quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O comum entre Aretha Franklin e Otis Redding

Otis era energia pura
É questão de observar o ano em que A Change Is Gonna Come foi gravada por Otis Redding; e o ano em que Aretha Franklin gravou. Essa não é a única que ambos gravaram. Ou quando gravaram Respect. Franklin explodiu mesmo foi quando passou a gravar pela Atlantic Records, a mesma de Redding (a Stax/Volt era subsidiária da Atlantic). Será que ocorreu a algum produtor espertalhão fazer uma versão feminina de Redding? Gravadoras adoram fabricar ou amoldar talentos de um jeito e assim ganharem muito dinheiro.

Uma canção, pelo menos, foi gravada antes por Aretha: Try a Little Tenderness. Ela é bem antiga: de 1932. Foi composta por Jimmy Campbell, Reg Connelly e Harry M. Woods e a primeira gravação foi pela orquestra de Ray Noble. Apesar de bela nas vozes de Mel Tormé, Frank Sinatra, Nina Simone e Aretha, a de Otis Redding, em 1966, virou o standard dela. A letra triste que falava de uma moça trajando um mesmo vestido velho e desgrenhado e que, se você a encontrasse tão cansada, “trate-a com carinho”, nunca foi tão dramática e dolorida como na voz de Redding.

A Change Is Gonna Come é do genial e precocemente falecido (foi assassinado em circunstâncias obscuras em um motel) Sam Cooke. Está no disco Ain't That Good News, de 1964, ano de sua morte. Dizem que Cooke a compôs em razão de um incidente ocorrido com ele e sua banda que, por tentarem se hospedar em um hotel que não aceitavam negros, foram presos sob a alegação de “perturbar a ordem”. Verdade ou não, essa canção causou um tremendo impacto e foi gravada por um mundareu.

Uma coincidência estranha acontece com as datas de morte de Cooke e Redding. O primeiro morreu em 10 de dezembro, e o segundo, no dia 11. A outra é a de que tiveram mortes estúpidas. O tribunal considerou como homicídio justificável (justified homicide), uma modalidade que consta nas leis americanas, o assassinato do cantor por parte da gerente do Motel Hacienda, uma “tipa” chamada Bertha Franklin. Redding morreu em acidente aéreo. Estava no auge do sucesso e excursionava com seu próprio avião. Disseram que quem o pilotava era Otis, e nessa ocasião, estava “cheiradão” de cocaína, mas isso parece mais a uma invenção mitológica. Outro ponto em comum: os dois nasceram no estado da Georgia.

A gravação de A Change Is Gonna Come (nos seus discos ficou sem o artigo inicial) é de 1965; a de Aretha é de 1967 e antecede um pouco a morte deste. A outra que ambos gravaram é Respect, de autoria de Redding. Foi registrada como single em setembro de 1965. A de Aretha está no mesmo disco em que gravou A Change Is Gonna ComeI Never Loved a Man the Way I Love You.

Na voz de Redding, a estrofe “I was born by the river in a little tent/ Oh, and like that river I've been running ever since/ It's been a long, long time coming/ But I know a change is gonna come/ Oh yes it is”, é tremendamente visceral, e seu “yes it is” é dramaticamente afirmativo. O de Franklin vai por um outro viés, lento também, é menos “denso” e mais “soul”. Embarcamos nas primeiras notas do piano e surfamos pelas firulas de um órgão eletrônico combinadas com a voz de Aretha.

Nunca surgiu voz tão marcante quanto a de Redding. Fundia aspereza, delicadeza e expressividade. Contribuiu em muito na marca de seu som uma seção de sopros irresistível, fundida à energia visceral desse intérprete. Era doce/amargo [Try a Little Tenderness], energie pura [Respect e (I Can Get No) Satisfaction], e evocativo [(Sittin’ on) The Dock of the Bay]. Otis Redding faz muita falta. Aretha continua por aí.

Otis Redding canta “A Change Is Gonna Come”.




A vez de Aretha.




A belíssima versão original com Sam Cooke.


Veja Otis em “Respect”.




Por Aretha.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Quando Antônio Carlos & Jocafi virou Antônio Carlos Jobim

Os verdadeiros Antônio Carlos e Jocafi
A pergunta é se o Ecad está arrecadando nos conformes os dólares a que tem direito a dupla Antônio Carlos & Jocafi pelo seu maior sucesso, gravado por Tommy Flanagan.

Anos atrás, e bote anos nisso, pois são décadas, comprei um CD do pianista Tommy Flanagan. Ele e Hank Jones foram os grandes acompanhantes da cantora Ella Fitzgerald. Como nos lieder de Schubert ou Richard Strauss, para uma boa interpretação de Elisabeth Schwarzkopf, Dietrich Fischer-Dieskau ou Janet Baker, era necessário um grande pianista acompanhando-os. Pouco conhecidos, Gerald Moore e Geoffrey Parsons, eram as “escadas” para o brilho desses intérpretes.

Para a sorte da humanidade, Hank e Tommy puderam mostrar suas artes como solistas em belos discos em trio piano-baixo-bateria, em duo com Frank Wess (no caso do primeiro), e até tocando juntos (Our Delights e I’m All Smiles são dos que mais me lembro agora). Hank se manteve na ativa até ano passado, quando faleceu, prestes a completar 92 anos. Flanagan morreu há dez anos, em 2001.

Pus-me a escutar o recém-adquirido Jazz Poet (1989) e, enquanto ouvia, dei uma espiada nas músicas. A décima – e última – era de Antonio Carlos Jobim e se chamava Voce Abuso; era assim que estava grafado. Despertou-me a curiosidade, pois nunca tinha ouvido falar dela, e como boa parte da humanidade sensível, conhecia bem o repertório de Jobim. Tentei puxar pela memória. Bom, esperei chegar até a faixa 10 e aí, caiu a ficha: era a música Você Abusou, grande sucesso da dupla Antônio Carlos & Jocafi. Curiosidade: fizeram até uma versão em francês – Fais comme l’oiseau –, de Michel Fugain e virou hino do Partido Socialista. A dupla brasileira teve de entrar com um processo contra o surrupiador Fuagain.

Será que o Ecad – de existência tão discutida, defendida por alguns, por outros, não, e que esteve na boca do povo na querela que aconteceu com a nossa Ministra de Estado da Cultura, Ana Buarque de Hollanda – está sabendo que os dólares que podem estar sendo depositados na conta da família Jobim, na realidade, pertencem à dupla? A propósito, estou do lado de Ana. Nem sei se está com a razão: é questão de coração e sentimento de solidariedade aos que são atacados com inclemência e de maneira tão baixa.

Ouça a beleza que é Você Abusou com Tommy Flanagan, acompanhado de George Mraz no baixo e Kenny Washington na bateria.




E para que se lembre da saudosa dupla…




Nota: vi até Você Abusou creditada a Ivan Lins. É descaso, mas acontece.