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terça-feira, 25 de março de 2025

O paraíso de Paul Motian

A primeira vez em que Paul Motian me chamou atenção foi em um disco de Keith Jarrett. Nos anos 1970, o pianista formou um quarteto de respeito, com Dewey Redman (saxofone), Charlie Haden (contrabaixo), Motian (bateria). Uma amiga trouxe El Juicio (Atlantic, 1973), alguns anos antes de o americano ficar conhecidíssimo, pelo menos no Brasil, com seu solo The Köln Concert (ECM, 1975). 

A batida de Motian era diferente, cheio de pausas, um ritmo que não associaria ao mainstream. Tomei gosto pela música instrumental e meus primeiros interesses se direcionaram ao jazz-rock, ou jazz progressivo, como você preferir. Minhas primeiras aquisições foram I Sing the Body Electric e Mysterious Traveller, do Weather Report, No Mystery, da banda de Chico Corea, Extrapolation, de John McLaughlin, e Third, da banda inglesa Soft Machine. Keith Jarrett entrou na história porque tinha tocado com Miles Davis, outra referência seminal. Um amigo de meu pai trouxe Agharta, Get Up with It e Big Fun, do trompetista de quem fã mor. Cheguei a ter cerca de 70 LPs dele. Depois de conhecer seus discos de sua fase elétrica, comprei os da década de 1960, quando a banda era com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams. “Regressivamente” fui comprando os seus primeiros gravados na Prestige Records. Em algum momento Bill Evans entrou na história, por causa de Kind of Blue. Esse maravilhamento pelo estilo de Evans fez com que comprasse tudo o que encontrava dele. Em Sunday at the Village Vanguard (Riverside 1960), além de impressionado com o baixista Scott LaFaro, descubro que baterista era Paul Motian. Pois então: era mainstream e ao longo do tempo foi criando o “estilo Motian”.

Vi duas vezes, o que considero um privilégio, como morador do Brasil, uma vez aqui em São Paulo, e outra no Village Vanguard, Nova York, apresentando-se com Joe Lovano e Bill Frisell. Os três têm registros na ECM, JMT e Winter & Winter.

Além do trio, o que acho mais me interessou foram as formações heterodoxas, em que “dobrava” alguns instrumentos, como dois saxofonistas, dois ou três guitarristas. Alguns fui conhecer justamente em seus álbuns: Kurt Rosenwinkel, Ben Monder, Steve Cardenas e Jakob Bro.

Nessas formações “dobradas” acho especialmente bons Paul Motian on Broadway III (JMT, 1993) e Garden of Eden (ECM 2006). No primeiro, os dois saxofonistas são um exemplo da arte da improvisação. A riqueza das linhas sonoras de ambos em seus solos são para pensarmos que paraísos existem, com sonoridades transcendentais. Sempre tive uma admiração imensa por Lee Konitz. Tocou com deus e o mundo. Ele é o mestre da beleza calma, apolínea no sue modo de tocar. Joe Lovano é um tenorista e soprano que foi revelado um pouco mais tarde. Quando passou a ser mais conhecido já tinha uma experiência que o jogou no topo das listas dos melhores. É outro com uma sofisticação enorme nos seus solos.

No “jardim do paraíso”, Motian escolhe um repertório com composições próprias, de Steve Cardenas, um dos guitarristas – os outros são Ben Monder e Jakob Bro –, de Chris Cheek, um dos saxofonistas – o outro é Tony Malaby –, clássicos de Jerome Kern, Charlie Parker e Charles Mingus, Thelonious Monk. Este último foi gravado pelo baterista de origem armênia em muitas ocasiões. Aliás, é de se pensar nas semelhanças de estilo. São duas sonoridades que se distinguem pelos seus modos idiossincráticos de executarem seus instrumentos.

Ouça Garden of Eden.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A guitarra impressionista de Jakob Bro

Paul Motian (esq.) e Jakob Bro
Paul Motian passou a ser conhecido quando participou do, provavelmente, melhor trio piano/ baixo/ bateria de todos os tempos. São clássicos os discos de Bill Evans, Scott LaFaro e ele. Outra fase importante foi quando tocou com Keith Jarrett, na década de 1970. Passagens por essas bandas moldaram o som da bateria de Motian.

Como líder gravou vários álbuns pela ECM, JMT e Winter & Winter. Fugindo do padrão trio ou quarteto, montou várias bandas com mais de um músico tocando o mesmo instrumento. Em Flight of the Blue Jay (Winter & Winter, 1997), conta com dois guitarristas e dois saxofonistas, cada qual, em um dos canais: Kurt Rosenwinkel (canal esquerdo) e Brad Schoeppach (direito), e Chris Potter (esquerdo) e Chris Cheek (direito). Motian não é pioneiro em fazer isso. Ornette Coleman, em Free Jazz (Atlantic, 1961), gravou com dois quartetos, um no canal esquerdo e outro no direito.

Em Garden of Eden (ECM, 2006) são dois saxofonistas (Chris Cheek e Tony Malaby), três guitarristas (Steve Cardenas, Ben Monder e Jakob Bro), o baixista Jerome Harris e ele na bateria.

Um dos guitarristas de Paul Motian, Jakob Bro, vem gravando regularmente como líder desde 2003 e tem usado a mesma “fórmula” de seu mestre. Enquanto vivo, Motian era o seu baterista. Não participou do primeiro nem do segundo, mas nos seguintes Pearl River (2007), The Stars Are All New Songs vol. 1 (2008) e Balladeering (2009), sim.

Jakob Bro é um guitarrista diferente. Seu estilo lembra o de John Abercrombie. E é diferente porque não é um solista, na velha tradição. Faz uma música de texturas, de camadas sobrepostas formando teias sonoras. Sua guitarra não “briga” com a de Bill Frisell. Complementam-se.

Suas composições são como pequenas peças camerísticas em que os instrumentos “conversam” uns com os outros. Uma presença importante em Balladeering e no último álbum – December Song (Loveland Records, 2013) – é a do lendário Lee Konitz. O americano é uma das principais figuras do nascimento do cool jazz e, antes disso, foi da banda do pianista Lennie Tristano. Passou pelo bop, pelos movimentos avant garde e nem ele deve saber o número de participações em gravações de outros músicos nos seus 86 anos de vida.

Em Balladeering, temos ainda Motian. Como espécie de tributo ao mestre, Bro, em December Song (Loveland Records, 2013), prefere uma formação sem a bateria, como fez no anterior Time (2011). Não abre mão, no entanto, de contar com mais um guitarrista, seu parceiro de anos, Bill Frisell. E o resultado é pra lá de interessante. 


Confira em Vraa, de Balladeering.







Veja um trecho da gravação de Vraa, no Avatar Studios, em Nova York. Grande Lee Konitz!







A seguinte é muito boa também: Starting Point, na versão acústica. Preste atenção nos violões de Bro e Frisell.







Veja Bro com Lee Konitz, Bill Frisell, Craig Taborn, Ben Street e Thomas Morgan nas gravações de Vinterymne, de December Songs, o mais recente; com direito a rápido depoimento do mestre Lee Konitz.