventos, em cada disco lançado experimenta viajar por caminhos diferentes.

Ouça Bright Size Life na íntegra. Obra de arte.




Sendo o primeiro solo e tão bom, ficou a pergunta se conseguiria realizar outros com a mesma qualidade ou melhores. Quase chegou lá com Watercolors (1977). Diferentemente do anterior, solar, este é melancólico. É também o início de uma parceria profícua com o tecladista Lyle Mays. Nesse tempo em que ficou contratado pela ECM gravou um disco solo, só nos violões, guitarras e baixo (New Chatauqua, 1979), um duo com Mays e participação especial de Naná Vasconcelos (As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls), outros como o Pat Metheny Group (1978), Offramp (1981), Travels (1983), First Circle (1984) e American Garage (1979). Este vendeu bastante e é o disco mais “roqueiro” de Pat.

Ouça As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls, com Pat Metheny nas guitarras e baixo, e Lyle Mays nos teclados. É muito bom!




Além desses, gravou um duplo excepcional – 80/81 –, com Michael Brecker, Dewey Redman, Charlie Haden e Jack DeJohnette, e Rejoicing (1984), com Haden e Billy Higgins. Já na nova gravadora, a Geffen Records, com Haden, Ornette Coleman, Jack DeJohnette e Denardo Coleman, lançou o excepcional Song X. Naturalmente, as composições são do saxofonista, sendo quatro das oito em parceria com Pat. Atualmente, grava pela Nonesuch.

Muito ativo, Pat gravou muitos álbuns em que não é o líder sozinho. É uma constelação de nomes da primeira linha do jazz: Joshua Redman, Sonny Rollins, Michael Brecker, Charlie Haden, John Scofield, Jim Hall, Michael Brecker, Anthony Braxton, Herbie Hancock, Dave Holland, Dave Liebman e Brad Mehldau, dentre outros. Seu amor especial pelo brasileiro está impresso em gravações com Toninho Horta, Milton Nascimento, Ricardo Silveira, Túlio Mourão e Leila Pinheiro.

Ouça Prato Feito, de Toninho Horta e Ronaldo Bastos, com a participação de Metheny.



terça-feira, 3 de abril de 2012

Dá pra reinventar Garota de Ipanema?

A Garota de Ipanema virou cinquentona, digo da música, bem entendido. Quantos anos terá a garota que inspirou Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes? Bom, isso não vem ao caso. Há 50 anos, João Gilberto e Os Cariocas apresentaram a Garota em um pequeno show em Copacabana. Pery Ribeiro foi o primeiro a gravá-la em disco. Até, por isso, essa música era o tour de force do filho de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, morto há pouquíssimo tempo. Em 1967, foi a vez de Frank Sinatra gravá-la com o jovem Jobim. Muitos devem ter visto a apresentação dele no programa televisivo de Sinatra (está no DVD A Man and His Music + Ella + Jobim). “O instrumento: o violão; a batida: bossa-nova; o artista: um dos que inventou esse novo e emocionante som” : Jobim é assim anunciado.

Frank e Tom
Um espertalhão americano criou a versão em inglês e ela virou The Girl from Ipanema. Ficou riquíssimo com essa e outras canções de Jobim, em versões, às vezes sofríveis. Como Marilyn e Alan Bergman, que se tornaram quase versionistas exclusivos das melhores canções francesas, Ray Gilbert o foi das músicas brasileiras da época da bossa-nova.

Foi marcada de touca de um músico que não devia estar tão preocupado com o dinheiro; se bem que existe aquela história, contada até pelo próprio compositor, de quando foi convidado a fazer um trabalho com Vinícius.

Em Em Minas ao Vivo, CD que foi lançado postumamente, com Jobim ao piano, em clima informal, fala bastante e, inspirado pelo lugar em que está, conta um monte de “causos”. Uma delas se refere, justamente, à história do “dinheirinho”: “O Lúcio Rangel me apresentou ao Vinícius, […] que me levou ao grande mundo carioca, em casas com pianos de cauda e aquelas senhoras bonitas, bem lavadas. […] Eu andava com uma pastinha cheia de arranjos, competindo com o aluguel. Perguntei: — Escuta, tem um dinheirinho nisso? O Lúcio ficou escandalizado: — Ô, Tom, esse aí é o poeta Vinícius de Moraes. Eu digo: — Ah, bom.” Vinícius estava procurando um parceiro para Orfeu da Conceição.

Em pouquíssimo tempo, Jobim não teve mais de brigar pelo “dinheirinho” do aluguel; e como João Gilberto, foi morar nos EUA. Outros fizeram o mesmo e surfaram na onda da bossa-nova. O mundo gravou Tom. Depois de tanto tempo, é natural que esse “mundo” encolha. Segundo matéria publicada em 18 de março em O Estado de S. Paulo, assinada por Roberta Pennaforte, pelos dados da Universal Music, editora de Garota de Ipanema, são 1.571 gravações em inglês contra 430 em português. Ainda, segundo a jornalista, Corcovado, Samba de uma Nota Só e Águas de Março, atualmente, são mais solicitadas do que Garota de Ipanema.

Apesar de as composições de Jobim serem basicamente “músicas com letra”, devido à riqueza melódica e harmônica, são veículos perfeitos para serem interpretadas apenas instrumentalmente. Muitas músicas de Tom viraram standards e são tocadas à exaustão por músicos de jazz. Em um terreno em que o que vale é o improviso, os temas do brasileiro são perfeitos.

Das últimas Garotas, por ser tão heterodoxa, uma me chamou a atenção: a de Pat Metheny em What It All About (Nonesuch, 2011). É um disco-solo do americano. Não é o seu primeiro. Pat explora ao máximo as possibilidades do violão e da guitarra e é músico audacioso e desassossegado, sempre inovador. Goste-se ou não, Pat “desconstruiu” Garota.

Ouça.



Outra recente é a da cantora Lisa Lindsley. Poucos a conhecem, inclusive eu. Como a bela loura gravou Garota, vamos ouvi-la. Está em seu disco de estreia Everytime We Say Goodbye. Não se destaca em relação aos milhares de outros registros, mas o piano de George Mesterhazy é muito bom. O CD ganhou 3 estrelas pela Downbeat, o que não significa muita coisa.

Ouça.



Tom Jobim e Frank Sinatra. No medley: Change Partners, I Concentrate on You e The Girl from Ipanema.