![]() |
| O anjo torto Torquato |
Agora, com o horário de verão, três da madrugada serão quatro. A diferença não vai estragar a poesia dessa letra “Três da madrugada/ Quase nada/ Na cidade abandonada/ Nessa rua que não tem mais fim/ três da madrugada/ tudo é nada/ a cidade abandonada/ e essa rua não tem mais/ nada de mim.../ nada/ noite alta madrugada/ na cidade que me guarda/ e esta cidade me mata/ de saudade/ é sempre assim.../ triste madrugada/ tudo é nada/ minha alegria cansada/ e a mão fria mão gelada/ toca bem leve em mim/ saiba:/ meu pobre coração não vale nada/ pelas três da madrugada/ toda palavra calada/ nesta rua da cidade/ que não tem mais fim/ que não tem mais fim.”
Há dias que ando à procura do meu exemplar da primeira edição de Os Últimos Dias de Paupéria, livro organizado por Wally Salomão, de Torquato Neto. Como livro não tem asa e, raramente empresto livros, um dia, eu acho. Pelo menos, o compacto simples que vinha encartado está guardado. Eram duas músicas, uma em cada lado. As duas são composições de Carlos Pinto com letras de Torquato Neto: Três da Madrugada, cantada por Gal Costa, e Todo Dia É Dia D, com Gilberto Gil. Ficaram inéditas em CD por muito tempo. A gravadora Dubas, de Ronaldo Bastos, lançou uma coletânea de composições do poeta e escritor piauiense, em 2002, trinta anos após a sua morte. Estão lá.
Todo Dia É Dia D é excepcional, mas Três da Madrugada, com Gal no vocal e o violão econômico e “duro” de Gilberto Gil, é mais que excepcional. Gal foi ficando fanha de tanto eu ouvir o disquinho: sua voz foi sendo dilapidada pelo diamante da agulha Shure da minha picape Technics.
O livro com o disco havia sido lançado em 1973. Imagine então o tempo de espera até que fosse lançada a versão em CD, com a voz de Gal, limpa como era na primeira vez em que ouvi no compacto simples. Nesse meio tempo, a banda paulista meio jazz, meio qualquer coisa, mas de gosto apuradíssimo na escolha do repertório, o Nouvelle Cuisine, cantou Três da Madrugada. É uma interpretação também excepcional. Está em Novovelho, lançado pelo selo Eldorado, em 1995. A voz de Carlos Fernando está fazendo falta. Há muito não grava nada, até onde sei.
Algumas palavras sobre Torquato
Daqui a pouco, no dia 10 de novembro, fará 40 anos que Torquato se matou, um dia depois de fazer 28 anos. No bilhete que deixou, pede que “não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar.” Thiago era o filho pequeno, que tinha apenas dois anos.
Uma das mais belas e breves parcerias foi com Edu Lobo. Pra Dizer Adeus foi gravada em 1967 no LP Edu e Bethânia (1967). Ouça.
Lembro de Caetano contar a história de como inspirou-se para compor Cajuína em um show. É o nome de uma bebida vendida engarrafada no Nordeste. Não é gaseificada, pois então, imagino que não seja considerada refrigerante. Não lembrava dos detalhes e procurei alguma referência em Verdade Tropical (Companhia das Letras, 1997). Passei página por página, e nada. Recorri à internet e no blogue de Jorge Bastos Moreno há um relato do compositor sobre como surgiu a canção. Quem quiser lê-lo na íntegra, está disponibilizado em http://glo.bo/RNQB8P. Vou dar uma resumida. Cajuína foi composta depois de um encontro de Caetano com o dr. Eli, pai de Torquato, em um hotel em Teresina, anos após a morte dele.
Torquato chegou a morar na Bahia e foi um dos nomes importantes no disco Panis et Circensis, sendo autor de várias letras. Tudo era mais “quente” naquele tempo e andaram se estranhando – Caetano e Torquato. O piauiense andou disparando sua metralhadora giratória verbal para todos os lados e terminou por se distanciar de muitos amigos. Caetano, quando soube da morte de Torquato, ficou abalada, mas não chorou. “Me senti um tanto amargo e triste, mas pouco sentimental.”
Quando, anos depois, encontrei o dr. Eli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durante horas, sem parar. Dr. Eli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. D. Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquato distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Durante todo o tempo eu chorava. Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a dr. Eli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína.”
Ouça Três da Madrugada, com Gal Costa.
E na bela interpretação de Carlos Fernando, com o Nouvelle Cuisine.

