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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Norah Jones é sempre ela mesma

 

Com o tempo, passamos a dar importância cada vez menor ao que um dia nos impressionou ou nos deixou apaixonados. E, pensando bem, por que? E se esse encanto esquecido, um dia, retorna?

Há algo de perenal quando ouço um novo trabalho de Norah Jones. Calma! Não a colocaria no pedestal dos gênios, como o que ocupa Billie Holiday ou Miles Davis. Quem sabe, melhor que não seja um gênio, que seja alguém que lhe traz esse sentimento de encantamento, sem que percebamos, como um amor suave, sem arroubos de ame-o ou deixe-o.

Comigo acontece de forma original.Ressurge sem que ao menos perceba.Cada novo álbum dela me provoca isso. Esqueço, e quando vem o outro, volta o mesmo sentimento. Por que?

Lançada sob a égide de um mega esquema de marketing como a nova voz do jazz. pela gravadora Blue Note, “Come Away with Me” vendeu como água em dia de verão. Até hoje, são 27 milhões de cópias vendidas. Passei a infância em Minas, portanto, sou desconfiado. Não caí na conversa da Blue Note. Mas sou curioso. Ouvi e concluí que de jazz não tinha nada. E achei bem normalzinho.

A mudança de opinião em relação à sua música aconteceu por vias tortas. Veio ao assistir “My Blueberry Nights”, no Brasil, intitulado “Um Beijo Roubado”. No filme dirigido por Wong Kar-Wai. Lizzie, ou Elizabeth, abandonada pelo namorado, vai curtir a for de cotovelo no café de Jeremy que fica perto de onde mora e lá permanece até ser a última cliente. A origem do título é justamente o último pedaço de torta de blueberry, oferecido pelo personagem protagonizado por Jude Law. Acho que nessa cena captei a tônica da música de Norah. Imagino que Kar-wai, cineasta com gosto apuradíssimo para a música, deve tê-la convidado por ter captado essa conexão. No seu olhar de abandono, à procura de algum conforto, creio que descobri o que era a sua música. 

Outra evidência da conexão de Kar-Wai com a cultura pop é ter Chan Marshall, mais conhecida como Cat Power, fazer uma aparição breve como Katya.

Não sou de prestar atenção em letras, acho que por ouvir mais jazz e música erudita. Mas quando me atenho ao seu teor, percebo que são confessionais, quase sempre. Uma boa descrição sobre as composições de Jones é a de Damien Morris, em “The Guardian” (21.6.2020):

“A música foi definida para não perturbar, mas Jones encontrou uma maneira matizada e emotiva de discutir perdas, mentiras, arrependimento, indecisão e depressão.”

Nesse momento anômalo em que vivemos, versos como “não parece tão triste, não é tão ruim assim/ Ou é?/ Pode ser hoje.” encaixam-se perfeitamente. Jones está isolada, como a maioria da população, com seus dois filhos, mas não para de compor. Algumas faixas da edição especial são de registros feitos no isolamento imposto pela pandemia.

É por isso: quando “esquecemos” dela, chega com uma música que toca nossos corações e almas. Não é pouco. “Pick Me Up Off the Floor” é um grande álbum.Os destaques, para o meu gosto são “Heartbroken, Day After”, “I’ll Be Gone”, “Trying to Keep Together”, “It’s Gonna Be” e “I Am Missing You”. As duas últimas estão na edição especial recém lançada.

Assista a um vídeo de Norah Jones na sua casa: “That’s the Way the World Goes Round”.

 

Ouça.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e sua parceria com Norah Jones



Há alguns dias, por conta da apresentação de Norah Jones, no Brasil, o jornal O Estado de S. Paulo deu capa e a página 3 para ela. A notícia é velha. Como tenho o costume de separar os “Segundo Caderno” para ler depois, fiquei sabendo há poucos dias da parceria da filha de Ravi Shankar com Rodrigo Amarante, ex-Los Hermanos e Little Joy (não sei se a banda ainda existe). A matéria é de 28 de novembro e os shows de Norah foram no início de dezembro.

Na entrevista, diz que foi a um show do Little Joy, em Nova York, e gostou muito. Isso foi ainda na década passada. Mas, conheceram-se. Quando ela veio ao Brasil, naquela época, Rodrigo recomendou lugares que devia conhecer. Não se falaram mais. Apesar de ter gostado do álbum solo dele, “Cavalo” (2013), voltaram a se encontrar apenas pouco tempo atrás. Reuniram-se em Los Angeles e compuseram duas músicas.

O último de Jones, “Begin Again”, é uma reunião de vários singles lançados depois de “Day Breaks” (2016). Acho que é uma nova estratégia, com o quase fim dos CDs físicos, o lançamento de singles, disponibilizados em sites de venda e streaming em veículos como o Spotify.

Depois de um início retumbante, com “Come Away with Me” (2003), flertou com vários gêneros. Desde o começo, apesar do rótulo, nunca foi uma intérprete de raiz do jazz. Mesclou seu gosto por outros gêneros como o pop e o country-folk, posteriormente. Passou a fazer parcerias com outros músicos, como o produtor Danger Mouse (“Little Broken Hearts”) e no último, com Jeff Tweedy, do Wilco, e Billy Joe Armstrong, do Green Day. Amarante é mais um deles. Imagino que vai será uma boa união. Há um certo tom de melancolia no brasileiro que combina com a de Norah.

Veja se você concorda.

Ouça “I Forgot”




“Falling” é mais no clima que imagino que seja comum entre os dois: melancolicamente belo.




quinta-feira, 14 de março de 2019

O pequeno grande mundo de Anoushka Shankar

Os olhos de Anoushka Shankar
Foi em meados da década de 1960 que Ravi Shankar ficou conhecido no mundo ocidental. Era um músico respeitado na Índia. Com 10 anos foi à Paris com um grupo de dança. Aos 13 tornou-se membro do conjunto, aprendendo a dançar e a tocar vários instrumentos. Depois de sair do grupo, passou a estudar seriamente a música clássica indiana.

Nos anos 1960, houve um crescente interesse pela cultura oriental. Mas antes ainda, em 1952, o violinista clássico Yehudi Menuhim foi apresentado a Shankar. Encantado com sua música, convidou-o a apresentar-se com ele na antiga União Soviética. Em 1954, sob patrocínio da Fundação Ford, tocaram em Nova York. Em 1967, finalmente, saiu um registro fonográfico do trabalho deles, pelo selo Angel: “West Meets East”.

Veja os dois no documentário “Raga: A Journey into the Soul of India”




Ainda na década de 1950, a cultura hindu e oriental passou a receber a atenção de alguns intelectuais. Um dos pioneiros foi o inglês Alan Watts, introdutor do Zen nos Estados Unidos. Maharishi Mahesh Yogi divulgou a meditação transcendental na América no fim da mesma década e tornou-se queridinho da burguesia americana. Os Beatles não foram então os pioneiros quando foram à Índia praticar a tal meditação, em 1967, com Maharishi. O interesse deles, no entanto, serviu para que um número maior de pessoas se interessasse pelas culturas ocidentais, inclusive, pela música, como foi o caso de George Harrison, considerado o grande responsável para que o mundo conhecesse Ravi Shankar.

Sua primeira participação em um ambiente “pop” foi no Festival de Monterey. A consagração foi no Festival de Woodstock, em 1969, apesar do discurso chato que antecedeu a sua apresentação. Conquistou uma legião de fãs, admiradores e fez novas amizades. Conheceu a produtora Sue Jones e desse relacionamento, em 1979, nasceu Geethali Norah Jones Shankar. Conviveu pouco com o pai. Mas a música estava no sangue. Poderia ter optado pelo sobrenome do pai, que facilitaria para tornar-se conhecida. Mas não: preferiu o sobrenome da mãe.

De seu outro relacionamento, com Sukanya Rajan, em 1981, nasceu, em Londres, Anoushka Shankar. Com Sukanya acabou casando, em 1990. Assim, Anoushka cresceu perto do pai, que foi seu primeiro professor de cítara, aos sete anos.

Aprendeu bem das lições: tocou em público pela primeira vez quando tinha 13 anos, em Nova Délhi, no show comemorativo dos 75 anos do pai. Em 1998, com apenas 16, assinou um contrato com a prestigiada Angel Records e lançou seu primeiro álbum como líder“Anoushka”. Fez mais três por essa gravadora antes de tornar-se artista exclusiva da Deutshe Grammophon, em 2011. O primeiro foi “Traveller”. É uma brilhante fusão da música indiana com a espanhola. No fundo, é um encontro das sonoridades orientais. O domínio dos muçulmanos sobre a Península Ibérica moldou bastante a cultura espanhola em geral, inclusive a música. Tem participações de músicos de ponta: Javier Limón, Pepe Habichuela, Pedro Ricardo Miño e Concha Buika, dentre outros.

No seguinte – “Traces of You” –, de 2013, pela primeira vez em disco, tem-se o registro das duas irmãs juntas. Norah Jones canta em três faixas. Arrasa em “The Sun Won’t Set”, composição de Anoushka e Nitin Sawhney. “Home” (2015), como o próprio título sugere, é um retorno às origens. “Land of Gold” (2016) é um tanto diferente, quase minimalista. Pode-se até considerar um álbum de Anoushka e Manu Delago em razão de a maioria das faixas serem composições dos dois. Há uma faixa com participação de M.I.A., filha de pais hindus do Sri Lanka, meio chatinha, e outra, “fofinha”, com Alev Lenz, na música título: bela, mas meio bobinha.

“Reflections”, lançado em fevereiro, é uma compilação dos álbuns de Anoushka. É uma boa oportunidade de conferir a qualidade e energia de sua música. É claro que não poderiam faltar as que teve a meia-irmã participando. São “The Sun Won’t Say” e “Traces of You”. A primeira, como foi dito no parágrafo anterior, é um dos destaques. Outra muito boa é “Bulería con Ricardo”, brilhante exemplo da fusão Espanha/Índia, com a presença de seu coautor Pedro Ricardo Miño, Juan Ruiz, Bobote e El Electrico. Outra boa, também de seu álbum de estreia, é “Si No Puedo Verla”, um flamenco típico, cantado por Duquende. O som do cajón combina muito com o da cítara. “Voice of the Moon”, de “Rise”, de sua gravadora anterior, é poética e realmente bela. “Reflections” é uma boa síntese da carreira de Anoushka Shankar. Confira.



terça-feira, 25 de abril de 2017

O que é jazz em “Day Breaks”, de Norah Jones

Recebi um e-mail de um amigo dizendo que uma das suas preferidas de “Day Breaks”, de Norah Jones, é “Fleurette Africaine”. Fiquei o tempo todo batendo na tecla de que o que ela faz não é jazz e acabei por deixar passar batido dois temas considerados jazz standards: a citada pelo Carlos G., de Duke Ellington, e Peace, de Horace Silver.

Quase todas, com exceção de “Don’t Be Denied”, que é de Neil Young, as restantes são de Norah, só, ou em parceria com Sarah Oda, e uma com Peter Remm. “Peace” foi composta em 1959 e faz parte de “Blowin’ the Blues Away”, lançado pelo mesmo selo Blue Note. Parece que a letra é do próprio pianista, cujo nome real é Horace Ward Martin Tavares Silver. O Conde dizia que o “Silver” era “Silva” e de que era filho de portugueses. Pelos dados biográficos, consta que o pai nasceu em Cabo Verde, antiga colônia portuguesa. O Conde quase acertou.

Ouça “Peace”.




“Fleurette Africaine” é de 1962. Saiu pela primeira vez em “Money Jungle”, em formação pouco comum na discografia de Duke Ellington. Neste álbum, ao piano, toca com Charles Mingus e Max Roach, duas feras. Parece que Duke a compôs pensando em Mingus.

Ela fecha o álbum e é instrumental, com a discreta e bela bateria de Brian Blade, o sax soprano de Wayne Shorter, contrabaixo de John Patitucci, e ela ao piano e nas vocalizações.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A “volta” de Norah Jones ao jazz

O álbum “Come Away with Me” (2002) foi um sucesso instantâneo e alçou Norah Jones ao estrelato logo em sua estreia no mercado fonográfico. Além do sucesso comercial, ganhou a admiração da crítica. Vendeu, até hoje, 26 milhões de cópias. No ano, ganhou nove prêmios Grammy. A razão nem foi porque era filha de Ravi Shankar. Esse dado biográfico, frente à notoriedade conseguida, era apenas um detalhe, primeiro, quase nunca citou ou falou sobre isso e, muito menos, sofreu alguma influência do citarista indiano, célebre, depois que George Harrison o apresentou ao mundo.

Sempre desconfio de artistas que ficam famosos de uma hora para outra. É um pouco de preconceito. Sinto sempre um cheiro de manipulação mercadológica. Mas não me nego a conhecer para, quem sabe, um dia reconsiderar o meu juízo inicial. Para exemplificar que estou sempre pronto a verificar se estou errado, dou um exemplo: li algumas páginas de Paulo Coelho. Bom, nunca vou gostar do tal mago de araque. O mesmo fiz em relacão a ela: comprei “Come Away with Me”. Senti-me enganado. Disseram que era a nova voz do jazz e não tinha nada de jazz além do fato de ter sido lançado pelo Blue Note, selo tradicional do gênero. Aquilo, na minha opinião, era algo assemelhado ao folk-rock americano, tipo James Taylor, Carole King. Gosto de Simon & Garfunkel, Carly Simon e outros assemelhados. Sou eclético e até criticado por alguns amigos, que acham que eu tenho o gosto meio estragado. Deixando de vê-la como “jazzy”, até que não era ruim. Mas, vendendo tanto? O que viam nela?

Algo, porém, foi capital para a minha mudança de juízo quanto a Norah Jones. Seu estilo meio lenga-lenga que antes me irritava passou até a me agradar. E foi por uma razão bem particular: foi vê-la trabalhando como atriz em “My Blueberry Nights” (“Um Beijo Roubado”, 2009, em edição brasileira), de Wong Kar Wai. Acho que, por meio da ficção, cheguei à Norah real. O seu olhar fixava um ponto além do objeto mirado. Era melancólico e, subitamente, percebi que suas canções pediam por uma cumplicidade. Aquele doce olhar me hipnotizou.

Minhas reservas estavam em “Come Away with Me” ser vendido por sua gravadora como sendo jazz. Descontando isso e por passar a vê-la com outros olhos, tive a percepção de outras qualidades.

Após o sucesso estrondoso, com “Feels Like Home” (2004), “Not Too Late” (2007) e “The Fall” (2009), somadas as vendas, nem chegou perto dos 26 milhões – vendeu 10 milhões de 2002 a 2005 – do primeiro. E não se pode dizer que fossem inferiores. Talvez a expectativa criada após o primeiro tenha feito tudo virar anti-clímax. Ficando clara que essa história de que era uma intérprete do jazz, ficou mais livre para levar a sua música em direção ao que realmente queria fazer, ou seja, uma música meio folk, meio soft-rock. O valor de Norah estava em suas letras confessionais, meio tristes, melancólicas, que bem combinam com seu jeito, no olhar e jeito de quem precisa de cumplicidade para ouvir cantar com suas dores e inseguranças.

“Little Broken Hearts” (2012) era um bom exemplo. Colocava-se por inteiro em letras que revelavam desencantos, o fim de um relacionamento, em versos como os de “Bom dia”: Por que você fez isso, não consegui dormir. Sabia que você tinha dito; nosso amor era tudo o que eu desejava , mas você não pôde dar. Belo disco, e tinha Danger Mouse como produtor.

Em outubro do ano passado, a Blue Note lançou “Day Breaks”. Mais uma vez a gravadora, ou seus divulgadores, resolvem usar o mote “jazz”. “Norah Jones volta às raízes”; mais ou menos nestes termos, e a crítica corrobora. Paul de Barros escreve que é “um retorno às raízes e uma triunfante amostra de diversidade estilística.” Chega a fazer uma comparação com Billie Holiday: “Às vezes, sua voz agradável traz o fantasma de Billie Holiday (embora nunca de forma afetada ou artificial).” Há um pouco de exagero nessa crítica que dá 4 estrelas, na revista Downbeat. Mas o que é jazz no álbum? As participações de alguns instrumentistas do plantel da gravadora: Wayne Shorter (quatro faixas), John Patitucci (três), Dr. Lonnie Smith (duas, uma fazendo backing), Jon Cowherd (uma), e Brian Blade e Karem Riggins na bateria.

Bom, não é jazz, na minha opinião, mas merece as quatro estrelas.

Vamos começar pela música título. É uma das melhores do álbum. Tudo combina, até as discretas cordas.




Outro destaque é “Don’t Be Denied”, de Neil Young.




Norah canta a mesma canção em um show. Veja.




Muito boa também a música que abre o disco. “Burn” é bem Norah. Ouça.




terça-feira, 12 de novembro de 2013

Anoushka, a filha menos conhecida de Ravi Shankar

Anoushka Shankar e a cítara
Numa prova de sincretismo, quando floresceu a onda orientalista, com o budismo, propagado nos EUA pelo inglês Alan Watts, e a onda das seitas hinduístas, muitas jovens em fervorosa fé, preferiram ter suas experiências religiosas no sentido bíblico.

Prudence Farrow resolveu fazer um curso de meditação transcendental com Maharishi Mahesh Yogi na Índia. Aceita, levou a irmã Mia. Como o mundo é pequeno, os quatro Beatles tinham ido fazer a mesma coisa. Consequência desse encontro, compuseram Dear Prudence, preocupados com sua obsessão pelos exercícios de meditação.

George Harrison foi quem mais foi fundo na cultura hindu. Aprendeu o básico da cítara com Ravi Shankar. Um dos pioneiros em montar eventos em prol de grandes causas, foi o responsável por unir vários grandes intérpretes (todos amigos) para o Concert for Bangladesh. Shankar era um deles.

Em 1972, quando aconteceu o Concerto, Ravi já era uma celebridade. Havia se apresentado nos festivais de Woodstock e de Monterrey. No entanto, não era mais “virgem” de Ocidente. Menino ainda, excursionara com um grupo de dança pela Europa. Havia conhecido Yehudi Menuhim, um dos violinistas mais conhecidos da música erudita, em 1952. Muito tempo depois, ambos gravaram o clássico West Meets East (1968), pela inglesa Angel Records. É um dos primeiros discos em que o erudito se mescla ao popular. Só muito tempo depois inventaram um termo para classificar esse gênero: “crossover”.

Na década do slogan “paz e amor”, aquele ar de espiritualidade transmitido por sua música e por sua fala mansa era atraente e apaixonante. E, como do espírito o próximo passo é a carne, enroscou-se com a produtora musical Sue Jones. Foi uma união abençoada: dela nasceu Norah Jones.

Espiritualidade elevada, Shankar não deixava de cuidar bem da sua vida aqui na Terra. Em 1979, quando Norah nasceu, ainda estava casado com a dançarina Kamala Shastri, com quem ficou até 1981. O romance com Kamala datava de meados dos anos 1940, quando ainda estava casado com Ammapuma Devi, que foi sua primeira mulher. Confuso, não? Para ficar um pouco mais, em 1981, tivera uma outra filha, mas com Sukanya Rajan: Anoushka Shankar. O caso com a mãe de Norah durou até 1986. Após o rompimento, reatou com Sukanya, e daí, sossegou..

Ravi Shankar gerou duas filhas talentosissimas. Não é coisa que acontece todos os dias. É raro. Norah cresceu convivendo pouco com o pai. Não existe nada da música dele na mistura de folk, country e jazz de Norah.

Anoushka conviveu mais com o pai, quando ele e sua mãe reataram. Teve lições de cítara com ele e passou a se apresentar aos treze anos, revelando enorme musicalidade. E conseguiu desenvolver uma carreira independente, mesmo tocando o mesmo instrumento.

Mas, de certo modo, Anoushka segue por uma linha evolutiva iniciada pelo pai, que é o tal do “crossover”. Nascida em Londres, passando a infância nos EUA, fazendo apresentações na Índia, o resultado é uma música que transcende rótulos.

Depois de gravar cinco álbuns, em 2011 lançou seu primeiro por uma das maiores gravadoras de música erudita, a Deutsche Grammophon. O declínio das vendagens de música erudita fez com que a Deutsche e outras majors do setor como a Decca e a Virgin Classics passassem a procurar outras opções que seduzissem ouvintes mais jovens. Elvis Costello lançou um disco com a mezzo-soprano Anne Sofie Mutter incluindo composições do roqueiro “crossover”, de Lennon e McCartney, Burt Bacharach e Tom Waits. Sting lançou pela Deutsche três álbuns explorando o folclore britânico e canções de compositores antigos. Em movimento inverso, o “erudito” Gidon Kremer registrou obras de Astor Piazzolla, com participações como a de Caetano Veloso. Outro que abordou o tango e Piazolla foi o judeu argentino Daniel Barenboim em Mi Buenos Aires Querido, pelo selo Telarc. Este é um item imperdível para o amante da música.

No primeiro álbum para a Deutsche Grammophon, em Traveller, Anoushka reuniu músicos como Pepe Habichuela e Concha Buika, apresentando temas que unem a música indiana e a espanhola.

Assista à apresentação de Anoushka com as músicas de Traveller.




Agora, em 4 de outubro, foi lançado o álbum Traces of You. Ela conta com a participação do músico e produtor britânico de origem indiana Nitin Sawhney. É um disco mais “light” – ou menos frenético – que o anterior e mais ocidental. Traveller é melhor, o que não quer dizer que Traces não seja. É bom, também. É apenas questão de gosto. Anoushka conta com a participação da irmã Norah Jones em The Sun Won’t Set, Traces of You e Unsaid.

Assista ao vídeo oficial da música-título Traces of You, com Anoushka e Norah Jones. O clipe foi dirigido pelo marido de Anoushka, o cineasta Joe Wright, de Razão e Sensibilidade e Desejo e Reparação.




Ouça também Flight, composta e executada por Anoushka.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Quem assistiu ao Concert for George, ocorrido um ano após a morte de George Harrison, vai se lembrar dela. Veja aqui.



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Duas ou três coisas de My Blueberry Nights, de Wong Kar-Wai

Norah Jones tem sido o “assunto” das minhas últimas conversas por e-mail com a amiga Vania. Talvez por isso, acabei revendo Um Beijo Roubado (é o título brasileiro), de Wong Kar Wai.

Se o diretor – craque nas escolhas musicais para seus filmes – gosta de Norah Jones, por que não eu? Ela é sucesso de crítica e público, sem dúvida. A gravadora Blue Note vendeu-a como intérprete de jazz quando sua música ficaria mais bem classificada como country-folk, gênero que não é dos meus preferidos. Seu disco Come Away with Me explodiu nas paradas (vendeu até hoje mais de 20 milhões) e foi bem recebido pela crítica, mesmo de revistas mais voltadas ao jazz. Não achei que era para tanto. Deu-me impressão de um brilhante golpe de marketing: muitos, um tanto desinformados, acharam que o que Norah fazia era jazz. Esse dado – gato por lebre – despertou em mim certa birra. Mesmo assim, é inegável que faz uma música bem agradável. E, depois de ter revisto o filme, tem competência como atriz.


Duas ou três coisas sobre o filme:
1. Algumas cenas são belíssimas. O chinês é um esteta, como demonstrou em seus filmes “orientais”. Um recurso que costuma usar é o de dar uma leve desacelerada (como um breve slow motion) em algumas cenas. Outro recurso é o de filmar através de vidros que refletem ambientes fora dos que estão sendo captados. O cinema é “um olhar pela janela”. Somos espectadores que não têm como intervir nas cenas vistas. Dentro do filme, vidros ou janelas são “anteparos”; separa o de “fora” do de dentro”. É um duplo distanciamento e um “olhar” sem “olhar”, é um ver parcial do “através” e do que se reflete.

2. As cenas iniciais são as de uma metrópole – Nova York –, ou seja “vertical”. Quando Elisabeth (Norah Jones) resolve sair da cidade indo para o interior do país, o filme se “horizontaliza” na paisagem aberta. Arruma trabalhos como garçonete, trabalha de dia e de noite pois, ocupando-se, não pensa muito sobre ter sido trocada por outra.

A verticalidade está em Elisabeth, que, do rés do chão, vê as luzes acesas e nota a presença de uma mulher no apartamento de seu namorado. Verticalidade está relacionada à busca de Deus, e a horizontalidade é relação do homem com seus pares. A vertical é o céu e a horizontalidade, a terra. Quando resolve viajar por lugares não conhecidos procura essa relação com o humano, a compreensão do mundo pela observação, pelo dia a dia do trabalho rotineiro, com as pessoas que, randomicamente, vai conhecendo, que entram em sua vida, “batendo ou não na porta antes de entrar”. Um dos clientes é Arnie ((David Strathairn). Abandonado pela mulher, embeba-se, e é o último a sair. Confrontando-se com a realidade do outro (“relações horizontais”), percebe que seu sofrimento com a perda (“relação vertical”) não é exclusivo.

Arnie sai do bar e bate o carro. Sue Lynne (Rachel Weiz) sofre com a morte do ex-marido. Vivo, não prestava; morto faz falta. O sofrimento de Sue Lynne tem alguma semelhança com a de Elisabeth. Ambas as perdas são definitvas.

2. Jeremy (Jude Law) é dono de um bar em NY. Tem um pote de vidro em que os clientes deixam as chaves para que aqueles que dividem os apartamentos as peguem. Elisabeth chega no bar e procura por seu namorado. Pela sua descrição (pelo que come, mais exatamente), Jeremy o identifica. Ela diz que vai deixar as chaves, para que, acaso apareça, possa pegá-las. Naquele amontoado de chaves, algumas nunca foram resgatadas. Portanto, pode-se dizer que elas são “registros” de amores ou amizades desfeitas. Uma delas é a do próprio Jeremy, abandonado por sua namorada russa Katya (Cat Power).

Numa noite, ela aparece quando se prepara para fechar o bar. Katya diz: “Às vezes, mesmo quando se tem as chaves, essas portas não podem ser abertas, não é?”. Jeremy responde: “E mesmo que a porta seja aberta, a pessoa que procura talvez não esteja mais lá, Katya”. Despedem-se laconicamente com um beijo.

3. Ao ser perguntado da razão de ter optado por uma cantora sem experiência em atuar, Kar Wai esclarece que vários atores orientais com quem trabalhou em filmes anteriores são cantores ou sabem cantar. Justifica a escolha dizendo que músicos têm muita noção de ritmo, e isso ajuda. Acertou com Norah. Ela é bem convincente, a ponto de esquecermos de que é cantora. Outra que trabalha em My Blueberry Nights é Cat Power. Faz uma ponta de alguns minutos. É Katya, a ex-namorada de Jeremy.

As imagens: a do carro é Sue Lynne (Rachel Weisz), com Jeremy, é Katya (Cat Power); nas três em série, é Leslie (Natalie Portman), uma jogadora profissional de pôquer; e última, é Elisabeth (Norah Jones)


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Love Me Tender, com Norah Jones

George Lucas inventou um sistema de som revolucionário para as salas de cinema, chamado THX. Nunca chegou ao Brasil em razão do custo elevado de instalação. E acabou não dando certo internacionalmente também, por uma dessas razões que a própria razão desconhece. Mas quem assistiu a algum filme em THX não esquece.

Laura Dern e Nicolas Cage em Coração Selvagem
O único que vi foi Coração Selvagem (Wild at Heart), de David Lynch. Lembro até hoje da “explosão” sonora da cabeça do fósforo na hora em que se acende. Quando surge a chama, ouvimos aquele som característico da pólvora na hora em que vira chama, superamplificado. No momento seguinte, salvo engano, entra uma das mais belas canções (lieder) de todos os tempos: Im abendrot, uma das quatro de Vier Letzte Lieder, de Richard Strauss.

Vi o filme numa sala de Paris com a Vania e o Marcio, que depois de mais de quinze anos morando lá, hoje, podem ser considerados franceses. Após terminada a sessão, tentamos pegar um táxi. Como estávamos em quatro, por uma dessas razões razoáveis apenas entre os taxistas franceses – recusam-se a levar mais que três passageiros (e não adianta argumentar) – e, no adiantado da hora, eram poucos nas ruas e os metrôs não circulavam mais, não nos restou outra opção senão voltarmos à pé. Paris é uma cidade bem menor que São Paulo. Mesmo assim, das proximidades da Galeria Lafayette até a Bastilha, não era um percurso deveras curto. A noite de setembro estava agradável e fomos nós, conversando e rindo. Paramos em um estabelecimento que encontramos aberto para comer e beber alguma coisa nas proximidades do Beaubourg. Seguimos pela Rue de Rivoli e por sua continuação, Rue Saint Antoine, até a Rue de Charenton. Já em casa, Marcio estava animado, cantando Love Me Tender. A Vania disse que ele tinha verdadeira paixão por essa música. Por coincidência, uma das cenas mais marcantes de Wild at Heart era justamente a de Sailor Ripley (Nicolas Cage) declarando seu amor por Lula (Laura Dern), quando sai da cadeia, cantando esse clássico de Elvis Presley. Para quem não viu o filme, Sailor era fanático pelo cantor, como o amigo Marcio.

Em todos os fins de ano passam, parte de dezembro e janeiro no Brasil. A Vania sempre lembra de me presentear com alguma coisa. Dessa vez, perguntou se queria o CD novo de Norah Jones. Nunca perguntou, sempre faz alguma surpresa, e dessa vez vem com a Norah? Tergiversei. Não sou o maior fã da filha de Ravi Shankar. Insistiu, dias depois, com um e-mail em que o título era “treat me like a fool....but love meeeeeeeeee”. Escreveu: Pena que tu não quer a Norah........ A bichinha canta o maix sexy LOVE ME que eu ja ouvi......... Velho Elvis tá se virando na tombe...............hê, hê....... E junto, enviou um link para eu ver o vídeo de Norah cantando Love Me Tender. E não é que eu gostei?

Veja a cena de Coração Selvagem em que Nicolas Cage canta Love Me Tender para Lula (Laura Dern)




Norah canata Love Me Tender:



Im abendrot, uma das Quatro Últimas Canções (Vier letzte lieder), de Richard Strauss, cantada pela americana Renee Fleming: