sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

As aventuras de Geoff Keezer

Geoff Keezer é do time de Bill Evans. Melódico e autor de harmonias sofisticadas, inexplicavelmente, não é tão conhecido. Uma razão possível é seu gosto de explorar linguagens distantes do jazz como a música japonesa – mais especificamente o “minyo”, que vem a ser a música tradicional da ilha de Okinawa –, a africana e a latina.

Geoff Keezer ao piano
Com 18 anos tornou-se pianista do Art Blakey’s Jazz Messengers. Grande responsabilidade. Estava herdando o banco no qual se sentaram Horace Siver, Cedar Walton, Bobby Timmons, James Williams e Benny Green. O velho baterista, um dos mentores do hardbop, com Silver, sabia muito bem o que estava fazendo.

Profissionalizou-se jovem e gravou muitos discos como líder. Em formações diferentes, dividiu o piano com Harald Malbern, tocou com Steve Nelson (vibrafone e marimba), Bill Pierce (sax), Donald Harrison (sax), Peter Bernstein (guitarra), Rufus Reid (baixo), Victor Lewis (bateria), dentre outros, e como sideman participou das bandas de Roy Hargrove e do grande baixista Ray Brown. Sem um contrato fixo, gravou em selos menores, mas bem prestigiados no universo jazzístico: Dreyfus Jazz, Sunnyside, Telarc, Sackville e MaxJazz. Dentre as majors, gravou pela Columbia (e sua subsidiária japonesa DIW) e a Blue Note.

Os álbuns em que é acompanhado pelo vibrafonista Steve Nelson são muito bons, especialmente, Trio (Sackville, gravado ao vivo em 1993) tendo como terceiro instrumentista o baixista Neil Swanson, sem bateria. Tanto nesses como em World Music (DIW, 1992), entre as várias compostas pelo próprio Keezer, mesclam-se com standards conhecidos como It’s Only a Papermoon, Black Tan and Fantasy, These Foolish Things, Darn That Dream, Epistrophy e Sophisticated Lady. São, portanto, álbuns essencialmente jazzísticos.

Turn Up The Quiet (Columbia, 1997)
Em Turn Up the Quiet (Columbia, 1997), seu disco mais conhecido, tem a companhia de figuras carimbadas como Diana Krall, Christian McBride e Joshua Redman. A primeira faixa, Stompin’ at The Savoy, é um dos destaques. As músicas cantadas por Diana Krall – The Nearness of You, Island Palace e Love Dance, de Ivan Lins – são especiais, pois a canadense é sempre uma presença marcante. Keezer toca sozinho Lush Life, Loose My Breath e My Shining Hour. Os “desvios” são Does a Rose Lose Its Color in the Rain?, de Ryuichi Sakamoto, e Bibo No Aozora. Essa, que fecha o disco é sublime, e foge um pouco da linguagem do jazz.

Em suas próximas incursões, Keezer continua em seu propósito de não ficar circunscrito nos códigos consagrados do jazz. No piano solo, Zero One (Dreyfus, 1999) constam composições próprias, standards [Footprints (Wayne Shorter), Black Tan and Fantasy (D. Ellington) e Blood Count (Billy Strayhorn)], e canções do repertório popular [Venus as a Boy (Björk), Life on Mars (David Bowie), These Three Words (S. Wonder) e Across the Univers (Lennon & McCartney)]. As peças formam um belo conjunto, rico nas explorações harmônicas e rítmicas, bem diferentes dos piano-solo costumeiros, desconstruindo-as e tornando-as quase irreconhecíveis. Uma dos temas próprios chama-se Asadoya Yunta, inspirado no folclore okinawano, assinalando seu interesse crescente pela música japonesa (a primeira gravação tinha sido a de Does a Rose Lose Its Color in the Rain?, citada acima).

No álbum gravado pela MaxJazz, Fallin’ Up (2003), além do piano, toca vibrafone, marimba e piano elétrico (Fender Rhodes). Variando bastante de formação, apresenta algumas composições havaianas (Püpü hinuhinu, Wahine hololio, e Kaulana na pua), evidenciando seu interesse em não ficar apenas no tradicional. Mantendo seu “desassossego musical”, gravou um disco com o cantor okinawano Yasukatsu Oshima, disponível em CD japonês e pode ser encontrado no site da Amazon por módicos 42 dólares mais frete.

Seus projetos mais recentes são Aurea e Montre Echo. No primeiro, aventura-se pela música peruana (ouça algums samples em http://bit.ly/fLmgyB). Montre Echo é a exploração de sua mais antiga paixão – a música eletrônica de trilhas de filmes de ficção científica). Há um depoimento de Keezer (www.geoffkeezer.com) falando alguma coisa sobre esses projetos que vale a pena ser visto , pelo menos, para os fãs do tecladista.

Veja um dos vídeos disponibilizados pelo site de Geoffrey de Montre Echo.



Veja-o tocando Summertime com o vibrafonista Joe Locke.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Um aperitivo de Gil Scott-Heron, antes de falar de seu último CD

E não que ele lembra o Sócrates, até pela voz grave
Gil não gravava desde 1994, quando lançou Spirit.  De lá para cá andou sumido devido a problemas com drogas, prisões e saúde. Como diria Ismael Silva, andou “dançando na corda bamba”. Muitos que escreveram sobre I’m New Here, jornalistas e blogueiros, não o conheciam. Surpresos, devem ter ido à procura de coisas mais antigas de Scott-Heron.

Mas o bicho é velho de guerra. Gravou seu primeiro disco em 1970. Apresentou-me Scott-Heron um amigo ainda na época em que fazia a FAU-USP. O Hilton Raw tinha comprado um LP importado dele e, impressionado, gostava de compará-lo ao jogador Sócrates, devido a alguma semelhança física e porque ambos eram craques. Foram lançados alguns LPs no Brasil e tornou-se razoavelmente conhecido aqui. Mas foi sumindo e há pouco, em 2010, voltou a lançar um disco e proclamou: “Sou novo aqui”. Para alguns, é.

O craque “Sócrates” da música notabilizou-se por um forte engajamento político nos movimentos afro-americanos. Ganhou notoriedade não apenas por isso e mais pela personalíssima fusão que fez com o soul, o jazz e o soul, fazendo uma música discursiva. É considerado um “proto-rapper” antecipando-se à tendência que se tornaria dominante anos depois na música americana.

A música que você vai ouvir é de 1976 e está em From South Africa to South Carolina, disco em parceria com Brian Jackson.

Beginnings (The First Minute of a Day).

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Clint Eastwood trata da vida em Além da Vida

O americano Philip Roth, quase octogenário, lança um romance atrás do outro. São narrativas relativamente curtas, e os assuntos recorrentes são relativos à morte, finitude, decrepitude e outros a “tudes”, mas nada “além da vida”.

A explicação à presença desse tema é justificada pelo escritor em entrevista concedida a Lúcia Guimarães de O Estado de S. Paulo: “Nos últimos anos, tenho me encontrado cercado pela morte de amigos. E, antes disso, meus pais morreram. Mas, nos últimos cinco anos, morreram meus amigos e meu irmão. Então é muita morte. Você começa a passar mais tempo em cemitérios. Passa algum tempo escrevendo tributos e falando nos funerais. E trata com os sobreviventes dos mortos. Volta para casa e se lembra dos mortos. Então, a morte entrou na minha vida com mais força do que em qualquer outro momento. Acho que, nesse período, perdi seis dos meus amigos mais próximos, a maioria 5 ou 10 anos mais velhos do que eu. A minha reação à morte dessas pessoas não foi de raiva. Não. Foi de tristeza e de incredulidade diante do fato de que partiram. (OESP, 3/6/2010)

Eastwood em ação, com Cécile de France
Mesmo com o aumento da expectativa de tempo de vida, hoje, é até natural que alguém com mais de 80 anos se imagine na “contagem regressiva”. Não dá para conjecturar se Clint Eastwood está se sentindo no crepúsculo da vida e tenha sido esse o motivo a de ele fazer um filme como Além da Vida (Hereafter), lançado no fim de 2010.

Filmes e romances espíritas, digo; desses que tratam de vidas depois da morte – ou de vidas passadas –, com essa história de conversar com os mortos, têm apelo forte. Quem não se interessa em saber se existe uma “além-vida”? Dois filmes brasileiros de grande bilheteria, em 2010, são relativos a isso: Nosso Lar, direção de Wagner de Assis, baseado em escritos de Chico Xavier; e outro, cujo título é o próprio nome do médium, e dirigido pelo diretor global Daniel Filho. Se ambos deram boa bilheteria, é sinal de que milhões de pessoas acreditam ou se interessam por esses assuntos.

As temáticas dos filmes de Eastwood têm sido bem diversas. Gran Torino ocupa-se de um durão veterano de guerra que passa a ter como vizinho uma família coreana. Trata, sob certos aspectos, da velhice, mas nunca da proximidade da morte. No mais recente – Além da Vida –, a morte, ou a possibilidade de outra vida depois, é onipresente.

O início é a força da natureza e sua imprevisibilidade. Marie LeLay (Cécile de France; para quem não se lembra dela, é a protagonista do belo Um Lugar na Plateia) passa férias com o namorado, produtor de seu programa de entrevistas. Sobrevive ao tsunami. É levada pela onda gigante e é resgatada por dois nativos que a reanimam. Esse episódio mostra que ser uma apresentadora famosa, garota-propaganda do Blackberry, rosto visto nos televisores e anúncios de rua, não significa nada. No fundo, é uma pessoa igual a qualquer outra. Aparentemente, Marie passou pelo “hereafter”, bendito, não “after life”.

Abalada pela experiência, deixa de fazer o programa de entrevistas e decide levar em frente seu antigo projeto de escrever uma biografia de François Mitterand, por sugestão do namorado produtor. Como continua tendo algumas “visões”, e obcecada por isso, acaba por apresentar aos editores alguns capítulos sem nenhuma relação com o primeiro presidente socialista da França. Eles recusam, mas apresentado a outras editoras, consegue fechar contrato para publicação.

O filme acontece em três países diferentes. Em Londres, dois irmãos gêmeos convivem com uma mãe drogada. Os dois, para não serem mandados a um abrigo ou serem entregues a alguma família, ficam tentando encobrir a condição da mãe ante o serviço social de assistência. A mãe pede que um deles vá até a farmácia para pegar um medicamento – certamente algum para minorar ou afastá-la do vício da heroína. O mais velho – dezessete minutos – diz que ele vai, pois o menor precisa terminar as lições escolares. No caminho de volta, três garotos tentam roubá-lo. Na fuga é atropelado e morre. O menor é entregue a um casal enquanto a mãe é internada em uma clínica de recuperação.

No outro lado do Atlântico, vive George (Matt Damon). Ele tem o dom de se comunicar com os mortos. Trabalha como operador de empilhadeira depois de ter desistido de ganhar dinheiro fazendo consultas mediúnicas. Considera o dom maldito, por lidar com a morte. Deixando de trabalhar com isso, seu desejo é o de ter uma vida normal.

Os destinos dos três (de George, Marie e Marcus, o menino) se cruzam em Londres. Não existe lugar melhor do que a ficção para que ocorram tais coincidências. Bem que a vida real pudesse ser uma sucessão de felizes coincidências.

Jason procura desesperadamente comunicar-se com o irmão gêmeo mais velho. Rouba dinheiro da família que o abriga e vai a todo tipo de videntes, charlatães e congêneres em busca desse contato. Em suas pesquisas nos “google da vida”, descobre a página do site que George Lonegan possuía quando vivia de “fazer” a comunicação dos vivos com os mortos.

Bem, agora chegamos à cena do encontro de Marcus, George e Marie. O americano é demitido do trabalho, apesar de funcionário exemplar (lembre-se, há pouco a América estava em crise). O irmão oportunista quer é mais que George volte a exercer seu dom e com isso ganharem dinheiro juntos. Tem um esquema montado – escritório, site etc. Não é o que George deseja da vida. Vai para Londres, terra de seu escritor preferido: Charles Dickens.

George não lê Dickens. Ouve. Em suas noites solitárias fica ouvindo narrativas de seus livros. É fã dos audiobooks. Na visita turística à casa do escritor, em Londres, depara-se com um cartazete anunciando uma leitura por parte, imagino, de seu narrador preferido dos livros de Dickens, numa feira de livros. No mesmo lugar, ocorre o lançamento do livro Hereafter, de Marie LeLay. George se interessa pelo livro, entra na fila dos autógrafos. Trocam aquele olhar que só acontece em filmes. Sincronicamente, o menino reconhece George na feira e vai atrás dele. Rechaça as abordagens de Marcus repetidamente. Volta para o hotel e pela janela, vê que o menino foi atrás dele. Diante de tal insistência, deixa-o subir ao seu apartamento. Pega as duas mãos dele e começa a dizer o que o mais velho tem a dizer. Fica-se sabendo então que Jason sempre protegeu o irmão gêmeo poupando-o das dificuldades, resolvendo tudo por ele. Através de George, pede que deixe de usar o boné que fora seu (usá-lo era uma forma de continuar “ligado” ao irmão). Em suma, pede que o menor se liberte dessa tutela.

O menino, ao ver o exemplar de Hereafter sobre a mesa, diz ter notado que George se mostrara interessado pela escritora. Ele refuta. O menino vai e liga mais tarde dizendo o nome em que Marie está hospedada. Agora, adivinhe o que acontece?

Na cena final, George espera por Marie sentado num bar de uma galeria londrina. Num“click”, ele tem a visão dos dois se beijando. O que isso pode significar? George, em vez de se “comunicar” com a morte, tem a “comunicação” com a vida. Além do que pode ser a “além vida”, é ver a vida, ou viver. Marcus não conseguia viver sua vida, pois enquanto tinha o irmão do seu lado, era protegido e tutelado. Jason era a “vida” de Marcus. George então, não viu apenas a morte; através de sua comunicação, faz com que Marcus vá viver a sua vida. Marie, quando “morre” e é reanimada, torna-se uma outra Marie. Deixa de ser a imagem da mulher de sucesso, retratada sorridente nos outdoors com um Blackberry na mão.

A morte é um ato de “desprendimento”, assim como, para viver, é necessário desprender-se do que está morto. Para viver, é preciso se libertar do que o prende, é preciso “matar”.

O trailer do filme.