quinta-feira, 8 de março de 2018
As grandes novidades da ECM, em 2018, mas antes…
Ainda, como diria um locutor de futebol, no “apagar das luzes de 2017”, saíram quatro álbuns que, se não fazem o gosto mais popular, deve-se reconhecê-los pela qualidade e variedade. São eles:
Anouar Brahem – Blue Maqams
Maciej Obara Quartet – Unloved
Django Bates’ Belovèd - The Study of Touch
Jon Balke - Nahnou Houm
O tunisiano Brahem, mestre no oud, similar ao alaúde, toca com Djando Bates, Dave Holland e Jack DeJohnette. É o tipo de som que não é para todos. Este, até pelos músicos que tocam com ele, é menos melancólico do que a maioria de seus discos.
Assista ao vídeo promocional.
Eicher gosta de fazer troca-troca com o seu plantel. O mesmo Bates aparece em “The Study of Touch”. O inglês, que fisionomicamente lembra vagamente Flea, o baixista do Hot Chili Pepppers, gravou dois álbuns com a banda First House, pelo selo, e algumas participações de outros músicos. Não é meu pianista preferido.
Assista ao vídeo promocional.
O tecladista e percussionista Jon Balke é outro bem conhecido dos “ecmemaníacos”. Gravou mais de uma dezena de álbuns por esse selo. A estreia na ECM foi fazendo parte do combo do baixista Arild Andersen em “Clouds in My Head”. Seu nome está associado a várias bandas, cada qual a seguir uma direção: Masqualero, com Arild Anderson e Jon Christensen, Magnetic North Orchestra, Batagraf e Siwan. Em comum, é seu gosto pela música étnica, principalmente pelos ritmos africanos, árabes e a andalusa, calcada na tradição moura, de quando dominaram a Península Ibérica.
Seu mais recente é “Nahnou Houm”, vai pela seara da música espanhola, com a formação que ele nomeia como Siwan. No disco de 2009, cujo título foi esse, contou com Amina Alaoui. A marroquina é o ponto fora da curva. Depois de “Siwan” (2009), gravou como líder “Arco Íris” (2011). Em “Nahnou Houm”, um dos músicos é iraniano, outro é turco, e os outros, noruegueses contrrâneos dele, e a a voz é da argelina Mona Boutchebak. É menos interessante que o de 2009, o que não quer dizer que não seja bom. Mas é meio monótono.
Ouça “Castigo”., de Balke.
Deixei “Unloved”, de Maciej Obara, porque é o melhor dos quatro. Em sua estreia, o polonês não faz feio. Para quem gosta do “som ECM”, é um prato cheio. É bem o estilo. Obara prioriza o melódico ao uptempo. Provavelmente gravará outros pela ECM. Quem chama a atenção é o pianista. Quase certeza que Dominik Wania, polonês também, ganhará a chance de ter seu álbum solo. Ele é muito bom.
Veja o promocional de “Unloved”.
terça-feira, 18 de outubro de 2016
A viagem de Amina Alaoui
Boa parte da Península Ibérica ficou sob o domínio dos mouros, do século VIII até a expulsão definitiva deles em Granada, no ano de 1492. Até hoje, mais na Espanha que em Portugal, percebem-se influências, não apenas na arquitetura, mas também na música. Uma curiosidade: a primeira academia de música na Península foi criada por um árabe, em Córdoba.
Resquícios do colonialismo, Ceuta e Melilha são dois enclaves espanhóis no norte da África. O país que os divisa é o Marrocos. É a terra natal de Amina Alaoui.
Dando uma fuçada no site da ECM para estar em dia com os lançamentos, vi um título que chamou-me a atenção: “Arco Iris” (ECM 2011). Foi assim que a conheci.
Como dizem, “a curiosidade matou o gato”. Lá estava eu ouvindo Amina. Foi um impacto, por várias razões: pela beleza da música, sua voz, e o fato de cantar em uma língua latina e os sons meio árabe, meio espanhol. Fiquei tão empolgado que telefonei para um amigo e passei o álbum na íntegra pelo dropbox para compartilhar o que senti ao ouvi-la. Para minha decepcão, ele não se empolgou. Frustrado, fiquei a pensar. O meu gosto pela música costumeiramente chamada de étnica não faz parte do código de muita gente. Por tender a gostar de tudo, perdi aquele refinamento musical que o amigo Carlos Guena tem de sobra. Admiro seu bom gosto pelo jazz e, principalmente, pela música erudita. Esse bom gosto o torna mais seletivo.
Algo sobre ela e o álbum
Cedo, Amina demonstrou talento para a música. Sua família, de boas posses, colocou-a em um conservatório. Mais tarde, foi estudar nas universidades de Granada e Madri. Continuou seu aprendizado em Paris. Aprofundou-se no estudo da música ibérica e a resultante, somando-se sua origem, deu em algo extremamente original.
O som de Alaoui é uma mistura heterodoxa de fado, de flamenco e música que, por falta de maior conhecimento (meu), imagino-a árabe. Amina canta nas três línguas, misturando-as, criando um efeito mágico. O tom de sua voz inclina-se ao dramático. É uma das razões da minha atração. Um tom trágico também, de algo que se perdeu e, sem saber exatamente o que é, ficamos a procurar, uma tragédia envolta em melancolia, aproximando-se do sublime.
Após a “descoberta”, fui atrás de outros títulos. Achei “Alcantara” (Auvidis Ethnic, 2008). Pelo site da ECM, descobri que participara nos vocais em “Siwan” (ECM, 2008), de Jon Balke. Deve ter sido a porta de entrada para que gravasse “Arco Iris”.
Como tudo passa, “esqueci” dela e fui ouvir outras coisas. Tempos depois, sem mais nem por que, deu-me vontade de ouvir “Fado Menor”, uma das faixas que mais me impressionara. Se não existe mais aquele encanto inicial, se menor, é suficiente para que eu queira ouvir o álbum novamente.
A canção que abre “Arco Iris” é “Hado”, tema tradicional da Andaluzia, com arranjo de Alaoui. Começa com uma vocalização de inspiração árabe que impressiona logo de cara. Logo entram sons que devem ser do oud, instrumento árabe que se assemelha ao alaúde, e também o violão. É uma brilhante introdução.
A grande qualidade da música de Alaoui é a de criar uma interconexão dos universos oriental e ocidental. Os arranjos são mesclas de instrumentos de várias origens, como o oud de Sofiane Negra, o violão flamenco do espanhol José Luis Montón, o violino de Saпfallah Ben Abderrazak, o bandolim do brasileiro radicado em Portugal Eduardo Miranda, o daf, tocado por Amina e as percussões de Idriss Agnel.
Ouça o álbum “Arco Iris”:
Da discografia de Amina Alaoui, procure pelos citados anteriormente:
• “Alcantara” (Auvidis Ethnic, 2008)
• “Siwan”, de Jon Balke e Amina Alaoui (ECM, 2009)
