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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Enrico Rava e o meu gosto pela escolha dos títulos

Com um bigode de respeito, na foto de perfil da capa de “Ah” (ECM, 1979), ficava a dúvida: fazia parte do trompete ou dele mesmo? Quarenta e um anos depois, continua com um bigode de respeito, agora, branco. Natural. Tem 81 anos. Impressionante como certos músicos, principalmente os de sopros, conseguem manter essa energia. Agora, aposentado, Sonny Rollins é a prova disso. Até 2012, com 82 anos, estava se apresentando. Minha teoria é a de que a saúde dos pulmões é tudo na vida de alguém, sendo músico ou não.

Por considerar que tudo da ECM era bom, simplesmente, fui comprando tudo o que era lançado pelas gravadoras brasileiras. Não foram muitos. Jazz nunca vendeu aqui. Todo o resto do que tenho do selo é importado, três vezes mais caro, se bem que, na era dos LPs, a qualidade da prensagem fazia valer a pena. Mas foi assim que conheci Enrico Rava: “Ah” saiu no Brasil. Nem fazia ideia de quem era.

Foi o primeiro músico italiano de jazz italiano que conheci. Imagino que seja pouco conhecido no Brasil, apesar de ter se apresentado aqui em um desses festivais de jazz. Se não me engano, foi o único título dele lançado aqui. Todos os que tenho, fora “Ah”, são importados. 

Com o passar do tempo, fui conhecendo melhor o jazz italiano, ouvindo Paolo Fresu, Enrico Pieranunzi, Stefano Battaglia, Franco D’Andrea, Danilo Rea, Enzo Pietropaoli, e outros mais. Fui descobrindo muita música boa por meio de selos como Splasc(h) Records e o CAM Jazz. No início da década de 1980, comecei a me interessar pelo jazz de vanguarda, feito por músicos como Anthony Braxton, Art Ensemble o Chicago, Air, composto por Henry Threadgill, Fred Hopkins e Steve McCall. Desse modo, acabei descobrindo que uma das principais gravadoras que lançava esse tipo de música, era italiana. A Black Saint e a Soul Note, se não me engano, são hoje do grupo CAM Jazz.

Atração por títulos. Ouço música até dormindo. Tenho equipamentos de som espalhados pela casa. Meu quarto abriga uma caixa de som Altec Lansing, com entrada específica para os antigos iPods. Acoplo um dos meus de140 mb. É o fundo musical para o início do meu sono. Com ele posso calcular a minha insônia. Considerando-se que cada álbum tem entre 40 a 70 minutos, se depois de terminada a audição do título escolhido, e não peguei no sono, sei que a noite vai ser longa. Se durmo na segunda ou terceira música, bom sinal. Vou levantar melhor disposto.

Ultimamente tenho ouvido os álbuns de Enrico Rava do iPod que está conectado. Um que me chamou a atenção, por causa do título, foi “The Pilgrim and te Stars” (ECM, 1975). É com essa composição, de sua lavra, que começa. Tocam com o italiano John Abercrombie (guitarra), Palle Danielsson (contrabaixo) e o Jon Christensen (bateria). Quem acompanha o que a ECM lançou até hoje, conhece bem os dois últimos. Faziam parte do quarteto europeu de Keith Jarrett, e, mais tarde, do quarteto de Bobo Stenson. Gosto bastante da primeira, da terceira (“Bella”), e minha preferida é “By the Sea”, bem vigorosa, com John Abercrombie na guitarra, minimalista e essencial na música, com forte marcação do contrabaixo de Palle Danielsson. Ouça as três pelo playlist que fiz no Spotify.

Outro título que atraiu a minha atenção, pelo título, também, foi “The World and the Days” (ECM, 2007). Nem é tão original, mas me soa bonito. Penso no termo “world” sem o “L”. O “mundo”, o “universo”, e a “palavra”. A linguagem constrói o mundo. Neste, todos os que tocam com ele são seus conterrâneos:\ Gianluca Petrella (trombone), Andrea Pozza (piano), Rosario Bonaccorso (baixo) e Roberto Gatto (bateria). A música título é de sua autoria. Os destaques são o clássico “The Wind”, de Russ Freeman, “Tutù” e “Todamor’, essas, dele. Há uma diferença bem grande entre os sons de 1975 e o de 2007, afinal, são mais de trinta anos entre os dois. As energias são diferentes. O que se mantém é o seu sopro sem vibrato, firme, às vezes, dramático, ondulante. Ele e Paolo Fresu são os grandes no trompete e no flugelhorn, na Itália.

Uma discografia apressada. A maioria de seus álbuns foi lançada pela ECM. Lançou outros por selos italianos e também pelo Label Bleu, francês. Na lista abaixo, destaco alguns, os que saíram depois do início deste século.

Cito, sem ordem cronológca, alguns. O primeiro é “Tati” (ECM, 2005). O diferencial é a ausência de um contrabaixo. É um trio com o piano de Stefano Bolani e bateria de Paul Motian/ Meus destaques são “The Man I Love”, grande clássico dos irmãos Gershwin, espetacular, e “E lucevan le stelle”, a belíssima ária da “Tosca”, de Gioacomo Puccini. Esta, me conecta à gravação do “Concierto de Aranjuez”, por Miles Davis, com arranjos de Gil Evans. As citadas estão no playlist abaixo.

O próximo é “The Third Man” (ECM, 2007), novamente com o jovem pianista — em comparação a Rava, um octogenário — Stefano Bollani, um dos grandes talentos da atualidade, com formação erudita — gravou “Rhapsody in Blue”, de Gershwin, com regência de Riccardo Chailly. É um duo com momentos sublimes, como nas versões de “Estate”, “Retrato em Branco e Preto”, de Antônio Carlos Jobim, e na a canção título, composição dos dois.

“New York Days” (ECM, 2009) é belíssimo, melancólico, seguindo o famigerado padrão ECM — tem gente que odeia —, novamente, com o brilhante Bollani, que arrasa, com discrição, leveza e muita poesia emanando de seus dedos. Os outros componentes são americanos, o, às vezes frio, muito bom nesse seu estilo contido, Mark Turner, Larry Grenadier, baixista que tocou bastante com Brad Mehldau, craque, e o sempre  genial Paul Motian. São destaques “Lulù”, “Interiors”, longa faixa em que Turner brilha, “Lady Orlando”, é tão soturna quanto a citada antes e, na mesma toada, “Biancasnow”, todas de autoria de Rava.

Termino com “Easy Living” (ECM, 2005), gravado com seu quinteto italiano. Em “Cromossomi”, inicia o álbum com uma longa introdução ao flugelhorn. Em seus álbuns, sempre, na maioria deles, as composições são suas, mas, eventualmente, inclui um clássico. Neste, é a música título. Rava é ótimo em standards de tons menores. Outra a se destacar é “Drops”.

Os últimos álbuns de Rava — “On the Dance Floor” (ECM, 2012) e “Wild Dance” (ECM 2012) — são medianos. Está com novo pianista, o jovem talento Giovanni Guidi. Agora, em 2020, saiu um ao vivo, com o saxofonista Joe Lovano — “Roma” —, registrado no Auditorium Parco della Musica, Roma, em 2017. É uma demonstração de que está muito bem ainda.

Ouça as músicas selecionadas.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A intimidade de Barbara Casini, Phil Woods e Stefano Bollani com a música brasileira

A música brasileira não era estranha a Phil Woods, um dos melhores saxofonistas alto de todos os tempos, depois de Charlie Parker, naturalmente. Cansou de ser considerado o primeiro por revistas especializadas em jazz. É de 1975 “Floresta Canto”, LP em que toca “Canto de Ossanha” e “O Morro”, de Baden Powell e Tom Jobim, respectivamente. Em 1996, resolveu fazer outro álbum parcialmente dedicado à nossa música. Em “Astor e Elis”, algumas canções que se tornaram conhecidas na voz da cantora apelidada de Pimentinha, por Vinícius de Moraes: “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, de João Bosco e Aldir Blanc, “Cais” e “Nada Será Como Antes”, de Milton Nascimento, e “Atrás da Porta”, de Francis Hime e Chico Buarque.

Do pianista Stefano Bollani então, nem se fala. Tem vários álbuns com temas brasileiros. Canta, inclusive, com enorme graça “Trem das Onze” e não fica no repertório batido da bossa nova. Canta coisas que só alguém especialista em música brasileira: “A Voz do Morro”, “Ao Romper da Aurora”, “Luz Negra”, “Folhas Secas”, “Apanhei-te Cavaquinho” e “Ao Romper da Aurora”. Lançou pelo selo japonês Venus Records “Falando de Amor” (2003), dedicado mais a temas da bossa nova. Em 2013, pela ECM, gravou “O Que Será”, em duo com Hamilton de Holanda.

Bárbara
Se esses dois são familiarizados com a nossa música, nem se fala então de Barbara Casini. A cantora nasceu em Florença, mas podia muito bem ter nascido no Rio de Janeiro. É expert em Brasil e tem até sotaque de carioca.

Quando tinha quinze anos, viveu o seu primeiro e definitivo amor. Caiu-lhe nas mãos um LP de Bossa Nova. Terminou o curso de psicologia, mas passou a pesquisar tudo sobre a arte que vinha do outro lado do oceano. Não foi apenas pela música, mas pela literatura e o aprendizado da língua.

Conheceu Brasil em 1982, ano da morte de Elis Regina, por quem tinha admiração. Tempos depois lançaria um álbum com o título “Furacão Elis”. Voltou com a mala cheia de discos. Na outra vez que veio, fez uma longa viagem do nordeste ao sudeste e conheceu a música de Luiz Gonzaga, Xangai e Geraldo Azevedo. Quando voltou à Itália, montou a banda Outro Lado.

Casini tem cerca de vinte álbuns, e neles é acompanhada por músicos italianos do primeiro time, como Stefano Bollani, Renato Sellani, Enrico Rava, Fabrizio Bosso, além de Toninho Horta, Guinga, Lee Konitz e Phil Woods. Uma parcela significativa deles está relacionada ao Brasil: “Todo o Amor” (1997), com composições próprias, incluindo uma parceria com Novelli, e um original de Chico Buarque, “Você e Eu” (2001), “Uragano Elis” (2004), “Outra Vez” (2002), com o mestre Lee Konitz, “Anos Dourados – para Tom Jobim” (2003), e “Luiza” (2004), “Uma Mulher” (2015), com composições próprias, Danilo Caymmi, João Nogueira e Ivan Lins, e, o mais recente “Terras” (2016), que aborda temas do repertório da música nordestina, Edu Lobo, Djavan, Roberto Mendes e Dori Caymmi.

‘Luiza”, do álbum do mesmo nome, é uma das grandes interpretações de Casini. Preste atenção no piano de Riccardo Arrighini.





Além da música, dedica-se a traduzir canções e literatura brasileira. Verteu “Vidas Secas” de Graciliano Ramos para o italiano. É também autor de “All Is Music”, livro com suas conversas com Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque e outros.

Trio perfeito
“Você e Eu” é de 2001. Phil Woods era um veterano. Tinha 70 à época. Mesmo com enfisema pulmonar, tocou até pouco antes de morrer, no fim de setembro de 2015. Em escala decrescente, vem Barbara, nascida em 1954, e Stefano Bollani, pianista ótimo e versátil.

Um trio como esse é dos sonhos. Quem não teria gostado de ter Phil Woods na banda. É um dos maiores da história no instrumento identificado indelevelmente ao genial Charlie Parker. Uma curiosidade: Phil casou-se com Chan, viúva de Parker.

As dez canções do disco são todas do cancioneiro brasileiro. São todas da década de 1970 para trás. Acho que a mais nova é “Cai Dentro”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. É a mais uptempo do disco. Três são de Antônio Carlos Jobim – “Fotografia”, “Por Causa de Você”, parceria de Dolores Duran, e “Estrada Branca”, com Vinícius de Moraes –, duas de Carlos Lyra – “Maria Ninguém” e Você e Eu” –, uma de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida – “Pra Que Discutir com Madame”, uma de Caetano Veloso – “Avarandado” –, e duas de Ary Barroso – “Pra Machucar Meu Coração” e “Na Baixa do Sapateiro” –, as minhas preferidas.

Ouça “Pra Machucar Meu Coração”.




Ouça também “Fotografia”, faixa que abre o disco. Se quisermos uma referência, acho que a voz de Barbara Casini tem alguma semelhança com a de Joyce Moreno.




Ouça “Estrada Branca”.




terça-feira, 29 de julho de 2014

A voz original de Irene Grandi e Stefano Bollani

O quase brasileiro Stefano Bollani e Irene Grandi
Ao comentar sobre o álbum Irene Grandi & Stefano Bollani, sou instado a cometer um trocadilho infame: “Irene é grande”. É uma surpresa total. Tem tem uma voz meio rouca, diferente de qualquer outra. É um grande ponto de partida.

A primeira faixa soa um tanto estranha. Vozes que parecem saídas de um filme de terror, um piano acústico e elétricos executam notas e acordes em ostinatos. Daí, quando Irene começa a cantar, é uma música tipicamente italiana. Chama-se Viva la papa col pomodoro. Eu, que não entendo bulhufas da língua, não consigo definir se é sobre comida. A certa altura, algumas palavras me fazem desconfiar de algum teor político. Minha alusão a filmes de terror não é infundada. Descubro que foi composta por Nino Rota em parceria com a diretora Lina Wertmüller para uma série televisiva chamada “Il giornalino di Gian Burrasca”. Uma parte da letra – “a barriga que ronca é causa do complô, é causa da luta, ‘abaixo o diretor’, a sopa nos foi cortada, agora exigimos a papa de tomate!” [fonte: http://ritapavonelps.blogspot.com.br/2011/03/7-ritorna.html] – confirma minha desconfiança de alguma conotação política. Afinal, tinha a participação de Wertmüller! Pesquisando mais, fico sabendo que foi sucesso na voz de Rita Pavone. Que tem menos de 40, pouco desconfia de quem possa ter sido Rita Pavone.

A segunda faixa nos traz a sons um pouco mais familiares. Occhi negli occhi. Conheço essa música. Stefano Bollani, com sua habitual competência toca notas ao piano de grande beleza e Irene, em uma mistura de italiano e português, canta Olhos nos Olhos, de Chico Buarque.




Surpresas e surpresas. Sussurrados os primeiros versos de Dream a Little Dream, Grandi é acompanhada por Bollani no Fender Rhodes. O pianista, com pouco mais de 40 anos, deve ter gravado como líder ou acompanhante mais de uma centena de álbuns, o que é demonstração de sua hiperatividade. É reconhecido como um dos melhores pianistas italianos com Stefano Battaglia e Enrico Pieranunzi. Outra marca sua é a versatilidade em explorar vários gêneros. Gravou Gershwin com o maestro Riccardo Chailly, jazz com Enrico Rava, Roberto Gatto, Francesco Cafiso e Phil Woods, acompanha cantoras como Katrine Madsen, Tiziana Ghiglioni e Barbara Casini. A ligação com a música brasileira está presente em muitos momentos, não apenas abordando o repertório mais habitual, como Antônio Carlos Jobim, mas executando e cantando Adoniram Barbosa, Zé Keti, Moacir Santos, Ernesto Nazareth, Ismael Silva e Nelson Cavaquinho.

A quarta faixa, posterior a Dream a Little Dream of Me, Construire, de Niccolò Fabi é um dos destaques desse álbum. Ouça. A voz de Irene Grandi lembra um pouco a de Marianne Faithfull, com  menos cigarros, álcool e outras drogas mais.

Ouça a original Dream a Little Dream of Me.



Veja Bollani e Irene cantando a emocionante Construire.



Nessa toada, canta temas pouco conhecidos por quem não ouve música italiana habitualmente: Come non mi hai visto mai, A me me piace ’o blues, de Pino Daniele, e L’arpa della tua anima. As restantes, são mais conhecidas, pelo menos, por nós: For Once in My Life, Roda Viva, de Chico Buarque, La Gente e me [Samba, Suor e Cerveja], de Caetano Veloso, e a belíssima, e pouco gravada, Medo de Amar, de Jobim e Vinícius de Moraes, conhecida também como Vira Essa Folha do Livro. A menos conhecida, pelo menos pelo público que não ouve rock é No Surprises, do Radiohead. Aliás, é outro dos destaques. Ouça.




Ouça também Medo de Amar. O número de músicas brasileiras deve-se, certamente, a Bollani, um apaixonado por ela. 



Veja também o duo do pianista (ocasionalmente, canta) e a cantora em Roda Viva.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O mundo de Pixinguinha segundo Hamilton de Holanda

Um disco com um instrumentista acompanhado de diferentes músicos em cada faixa é como um panaché de sobremesas. Experimenta-se o doce, o levemente amargo, o ácido, o exótico, etc. É o caso de Mundo de Pixinguinha, de Hamilton de Holanda. O outro álbum lançado quase ao mesmo tempo, O Que Será, comentado na semana passada (http://bit.ly/17xkvIv), é só ele e Stefano Bollani. Este, além do italiano, que participa de duas faixas (Canção da Odalisca e Seu Lourenço no Vinho), conta com o português Mário Laginha e de mais três pianistas: Chucho Valdés, Omar Sosa e André Mehmari.

Holanda pensou no projeto por achar que “a música de Pixinguinha é agregadora por natureza” (o que está entre aspas são da matéria “Hamilton com Wynton”, de Roberto Nascimento em O Estado de S.Paulo, set. 2013). O melhor foi que agregou músicos de diferentes lugares. A referência ao panaché de sobremesas (tem um ótimo no restaurante do hotel Unique, SP) não é casual, pois o que ele nos proporciona são sabores diversos como a ginga cubana de Valdés e Sosa, temperos mediterrâneos do francês Richard Galliano e Bollani, ibéricos de Laginha, jazzísticos de Wynton Marsalis, sem faltar a brasilidade de Mehmari, Carlos Malta e da francesa/brasileira Odette Ernest Dias. O universo da música se circunscreve no “mundo Pixinguinha”. Muito boa a ideia dele: uní-los em volta de um dos maiores compositores do mundo.

O bandolinista está, com esse disco, semeando a obra de Pixinguinha. “Você precisa ver como o Chucho Valdés ficou. Toquei a primeira parte e, quando modulou para a segunda, ele disse: ‘Meu deus do céu. Que gênio!’”, conta. O cubano participa de duas faixas: Benguelê e Lamentos. Belíssima. Pixinguinha foi pioneiro ao apresentar-se com seus Batutas, em 1922, fora do Brasil. Os Oito Batutas ou, como diziam os franceses, o “Les Batutás, apresentaram-se por quase seis meses nos palcos do Sheherazade, Chez Duque e La Reserve Saint-Cloud. Não foi o sucesso que previam, apresentados como um conjunto exótico de negros (lembre-se do sucesso de Josephine Baker), nem o fracasso como desejaram seus detratores. Pixinguinha já era internacional, quem sabe, sua bela música se torne também, até a partir do trabalho de Hamilton de Holanda.


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Lamentos é a que vem depois de Naquele Tempo. Esta é um solo de Holanda. Richard Galliano participa de Ingênuo e da pouco conhecida Agradecendo. Pouco conhecida também é Canção da Odalisca, executada com Stefano Bollani. A outra colaboração é em Seu Lourenço no Vinho. Os outros pianistas são Omar Sosa, em Yaô, e Mário Laginha com grande solo em Rosa.


Veja Hamilton e Sosa tocando Dos Caminos. Não está no disco e não é de Pixinguinha.





Wynton e Hamilton tocam Pixinguinha
Hamilton e Wynton

Uma interpretação a se destacar é a de Wynton Marsalis em Um a Zero. Segundo Hamilton, o único que não conhecia Pixinguinha, nem de ouvir falar, era ele. "A música que gravamos é fantástica, solidifica as harmonias e a maneira que se toca a melodia, como no ragtime. É uma das mais difíceis para o trompete que já toquei”, disse o trompetista sobre a música de Pixinguinha e comparou-o a Scott Joplin. E sobre Hamilton, afirma: "Ele é a personificação de tudo que queremos num grande músico. Tem bons reflexos, tem uma maneira natural de tocar, tem profundidade de alma e sentimento. Ele é um tesouro nacional".
Caprichos de Pixinguinha, com André Mehmari, e Carinhoso são as únicas em que toca com brasileiros. Aqui, Hamilton toca com Carlos Malta e Odette Ernest Dias. Nada como terminar com a música considerada a melhor de todos os tempos, segundo pesquisa de O Estado de S.Paulo, de uns quatro anos atrás.

Ouça Um a Zero com Hamilton e Wynton.


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Alguém ouviu o CD Samba do Avião, de Hamilton de Holanda?

Como tantos outros discos de música instrumental, Samba do Avião, lançado em 2008, encontra-se esgotado. Descobri casualmente pesquisando a discografia de Richard Galliano. É possível baixá-lo pela iTune Store por US$ 9.99. Foi o que fiz. Só não entendi por que paguei um dólar a menos por Mundo de Pixinguinha, que é mais recente. O CD físico pode ser comprado na loja da Amazon americana.

No disco, Hamilton toca desacompanhado na maioria das faixas, ou melhor, em algumas toca com ele mesmo, usando o recurso de overdubs. Apenas nas três últimas – Chorinho Pra Ele, Sertão e Sanfona –, toca com o acordeonista Richard Galliano. Impressionante como os dois instrumentos se combinam ou, pelo menos, impressionante a simbiose entre Hamilton e o francês. Confira em Chorinho Pra Ele, de Hermeto Pascoal.


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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Olha o Hamilton de Holanda na ECM

O barbudo é Bollani, ao lado de Hamilton
Guarda Che Luna começa com um solo de bandolim que é um deslumbre. No primeiro minuto entra um piano, timidamente, e começa a dialogar com as cordas em ritmo que vai se acelerando aos poucos. No terceiro minuto, o bandolim passa a marcar o ritmo para o solo do piano. Há algo de brasileiro, mas a composição é de dois italianos: Gualtiero Malgoni e Bruno Pallesi. No diálogo incessante, ora é a vez de um, ora do outro. Faltando menos de dois minutos para o seu final, o pianista começa a balbuciar de modo estranho. É um anti-climax. Passado o susto, é possível compreender a intervenção bem humorada do italiano.

Luiza é a próxima. Ah, Luiza, aquela do Tom Jobim? Bandolim rima com Jobim. Tem brasileiro na parada! Ah, é Hamilton de Holanda, um quase brasiliense, pois natural de Niterói, cresceu na Capital Federal. E do pianista Stefano Bollani pode se dizer que é um brasiliano. De tanto vir ao Brasil, deveriam conceder-lhe passaporte brasileiro. É só vê-lo cantando Trem das Onze para confirmar.




Bollani é um rapaz diferente. Nem tem cara de italiano com aquele “cabelo ruim”, como se dizia em tempos menos corretos. É expansivo, como muitos de seus compatriotas, e parece levar a alegria por onde passa e é instrumentista versátil. É jazz interpretando Cheek to Cheek ou It’s Only a Papermoon (I’m in the Mood for Love, 2006), italiano, em Volare e In cerca de ti, italiano operístico na ária E lucevan le stelle, de Puccini (Volare, 2002), e brasileiro em Ao Romper da Aurora, A Voz do Morro (Carioca, 2008), Canção do Amor Demais e Pois É (Falando de Amor, 2003).


A capa do CD O Que Será
O Brasil é um país pródigo em revelar bons instrumentistas nas cordas. Hamilton é considerado o melhor bandolinista atual, de uma linhagem em que se destacam Jacob do Bandolim, Déo Rian e Joel Nascimento. Em pouco mais de dez anos de carreira, gravou cerca de 20 discos, inclusive no mesmo formato bandolim–piano de O Que Será: Contínua Amizade e Gismontipascoal, com o jovem mestre André Mehmari.

O Que Será acaba de ser lançado pela ECM Records. Para Hamilton, é ótimo: é uma boa forma de ficar reconhecido internacionalmente. Dos brasileiros, apenas Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos tiveram a honra de terem seus nomes estampados na capa de algum disco dessa gravadora. Existe um terceiro brasileiro: Ricardo Villalobos, residente em Berlim, mas é um caso atípico, pois é DJ e a praia dele é a da música eletrônica.

Dos temas que ficaram registrados, além de O Que Será, temos Beatriz, Luíza, Apanhei-te Cavaquinho, Rosa, Canto de Ossanha e Caprichos de Espanha, sendo a última, composição do bandolinista. Il Barbone di Seviglia – deve ser uma brincadeira com o nome da ópera O Barbeiro de Sevilha, e será autorreferência, já que agora, além do cabelão, cultiva uma barba? –, é de Bollani. As duas restantes são Guarda Che Luna e Oblivion, de Astor Piazzolla.

Veja Bollani ao piano e Holanda no seu bandolim de dez cordas a tocar Oblivion.




Ouça o álbum dos dois.




Veja os dois em Canto de Ossanha.




Um a Zero, de Pixinguinha. Esta não está no disco.



Outra que não está no disco: Estate.




Chorinho pra Ele, de Hermeto Paschoal.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O Trem das Onze “al sugo” de Stefano Bollani

O “brasiliano” Bollani
Dois dos melhores pianistas italianos da atualidade se chamam Stefano. O mais conhecido é Bollani; Battaglia é bem menos, mas é também especial. Ambos gravam pela ECM, o que é boa recomendação. Gravam muito. Bem ativos. Battaglia segue um percurso mais linear, Bollani varia bem. É, ora jazz, ora italiano, erudito e… brasileiro, e como seus projetos são muito diversificados, grava por outros selos além da ECM. Joga nas onze, como se diz no Brasil.

Em algum lugar, “bestando” pela internet, descobri que havia o DVD Carioca, de Bollani. Como conhecia o CD, com o mesmo nome, saí à procura. Acabei, casualmente, encontrando na Livraria da Vila. O programa é um pouco diferente ao do CD pois foi tirado de uma apresentação no Festival di Villa Arconatti, em 28 de julho de 2009. Os músicos são os mesmos: os brasileiros Marco Pereira (violão), Jorge Helder (baixo), Jurim Moreira (bateria), Armando Marçal (percussão) e Zé Nogueira (sax soprano). Os “estrangeiros” são o clarinetista Nico Gori e Mirko Guerrini no sax tenor, músicos que gravam sempre com ele.

O CD é de 2008 e o DVD é do ano seguinte. Luz Negra, Segura Ele, Caprichos do Destino, Na Baixa do Sapateiro, Trem das Onze, Tico Tico no Fubá, Ao Romper da Aurora, Choro Sim, Apanhei-te Cavaquinho e A Voz do Morro estão nas duas versões. No CD temos 16 músicas. Duas participações valorizam o disco: Zé Renato, em Hora da Razão, e Monica Salmaso, em Folhas Secas.

Bollani é um tipo extrovertido, como grande parte dos músicos italianos. Lembro de uma apresentação de seu “xará”, um terceiro Stefano, este, de Battista, bom saxofonista alto, em que conseguiu fazer a plateia acompanhá-lo em Mack The Knife, de Kurt Weill, no Auditório Ibirapuera, SP. O trompetista Enrico Rava, com quem habitualmente Bollani toca, também: é falante e gosta de interagir com o público. A exceção, pelo menos, da vez que o (ou)vi, é o também trompetista Paolo Fresu.

Além de Carioca, Stefano gravou outro CD “brasileiro” – Falando de Amor (Venus Records, 2003) –, dedicado a Tom Jobim. Seu amor pela música brasileira não se restringe aos dois álbuns: Dom de Iludir e Brigas Nunca Mais fazem parte de Stone in the Water (ECM, 2009).

Ouça seu belíssimo Retrato em Branco e Preto, do álbum Falando de Amor. Bollani gravou Retrato novamente em The Third Man (ECM, 2007), com Enrico Rava.




Veja Bollani cantando Trem das Onze, do paulista Adoniran Barbosa e diga se ele não adora o Brasil.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

“E lucevan le stelle”. Puccini é pop

A ópera tem adoradores fanáticos e um mundo que não gosta e até chega a odiar o gênero. Acontece até com gente que gosta (e conhece bem) música erudita. Ocorre uma coisa semelhante em relação aos musicais de teatro e de cinema. Mas, despindo-se de certo preconceito quanto à “arquitetura” da ópera, não há como deixar de se reconhecer a riqueza da música contida nela. O grande songbook americano vem dos musicais: Cole Porter, Stephen Sondheim, George and Ira Gershwin, Richard Rodgers & Oscar Hammerstein (e Lorenz Hart, também), e muitos outros. Até a patuleia (como assim designava, com certa ironia e um tico de maldade e preconceito, o chamado povão, meu amigo Conde) comprou o disco (Three Tenors in Concert, 1990), com Jose Carreras, Placido Domingo e Luciano Pavarotti. Foi uma tremenda jogada de marketing da Decca. Funcionou, além da grana que cada qual dos envolvidos embolsou, como uma forma de proporcionar biscoitos finos à massa. Pensando bem, nem tudo era biscoito fino, mas vamos fazer de conta.

Sentimentos poderosos como o amor e seu oposto, o ódio, e uma variante desses dois elementos – o ciúme –, fazem parte do enredo de Tosca, uma das óperas mais conhecidas de Giacomo Puccini. Ah, e o poder personificado no mal. Você conhece esse enredo, não? Pensando bem, faz parte da vida cotidiana. Nas óperas, na literatura e em alguns casos da vida real, esses elementos se apresentam potencializados; essa é a diferença. Quem sabe, críticas em relação a determinado esquematismo dos “librettos” ou aos roteiros dos musicais, sejam injustos: se na ficção alguma coisa parece exagerada, pensando bem, a realidade é mais tudo e mais alguma coisa em sua crueza; a mulher traída mutila seu par, o traficante deixa expostas cabeças cortadas de suas vítimas para servirem de exemplo, o vizinho estupra e mata o amigo em guerras.

Puccini, autor de Tosca
Scarpia é o “bandido” da história. Mario Cavaradossi está fazendo uma pintura de Maria Madalena em uma igreja. Logo no início do primeiro ato, surge Angelotti, que fugiu da prisão. O pintor ajuda-o. Floria Tosca é uma célebre cantora e amante de Cavaradossi. Ele é surpreendido com a aparição de Tosca, e ela, acreditando por ter ouvido vozes, desconfia que pode ser outra amante. Mario tenta acalmá-la com um beijo, mas Tosca, lhe diz que não pode beijá-lo sem antes rezar e ofertar flores à Madonna (não é a famosa cantora americana, por favor). Tosca havia ido até Cavaradossi para lhe dizer que a esperasse após sua apresentação para depois irem à villa do pintor. Já desconfiada da forma com que ele quer se ver livre dela, por causa de Angelotti, faz uma cena de ciúmes ao perceber alguma semelhança nas feições da imagem que Mario está pintando à da marquesa Avanti. Os olhos de Tosca são negros, e os da pintura, azuis. Logo depois, aparece Scarpia, à procura do fugitivo.

Bom, não vou contar a história toda. Mais uma coisa só: Scarpia ordena que seus guardas de irem à villa de Cavaradossi em busca de Angelotti. Não o encontra, mas prendem o pintor. Tosca implora pela vida do amado a Scarpia. Que ele peça: ela fará. Agora, imagine o que Scarpia quer?

É, estou me alongando demais e já nem sei se estou contando direito a trama. Bem, resumo da ópera: o fim é trágico, muito trágico.

Cavaradossi está na prisão e o carcereiro lhe diz: “Tens uma hora.” Pede-lhe autorização para escrever uma carta. Começa a escrever e se perde em lembranças de sua amada Tosca. É nessa hora em que canta uma das mais belas árias do repertório operístico: “E lucevan le stelle…”. “E reluziam as estrelas/ e perfumava a terra./ […]/ Entrava ela, perfumada/ me caía entre os braços./ Oh, doces beijos, oh lânguidas carícias”. Nos versos finais – “E non ho amato mai tanto la vita/ Tanto la vita” – o canto de Cavaradossi é emoção e catarse. Na montagem do Metropolitan Opera, Placido Domingo é aplaudido em cena aberta; se bem que o público dessa casa costuma aplaudir qualquer coisa.

Puccini é pop
Não é nenhuma novidade peças da música clássica serem executadas no repertório popular. Há peças manjadíssimas como Ode à Alegria (do último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven), Ária da Suíte em Ré Menor, de Johann Sebastian Bach. “Invadiu” não apenas o pop ou o rock, como nas investidas de bandas do rock progressivo como Emerson, Lake & Palmer, mas o jazz também, com músicos classudos como John Lewis, Branford Marsalis e muitos outros. As óperas têm servido de bom caldo a ótimas interpretações. E, como estou falando de “E lucevan le stelle…” ouça algumas.

As interpretações
O saxofone é um instrumento perfeito para emular vozes nas transcrições de árias operísticas. Um bom exemplo é essa versão de Grover Washington, Jr., que apesar de ter, durante muito tempo, optado por fazer um tipo de música mais comercial (tipo Kenny G, antes deste), foi excelente instrumentista. Aqui, é acompanhado pelo baixista Ron Carter e peka Orquestra de St. Luke’s, conduzida por Robert Freedman. Está no álbum Aria (Sony, 2000)


Outra ótima interpretação é a de Danilo Rea ao piano e Flavio Boltro no trumpete no disco Opera (ACT, 2011).


Uma terceira: a do também italiano, Stefano Bollani, em Volare (Venus, 2002).  

 


Assista à performance de Placido Domingo, no Metropolitan.



Nem tão bom ator quanto Domingo, Luciano Pavarotti tinha uma voz deslumbrante.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

As últimas interpretações de Here’s to Life ouvidas antes do fim de 2011

Capa do CD-tributo a Shirley Horn, de Montcalm
Por alguma coincidência, ouvi nas últimas semanas, três interpretações de uma daquelas canções que está na minha lista das 50 preferidas de todos os tempos. Cinquenta, explico, porque não conseguiria nunca fazer uma seleção com apenas dez.

Here’s to Life é a primeira faixa do disco com o mesmo nome, de Shirley Horn, lançado em 1992, pelo selo Verve. Inicialmente, imaginei ter sido composta por Johnny Mandel, mais em razão desse disco ter sido produzido e arranjado por ele. Engano: foi composta por Artie Butler e a letra é de Phyllis Molinary.

Pelo jeito, apesar de ter sido gravada por Nancy Wilson, Joe Williams, Eartha Kitt e Barbra Streisand, coube a Shirley Horn “descobri-la” ou, pelo menos, torná-la conhecida. Sua interpretação é primorosa e o arranjo de cordas de Mandel é magnífico. Ele é um mestre e é compositor de primeira. Quem não se delicia com Suicide Is Painless, tema de M*A*S*H, clássico satírico de Robert Altman, ou com The Shadow of Yor Smile, Close Enough for Life, Emily e A Time for Love? Mandel é gênio nos andamentos lentos. Bem que Here’s to Life poderia ser de sua autoria: está à altura de suas composições.

Here’s to Life nasceu clássica na interpretação de Shirley Horn. Mesmo assim, é sempre um prazer escutá-la com outros. As três que ouvi recentemente são a do italiano Stefano Bollani, da polonesa Aga Zaryan e da canadense Térez Montcalm.


A de Térez Montcalm. Térez tem uma voz, realmente, diferente.



A de Stefano Bollani está no álbum Ma l’amore no.



A de Aga Zaryan.



É claro que não poderia faltar a de Shirley Horn e Johnny Mandel. É ouro puro.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O amor de Stefano Bollani pelo Brasil

A Itália ama o Brasil e a recíproca é verdadeira. Barbara Casini gravou compositores brasileiros e cantando na nossa língua. Se é Tom Jobim, tudo bem: o mundo grava Tom. Quando se entra no terreno do samba ou do chorinho, a coisa é um pouco mais específica.

O “brasileiro” Bollani
Stefano Bollani queria ser cantor. Moleque ainda, gravou uma fita cassete (para quem não sabe o que é isso, imagine que é uma fita magnética em que se gravava, como nos CDs de hoje) e enviou-a ao seu ídolo Renato Carosone. Recebeu como resposta um aconselhamento: que ouvisse bastante blues e jazz. Foi o que fez. O próximo passo importante para a futura carreira de pianista – cantor, bem ocasionalmente – foi ter conhecido Enrico Rava. O trumpetista convidou-o para acompanhá-lo em uma apresentação em Paris. Disse-lhe: “Você é jovem e não tem família. Assuma o risco, desista do pop e abrace a música que você ama.” Jazz; que fique subentendido que era esse o gênero. Explicação suplementar: quando criança, o gosto de Bolani era pela música popular, e, como é natural, ampliou-se.

Falando de Amor, disco de 2003, de Stefano Bollani, é dedicado a Tom Jobim. O compositor de Garota de Ipanema é tão internacional que podemos dizer que o primeiro disco verdadeiramente brasileiro do italiano é Carioca, de 2008. Basta observar a lista das canções gravadas: Luz Negra, Ao Romper da Aurora, Choro Sim, Valsa Brasileira, A Voz do Morro, Hora da Razão, Segura Ele, Doce de Coco, Folhas Secas – não vou citar tudo –, Samba e Amor, Tico-Tico no Fubá, Caprichos do Destino, Trem das Onze. É uma bela amostragem: vai de samba, de choro, de Chico Buarque, Nelson Cavaquinho, Zequinha de Abreu, de Monica Salmaso e Zé Renato em participações vocais, do divino violão de Marco Pereira, e da percussão de Marçalzinho. Carioca é, essencialmente, brasileiro.

E, não para por aí. No CD Stone in the Water, pela ECM, em 2009, temos Dom de Iludir e Brigas Nunca Mais. Para completar, Bollani gravou um emocionante Retrato em Branco e Preto no álbum que divide com seu mentor, o trumpetista Enrico Rava, em Third Man (sobre esse assunto, leia: http://bit.ly/orcz9X).

Tico-Tico no Fubá foi gravada por Charlie Parker, mas alguém imaginaria que um “estrangeiro” fosse gravar A Voz do Morro, de Zé Keti? Incomum, não? Mais ainda, alguém gravar o clássico paulista Trem das Onze… e cantar, em português (e italiano na segunda parte). Curioso que não é a primeira vez que grava essa canção tão consagrada por Adoniran Barbosa e Demônios da Garoa. Em Småt Småt, de 2004, há uma excelente interpretação de Bollani de Trem das Onze (no título há um complemento: Figlio mio). É a que você vai ouvir.