quinta-feira, 17 de março de 2016

Gorka Benítez, um basco no jazz

Quando se tem muita coisa para ouvir ou conhecer, é preciso um mínimo de método. O meu é o de, a partir de alguns músicos que eu gosto

Como sou um curioso em ouvir coisas novas, preciso de um método para diminuir a possibilidade de quebrar a cara. O meu é de me guiar por alguém conhecido. Em relação a cantoras, por exemplo, se o pianista é um Kenny Barron ou um Fred Hersch, me arrisco. Com instrumentistas, é mais ou menos a mesma coisa. Vários guitarristas que conheci passaram pelas formações do baterista Paul Motian, dentre eles, Kurt Rosenwinkel, Brad Schoeppach, Wolfgang Muthspiel, Jakob Bro, Steve Cardenas e Ben Monder, Não cito Bill Frisell, o guitarrista com quem mais gravou, pois o conheci em outras encarnações.

Em Garden of Eden (ECM, 2005), dos sete componentes, três eram guitarristas. Sem conseguir descobrir quem era quem nas intervenções de Jakob Bro, Steve Cardenas e Ben Monder, fui atrás de outros trabalhos destes.

Vi o nome de Ben Monder, cujo Amorphae (http://bit.ly/1VdgWQT) foi comentado há semanas, em Gazteiz (Fresh Sound, 2014) em um álbum de Gorka Benítez. Nunca tinha ouvido falar nele. A curiosidade mata o gato. Fui lá. E, qual a minha surpresa?

Capa de Gasteiz, com Benítez (esq.) e Monder (dir.)
A Espanha e o jazz
Quando se fala da Espanha, devemos pensar em várias Espanhas. A região da Catalunha nunca deixou de pretender tornar-se independente do resto do país, assim como a parte basca da Península. Foi uma das pedras no sapato do franquismo e continuou mesmo com a subida do monarca Juan Carlos. O saldo foi de quase duas mil pessoas. Mas, parece que a paz chegou.

Na música, os nomes mais conhecidos dos Países Bascos estão do lado francês. O grande nome é Maurice Ravel e as pianistas irmãs, naturais de Bayonne, Katia e Marielle Labèque. Muito da riqueza da música espanhola se deve às diferenças étnicas. A região da Galícia, por exemplo, com uma língua muito parecida ao português, tem uma influência galesa muito forte, fruto do domínio, por um tempo, dos celtas, tanto que um dos instrumentos mais populares é a gaita de fole. Um dos nomes importante da atualidade nesse instrumento é Carlos Nuñez. Outra influência, esta predominante, foi a dos mouros, que resultou na música definida como flamenca. O mais conhecido é o Paco de Lucia, mas não devemos deixar de mencionar outros como o de Pepe Habichuela, Tomatito e Diego El Cigala.

O regime franquista não gostava de jazz, mas, assim mesmo, o gênero floresceu. Basta observar a quantidade de bons festivais que acontecem no país, principalmente, na região basca, como os que acontecem em San Sebastian e em Vitoria-Gasteiz, capital da Comunidade Autônoma Basca.

Apesar de Madri ser um grande centro, parece que o jazz converge para a Catalunha. É de Barcelona o pianista Tete Montoliu. A cidade é sede da Fresh Sound, uma das melhores gravadoras europeias. O basco Gorka Benítez, começou estudando no Conservatório de Bilbao, sua cidade natal, depois em Barcelona. Completou-os em Nova York, onde ficou por três anos. Voltando a Barcelona, desde 1997, quando foi considerado o melhor saxofonista do ano e foi autor do melhor disco do ano, com o baterista David Xirgu, Benítez é considerado um dos grandes músicos da Espanha.

Gazteiz
Vitoria-Gasteiz, capital da Comunidade Autônoma Basca, desde 1981 sedia um dos festivais mais tradicionais da Europa. É posterior a outro, tradicionalíssimo, curiosamente, na mesma região. Existe desde 1966 e atualmente chama-se Heineken Jazzaldia.

O disco, intitulado Gasteiz, é o registro da apresentação de Benitez, seu parceiro de longa data, o baterista Xirgu, e do guitarrista Ben Monder no Vitoria-Gasteiz Jazz Festival, em 16 de julho de 2012.

Como disse logo no começo, cheguei no disco por meio de Ben Monder. Naturalmente, é o saxofone que fica em primeiro plano. Mas é impressionante como pode ser tão variada a gama de sons tirados da guitarra. Sempre discreta, pode soar como um baixo elétrico (Silbable), um sintetizador (Falsa Calma), único número em que Gorka toca flauta, ou apenas quase sem distorções, valorizado em solos que lembram a guitarra de John McLaughlin da época em que gravou Extrapolation (Goazen).

Ouça Goazen.



Outra boa composição boa é Idoia. Belo e melancólico saxofone.




Veja Benítez e Xirgu em A Marte Otra Vez.




Veja Monder, Benítez e Xirgu em ação no Sunset Jazz Club. Não estranhe a filmagem bizarra.




terça-feira, 15 de março de 2016

O mundo “world” de Naná Vasconcelos

Naná, Don Cherry e Collin Walcott
Quase sempre o mundo te leva mas é preciso que você queira ser levado e, principalmente, ter o impulso para ele te levar. Juvenal de Holanda de Vasconcelos, que odiava ser chamado de Juvenal, segundo Matias José Ribeiro, era conhecido como Naná, que era como a avó o chamava.

Certo dia, Naná saiu do Recife e foi direto para o Rio de Janeiro, com passagem de ônibus custeada por Capiba. Encontrou-se com Milton Nascimento, como conta o cantor:

"Um dos momentos mais bonitos da minha vida foi quando Naná Vasconcelos chegou sem avisar na casa onde eu morava, na zona sul do Rio. Isso aconteceu nos idos de 1968. Ainda na porta, mal nos cumprimentamos e ele foi logo dizendo:

— Vim de Recife pra tocar com você.

Mesmo desconfiado, o deixei entrar. Naná foi direto pra cozinha, catou tudo que viu pela frente e começou a fazer um som incrível com panelas, frigideiras, garrafas e copos. Nessa época, eu estava gravando um disco pela Odeon, e assim que acabou a primeira música com ele tocando as panelas, perguntei:

— Naná, o que você vai fazer amanhã?

No dia seguinte, levei Naná para o estúdio comigo.”


Li uma vez: “A vida é um sutiã. Tem que meter os peito”. Tosco, não? Mas é verdede. Naná foi com a cara e a coragem e na outra semana estava gravando com Milton Nascimento. Daí, Naná foi sendo levado pela vida e os acasos.

O argentino Gato Barbieri estava no Brasil e viu Naná tocando com Milton. Impressionado, convidou-o a participar da gravação de uma trilha sonora. Saiu em excursão com o saxofonista e, a partir daí, ganhou o mundo.

Dança das Cabeças foi o primeiro álbum de Egberto Gismonti na ECM. O disco recebeu críticas entusiasmadas e ganhou cinco estrelas pela revista especializada em jazz Downbeat. Foi a abertura para o mercado internacional de Gismonti e Naná. O Brasil já os conhecia muito bem. Não foi novidade para nós o reconhecimento de seus talentos. Naná, antes, tinha gravado Africadeus (1972) e Amazonas (1973).

Gismonti firmou-se rapidamente lançando um disco atrás do outro tocando com Charlie Haden, Jan Garbarek e Ralph Towner. Teve inteira liberdade de desenvolver projetos pessoais e, inclusive, disponibilizar discos de sua gravadora Carmo, ligada à EMI-Odeon no Brasil, no mercado internacional. Se você quisesse comprar Nó Caipira, por exemplo, era necessário comprá-lo fora do Brasil, o que é bem incongruente.

Naná teve também seu quinhão. Participou de vários álbuns da ECM, tocando com Pat Metheny, Jan Garbarek e Pierre Favre, e em inúmeros projetos de outros que não eram desse selo. Pela ECM, lançou Saudades (1980), bom disco, mas inferior a Amazonas.

O novo som
A introdução de instrumentos como maracas, bongôs e timbales foram introduzidos na música americana com latinos que foram para os EUA, como Xavier Cugat, Perez Prado e Desi Arnaz. As orquestras que tocavam ritmos como a rumba e a salsa eram populares nas décadas de 1940 e 50. No jazz, Dizzy Gillespie foi um dos entusiastas e promotor de ritmos latinos. Quando se pensava em percussão, era automática a associação com essa música.

Em meados dos 1960, Airto Moreira, que fazia parte do Quarteto Novo, mudou-se para a América com sua mulher, a cantora Flora Purim. Com instrumentos desconhecidos dos americanos, como a queixada, surpreendeu-os. Foi tão importante que a Downbeat criou uma categoria nova, a percussão. Foi considerado o melhor por vinte vezes.

O reinado que parecia definitivo, deixou de ser quando ouviram Naná. Ele ampliou o universo da percussão. Era um mestre no berimbau, usava o corpo como instrumento, além de usar da voz, produzindo sons originalíssimos. Usando efeitos de eco e overdubs, sua voz se multiplicava com efeitos de pura magia. Naná era o feiticeiro dos sons que evocavam sons da floresta amazônica, de arbustos movidos pelo vento, cantos e revoadas de pássaros e grasnares. Foi oito vezes o melhor pela Downbeat.

Outro percussionista frequentava as listas dos melhores na categoria “miscellaneous instruments” e na percussão. Era tão original quanto Naná. Collin Walcott, que iniciara tocando com Paul Winter, com Ralph Towner, Glen Moore e Paul McCandless, que depois formariam a genial banda Oregon, era um ser diferenciado. Interessado pela música oriental, era um craque na cítara e na tabla. Como líder é autor de Cloud Dance (1977) e Grazing Dreams (1979), ambos pela ECM, dois discos especiais.

Don Cherry, que iniciara sua carreira tocando com Ornette Coleman, trumpetista e percussionista, era um apaixonado pelos ritmos africanos. Com Collin Walcott e Naná formou uma das melhores bandas que podem se classificadas como “world music”, o Codona, nome criado a partir das duas letras iniciais de cada um dos três. Sob esse nome lançaram três álbuns absolutamente excepcionais pela ECM.

Nos três discos, a predominância é de temas compostos por Collin Walcott. Os mais jovens, possivelmente, nem sabem quem ele é. Um acidente um tanto inusitado o matou quando tinha 38 anos, em 1984. Quem tem 30 anos hoje, nem tinha nascido. É bastante tempo. Em uma excursão que sua banda Oregon fazia pela Alemanha, o veículo que os transportava colidiu de frente com um automóvel. Walcott dormia no banco da frente sem o cinto de segurança.

O foco de Walcott era a música indiana. Foi estudar tabla na índia e teve aulas de cítara com Ravi Shankar. Os orientalismos de Collin foram capitais para o desenho do som do Oregon, em sua fusão da música indiana, a genialidade compositiva de Ralph Towner e a formação erudita de todos. Depois de sua morte, Trilok Gurtu entrou em seu lugar. Era bom, mas algo da essência do Oregon se foi com a morte de Walcott.

Depois do início avant garde com Ornette Coleman, Cherry passou a interessar-se pela música indiana e pela africana. A reunião de Naná, Walcott e Cherry aconteceu naturalmente, pois todos faziam parte do plantel da ECM.

O termo “world” é um tanto redutor do som deles. É genérico demais. Uma afirmação de Don Cherry é perfeita para o tipo de música que fizeram: “Quando as pessoas acreditam em fronteiras, elas tornam-se parte delas.” É assim que devemos pensar no som do Codona.

Melhor dizer que é inclassificável. Like the Sky, de Walcott, a primeira do primeiro Codona é um bom exemplo. Começa com uma flauta de Cherry com os sons da cítara de Walcott. Cherry alterna a flauta com seu pocket trumpet, O clima é melancólico, algo típico de Collin. Ao fundo, bem discretamente, ouve-se a voz de Naná, em registro bem grave. O andamento vai se modificando lentamente e sob o som da flauta, ouvimos Naná no triângulo e Walcott na tabla.

Sons como os da kalimba, do dúlcimer, o doussn' gouni, um tipo de harpa de origem africana, com cinco cordas, tocada por Cherry, a cuíca, o berimbau, a tabla, a cítara, as vozes, resultam em um som que não é brasileiro, americano, indiano ou africano. É uma música totalmente original e cosmopolita.

Dos três álbuns, acho o segundo o melhor. Em 2, a primeira é Que Faser, com “s” mesmo. Inclassificável. Godumaduma é um solo de Walcott na cítara. Malinye é uma composição de Cherry, um dos destaques desse álbum. Poética, é evocativa, com os sons da melódica e depois, o do trumpete.

Ouça Que Faser.




Ouça Malinye.



Dois dos melhores números estão em Codona 3: Lullaby e Inner Organs.

Ouça Lullaby.



Ouça Inner Organs.




Veja um trecho do Codona tocando. O instrumento que Don Cherry toca chama-se doussn’gouni.





Ouça Amazonas, de Naná Vasconcelos, na íntegra.