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terça-feira, 31 de maio de 2016

Wanda Sá Tipo Exportação

A jovem promessa Wanda de Sah
Uma cantora brasileira que poderia ter feito um tremendo sucesso nos Estados Unidos: Wanda Sá. Dona de uma voz suave e tremendamente agradável, perfeita para o “novo ritmo brasileiro”, a bossa nova, que caiu no gosto do americano, Wanda cantava muito bem em inglês.

No Brasil, seu disco Wanda Vagamente, produzido por Roberto Menescal, de 1964, é hoje considerado um dos grandes clássicos da bossa nova. Sergio Mendes, prestigiado pianista de jazz em terras cariocas, foi um dos brasileiros que resolveu aventurar-se em terras americanas. Seu trio, com Sebastião Neto e Chico Batera, e as participações especiais de Bud Shank no saxofone alto e flauta, e a fluminense Rosinha de Valença no violão, e Wanda nos vocais, lançou Brasil ’66. A chamada na capa era ótima: “The greatest new south american arrival since coffee!” Deve ter funcionado. Mendes consolidou uma carreira respeitável, mesmo que alguns brasileiros possam torcer um pouco os narizes pelo tipo de “som exportação” criado por ele. Para Wanda Sá, com destaque na capa, grafada “Wanda de Sah”, também foi bom: a Capitol Records a convidou para gravar Softly!, álbum com arranjos de Jack Marshall.

Mas como a vida vai por caminhos que nós construimos, Wanda casou com Edu Lobo e resolveu cuidar mais dos filhos e menos da carreira. Findo o casamento, em 1982, resolveu voltar. Prestou vestibular e foi cursar Sociologia na PUC-Rio. Em outra mudança de vida, virou evangélica (gravou até um disco chamado Jesusmania), o que não foi impeditivo de resgatar a antiga carreira de cantora. Desde então, tem gravado regularmente, na maioria das vezes, em companhia de seu antigo mentor Roberto Menescal. A voz continua bonita e delicada. Pode ter perdido um pouco o bonde da história. Tivesse continuado com a carreira nos EUA, quem sabe, teria ficado mais famosa que Astrud Gilberto.

Óbvio que o destaque de Brasil ’66 é Wanda. Seu nome é o que está em corpo maior do que o de Sérgio. Assim mesmo, o álbum é bem distribuído em termos de protagonismo. Dois temas – Muito à Vontade, de João Donato, e Favela, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes – são executados em formato trio, o violão de Rosinha de Valença ganham destaque em Consolação e Tristeza em Mim, enquanto Bud Shank brilha na flauta em Ela é Carioca, com Rosinha junto, e em Aquarius.


Ouça Deixa, de Baden Powell e Vinícius de Moraes.



Belíssima a voz de Wanda em mais uma composição de Baden: Berimbau. O sax é de Bud Shank.



Uma das melhores: Reza, de Edu Lobo. O violão é de Rosinha de Valença.




Mais Wanda Sá em: Wanda Sá com seus amigos. 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Wanda Sá com seus amigos

Wanda Sá e o velho amigo Menescal
Se algumas viraram musas e inspiradoras da bossa nova, como a que gerou Garota de Ipanema, poucas foram protagonistas do movimento. Uma delas é Wanda Sá. As mais conhecidas foram Astrud Gilberto, Sylvia Telles e Nara Leão, mas Wanda não fica atrás de nenhuma delas quanto à qualidade como intérprete. Astrud é quase um acidente: estava no lugar certo na época certa. Casou com João Gilberto em 1959 e descobriu-se cantora devido ao empurrão do marido. Mudaram-se para os EUA e gravaram com o saxofonista Stan Getz o álbum Getz/Gilberto. Por um lado foi bom e por outro, não, para João: as portas estavam abertas para o baiano, mas Astrud gostou de Getz.

Como as ondas das praias cariocas, Sylvinha Telles, considerada uma das grandes intérpretes da bossa nova, hoje, encontra-se um tanto esquecida. Como as ondas, daqui a pouco vão se lembrar dela. Tinha voz pequena, delicada, e combinava bem com o gênero. Meu amigo Zeca Leal era amigo de Sylvia e Candinho, seu primeiro marido. Emprestou vários discos de playback com orquestrações de Nelson Riddle de canções de Frank Sinatra para ela treinar o seu canto. Disse-me que ela dava umas belas atravessadas. Tinha bom ouvido. Deve-se, em parte, o esquecimento de Sylvinha, à morte precoce em um acidente automobilístico em 1966. Era garota ainda. Mal tinha passado dos trinta.

Parte da turma da bossa nova reunia-se no apartamento de Jairo Leão. Roberto Menescal, Carlos Lyra, Sérgio Mendes e Ronaldo Bôscoli eram os frequentadores mais assíduos. Para Nara Leão, filha de Jairo, tornar-se cantora foi um passo natural. Apesar de associada à bossa nova, no início da carreira, na menina de classe média alta, um dia, a voz do morro soou mais forte, assim como para Carlinhos Lyra. Nara participou do Teatro Opinião. Cantava Carcará com João do Valle e Zé Keti. Ela foi maior que os gêneros. Fez até um songbook de Roberto Carlos, quando isso nem moda era.

Wanda Sá é da segunda dentição da bossa nova, assim como a turma que se reunia na casa de Nara. Em 1964, lança o belíssimo Wanda Vagamente. Participa também do Brasil 65, de Mendes, nos EUA. “Desaparece” da cena musical depois de casar-se com Edu Lobo. Opta por criar os três filhos. Separa-se de Edu em 1982 e, paulatinamente, retoma a carreira interrompida. Volta a se apresentar e a gravar, quase sempre com seu antigo professor de violão Roberto Menscal.

Ouça Vagamente na íntegra.




O tempo longe dos palcos não a fez perder o bonde. A voz, inclusive, mais grave, ganhou maior expressividade. Não é mais a voz da garota de Vagamente. Em comemoração aos seus 70 anos, completados em 11 de julho de 2014, a gravadora Biscoito Fino lançou Wanda Sá ao Vivo em DVD. Os registros foram feitos no Espaço Tom Jobim, Rio de Janeiro e conta com vários e velhos amigos como Marcos Valle, João Donato, Carlos Lyra, Dori Caymmi e a americana Jane Monheit. [sobre Jane, leia http://bit.ly/1CBbj7U].

Nada melhor que comemorar datas como essas com os amigos.

Ouça Inútil Paisagem, com participação de Jane Monheit.




Ouça também faixa que abre o disco: Só Me Fez Bem. Era uma das músicas de Vagamente. É uma bela composição do ex-marido Edu Lobo, em parceira com Vinícius de Moraes.




Veja Wanda e Menescal em O Barquinho.




Os dois cantam Rio no programa Ensaio.