quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Variações das Variações Goldberg

Catrin Finch e a harpa
As Variações poderiam ser chamadas simplesmente assim. O complemento “Goldberg” é por conta do cravista que a executava para o conde Hermann Karl von Keyserling: Johann Goottlieb Goldberg. Há controvérsias, entretanto. Se 1741 é considerado o ano que fora composta, Goldberg teria nessa época, 14 anos. A história que corre é a de que o conde Keyserling vivia doente e passava as noites insones. Encomendou então a Johann Sebastian Bach uma peça que pudesse ouvir durante as noites em claro – não sei se é exatamente a expressão se anterior à invenção da eletricidade – e conseguisse aplacar suas dores. Pensando bem, parece um tanto fantasiosa, mas como está foi dito em O Homem Que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962), filme de John Ford: “Quando a lenda torna-se fato, que fique a lenda.”

O que é lenda? Ao contrário do que se propaga, a frase não é de A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, 1951). Impressionante como a internet pode servir para a desseminação de informações equivocadas. A confusão pode ocorrer, pois no filme de Billy Wilder, o protagonista é um jornalista inescrupuloso, vivido por KirkDouglas. Em O Homem Que Matou o Facínora, Ransom Stoddard (James Stewart) muda-se para uma pequena cidade do oeste americano. No caminho, sua carruagem é assaltada pelo gangue de Liberty Valance (Lee Marvin), o bandido mais temido da região e é severamente espancado. Depois que chega à cidade, é humilhado novamente por Liberty, mas este é rechaçado por Tom Doniphon (John Wayne).

Os dois ficam amigos e apaixonam-se pela mesma mulher: Hallie (Vera Miles). Quando descobre que Tom é analfabeto, dispõe-se a ensiná-lo a ler e escrever. Tom, por sua vez, ensina Ransom a usar uma arma de fogo, depois de receber um conselho dele. “Você tem duas saídas: ou vai embora da cidade ou aprende a atirar.” É mais ou menos o que Tom diz a Ransom. Para encurtar, Stoddard desafia Valance para um duelo. O lógico seria de que o jovem advogado vindo da “civilização” levasse a pior. Pois acontece o contrário.

Muito tempo depois, Ransom não mora mais em Shinbone, está casado com Hallie e é senador. Está de volta a Shinbone para o enterro de Tom. O político confessa a um jornalista que está presente que o homem que “matou o facínora” não fora ele, e sim Doniphon, que ficara escondido sabendo que o amigo não era páreo para Valance. Depois de contar a história, pergunta: “Você não vai usar essa história, sr. Scott?” Este responde: “Não senhor. Isso aqui é o Oeste. Quando a lenda se torna fato, imprima-se a lenda.” Bom, seria interessante que esse equívoco fosse corrigido.

As variações. Verdade ou não, fantasiosa ou não, certo é que é uma das obras-primas da música e peça obrigatória de qualquer pianista ou cravista. Para o instrumento para o qual foi composto, as interpretações consagradas são a de Wanda Landowska e a de Gustav Leonhardt. Das mais recentes, uma bem interessante é a de Andreas Staier, de 2010, lançada pela Harmonia Mundi. Há outras ótimas, como a de Christophe Rousset e Kenneth Gilbert.

Ouça as Variações, com Gustav Leonhardt, ao cravo.




A potência sonora do pianoforte e depois a do piano moderno substituiu o cravo para a maioria das obras de teclado de Bach, com exceção das compostas para o órgão. Há centenas de registros ótimos. É até difícil dizer qual é a melhor. Tempos atrás, qualquer gravação de Glenn Gould de Bach era considerada definitiva pela maioria dos críticos. Os que não gostavam, odiavam os maneirismos do canadense excêntrico, que sempre levava para as suas apresentações e gravações a cadeirinha construída por seu pai quando era criança. Depois que morreu precocemente, com 50 anos, a aura de gênio empalideceu. As Variações Goldberg ocupam lugar especial no currículo de Gould. O registro de 1955 foi a sua estreia pelo selo Columbia. Em 1981, voltou a gravar a mesma obra, completamente diferente da primeira. Esta, gravada analogamente (Gould tinha paixão pelas tecnologias de gravação em estúdio), tinha a duração de 38m26s, enquanto a última, registrada digitalmente,  51m14s. Em 1982, morreu.

Assista ao vídeo com Glenn Gould interpretando as Variações, na versão de 1981.



Uma das minhas favoritas é a de András Schiff. Aliás, é um dos meus preferidos tocando qualquer coisa.



Outras Variações. Há tempos conheci duas versões diferentes. Uma delas é para trio de cordas, com Julian Rachlin (violino), Nobuko Imai (viola) e Mischa Maisky (violoncelo). A transcrição é de autoria de Dmitry Sitkovetsky, em 1984. Ouça.




Foi lançado em 2009 um disco interessante: uma transcrição para a harpa, de Catrin Finch, pela Deutsche Grammophon.

Veja Catrin Finch na harpa executando a Aria das Variações.




No mesmo ano foi lançado pela Lontano (Warner), com o harpista Sylvain Blessel. Assista a alguns trechos aqui. Andrew Clements, do The Guardian, considera-a a melhor dentre as duas. A de Sylvain não é uma transcri(a)ção, como a de Finch. As reservas de Clements são quanto às “liberalidades” e “efeitos de harpa pelos dedos de Finch”.
















terça-feira, 26 de agosto de 2014

Cécile McLorin Salvant é a maior revelação dos últimos anos


Nem Billie Holiday e nem Ella Fitzgerald conseguiram ficar em primeiro lugar “cantora do ano” e “cantora do ano – rising star”, pela revista Downbeat, no mesmo ano. Confesso não saber se em seus tempos existia a segunda classificação. A responsável pelo ineditismo é Cécile McLorin Salvant, capa e destaque de várias publicações especializadas em jazz. E tem mais: seu álbum WomanChild foi considerado o melhor do ano na opinião da crítica e também a “Jazz Artist” na seção “Rising Star”, ou seja, ficou em primeiro em quatro categorias diferentes.

Há dois anos Cécile nem poderia imaginar que algo parecido pudesse acontecer. WomanChild, foi lançado ano passado, pela MackAvenue. É seu disco de estreia no mercado americano. Depois é que se tocaram que havia um gravado com o saxofonista francês Jean-François Bonnell, seu ex-professor, chamado, simplesmente, Cécile.

A quase menina – completa 24 anos em outubro – nasceu em Miami, filha de um médico, natural do Haiti, e de uma francesa, educadora e dona de uma escola bilíngue. Sua primeira língua foi o francês. Com quatro anos, a mãe colocou-a para estudar piano. Cécile é aquela típica filha de família nascida de pais que cedo preparam as crianças para o futuro. Muitas vezes criticada, essa atitude de forçar seus rebentos a cumprir tarefas que não são naturais para a idade, pode valer posteriormente. Mas não é garantia. Com ela deu certo. Fala e escreve em três línguas e persistiu nos estudos de música. Mudou-se para a França com o propósito de estudar o período barroco no Conservatório Darius Milhaud e cursar Direito.

Interessando-se pela música de improviso em razão de ter ficado fascinada com Bessie Smith, começou a estudar com Jean-François Bonnel. Logo depois, estava participando de apresentações com seu professor. Se a expectativa paterna fosse a de Cécile tornar-se cantora lírica, aconteceu um leve desvio. A frustração, no entanto, deve ter desaparecido com o sucesso e o imenso talento demonstrado.

Percebendo que seu caminho era em direção ao jazz, resolveu participar do Thelonious Monk International Jazz Vocals Competition. Ficou em primeiro lugar. Um dos presentes no concurso era Ed Arrendell, artist manager que tinha como cliente Wynton Marsalis. Por meio de Arrendell, encontrou-se com ele. Recebeu o conselho de que, como cantora, nunca deveria assumir um papel passivo com a banda, e sim ela imprimir o ritmo. Wynton, posteriormente, definiu-a com com os seguintes adjetivos: “Equilíbrio, elegância, alma, humor, sensualidade, poder, virtuosismo, alcance, percepção, inteligência, profundidade e graça.” Aaron Diehl, seu pianista, afirmou que Salvant “não é apenas uma cantora. Ela é um músico de jazz.”

As atenções voltadas à Cécile não representam que é a maior ou a melhor e tampouco que será uma estrela como foram Holiday, Fitzgerald ou Sarah Vaughan. Fato é que está com tudo e sabe que tem um longo caminho à frente. Seu senso de autocrítica é forte. Em entrevista dada a Chema García Martinez do periódico espanhol El País por ocasião da apresentação no prestigiado Festival de Jazz de Victoria-Gasteiz, afirma: “Simplesmente não me sinto bem lendo o que dizem sobre mim, como tampouco ver meus vídeos ou escutar meus discos. Em algum momento posso estar condicionada pelo que dirão. Sou insegura, tenho medo de fazer algo e depois me dar um ataque de pânico pensando se fiz bem. Às vezes acordo coberta de suor, convencida de que o que faço é uma fraude.” Quando o repórter afirma que “depois de 18 meses […] tornou-se uma estrela do jazz”, responde: “Eu não sou uma estrela.”

Tanto se fala do esgotamento da música erudita ou do jazz. Houve sim um encolhimento do público apreciador desses gêneros, sem dúvida. Porém, nunca deixaram de evoluir, apesar do empobrecimento do gosto musical. Sempre haverá espaço para a boa arte. Salvant é um exemplo, como reforça Ted Gioia, autor do texto do encarte de WomanChild: “De vez em quando um novo artista de jazz chega à cena e nos lembra do poder e da glória da sua música, e mostra como jazz pode mexer com nossas emoções.”

Além das qualidades como cantora, Cécile McLorin Salvant é carismática e tem presença não sendo exatamente bela. É uma figura que chama atenção, com seus óculos de aro branco, de Emmanuelle Khan, designer que tem como um dos clientes o rapper Run-DMC. E o melhor: canta muito. Além de intérprete, compõe. Duas faixas são de sua autoria: WomanChild, Le front cache sue tês genoux e Deep Dark Blue.

Veja Cécile cantando a música título.




Veja Salvant cantando I Didn’t Know What Time It Was, no Dizzy’s Coca-Cola Club. No CD, é a segunda faixa.




No mesmo clube, canta Mean to Me.




O “making of” de WomanChild.