quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Sean Foran e a melancolia


Pelo dicionário de Antonio Houaiss, a melancolia pode ser um “estado afetivo caracterizado por profunda tristeza e desencanto geral”, e, por extensão, “sentimento de vaga e doce tristeza que compraz e favorece o devaneio e a meditação.” Tentemos ver então como um “sentimento de vaga e doce tristeza”. Bom, mas existe uma “doce tristeza”? A tristeza é quase sempre amarga. No máximo então, vamos considerar a melancolia como um estado que, não sendo antônimo efetivo de “alegria”, seja aquele em que entramos em “um sentimento de vaga e doce tristeza”, tristes até, mas não tanto como o jovem Werther, personagem de Goethe. Tentemos então como algumas das belas passagens das três últimas sonatas de Franz Schubert.

Permito-me a entrar em outra seara: artistas que nos levam à melancolia e à tristeza não são, necessariamente, melancólicos e tristes.Confunde-se comumente a obra com o autor. Não necessariamente um gênio é um bom caráter, boa gente. Fala-se bastante de que Pablo Picasso, além de misógino, foi um mau pai. A dramaticidade de um lied de Schubert, como em “Im Abendrot”, ou “Die liebe hat gelogen”, no melancólico “Andante con moto” do “Piano Trio no. 2, op. 100”, não combinam com a história do compositor austríaco, bon vivant, que vivia às custas dos amigos ricos, e teve a morte prematura em consequência da sífilis. Isso não combina exatamente com suas composições sublimes, ternamente melancólicas.
Essa breve digressão é em razão do início de “Room with a View”, primeira faixa de “Frame of Reference”, do australiano Sean Foran, lançado em 2016. Nessa canção, iniciada com arpejos de Foran ao piano, é seguida de timbres melancólicos do violoncelo de Ben Davis e da guitarra atmosférica de Stuart McCallum, que entra logo a seguir, enriquecida com a bateria de Joost Hendricks. No todo, é um tema em que os instrumentos interagem em perfeita harmonia, melodicamente rica, colorida, em que as luzes solares atravessam nuvens escuras.

Os arpejos de Sean Foran ao piano assemelham-se com a sonoridade do guitarrista Pat Metheny. A comparação não tem o propósito do demérito, pois ele mesmo citou o americano como influência musical. Lembro da época em que Pat tinha o tecladista Lyle Mays como seu parceiro musical. 

Uma boa imagem de como as composições de Foran evoluem — li em uma resenha não assinada e me permito citá-la — como o desabrochar de uma flor. Ao som de seu piano, entrelaçam-se a guitarra, o violoncelo e o saxofone de Julian Argüeles. Tudo é finamente construído, combinando lirismo, melancolia, climas cinematográficos — penso numa paisagem a percorrer o meu horizonte visual —, que encantam por sua beleza impressionista. “A Room with a View”, “Frame of Reference”, “A Fine Balance”, essas três, penso eu, combinam bem com o que tentei expressar nesse breve texto.


Ouça o álbum.


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