quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Chick Corea (re)ouvido

Chick Corea quando jovem
Um dos grandes álbuns no formato trio (piano, baixo, bateria) é Now He Sings, Now He Sobs, de Chick Corea com Miroslav Vitous e Roy Haynes. Dois anos antes deste, Chick estreava como líder com Tones for Joan’s Bone. De lá para cá são 49 anos, tempo bastante para o pianista ter gravado mais de 100 álbuns nas formações mais diferentes.

Logo no início da carreira já foi chamando a atenção de veteranos como Stan Getz e Miles Davis. Aliás, foi com o trompetista, tocando piano elétrico, que acontece a virada na carreira de Corea. Ele e alguns outros músicos que tocaram com Miles montam as principais bandas do que foi rotulado como jazz-rock ou jazz fusion. Corea montou o Return to Forever, Joe Zawinul e Wayne Shorter o Weather Report, e Herbie Hancock lança o revolucionário Head Hunters.

O meu primeiro contato com Chick foi com No Mystery (Polydor, 1975). Lançado no Brasil, não custava tanto quanto os importados. Nessa época, a gravadora Polygram soltava um bom número de títulos de jazz e de música erudita, além de ter sob contrato os maiores nomes da música brasileira.

E não foi o único de Corea a ser lançado aqui. Where Have I Known You Before, anterior ao No Mystery, saiu logo depois – ou foi o contrário? – não me lembro. Na mesma época, sairam alguns títulos da gravadora alemã ECM. Por este selo, outros LPs do americano foram disponibilizados: Piano Improvisations vol.1, Return to Forever (o título é de 1972 e passa ser o nome de sua banda composta por Stanley Clarke, Lenny White e Bill Connors, substituído por Al DiMeola, posteriormente), Circle (com Anthony Braxton, Dave Holland e Barry Altschull), e Crystal Silence, duo com o fabuloso vibrafonista Gary Burton. Os da ECM e os dois de sua banda elétrica eram uma boa amostra da sua versatilidade: free jazz no álbum com Anthony Braxton, virtuoso ao piano solo, lírico, tocando com Burton e “roqueiro” com a banda Return to Forever.

Em uma das primeiras edições do São Paulo-Montreux Jazz Festival – ou na primeira mesmo – Corea era uma das atrações. A sua apresentação foi calcada no repertório do disco The Leprechaum, o mais recente. O título era uma pista do que era o disco. Na sua nova fase, entrava no mundo das fadas, duendes e assemelhados. E, pelo jeito, a “fada” era Gayle Moran, a cantora de voz doce e etérea. Não por acaso, tornou-se sua mulher. Apesar de Gayle, não poderia perder a chance de ver o ídolo. Por sorte, um dos membros da banda era o flautista e saxofonista Joe Farrell. O momento maravilha do show foi justamente a dele no saxofone soprano e Corea no piano elétrico tocando Crystal Silence. Valeu por tudo.

Depois de The Leprechaum, lançou My Spanish Heart, um álbum duplo. Estava com um pé atrás. Comprei assim mesmo. Passei muito tempo sem saber se tinha gostado ou não. Mas essa história fica para a próxima.


Uma seleção pessoal dos discos de Chick Corea dessa época
• Todos os álbuns do Return to Forever são bons, ou quase. O primeiro, ainda com o nome de Chick, é Return to Forever (ECM 1972), excepcional, com uma de suas melhores composições: Crystal Silence. Conta com Airto Moreira, Flora Purim, Stanley Clarke e Joe Farrell. A curiosidade é que o primeiro álbum oficial do Return to Forever, nos EUA é Light as a Feather. O primeiro, lançado em 1972 na Europa, só saiu em 1975 no mercado americano.

Ouça o LP na íntegra. Crystal Silence é a segunda faixa (12:00)



Light as a Feather. Segundo do RTF. Tem muito a ver com o anterior. Conta ainda com a mesma formação do anterior. É deste álbum uma das grandes composições de Corea: Spain.

Ouça. Os vocais são de Flora Purim.




Hymn of the Seventh Galaxy (1973) é o primeiro com a pegada mais RTF. A banda é formada por Corea, Stanley Clarke, Lenny White e Bill Connors na guitarra.

Ouça na íntegra.




Where Have I Known You Before (1974). Com a saída de Connors, que desejava seguir carreira solo, entra Al DiMeola. É uma mudança importante no RTF. Este é o melhor disco da banda, junto com o seguinte No Mystery. Excepcional.

Ouça Vulcan Words, a primeira faixa.




Ouça Song to the Pharoah Kings.




No Mystery (1975). Obra prima do jazz fusion.

Dayride, faixa de abertura, composição de Stanley Clarke.




Jungle Waterfall tem uma batida irresistível.




Harmonia total entre Corea e Clarke em Interplay.




Puro balanço em Flight of the Newborn.




Romantic Warrior (1976). É o primeiro na nova gravadora, Columbia. A guitarra de Al DiMeola é dominante. Apesar dele, é bom, menos que os anteriores, mas com grandes momentos. Algo em Romantic Warrior me fez ignorar Musicmagic, o posterior.

Medieval Overture é a faixa de abertura. É música para ouvir bem alta. Ouça.




A guitarra de DiMeola predomina em Majestic Dance.



O grande Corea acústico está presente em Now He Sings, Now He Sobs, como disse no começo. Steps-What Was abre o disco.




Matrix é a segunda faixa.




Ouça Windows.




Os títulos da ECM
Em sua maioria, são muito bons.
• Os solos ao piano. Todos ótimos: Piano Improvisations vol. I (1971), Piano Improvisations vol. 2 (1972), Delphi (1975)
• Tem quem não goste dos discos avant garde de Corea com Anthony Braxton, mas o pianista toca com músicos de primeira: A.R.C. (1971), Circle - Paris Concert (1971)
Crystal Silence (1973), duo com Gary Burton, é extraordinário. 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O doce balanço de Allan Harris

Allan Harris, no Fowley Center
Uma boa interpretação de um standard consagrado, de modo original, nos chama a atenção, naturalmente. Standards são standards. Noventa por cento dos cantores e cantoras não trazem nenhuma novidade cantando-os, mesmo que tenham belas vozes. As diferenças são muito sutis. Também não adianta cantar Summertime em ritmo funk para ser original. O bom gosto sempre deve estar presente. Essa qualidade não falta a Allan Harris.

A caminho dos 60 (nasceu em abril de 1956), não é um cantor muito conhecido, no entanto, merecia. Nunca se sabe por que alguns são famosos aos 20, 30 ou 40 – e mantêm-se no topo ou são logo esquecidos – e outros, nunca chegam ao estrelato apesar de bons. Tardiamente, Harris tem aparecido nas listas dos melhores em revistas especializadas. Na última lista dos melhores, pela Downbeat, sequer está entre os melhores, mas ficou em primeiro dentre os “rising stars”. Está um pouco velho para ser um “rising star”, bom, mas nunca é tarde. No ano anterior, também despontava como um dos “rising stars”.

Uma possibilidade de estar ficando mais conhecido apenas agora. pode ser em razão do que lançou anteriormente. O álbum Open Up Your Mind, de 2011, vai por uma seara complicada: aquela em que nunca se sabe se é pop ou jazz. Talvez funcione melhor para alguns, que são realmente jovens, como Jamie Cullum ou Michael Bublé – se bem que este é um jovem “velho” –, mas para muitos que perseguem a fama por esse terreno conseguem desgostar os amantes do pop e do jazz ao mesmo tempo.

Em seus lançamentos mais recentes, Allan, sem tornar-se um mainstream, aproxima-se do que o ouvinte de jazz quer escutar. Convergence, lançado no ano seguinte ao Open Up Yor Mind, tem como referência os dois discos que Tony Bennett canta com o genial piano de Bill Evans. As canções escolhidas, inclusive, são uma pista clara: Some Other Spring, Waltz for Debby, Days of Wine and Roses, But Beautiful, We’ll Be Together Again e Some Other Time são temas caros ao fabuloso Bill. Está certo que a pianista Takana Miyamoto não é Bill Evans, mas é uma parceira perfeita para o canto de uma voz impecável de barítono, que é a de Allan Harris. Afinadíssimo, mesmo grave, tem aquela quentura do registro das vozes negras. É uma voz inequivocamente negra.

De Convergence, veja Harris e Takana em The Days of Wine and Roses.




Ouça My Foolish Heart, com Harris e Miyamoto.




Bom, mas vamos ao tema referido no primeiro parágrafo. É Funny Valentine, do mais recente Black Bar Jukebox. O órgão é de Pascal Le Boeuf, que faz contraponto à bela marcação da bateria de Jake Golbas.

Veja o clipe. Grande voz. A voz de Gregory Porter (leia em http://bit.ly/UjCi2R), o darling atual da crítica, é parecida com a de Harris.




Um dos melhores números de Black Bar Jukebox, além de My Funny Valentine, é Miami.




Ouça outras faixas de Black Bar Jukebox.