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sexta-feira, 21 de julho de 2023

Sons viajantes de Jon Durant e Stephan Thelen

Ao ouvir “Crossings”, duo dos guitarristas Jon Durant e Stephen Thelen, a primeira associação é com os álbuns de Robert Fripp com Brian Eno e Andy Summers, ex-Police. Evidente que o protagonismo do trio era do baixista e cantor Sting, mas, como é de costume em trios, tanto nos de jazz, como nos de rock, cujo exemplo maior foi o Cream, formado por Eric Clapton e Jack Bruce, o bom som é a soma das partes. Tinha a guitarra de Summers como elemento primordial e a brilhante bateria de Stewart Copeland. Resumo: Andy Summers era muito mais que um suporte para o brilho de Gordon Sumner. Além de gravar com o ícone Robert Fripp, chegou a enveredar pela música brasileira, por meio de gravações com o também guitarrista argentino, radicado no Brasil, Victor Biglione, e até em parceria com Fernanda Takai.

Os discos gravados com Fripp conservam um frescor, depois de tanto tempo, principalmente, para os fãs do chamado rock progressivo. São eles “I Advance Mask” (1982) e “Bewitched” (1984). 

“Crossings” nos faz lembrar do duo de Fripp, mas não com outro guitarrista, mas sim com Brian Eno: “(No Pussyfooting)” (1973). Lembro até hoje com que estranheza ouvi pela primeira vez esse LP (não existia CD nem streaming naquele tempo). Na época analógica, quando o sintetizador inventado por Robert Moog era uma invenção recente a ser explorada, o som dos dois era uma novidade. Ainda não tinha surgido o termo “ambient music”. Pois, Eno é a figura central dessa nova linguagem que depois ficou comum e incorporada em todos os gêneros musicais.

A guitarra, nas mãos de Robert Fripp, atingiu um novo patamar. Além desse instrumento, popularizou o Mellotron, uma engenhoca, ainda na era analógica, que tinha um “banco de dados” de sons pré-gravados em fitas magnéticas que eram acionadas pelo teclado. Não foram pioneiros, mas Fripp e Edgar Froese, do Tangerine Dream, souberam explorar sonoridades originais do instrumento, não apenas como fundo sonoro. 

Robert Fripp, criador do King Crimson, é um dos que expandiu as possibilidades de uma simples guitarra conectada a pedais. Além da guitarra, é o músico que melhor soube explorar um instrumento – se bem que não se deve deixar de citar outro mestre, Edgar Froese, do Tangerine Dream – , ainda analógico, que tinha um “banco de dados” de sons pré-gravados em fitas magnéticas que eram acionadas pelo teclado. É também o criador do que ficou conhecido como “frippetronics”. Seu estilo de tocar fez escola e impressiona até hoje. Resumindo: é gênio.

Não sei se de quantos possam ter ouvido “(No Pussyfooting)”, mas tê-lo ouvido em 1973 ou pouco depois, foi uma experiência insólita. Era um tipo de música pura novidade na época. Os sons interligados, contínuos em duas faixas longas apresentavam um novo lugar, uma paisagem desértica e infinita. Os dois tinham “inventado” uma cascata de sons que eram reproduzidos em looping. Tudo muito simples, visto hoje, mas muito engenhoso, pelo menos para aquele tempo. Ambos gravaram sons em uma fita magnética e colaram uma ponta na outra para serem tocadas em um gravado de rolo Revox, considerado o top desestimo de aparelho. Uma explicação: antes do streaming, dos CDs, existiram os gravadores e reprodutores em fita. Os populares eram os que nós chamávamos de “fita cassete” e os mais sofisticados e de reprodução de alta fidelidade os gravadores de rolo.

Pois Eno e Fripp fizeram um disco usando os gravadores/reprodutores Revox, sintetizadores VCS 3 e guitarras. O que se ouve em “(Nopussyfooting)” é uma cascata sonora, às vezes, opressiva, climática e original.

Escrevi cinco parágrafos sobre Robert Fripp e suas parcerias com Andy Summers e Brian Eno para escrever poucas linhas de Jon Durant e Stephen Thelen. É que “Crossings” lembra muito “(No Pussyfooting)”. Quase esqueço de citar “Evening Star” (1975) e, menos ainda, “Equatorial Stars” (2004), mas é de propósito. Mas é o álbum que me vem à cabeça quando ouço “Crossings”.

Jon Durant toca uma guitarra fretless. Não conheço muitos que tocam esse tipo de instrumento.Stephan Thelen produz sons no e-bowed guitar, que vem a ser uma engenhoca eletrônica em que se obtém um “sustain” infinito, o que lembra o “looping” do Revox. Esse som atmosférico evoca os climas sonoros de Robert Fripp e Terje Rypdal. Sobre eles não tenho muito mais o que comentar. Que tal mergulhar no som dos dois?

Ouça o álbum.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Sean Foran e a melancolia


Pelo dicionário de Antonio Houaiss, a melancolia pode ser um “estado afetivo caracterizado por profunda tristeza e desencanto geral”, e, por extensão, “sentimento de vaga e doce tristeza que compraz e favorece o devaneio e a meditação.” Tentemos ver então como um “sentimento de vaga e doce tristeza”. Bom, mas existe uma “doce tristeza”? A tristeza é quase sempre amarga. No máximo então, vamos considerar a melancolia como um estado que, não sendo antônimo efetivo de “alegria”, seja aquele em que entramos em “um sentimento de vaga e doce tristeza”, tristes até, mas não tanto como o jovem Werther, personagem de Goethe. Tentemos então como algumas das belas passagens das três últimas sonatas de Franz Schubert.

Permito-me a entrar em outra seara: artistas que nos levam à melancolia e à tristeza não são, necessariamente, melancólicos e tristes.Confunde-se comumente a obra com o autor. Não necessariamente um gênio é um bom caráter, boa gente. Fala-se bastante de que Pablo Picasso, além de misógino, foi um mau pai. A dramaticidade de um lied de Schubert, como em “Im Abendrot”, ou “Die liebe hat gelogen”, no melancólico “Andante con moto” do “Piano Trio no. 2, op. 100”, não combinam com a história do compositor austríaco, bon vivant, que vivia às custas dos amigos ricos, e teve a morte prematura em consequência da sífilis. Isso não combina exatamente com suas composições sublimes, ternamente melancólicas.
Essa breve digressão é em razão do início de “Room with a View”, primeira faixa de “Frame of Reference”, do australiano Sean Foran, lançado em 2016. Nessa canção, iniciada com arpejos de Foran ao piano, é seguida de timbres melancólicos do violoncelo de Ben Davis e da guitarra atmosférica de Stuart McCallum, que entra logo a seguir, enriquecida com a bateria de Joost Hendricks. No todo, é um tema em que os instrumentos interagem em perfeita harmonia, melodicamente rica, colorida, em que as luzes solares atravessam nuvens escuras.

Os arpejos de Sean Foran ao piano assemelham-se com a sonoridade do guitarrista Pat Metheny. A comparação não tem o propósito do demérito, pois ele mesmo citou o americano como influência musical. Lembro da época em que Pat tinha o tecladista Lyle Mays como seu parceiro musical. 

Uma boa imagem de como as composições de Foran evoluem — li em uma resenha não assinada e me permito citá-la — como o desabrochar de uma flor. Ao som de seu piano, entrelaçam-se a guitarra, o violoncelo e o saxofone de Julian Argüeles. Tudo é finamente construído, combinando lirismo, melancolia, climas cinematográficos — penso numa paisagem a percorrer o meu horizonte visual —, que encantam por sua beleza impressionista. “A Room with a View”, “Frame of Reference”, “A Fine Balance”, essas três, penso eu, combinam bem com o que tentei expressar nesse breve texto.


Ouça o álbum.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A bela e boa Hedvig Mollestad

Duas coisas são essenciais para prestarmos mais atenção em Hedvig Mollestad. Uma é a que nesses tempos de empoderamento – essa expressão pode cair em desuso rapidamente, assim como são as modas – das mulheres, uma guitarrista em um mundo em que os homens são maioria, é um bom dado. O talento é a segunda coisa.

Onde elas são maioria, no jazz, principalmente, é no mundo das cantoras. Exemplos: Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Anita O’Day. Mesmo nos tempos atuais, para cada Kurt Elling ou Michael Bublé, há uma infinidade de mulheres de talento: Diana Krall, Dianne Reeves, Madeleine Peyroux, Dee Bridgewater, Cécile McLorin Salvant, Becca Stevens, Cyrille Aymée, Luciana Souza, dentre outras. Há também um crescente número de boas instrumentistas: Anat Cohen, Ingrid Jensen, Akua Dixon, Nicole Mitchell e Melissa Aldana.

Hedvig Mollestad e sua Gibson
Faz tempo que a Escandinávia “produz” bons músicos, e é tradicionalmente um bom “importador”. O trompetista Don Cherry morou por muito tempo na Suécia, Stan Getz casou com uma sueca e morou nesse período em Copenhagen.

A capital da Dinamarca abriga um dos mais tradicionais clubes de jazz, o Jazzhaus Montmartre, mais conhecido como Café Montmartre, e, por isso, confundido por alguns desavisados que escrevem sobre música, que o situam em Paris. Além dos dois citados, a Escandinávia foi a morada do pianista cubano Bebo Valdés. O inglês John Surman, bem conhecido pelos fãs dos álbuns lançados pela ECM, mora em Oslo, assim como o vibrafonista americano Rob Waring. Cito os dois porque gravaram, com o brasileiro Nelson Ayres, o belíssimo “Invisible Threads”, neste ano.

A gélida Noruega é o país natal de uma série grande de bons músicos, a começar por Jan Garbarek, um dos primeiros a ficar conhecido, depois de participar do trio europeu de Keith Jarrett. Da mesma geração, ou próxima dela, temos ainda Ketil Björnstadt, Arild Andersen, Jon Christensen, Karin Krog, Jon Balke, Nils Petter Molvær, Sidsel Endresen e Terje Rypdal. E a lista continua com alguns mais novos: Bugge Wesseltoft, Marius Nest, Arve Henriksen, Mathias Eick, Arve Henriksen, Christian Wallumrød, Eivind Aarset, Tord Gustavsen, Thomas Ströner e Helge Lien. A lista é longa. Por coincidência, a maioria absoluta tem seus discos lançados ou pela ECM ou pela ACT Music.

Movido pela estatística e pela curiosidade, resolvi arriscar em Hedvig Mollestad. Ela vai na linha meio roqueira de Terje Rypdal. Cabe melhor na classificação de música instrumental, nem tanto jazz, na acepção mais tradicional. Na maioria dos discos até agora lançados, é acompanhada pela baixista Ellen Brekken e pelo baterista Ivar Loe Bjørnstad. A formação tem seu charme por ser composta de duas mulheres e um homem.

Lançou há pouco “Smells Funny”. A veia roqueira se revela logo na primeira faixa. Ouça “Beastie, Beastie”.




Infelizmente, as outras faixas ainda não estão disponíveis no Spotify. Mas você pode ouvir quatro faixas de “Black Stabat Mater”. Ouça.




O título nos remete ao Black Sabbath. Com o “black”, perverte-se o “Stabat Mater”, que serviu de fonte a várias composições musicais de autores como Haydn, Pergolesi, Liszt, Rossini e outros mais. Portanto, não é mera coincidência que Mollestad tenha tocado a famosíssima “Sabbath Bloody Sabbath”. Os vocais são de Gabrielle. Veja.




No YouTube há várias apresentações de Mollestad. Veja uma de 2014.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A guitarra impressionista de Scott DuBois

Quando Scott viu que tinha talento para  a guitarra, ficou a pensar que nome adotaria. Scott do quê? Scott DuBois? Que belo nome, sem dúvida. Imagino que seja o seu nome verdadeiro. É só uma bobagem que pensei. Apenas que, se é o registrado em sua certidão de nascimento, nem teve que pensar em um nome artístico.

Mas, indo ao que interessa, conhecia alguns de seus álbuns e gostado. Ao ouvir, no entanto, “Autumn Winds”, o mais recente, e “Winter Light” (2015), ambos da ACT Music, percebi que sua música é feita de silêncios, que, insidiosamente, nos jogam em estados abstratos. Nem é sempre assim, mas DuBois é o guitarrista de sonoridades econômicas e sedutoras. Acompanhado do contrabaixo acústico, bateria e do original Gebhard Ullmann nos saxofones e clarinete baixo, o combo produz um som original e hipnótico, seja em momentos impulsionados pelos sopros de Ullmann mais contemplativos ou mais agitados.

Aliás, o alemão, lidera o Tá Lam, uma formação com dez saxofonistas mais um acordeonista, do excepcional “Mingus!” (2011), e é um dos melhores no clarinete baixo da atualidade. Faz-nos lembrar de Eric Dolphy.

Entre momentos de paz e fúria, a música perpetrada por Ulmann e DuBois, como a Jazz Times define, a música deles é “fascinante e brilhante”, e “maravilhosa, relaxante, atmosférica e poderosa como pode ser”, segundo o site All About Jazz.

Os dois primeiros álbuns de DuBois saíram pelo selo Soul Note – “Moonsson” (2004) e “Tempest” (2006) –, e três seguintes, pelo Sunnyside – “Banshee” (2008), “Black Hawk Dance’ (2010) e “Landscape Scripture” (2012). Os recentes, citados acima, são pelo selo alemão ACT. Pelos títulos, é possível constatar que inspira-se principalmente em climas e estados relacionados à paisagem, luz e aos fenômenos da natureza, como as estações do ano. A resultante musical é um clima impressionista, meditativo e furioso, meditativo nas notas abstratas de sua guitarra, furioso no sax tenor e, principalmente, no clarinete baixo, mas com poesia e delicadeza.

Nos dois primeiros álbuns, o saxofonista é David Liebman, conhecido desde que despontou na banda elétrica de Miles Davis. A entrada de Gebhard Ullmann, a partir de “Banshees”, deu uma nova cara para os seguintes, tanto que segue com ele até hoje, com Thomas Morgan e Kresten Osgood a completar a banda.

Ouça a bela “Winter Haystacks”, de “Landscape Scripture”.




De “Winter Light”, veja a banda em “Late Morning Snow”.




Da mesma apresentação, veja “Early Morning Forrest”.




“First Light Tundra”.



Assista ao vídeo da ACT apresentando o álbum mais recente.




quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A guitarra roqueira de Mark Wingfield

Markus Reuter (esq.) e Mark Wingfield e os pedais
Coisa fácil é colocar a culpa nos outros. Assim você foge da responsabilidade. Tem gente que até coloca a responsabilidade de seus maus feitos na mulher. Se ela está morta, melhor ainda: não tem como defender-se. Pois, no meu caso, a culpa é do Jimi Hendrix.

O jazz é o meu gênero preferido, atendo-se à estatística. Considerando-se que ouvi muito Hendrix, e gostava, natural a minha curiosidade por guitarristas nessa modalidade.

Um dos discos que estão entre os meus preferidos é “Intermodulation” (Verve 1966), de Bill Evans e Jim Hall. A interpretação de “My Man’s Gone Now” é obra do encontro de deuses. Antes de descobrir guitarristas “cool” como ele, os meus preferidos iniciais foram John McLaughlin, com Miles Davis e na sua banda Mahavishnu Orchestra, Jeff Beck, em “Blow by Blow” (CBS 1975), em sua primeira incursão pelo jazz, e Pete Cosey, da banda de Miles.

De cara, gostei de “Proof of Light” (Moonjune 2015), de Mark Wingfield. A razão principal foi essa: a lembrança dos primeiros guitarristas que me chamaram a atenção. Meu gosto, ao passar a ouvir – e gostar de – jazz, tinha como referenciais Hendrix, Robert Fripp, Steve Howe, Jimmy Page, Eric Clapton e Jeff Beck.

A revista Downbeat deu mais linhas que o costume ao disco de Wingfield, conferindo-lhe 4 estrelas e meia. John Ephland inicia a crítica descrevendo “Proof of Light” como um álbum cuja música é maior do que suas partes. Descreve o som de sua guitarra “como um som penetrante, arrojado, espectral, de engenhosos glissandi.” É um elogio e tanto. Impressionante a sua técnica e é um mestre nos sustain, e inúmeros efeitos que tira das seis cordas. Com Yaron Stavi e Asaf Sirkis, Wingfield forma um power trio de respeito, como poucos tendo a guitarra como protagonista.

Ouça “Way to Etretat”, uma das melhores faixas.




Cinco estrelas para “The Stone House”
No álbum mais recente, Wingfield divide o protagonismo com todos os componentes da banda. Na capa constam os nomes de todos: (Mark) Wingfield, (Markus) Reuter, (Yaron) Stavi, (Asaf) Sirkis. Ou seja, são os mesmos do álbum anterior, com acréscimo de um guitarrista.

O diferencial aqui é Markus Reuter. Ex-aluno de Robert Fripp, participou do Crimson ProjeKct e tornou-se membro do Stick Men, com Tony Levin e Pat Mastelotto. O também psicólogo (formou-se na Universität Bielefeld), interessou-se pelo Chapman Stick tocado por Levin e criou o U8 e o U10 stick guitar. Com esses instrumentos, “inventou” um som totalmente original.

Se uma guitarra é boa, imagine duas. Bem, nem sempre é assim. Em bandas de rock, geralmente há um segundo que faz mais a chamada rhythm guitar enquanto o principal é o que sola. Não é o caso aqui. Wingfield e Reuter são complementares, assim como são Stavi e Sirkis, que não fazem papel secundário.

No anterior, há overdubs. No caso de “The Stone House”, não. Gravado em uma mansão da Espanha, cada tema foi saindo de improvisos coletivos, sem ensaios prévios. À beleza do lugar e o prazer de tocarem resultou em uma música em que transparece a espontaneidade das jam sessions. O som traz à lembrança os projetos de Robert Fripp, o que é natural, pela presença de alguém que foi seu aluno e componente das bandas por ele capitaneadas.

O estilo meio tenso, melodicamente rico, harmonia sofisticada e a maestria na exploracão nos efeitos de “sustain” de Wingfield, lembra um pouco outro guitarrista de quem sou fã: Terje Rypdal. A parceria com Reuter e sua TouchGuitar AU8, Stavi no baixo fretless e a bateria frenética de Sirkis, compõem em que cada instrumentista explora “algo deliciosamente inesperado”, como bem define John Ephland na Downbeat.

Ouça e delicie-se. Se você é fã do King Crimson, vai adorar esse som.

“Rush”, faixa inicial.



Ouça o álbum na íntegra aqui.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Muito cedo, John, muito cedo

John Abercrombie: um bigode de causar inveja a Pedro de Lara
Meu amigo Matias escreveu no Facebook que ninguém noticiou a morte de John Abercrombie. Nem uma notinha, daquelas de cinco linhas. Para quem não o conhece, basta de dizer que gravou mais de duas dezenas de discos pela gravadora ECM, além de ter participado de outros, como Kenny Wheeler – outro falecido há três anos, sem merecer uma linha nos jornais brasileiros –, Jack DeJohnette, John Surman, Ralph Towner, Dave Holland, Michael Brecker, Mark Feldman e tantos outros. Em outros selos, lançou bons CDs com Marc Copland (pianista dos dois últimos de Abercrombie), Andy LaVerne, Lonnie Smith Randy Brecker e Billy Cobham.

Devido às poucas informações, nem sabia que estava doente, e estava há um bom tempo – segundo nota do site da ECM, “long illness”.. Morreu do coração no dia 22 de agosto. Tinha 72 anos. Novo, considerando-se as médias atuais. “Up and Coming” foi o primeiro álbum da ECM a ser lançado neste ano e passa a ser o último dele em vida. É uma despedida em alto estilo. Certamente sairão outros depois da morte. Manfred Eicher deve ter muitas gravações guardadas na gaveta.

O quarteto é formado pelo guitarrista, Marc Copland, pianista parceiro de vários outros projetos, o contrabaixista Drew Gress e o baterista Joey Baron. É uma banda à beira da perfeição. É a mesma formação do penúltimo, “39 Steps” (ECM, 2013). Tocam  juntos há tempos. “Better by Far”, o mais recente de Copland como líder, conta com Drew e Gress, e o trompetista Ralph Alessi.

Com o passar do tempo, a guitarra com efeitos que resultavam em um som meio fluido, que parecia desmanchar-se no ar, foi ficando mais seca, destacando mais ainda a riqueza harmônica e melódica imprimida nos temas e improvisos. Foi ficando cada vez mais Jim Hall, digamos, um dos mestres do “less is more”.

Abercrombie chegou a um grau de harmonia com Marc Copland que lembra a lendária reunião de Jim Hall com Bill Evans. Uma boa amostra dessa combinação é “Speak to Me” (Pirouet, 2011). São quarenta anos de amizade musical.

Ouça os dois.




Copland tem uma veia lírica bem acentuada, perfeito para o estilo do guitarrista. O resultado é uma música cheia de sutilezas harmônicas, quase minimalista, em que se valorizam as nuances sonoras.

Em “Up and Coming” brilham igualmente Marc e John. Quatro composições são do primeiro (“Joy”, “Flipside”, “Sundayschool”, “Up and Coming” e “Jumbles”), duas do segundo (“Tears” e “Silvercircle”). A única que não é de nenhum dos dois é “Nardis”, de Miles Davis.


Ouça “Up and Coming” na íntegra.



quinta-feira, 27 de julho de 2017

A beleza gelada de The Pogo Problem

O que pode gerar curiosidade a partir de uma banda chamada The Pogo Problem? Creio que, em primeiro lugar, saber o que significa “pogo”. É uma sigla, com as iniciais dos membros de uma banda, ou um vocábulo mesmo?

Ao pesquisar na internet, surgem alguns significados: um estilo de dança africana que ficou associado com o punk rock. Outro, de que é o título de uma tira de jornal da década de 1940, publicada até 1975, desenhada por Walt Kelly. Fico com o terceiro: “O efeito pogo, ou oscilação pogo, é o nome dado ao efeito de combustão espontânea, potencialmente perigoso, que ocorre em combustíveis líquidos de foguetes, provocando a vibração em seus motores, em outras palavras, seria o balanço violento sofrido pelo foguete graças à combustão instável do combustível.”

The Pogo Problem é um trio que, se não pelo estilo, por seus membros, pode gerar uma combustão instantânea: Steinar Guðjónsson, o guitarrista, é islandês, Anders Hellborn, o contrabaixista, e o baterista Kristoffer Tophøj são, se não me engano, dinamarqueses. Os três, em 2011, se encontraram Nordic Jazz for the Young Nordic Cornets Final, em Estocolmo; é uma das poucas referências a eles e está no “bandcamp”.

Vamos combinar: músicos islandeses nos provocam uma certa curiosidade. A banda Sugarcubes, que tinha como cantora a pequena Björk, fez um sucesso danado. Mas será qu devemos imaginar que a música vinda da Islândia teria que ser mais “fria” que o som “quente” do Sugarcubes. Poderíamos incluí-los na categoria dos “excêntricos” talvez. Foi o que pensei ao me deparar com Björk em uma loja de discos. Era uma garota muito pequena, com menos de 1,50 m, vestida com uma roupa que se assemelhava a uma vestimenta oriental, de seda azul e com aquelas tamancos japoneses, os guetas. Na oportunidade em que vi Björk, arrependi-me de não ter pedido um autógrafo. Até hoje, acho que é uma das intérpretes geniais da música contemporânea.

Comparando com Björk, até que Steinar Guðjónsson é um careta. Mas, bem, não vamos comparar o pop de Björk com o jazz – nem tanto jazz – de Steinar Guðjónsson. Mas, no entanto, impossível de dissociar a Islândia da beleza das imagens da aurora boreal, das paisagens contrastantes entre o negro das rochas vulcânicas, com o branco da neve e o verde das águas que emergem das profundezas abissais.

De certa forma, esses contrastes poderiam estar associadas à “oscilação pogo”. Entretanto o som de The Pogo Problem flutua no fino limite da camada de gelo que pode romper-se ao menor movimento de sua música. Acho que é nesse limite que encontra-se a música deles. Objetivamente, os gostos deles pelo som de Pat Metheny, Brad Mehldau, The Bad Plus, EST (trio de Esbjörn Svensson, morto prematuramente em um mergulho em altas profundidades), e Gogo Penguin revelam os rumos do som de The Pogo Penguim.

Ouça a sublime “Non Taken”, a música que abre o belo CD lançado agora em 2017.




A minha preferida do álbum é “Over Time”.




Ouça o álbum inteiro aqui.


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Por que pouco se falou de Emily Remler?

Apesar de ter nascido em plena Manhattan, Emily Remler gostava de dizer que era uma “jersey girl”. Verdade. Nasceu na ilha, mas cresceu na aprazível Englewood Cliffs, do outro lado do rio Hudson. O irmão tinha uma guitarra elétrica. Gostava de Jimi Hendrix, Beatles e Rolling Stones, como qualquer garoto de sua geração. Foi com a sua guitarra, uma Gibson ES 330, que Emily arriscou suas primeiras notas. Nem chegara à adolescência. Suas primeiras referências, aqueles que admirava, eram Eric Clapton, B.B. King e Johnny Winter. Se fosse pelo gosto, o caminho natural seria virar uma blueswoman.

Emily gostava de desenhar. Entre ser músico, achava que seria melhor optar pelas artes visuais, profissionalmente pensando. Pretendia entrar na Rhode Island School of Design, mas suas notas baixas eram um impedimento para ser aceita em boas escolas. Meio que por falta de opção e por ver que tinha jeito com a guitarra, mesmo não lendo música, acabou indo para a Berkleee College of Music, que a aceitara. Para ela, jazz era um gênero em que se tocava um monte de notas. Nem Miles Davis ou John Coltrane lhe pareciam interessantes. Ao ouvir Charlie Christian e o sax alto de Paul Desmond passou a considerá-lo. Wes Montgomery e Pat Metheny fizeram com que realmente passasse a gostar e interessar-se pelo jazz.

A música brasileira foi outra coisa que chamou a sua atenção, graças à aproximação com Célia Vaz, que estava na Berklee estudando regência e composição. Deve em seu estilo o jeito meio bossa à brasileira.

Ao terminar a Berklee, com alguns amigos da escola, foi parar em New Orleans. Em 1977, nem tinha completado 20 anos, e acontece o que iria mudar a sua vida. Conhece Herb Ellis, o guitarrista que tocou por muito tempo com Oscar Peterson. Foi convidada a participar com Herb Ellis, Charlie Byrd, Joe Pass, Tal Farlow, Barney Kessel e o contrabaixista Ray Brown do “Great Guitars”, no Concord Jazz Festival. De volta a Nova York, tocou com Astrud Gilberto, Nancy Wilson e John Clayton. Convidada por Gregory Hines, participou do musical “Sophisticated Ladies”.

O ano de 1981 foi “a very good year”, como está escrito no site http://allthingsemily.com. Estava casada com o pianista Monty Alexander, e fora considerada a “woman of the year” pelo crítico Leonard Feather. Lançou seu primeiro álbum, “Firefly”, pelo Concord, e tinha entre seus acompanhantes nada menos que o pianista Hank Jones.

O futuro parecia róseo para Remler. Gravou vários discos pelo mesmo selo, um deles com um de seus ídolos, Larry Coryell. Em 1989, assinou contrato com a Justice Records. Buscava por mudanças, estilísticas também. No ano seguinte, estava em Sidney, Austrália, e sofreu um ataque do coração fulminante. Dizem que pode ter sido consequência de seu consumo de opiáceos. Não foi a primeira a ter a carreira interrompida pelo uso abusivo de drogas.

Emily toca “How Insensitive”.



Ouça “Softly as in a Morning Sunrise”. Esta canção está em “East to Wes” (Concord, 1988).





quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Arne Jansen, sem malabarismos

A internet é um lugar curioso. É você a entrar na vida dos outros sem bater a porta. Depois de ouvir um guitarrista de quem nunca tinha ouvido falar, resolvi fazer uma pesquisa. O primeiro Arne Jansen músico que me apareceu, nasceu em 1951 e morreu em 2007. Não era o Arne que procurava. Este, nascido nos Países Baixos, além de cantor, era treinador de cães policiais e criava pôneis em sua fazenda. Cometeu suicídio quando tinha 56 anos. Essas informações têm o seu lugar: o do bau dos esquecimentos.

Ao filtrar um pouco mais, em vez de “Arne Jansen music”, troco o segundo termo por “guitar”, chego ao seu site. Visualmente bem limpo, o destaque é para o seu álbum mais recente: “Nine Firmaments”. No item “Bio”, são poucos os dados, o que me leva a recorrer à manjada “Wikipedia”, nem sempre confiável. Vejo que nasceu em 1975, bem depois que seu homônimo cantor, e é alemão. As informações não somam muito ao do site do guitarrista.

Encontro afinal dados mais específicos em outros sites. Arne desde cedo desejava aprender a tocar guitarra. Por não considerar um instrumento sério, a professora de violino de sua irmã convenceu-o a aprender a tocar clarineta. Mas o desejo de tocar guitarra era imperioso, As tardes em que ficava a ouvir CDs de Jimi Hendrix, Dire Straits, Joni Mitchell, Bob Dylan e Pink Floyd moldaram o seu gosto. Já adolescente, com quase 18 anos, conheceu a música de Pat Metheny e John Scofield. Não apenas decidira pela guitarra, mas anteviu um novo universo, mais rico, onde poderia explorar novas harmonias, enriquecer temas por meio de improvisações.

Profissionalmente, participou da Federal Jazz Orchestra. Em 2008, montou o Arne Jansen Trio. Nesse formato está no terceiro disco. Antes de “Nine Firmaments”, lançou “The Sleep of Reason – Ode to Goya” pelo prestigiado selo alemão ACT, em 2013. A partir do último, minha curiosidade cresce em relação aos seus outros álbuns.

A capa de “Nine Firmaments”
A ideia de “Nine Firmaments”, segundo ele, surgiu de um trabalho do artista plástico e amigo de longa data, Timo Nasseri. Em exposição do artista com esse título, Jansen disse que “gosta da definição de firmamentos como uma camada de conexão entre o mundo terreno e os poderes superiores, especialmente quando isso pode se relacionar à música. Fora isso, de acordo com a mitologia, os nove firmamentos são a morada para o coro dos anjos. Para a imagem da capa do álbum, Nasseri calculou a de como poderia ser a configuração das estrelas sobre Alexandria no dia da morte do histórico visionário, filósofo e astrônomo Hypatia.”

Por ter nascido em 1975, é bem provável que seu primeiro ídolo na guitarra não tenha sido Wes Montgomery, Jim Hall, Tal Farlow e muito menos Django Reinhardt. Em 1975, Pat Metheny acabava de entrar na banda de Gary Burton e lançaria “Bright Size Life” no ano seguinte. Se quem nasceu nos anos 1950 cresceu ouvindo rock and roll, imagina-se que o interesse de Jansen pelo jazz se dá pela música instrumental posterior às transformações provocadas por Miles Davis e seus seguidores como Chick Corea, Herbie Hancock e Joe Zawinul.

Nem tão radical quanto eles e bem menos que Ornette Coleman, Cecil Taylor e Anthony Braxton, Pat Metheny seguiu por um som mais melodioso e mais apetecível, permeado por suas influências roqueiras, apesar da paixão que tinha pelas composições de Ornette. Apesar de “Bright Size Life”, álbum de estreia de Pat na ECM, e de três álbuns belíssimos, contando com a preciosa companhia do pianista Lyle Mays, estourou com o roqueiro “American Garage”.

Poucos guitarristas pós-Metheny não sofreram a influência de seu estilo, assim como, difícil foi ser baixista e não ter como referência Jaco Pastorius. Mas, como o mundo gira, o som de Pat mudou e Arne desenvolveu uma sonoridade pessoal.

Uma das boas qualidades de Arne é a de não fazer o estereótipo do que gosta de exibir a sua rapidez como “o mais rápido do oeste”, como boa parte dos guitarristas, ou de fazer um som cheio de distorções e efeitos. Busca a simplicidade e por meio dela criar paisagens sonoras, sejam elas climáticas ou mais “roqueiras”. Ele afirma que não é grande fã de efeitos, preferindo preservar a integridade dos temas. A forma mais “straight” de tocar tem a ver com o fato de ter se convertido ao budismo e ser praticante da meditação há alguns anos. Confira.

Ouça “Here We Go”, a primeira do álbum.




Ouça a climática “It’s Always Night”.




Ouça “He Who Counts the Stars”, a faixa final.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Gorka Benítez, um basco no jazz

Quando se tem muita coisa para ouvir ou conhecer, é preciso um mínimo de método. O meu é o de, a partir de alguns músicos que eu gosto

Como sou um curioso em ouvir coisas novas, preciso de um método para diminuir a possibilidade de quebrar a cara. O meu é de me guiar por alguém conhecido. Em relação a cantoras, por exemplo, se o pianista é um Kenny Barron ou um Fred Hersch, me arrisco. Com instrumentistas, é mais ou menos a mesma coisa. Vários guitarristas que conheci passaram pelas formações do baterista Paul Motian, dentre eles, Kurt Rosenwinkel, Brad Schoeppach, Wolfgang Muthspiel, Jakob Bro, Steve Cardenas e Ben Monder, Não cito Bill Frisell, o guitarrista com quem mais gravou, pois o conheci em outras encarnações.

Em Garden of Eden (ECM, 2005), dos sete componentes, três eram guitarristas. Sem conseguir descobrir quem era quem nas intervenções de Jakob Bro, Steve Cardenas e Ben Monder, fui atrás de outros trabalhos destes.

Vi o nome de Ben Monder, cujo Amorphae (http://bit.ly/1VdgWQT) foi comentado há semanas, em Gazteiz (Fresh Sound, 2014) em um álbum de Gorka Benítez. Nunca tinha ouvido falar nele. A curiosidade mata o gato. Fui lá. E, qual a minha surpresa?

Capa de Gasteiz, com Benítez (esq.) e Monder (dir.)
A Espanha e o jazz
Quando se fala da Espanha, devemos pensar em várias Espanhas. A região da Catalunha nunca deixou de pretender tornar-se independente do resto do país, assim como a parte basca da Península. Foi uma das pedras no sapato do franquismo e continuou mesmo com a subida do monarca Juan Carlos. O saldo foi de quase duas mil pessoas. Mas, parece que a paz chegou.

Na música, os nomes mais conhecidos dos Países Bascos estão do lado francês. O grande nome é Maurice Ravel e as pianistas irmãs, naturais de Bayonne, Katia e Marielle Labèque. Muito da riqueza da música espanhola se deve às diferenças étnicas. A região da Galícia, por exemplo, com uma língua muito parecida ao português, tem uma influência galesa muito forte, fruto do domínio, por um tempo, dos celtas, tanto que um dos instrumentos mais populares é a gaita de fole. Um dos nomes importante da atualidade nesse instrumento é Carlos Nuñez. Outra influência, esta predominante, foi a dos mouros, que resultou na música definida como flamenca. O mais conhecido é o Paco de Lucia, mas não devemos deixar de mencionar outros como o de Pepe Habichuela, Tomatito e Diego El Cigala.

O regime franquista não gostava de jazz, mas, assim mesmo, o gênero floresceu. Basta observar a quantidade de bons festivais que acontecem no país, principalmente, na região basca, como os que acontecem em San Sebastian e em Vitoria-Gasteiz, capital da Comunidade Autônoma Basca.

Apesar de Madri ser um grande centro, parece que o jazz converge para a Catalunha. É de Barcelona o pianista Tete Montoliu. A cidade é sede da Fresh Sound, uma das melhores gravadoras europeias. O basco Gorka Benítez, começou estudando no Conservatório de Bilbao, sua cidade natal, depois em Barcelona. Completou-os em Nova York, onde ficou por três anos. Voltando a Barcelona, desde 1997, quando foi considerado o melhor saxofonista do ano e foi autor do melhor disco do ano, com o baterista David Xirgu, Benítez é considerado um dos grandes músicos da Espanha.

Gazteiz
Vitoria-Gasteiz, capital da Comunidade Autônoma Basca, desde 1981 sedia um dos festivais mais tradicionais da Europa. É posterior a outro, tradicionalíssimo, curiosamente, na mesma região. Existe desde 1966 e atualmente chama-se Heineken Jazzaldia.

O disco, intitulado Gasteiz, é o registro da apresentação de Benitez, seu parceiro de longa data, o baterista Xirgu, e do guitarrista Ben Monder no Vitoria-Gasteiz Jazz Festival, em 16 de julho de 2012.

Como disse logo no começo, cheguei no disco por meio de Ben Monder. Naturalmente, é o saxofone que fica em primeiro plano. Mas é impressionante como pode ser tão variada a gama de sons tirados da guitarra. Sempre discreta, pode soar como um baixo elétrico (Silbable), um sintetizador (Falsa Calma), único número em que Gorka toca flauta, ou apenas quase sem distorções, valorizado em solos que lembram a guitarra de John McLaughlin da época em que gravou Extrapolation (Goazen).

Ouça Goazen.



Outra boa composição boa é Idoia. Belo e melancólico saxofone.




Veja Benítez e Xirgu em A Marte Otra Vez.




Veja Monder, Benítez e Xirgu em ação no Sunset Jazz Club. Não estranhe a filmagem bizarra.




quinta-feira, 3 de março de 2016

O "range" de Pete McCann

Pete McCann nas gravações de Range
Dois instrumentistas moldaram – ou mudaram – a forma da guitarra no jazz, com o advento do chamado jazz-rock, ou jazz fusion, seja lá o rótulo que tornou conhecidos bandas como o Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, e o Return to Forever, de Chick Corea. Um deles foi parte da primeira fase da eletrificação do jazz, participando da banda de Miles Davis que produziu o revolucionário, na época, Bitches Brew: John McLaughlin; o outro, Pat Metheny.

O inglês iniciava uma carreira promissora com o fenomenal Extrapolation (Polydor, 1969), com seus conterrâneos John Surman, Brian Odgers e Tony Oxley. Miles Davis queria um guitarrista. Tony Williams sugeriu McLaughlin, da sua banda Lifetime.

Depois de se desligar de Miles Davis, deixou as drogas e ligou-se ao guru indiano Sri Chimmoy. Lançou Where Fortune Smiles, My Goals Beyond e, com o neo convertido Carlos Santana, Surrender. Logo depois, montou outra banda, a Mahavishnu Orchestra.

Elementos do rhythm’n’blues e do rock passaram a ter influência em meados dos anos 1950 por meio das guitarras de Wes Montgomery e Grant Green. O último, tem vários álbuns pelo selo Blue Note que apontam para um estilo mais funk e menos bop. Ambos morreram cedo – antes de completarem 50 –, mas apontavam para um mudança no jazz.

Posteriores aos dois, McLaughlin incorpora mais efetivamente o rock ao jazz, influenciado por uma nova geração de guitarristas brilhantes, como Jimmy Hendrix, Eric Clapton e Jeff Beck. O modo mais agressivo de se tocar – ou mais barulhento, se preferirem –, com mais efeitos de pedal, se estabelecerá com McLaughlin, Pete Cosey, Reggie Lucas e Al DiMeola.

Um outro estilo

Mais novo que McLaughlin, Pat Metheny é outro que apresenta outro parâmetro às sonoridades da guitarra. Como John, absorveu valores da música que ouvia nos rádios quando adolescente. Em uma entrevista, depois de ter gravado American Garage, disse que uma de suas bandas preferidas era Steely Dan, de Donald Fagen e Walter Becker.

Precoce, conheceu Gary Burton quando foi estudar em Boston. Convidado pelo vibrafonista, participou d o belíssimo e abstrato Ring (ECM, 1974). O talento incomum de Pat levou-o a gravar Bright Size Life, convidado pelo dono e produtor da gravadora. Com Pastorius, novamente, e Bob Moses na bateria, fez uma estreia brilhante e incomum.

Sua primeira gravação foi com Paul Bley e Jaco Pastorius, seu conhecido dos tempos em que estudou na Flórida, em 1974, pela recém criada Improvising Artists, do pianista e sua mulher Carol Gross.

Logo depois, partiu para a carreira solo, firmando uma parceria com o tecladista Lyle Mays, gravando desde álbuns de ambiência roqueira, como American Garage e Offramp, jazzísticos como 80/81, com Dewey Redman, Charlie Haden e Michael Brecker, “atmosféricos”, como As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls, e em formato quarteto, como em Watercolors. Por meio dessa diversidade sonora, Metheny exerceu forte influência sobre guitarristas da mesma geração e posteriores.

Pete McCann
Como Ben Monder, comentado em posts passados, Pete McCann participou de quase uma centena de gravações e apresentações como sideman e pouco gravou como líder. Isso, não significa de maneira nenhuma que sejam músicos secundários.

Troy Collins, em All About Jazz, ao comentar sobre Range, CD mais recente, escreve que, apesar do virtusionismo impressionante de McCann, na cena do jazz em Nova York há mais de 25 anos, “misteriosamente, continua sem ter reconhecimento generalizado.” É provável que pesa o fato de ter lançado até hoje apenas cinco álbuns.

Como sideman, tocou com Lee Konitz, Kenny Wheeler e Dave Liebman, além de participar de álbuns e gravações de Patti Austin, Curtis Tigers, Mahavishnu Project, Brian Blade e Matt Wilson. Em Range, McCann lidera tocando guitarra, com John Gallagher (sax alto), Henry Hey (piano e Fender Rhodes), Matt Clooney (baixo) e Marl Ferber (bateria).

O estilo de Pete oscila entre a guitarra “líquida” de Pat Metheny e de Bill Frisell à mais “power” de John McLaughlin. Uma das qualidades do disco é justamente essa, a de transitar com versatilidade entre o mais reflexivo ao ataque mais roqueiro.

Veja McCann tocando Bridge Scandal, que faz parte de Range. É uma das melhores. Lembra aqui um pouco John McLaughlin.





Ouça Mustard. Grande tema!






Pete McCann
Range (Whirlwind, 2015)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Grande guitarra, a de Mimi Fox

Mimi Fox com sua Heritage 575
Mimi é um nome fofo. É uma característica de sílabas dobradas. Fox é raposa, ou pode significar, esperto. Seu nome se resume a sete letras: Mimi Fox. Tremenda guitarrista e pouco se sabe dela. Estranho. Por seis anos seguidos figurou na lista de melhores guitarristas na revista Downbeat, na década passada. E agora, procure no Google. Poucas referências. Por que? Uma guitarrista de quem Jim Hall disse: “Mimi foi uma revelação quando a ouvi pela primeira vez. Não era só que sua técnica fosse excepcional, era que soava muito original para mim. Deixou-me impressionado.” Um elogio desses, partindo de um dos maiores guitarristas de todos os tempos do jazz, merecia ser estampado em um cartaz.

Ao acessar seu site (www.mimifoxjazzguitar.com), vejo que continua se apresentando em vários lugares e que ensina na escola de jazz de Berkeley, California. Não confunda com a conhecida Berklee, que fica em Boston. O último disco lançado foi Standards, Old and New.

Se esqueceram de Mimi, fui um deles também. Descobri que tinha o seu Standards, lançado em 2001, fuçando em minha coleção. Fiquei surpreso. A capa é uma imagem dela tocando guitarra, desfocada, para dar ilusão de movimento. É um álbum solo. Os standards são bem conhecidos: All Blues, de Miles Davis, Donna Lee, de Charlie Parker, Naima, de John Coltrane, Footprints, de Wayne Shorter, e outros. É um tour de force de guitarra. Às vezes, a impressão é a de um showcase do que é possível de se fazer com seis cordas, tal o virtuosismo de Mimi. E, por falar em virtuosismo, o álbum lembra muito Virtuoso #1, #2 e #3, de Joe Pass. Sua técnica lembra ele.

Bom, vamos conferir?

Ouça Wave, de Jobim.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Ouça My Foolish Heart.

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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Joe Pass, o careta doidão

Joe Pass e sua companheira
Quem olha para uma foto de Joseph Anthony Jacobi Passalaqua, ou melhor, Joe Pass, não vai imaginar que possa ter passado bons tempos na cadeia e em clínicas de reabilitação em razão do consumo de drogas.

Em 1963 foi agraciado com o “New Rising Star” pela revista Downbeat. Já estava com 34 anos. Não era tão jovem. Livre da dependência, estava tocando com Gerald Wilson, Bud Shank, Les McCann e George Shearing. Desde criança tinha revelado especial talento com a guitarra e, com 14 anos, estava tocando profissionalmente, participando de turnês pelos EUA. Quem sabe, por ser tão jovem e na estrada, isso o tenha feito envolver-se no mundo fascinante das drogas. Bom, não foi tão fascinante. Passou parte importante da vida em penitenciárias e clínicas. A sorte foi que Pass nunca deixou de praticar nas cordas. Quando se libertou efetivamente das drogas, chegou a gravar um disco chamado The Sounds of Synanon. Synanon era o nome da clínica em que passou dois anos e meio internado.

Retomada a carreira, participou de programas de TV como os de Johnny Carson, Merv Griffin e Steve Allen e acompanhou intérpretes como Sarah Vaughan, Della Reese, Frank Sinatra, Joe Williams e Johnny Mathis. Era comum bons músicos de jazz participarem de programas de TV. Mesmo hoje, celebrados músicos tocam na banda do programa de David Letterman, por exemplo.

Logo no início dos anos 1970, passou a gravar na Concord Jazz, mas o período mais (re)conhecido é o de quando foi para a gravadora Pablo, de Norman Granz, famoso por ter criado a Jazz at The Philharmonic, na Verve Records. À época, muitos torciam seus narizes para uma gravadora tão “mainstream”. Mas deixou seu legado. Contando com uma maioria de músicos experientes num tempo em que grassava o jazz-rock e o avant-garde, foi a casa de gente de primeiríssima como Duke Ellington, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Zoot Sims, Dizzy Gillespie, Oscar Peterson e Count Basie, plantel nem um pouco desprezível. E lá estava Joe Pass. Com sua guitarra discreta acompanhou muitos deles e registrou vários álbuns com seu nome como frontman.

No início dos anos 1980 – ou fins de 70? –, em um dos festivais de jazz que aconteciam em São Paulo, programaram um “guitar summit”. Os convidados eram três ou quatro. Não lembro mais de todos. Recordo só de que Barney Kessel. Lá entrou um senhor com um lenço amarrado no pescoço. Elegantíssimo. Joe Pass era o outro. Problema: o voo atrasara. Chegou Pass, atrasado, sim. Com aquele jeito de careta, de pai de família, calvo e de bigode antiquado, sentou-se no banquinho e começou a tocar. Joe é um dos maiores guitarristas de todos os tempos, e isso, basta. Tinha uma técnica especial fazendo o ritmo e os solos ao mesmo tempo.


Joe toca All The Things You Are.


Joe executa Oleo, de Sonny Rollins, em duo com Niels-Henning Ørsted Pedersen.


Veja uma apresentação de Pass em Hannover. Tem mais de uma hora. É uma boa oportunidade para se ver um mestre em seu instrumento em ação. Ouça Wave, de A. C. Jobim, em belíssimo solo (é o segundo número). A melhor parte, no entanto, está mais adiante: Ella Fitzgerald. Na gravadora Pablo, Joe Pass gravou muito com a cantora.