Em um post de algumas semanas, escrevi sobre o álbum de Akua Dixon, lançado em 2015. Outra violoncelsta que merece alguns comentários é Tomeka Reid. Ligada à cena jazzística de Chicago, cidade para a qual mudou-se em 2000, naturalmente, pendeu para uma música mais associada ao avant garde. Tocou com Anthony Braxton, Roscoe Mitchell, Jason Adasiecwicz e, recentemente, participou da Intergalactic Beings, da flautista Nicole Mitchell e sua Black Earth Ensemble, em 2014.
Perto de completar 40 anos, Tomeka Reid Quartet é seu primeiro disco como líder. Vem acompanhada de uma banda de primeira, a começar por Mary Halvorson, a grande sensação da nova geração de guitarristas, junto com Julian Lage. O quarteto é completado pelo contrabaixista Jason Roebke e o baterista Tomas Fujiwara. São todos músicos de primeira.
Não tinha ouvido falar de Tomeka até vê-la tocando com a cantora Dee Alexander em um festival de jazz. A partir desse momento, passei a prestar atenção.
Veja Reid tocando com Dee Alexander no festival de jazz que aconteceu em São Paulo e Rio de Janeiro em 2010.
Veja Reid, no mesmo festival, com Dee cantando C U on the Other Side.
Ouça The Lone Wait, um dos destaques de Tomeka Reid Quartet.
Ouça Glasslight, que faz parte do disco, em uma apresentação em Chicago.
Ao vermos Sol Gabetta, Anne Gastinel, Nina Kotova ou Ophélie Gaillard tocando é possível imaginar que o violoncelo é um instrumento que combina perfeitamente com mulheres. A imagem delas tocando algo que se aproxima da forma humana, com suas curvas que se encaixam entre as pernas é muito sugestiva.
Ao contrário da fantasia humana, principalmente masculina, poucas mulheres além das citadas, notabilizaram-se ao violoncelo, com exceção de Jacqueline DuPré, que, infelizmente, teve que parar de tocar no auge de sua carreira, quando brilhava em um universo exclusivamente masculino. Aos 26 anos, percebeu os primeiros sinais de esclerose múltipla. Bonita e carismática, casada com outro jovem talento, o pianista Daniel Barenboim, tocava em um raro Stradivarius presenteado por alguém que nunca se soube quem foi. A jovem DuPré começava a brilhar em um instrumento que tinha Pablo Casals, Pierre Fournier e Paul Tortelier como grandes virtuoses.
O violoncelo e o jazz
Se o violoncelo tem esse protagonismo na música clássica, no jazz é quase um intruso. É o irmão menor de um instrumento primordial, o contrabaixo. Pelo tamanho, são poucas as mulheres a tocá-lo. A exceção, nos tempos atuais é Esperanza Spalding. Mas se você prestar atenção, perceberá que sempre toca com sapatos ou sandálias com salto para poder tocá-lo de pé.
Um dos pioneiros no violoncelo foi Oscar Pettiford. Ocasionalmente, Charles Mingus e Ron Carter, trocaram o contrabaixo por ele. Curiosamente, violoncelistas no jazz são músicos mais associados à avant-garde. Abdul Wadud, Tomeka Reid e Diedre Murray são os mais conhecidos. O primeiro participou de gravações de Arthur Blythe, James Newton, Anthony Davis, David Murray, George Lewis e Marty Erlich. Tomeka em seu Tomeka Reid Quartet, lançado em 2015, tem a guitarrista Mary Halvorson, um dos destaques atuais do jazz mais vanguarda. Diedre é uma das melhores violoncelistas da atualidade e tocou em inúmeros álbuns de Henry Threadgill. Dos citados, temos duas mulheres.
Akua Dixon é a terceira e assunto aqui. Nascida em 1948, é uma veterana, mas só em 2015 lançou o seu segundo disco solo. Mais “aberta” ao pop que Diedre, participou de projetos de Henry Threadgill, James Blood Ulmer, Dizzy Gillespie, Steve Turre (seu marido), Rahsaan Roland Kirk, Lionel Hampton, Chucho Valdes, Betty Carter, Carmen McRae, mas tocou também como B.B. King, Mary J. Blige, Aretha Franklin e Lauryn Hill. É um currículo de respeito, com certeza.
O único disco como líder tinha sido Moving On, em 2012. Para este segundo, intitulado apenas com o seu nome, Akua Dixon rodeou-se de convidados ilustres como John Blake e Regina Carter, além de outros menos estrelados. Colocou a família também: seus filhos Andromeda e Orion Turre. Ela canta em Lush Life e ele toca bateria e percussão nas duas primeiras faixas.
As músicas escolhidas vão de standards (Alone Together, It Never Entered My Mind, Moon River, Lush Life), jazz originals de Duke Ellington (além de Lush Life, Freedom), Charles Mingus (Haitian Figth Song), Nat Simon (Poinciana), e temas latinos (Besame Mucho, A Gozar con Mi Combo, Libertango). Os arranjos são, em sua maioria, para cordas (violinos, viola, violoncelo e contrabaixo, eventualmente), o que dá um tom camerístico ao disco. Mais voltados ao jazz são Haitian Fight Song, que não foge muito ao tema composto por Mingus, belamente tocada no arco por Dixon.
No geral, pelo formato, o álbum lembra as incursões pelo jazz do Turtle Island Quartet e do Kronos Quartet, no caso dela, de modo inverso, pois é um músico de jazz tocando em um formato consagrado na música erudita.
Veja Dixon tocando Haitian Fight Song.
Veja o promo do disco, com Akua Dixon.
Nota: Deixarei de postar áudios pelo YouTube. Apesar de não ter motivações comerciais e sim apenas o de divulgação, no que acho que estou contribuindo aos artistas, estou sendo notificado e, com mais uma advertência, sou bloqueado.