quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A guitarra roqueira de Mark Wingfield

Markus Reuter (esq.) e Mark Wingfield e os pedais
Coisa fácil é colocar a culpa nos outros. Assim você foge da responsabilidade. Tem gente que até coloca a responsabilidade de seus maus feitos na mulher. Se ela está morta, melhor ainda: não tem como defender-se. Pois, no meu caso, a culpa é do Jimi Hendrix.

O jazz é o meu gênero preferido, atendo-se à estatística. Considerando-se que ouvi muito Hendrix, e gostava, natural a minha curiosidade por guitarristas nessa modalidade.

Um dos discos que estão entre os meus preferidos é “Intermodulation” (Verve 1966), de Bill Evans e Jim Hall. A interpretação de “My Man’s Gone Now” é obra do encontro de deuses. Antes de descobrir guitarristas “cool” como ele, os meus preferidos iniciais foram John McLaughlin, com Miles Davis e na sua banda Mahavishnu Orchestra, Jeff Beck, em “Blow by Blow” (CBS 1975), em sua primeira incursão pelo jazz, e Pete Cosey, da banda de Miles.

De cara, gostei de “Proof of Light” (Moonjune 2015), de Mark Wingfield. A razão principal foi essa: a lembrança dos primeiros guitarristas que me chamaram a atenção. Meu gosto, ao passar a ouvir – e gostar de – jazz, tinha como referenciais Hendrix, Robert Fripp, Steve Howe, Jimmy Page, Eric Clapton e Jeff Beck.

A revista Downbeat deu mais linhas que o costume ao disco de Wingfield, conferindo-lhe 4 estrelas e meia. John Ephland inicia a crítica descrevendo “Proof of Light” como um álbum cuja música é maior do que suas partes. Descreve o som de sua guitarra “como um som penetrante, arrojado, espectral, de engenhosos glissandi.” É um elogio e tanto. Impressionante a sua técnica e é um mestre nos sustain, e inúmeros efeitos que tira das seis cordas. Com Yaron Stavi e Asaf Sirkis, Wingfield forma um power trio de respeito, como poucos tendo a guitarra como protagonista.

Ouça “Way to Etretat”, uma das melhores faixas.




Cinco estrelas para “The Stone House”
No álbum mais recente, Wingfield divide o protagonismo com todos os componentes da banda. Na capa constam os nomes de todos: (Mark) Wingfield, (Markus) Reuter, (Yaron) Stavi, (Asaf) Sirkis. Ou seja, são os mesmos do álbum anterior, com acréscimo de um guitarrista.

O diferencial aqui é Markus Reuter. Ex-aluno de Robert Fripp, participou do Crimson ProjeKct e tornou-se membro do Stick Men, com Tony Levin e Pat Mastelotto. O também psicólogo (formou-se na Universität Bielefeld), interessou-se pelo Chapman Stick tocado por Levin e criou o U8 e o U10 stick guitar. Com esses instrumentos, “inventou” um som totalmente original.

Se uma guitarra é boa, imagine duas. Bem, nem sempre é assim. Em bandas de rock, geralmente há um segundo que faz mais a chamada rhythm guitar enquanto o principal é o que sola. Não é o caso aqui. Wingfield e Reuter são complementares, assim como são Stavi e Sirkis, que não fazem papel secundário.

No anterior, há overdubs. No caso de “The Stone House”, não. Gravado em uma mansão da Espanha, cada tema foi saindo de improvisos coletivos, sem ensaios prévios. À beleza do lugar e o prazer de tocarem resultou em uma música em que transparece a espontaneidade das jam sessions. O som traz à lembrança os projetos de Robert Fripp, o que é natural, pela presença de alguém que foi seu aluno e componente das bandas por ele capitaneadas.

O estilo meio tenso, melodicamente rico, harmonia sofisticada e a maestria na exploracão nos efeitos de “sustain” de Wingfield, lembra um pouco outro guitarrista de quem sou fã: Terje Rypdal. A parceria com Reuter e sua TouchGuitar AU8, Stavi no baixo fretless e a bateria frenética de Sirkis, compõem em que cada instrumentista explora “algo deliciosamente inesperado”, como bem define John Ephland na Downbeat.

Ouça e delicie-se. Se você é fã do King Crimson, vai adorar esse som.

“Rush”, faixa inicial.



Ouça o álbum na íntegra aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário