quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As vidas de Paul Motian

Motian em ação

 Fico sabendo da morte de Paul Motian pelo blogue da Lúcia Guimarães, de O Estado de S. Paulo, ocorrido em 22 de novembro. Tinha 80 anos e, segundo a nota, sofria de um problema na medula óssea. Lúcia diz que uma vez cometeu “o mau passo de pedir a ele uma declaração sobre mais uma temporada no Vanguard”.

Assisti a uma dessas apresentações que, costumeiramente, fazia com o saxofonista Joe Lovano e com o guitarrista Bill Frisell. Era uma formação interessante. Lançaram alguns CDs pela ECM. Sem o contrabaixo, a “alma” rítmica era a bateria; O som de Frisell é uma história específica: parece som havaiano — se é que isso existe —, sem deméritos, lembra aquelas mulheres dançando vestidas com sarongues coloridos. “Atirou” para todos os lados: tocou com músicos mais ligados ao avantgarde, como Don Byron, brasileiros, fazendo som “mexicano”, como Vinícius Cantuária, e em muitos — e coloque-se muito — dos álbuns que lançou, seu jazz pende para a música folk e country americanas. O saxofonista Joe Lovano, dos três, é o cara “mais jazz”. Passou a chamar atenção quando já não era mais um garotinho, porém, a partir daí, “desembestou”: grava um disco atrás do outro e há anos está entre os melhores tenoristas, com justiça.

Uma observação: é tão bom assistir às apresentações no Village Vanguard! É um lugar pequeno, em dois níveis, que dão para o palco montado em uma das pontas da sala. Enquanto se espera para entrar, vemos os músicos chegando, pedindo “com licença” para passar no meio dos que estão na fila. Estávamos lá e, de repente, passa um senhor franzino, de óculos e com um gorro, numa noite quente de fins de agosto: era Paul Motian.

A primeira participação de que tenho notícia de Motian é na do lendário trio de Bill Evans; o terceiro era ninguém menos que Scott LaFaro, morto bem jovem. Dias antes de morrer, em 1961, num acidente automobilístico, havia gravado Sunday at The Village Vanguard e Waltz for Debby. Foi o suficiente para entrar na história como um dos maiores baixistas de todos os tempos. Chales Mingus o odiava: é o suficiente, não? Pura inveja.

A outra formação excepcional da qual Motian participou foi a da banda de Keith Jarrett. Como solista, além de gravar alguns pela ECM, fez outros pela também alemã Winter & Winter (caracteriza-se pelas embalagens diferenciadas), JMT (que deve ter sido, não tenho certeza, o embrião da Winter & Winter, pois era comandada por Stefan Winter), e pela italiana Soul Note. Nunca parou.

Paul Motian (pronuncia-se “moriân”, e não “môchian”, como costumeiramente se falava, pois era de origem armênia) não é um baterista por excelência, desses como Elvin Jones, Max Roach ou Art Blakey. Sua “potência” não está no ritmo; está mais numa certa polirritmia que é só dele. Os discos que assinou como líder sempre se caracterizaram pela diversidade. Uma das formações mais interessantes foi a que tinha dois guitarristas. O “mau passo” a que Guimarães se refere foi quando perguntou-lhe, por telefone, sobre a temporada no Village em que estava “tocando com Lovano e Frisell”. Silêncio glacial do outro lado da linha. ‘Você quer dizer, eles estão tocando comigo’ corrigiu o baterista.” Lucia disse que foi a entrevista mais curta que jamais fizera.

Relevando um pouco a possível arrogância de Motian, façamos uma homenagem a esse instrumentista ímpar, que tocou até morrer.

Paul Motian e sua banda Bebop Elctric Band tocam “Brilliant Corners”, de Thelonious Monk, no Festival Chivas Festival, em São Paulo, 2003.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Keith Jarrett no Rio de Janeiro

Jarrett grunhe, dá gritinhos, mas toca muito
Como a água de um rio, que nunca percorre o mesmo caminho por mais de uma vez, as notas do piano de Keith Jarrett foram se aventurando por terrenos inexplorados naquele dia em Colônia, Alemanha. Quando foi lançado em dois LPs, Köln Concert, fez um sucesso como nunca um disco de jazz fizera, talvez com exceção de Forest Flower (1966), de Charles Lloyd, músico com quem tocara por certo tempo no início da carreira, atingindo a marca de um milhão de discos vendidos.

Quando fez essa apresentação, em 24 de janeiro de 1975, Jarrett já era um talento reconhecido: tinha feito parte da banda do “flower power” Charles Lloyd, participara da formação elétrica de Miles Davis, e gravara discos pelos selos Atlantic e Impulse com sidemen poderosos (Dewey Redman, Charlie Haden e Paul Motian).

Depois de Köln Concert faria outros discos em que, sentado ao piano, no qual os sons se encadeavam em ondas de improváveis improvisos. Várias performances posteriores, sempre ao vivo, foram disponibilizadas em discos pela ECM Records: Bremen-Lausanne, The Sun Bear Concerts (Osaka, Tóquio, Kioto, Nagoya e Sapporo, em 1976), Paris Concert (1988), Vienna Concert (1991), La Scala (1995), Paris/London – Testament (2009) [leia em http://bit.ly/rZjOMg], e agora, nos brinda com a lindíssima apresentação realizada, no Rio de Janeiro, em seu tour por terras brasileiras, no ano passado.

É uma “fórmula” de mais de 35 anos. Haveria, naturalmente, um desgaste ou diluição nesse eterno “repetir-se a si mesmo”. Não é o que acontece, porém. A exemplo das dezenas – e um quase milhar de apresentações – de discos gravados com o baixista Gary Peacock e o baterista Jack DeJohnette, num dos formatos mais tradicionais – o trio –, quase que exclusivamente compostos de standards conhecidos do público apreciador de jazz, mesmo assim, apresentam algo de original.

Capa do último álbum de Keith Jarrett
Os solos de Jarrett eram longos. Valorizava ou, intimamente procurava, demonstrar sua capacidade improvisativa em longos solos nos quais os momentos de “respiro” eram os de mudança de rota – ora agitado, ora rítmico; em outras, poético ou melancólico. Os últimos – Testament e Rio – demonstram que tem optado por pequenos fluxos improvisativos, como pequenas peças que se juntam de acordo com o seu estado de espírito. Mesmo que o público – ou a sinergia com ele – seja um dado importante, no fundo, os improvisos são “viagens internas”.

Rio se divide em quinze partes. A primeira, quebrada em síncopes marcadas pela mão esquerda, é um solo de pouco mais de seis minutos que causa certa estranheza do público que acaba de entrar em “contato” com Jarrett. A Parte II é em tom menor e representa algo mais “musical”, prenúncio de que os improvisos possam se inclinar por essa vertente. É reflexiva, tateante e explorativa como se estivesse a procurar uma linha. A apresentação segue um tanto morna, sem deméritos; morna porque o que esperamos de Jarrett é sempre o máximo, por conta das expectativas em que nele depositamos. Seria o caso de se perguntar qual é a amplitude da capacidade de um instrumentista como ele em ser sempre inovador. Não é difícil, portanto, percebermos cacoetes – cacoetes como um sotaque, como um modo constituinte de cada ser – que estavam presentes em solos de discos tão antigos como Fort Yahuh (1973), ou El Juicio (Atlantic, 1971).

A Part VII, que corresponde à primeira do segundo CD, é de linha melódica simples e próxima de códigos que associamos naturalmente aos valores do belo. A próxima parte (a oitava) é quase uma ruptura desse estado que tendemos a desejar que se mantenha, mas os primeiros acordes de sabor impressionista e toques orientalizantes da nona nos jogam em terrenos etéreos e, parcialmente, ao penúltimo. As “partes” não se interligam necessariamente, mas percebe-se que os solos nesse segundo CD parecem mais bem construídos, menos tateantes, e os ouvintes, mais comprometidos com o clima da apresentação, respondem mais calorosamente por meio de aplausos. As partes XII e XIII são emocionantes, principalmente a última. É difícil dizer se Rio é melhor (ou pior) que o solo anterior – Paris/London –, mas para nós, brasileiros, com uma ponta de orgulho patriótico, nos sentiremos orgulhosos por ter esse disco gravado no Rio de Janeiro.

Ouca a Parte XII do maravilhoso Rio.




Leia também sobre Jasmine, duo do pianista com Charlie Haden: http://bit.ly/rLYSsm
“Keith Jarrett em São Paulo”: http://conteudodalata.blogspot.com/2011/06/keith-jarrett-em-sao-paulo.html