quinta-feira, 23 de abril de 2015

Bom pop com toques de jazz com Donna Lewis

Donna Lewis e The Bad Plus
O trio capitaneado por Ethan Iverson, The Bad Plus, sempre teve um pé no pop. Típico trio de jazz, mais clássico impossível – piano, baixo e bateria – com este no piano, Reid Anderson no contrabaixo acústico e David King na bateria, ao longo da carreira, gravou temas de Pink Floyd (Comfortably Numb), Yes (Long Distance Runaround), Bee Gees (How Deep Is Your Love), Black Sabbath (Iron Man), Pixies (Velouria), Blondie (Heart of Glass), Nirvana (Lithium, Smells Like Teen Spirit) e, naturalmente, composições próprias e, quase nunca, standards fo jazz. Gravaram Street Woman, de Ornette Coleman, seja dito, é jazz, mas não um standard como Summertime ou Love for Sale.

Donna Lewis é uma intérprete pop com dois sucessos que nem podem ser comparados a várias de Madonna: I Love You Always Forever, de 1996, e At the Beginning, em duo com Richard Marx, do longa animado Anastasia. É pouco. Inicialmente contratada por um selo grande, a Atlantic Records, passou a gravar independentemente e, a partir daí, quase não se falou mais dela. Não se afastou da música, contudo. Participou de vários projetos em que não era protagonista.

David Torn, além de músico e produtor, é autor de várias trilhas de cinema. Lançou álbuns solo pela ECM e tocou com vários músicos importantes como David Sylvian, Jan Garbarek, Tony Levin, Tori Amos, kd lang, David Bowie e Laurie Anderson. Em 2011 lançou o EP Chute com Donna nos vocais.

Juntando as partes

Na época em que gravava com David Torn, este lhe disse que imaginava a sua voz com um trio de piano, baixo e bateria, e via que “poderia ser muito cool”. Ela não se entusiasmou. A última coisa que passaria pela sua cabeça seria fazer o mesmo que muitos astros do pop, a certa altura (descendente) da carreira: gravar um disco com standards de jazz, na maioria, caça-níqueis, como aqueles de Rod Stewart, Luis Miguel ou Linda Ronstadt.

Mas a ideia prosperou. Nesse ponto entra o toque de Midas, ou seja, o do produtor inteligente. Torn pensou no piano, baixo e bateria do trio The Bad Plus.

As músicas escolhidas são outro ponto que transforma Brand New Day especial. Os únicos standards são Walk on By, de Burt Bacharach, e Águas de Março, de Tom Jobim, nem mesmo assim, standards tradicionais como aqueles de George Gershwin e Cole Porter. As restantes são, ou composições de Donna, ou temas da música popular escolhidas a dedo: Helpless, de Neil Young, Crazy, de Gnarls Barkley, Bring Me the Disco King, de David Bowie, e Amie, de Damien Rice, dentre outros, em versões bem diferentes. É onde mora a originalidade e a importância do leitor de conhecê-las.

Vamos aos destaques. A primeira é Sleep, composição de Donna Lewis. Assista ao vídeo.




Bring Me the Disco King é a segunda faixa, composição de David Bowie, do álbum Black Tie White Noise, de 1993. O acompanhamento é puro Bad Plus.




Crazy fez um tremendo sucesso. Ce Lo Green explodiu com essa vigorosa composição. É outra interpretação excepcional de Donna.




Ouça também Águas de Março, outra bela interpretação.




Ouça Walk on By, de Burt Bacharach e Hal David.




Ouça Amie. Donna capta muito bem a melancolia dilacerada de Damien Rice, mais conhecido por Blower’s Daughter, música tema do filme Closer, de Mike Nichols.




E, finalmente, a clássca Helpless, de Neil Young.




Leia também sobre The Bad Plus executando A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, em: http://bit.ly/1aMHnsx

terça-feira, 21 de abril de 2015

Wanda Sá com seus amigos

Wanda Sá e o velho amigo Menescal
Se algumas viraram musas e inspiradoras da bossa nova, como a que gerou Garota de Ipanema, poucas foram protagonistas do movimento. Uma delas é Wanda Sá. As mais conhecidas foram Astrud Gilberto, Sylvia Telles e Nara Leão, mas Wanda não fica atrás de nenhuma delas quanto à qualidade como intérprete. Astrud é quase um acidente: estava no lugar certo na época certa. Casou com João Gilberto em 1959 e descobriu-se cantora devido ao empurrão do marido. Mudaram-se para os EUA e gravaram com o saxofonista Stan Getz o álbum Getz/Gilberto. Por um lado foi bom e por outro, não, para João: as portas estavam abertas para o baiano, mas Astrud gostou de Getz.

Como as ondas das praias cariocas, Sylvinha Telles, considerada uma das grandes intérpretes da bossa nova, hoje, encontra-se um tanto esquecida. Como as ondas, daqui a pouco vão se lembrar dela. Tinha voz pequena, delicada, e combinava bem com o gênero. Meu amigo Zeca Leal era amigo de Sylvia e Candinho, seu primeiro marido. Emprestou vários discos de playback com orquestrações de Nelson Riddle de canções de Frank Sinatra para ela treinar o seu canto. Disse-me que ela dava umas belas atravessadas. Tinha bom ouvido. Deve-se, em parte, o esquecimento de Sylvinha, à morte precoce em um acidente automobilístico em 1966. Era garota ainda. Mal tinha passado dos trinta.

Parte da turma da bossa nova reunia-se no apartamento de Jairo Leão. Roberto Menescal, Carlos Lyra, Sérgio Mendes e Ronaldo Bôscoli eram os frequentadores mais assíduos. Para Nara Leão, filha de Jairo, tornar-se cantora foi um passo natural. Apesar de associada à bossa nova, no início da carreira, na menina de classe média alta, um dia, a voz do morro soou mais forte, assim como para Carlinhos Lyra. Nara participou do Teatro Opinião. Cantava Carcará com João do Valle e Zé Keti. Ela foi maior que os gêneros. Fez até um songbook de Roberto Carlos, quando isso nem moda era.

Wanda Sá é da segunda dentição da bossa nova, assim como a turma que se reunia na casa de Nara. Em 1964, lança o belíssimo Wanda Vagamente. Participa também do Brasil 65, de Mendes, nos EUA. “Desaparece” da cena musical depois de casar-se com Edu Lobo. Opta por criar os três filhos. Separa-se de Edu em 1982 e, paulatinamente, retoma a carreira interrompida. Volta a se apresentar e a gravar, quase sempre com seu antigo professor de violão Roberto Menscal.

Ouça Vagamente na íntegra.




O tempo longe dos palcos não a fez perder o bonde. A voz, inclusive, mais grave, ganhou maior expressividade. Não é mais a voz da garota de Vagamente. Em comemoração aos seus 70 anos, completados em 11 de julho de 2014, a gravadora Biscoito Fino lançou Wanda Sá ao Vivo em DVD. Os registros foram feitos no Espaço Tom Jobim, Rio de Janeiro e conta com vários e velhos amigos como Marcos Valle, João Donato, Carlos Lyra, Dori Caymmi e a americana Jane Monheit. [sobre Jane, leia http://bit.ly/1CBbj7U].

Nada melhor que comemorar datas como essas com os amigos.

Ouça Inútil Paisagem, com participação de Jane Monheit.




Ouça também faixa que abre o disco: Só Me Fez Bem. Era uma das músicas de Vagamente. É uma bela composição do ex-marido Edu Lobo, em parceira com Vinícius de Moraes.




Veja Wanda e Menescal em O Barquinho.




Os dois cantam Rio no programa Ensaio.