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terça-feira, 7 de julho de 2015

Os melhores álbuns pela Downbeat: do 11º pra frente

Adoro listas, como o protagonista de Alta Fidelidade (High Fidelity), de Nick Hornby. Presumo que não sou tão diferente de muitos que habitam este planeta. Tenho amigos que adoram fazer listas das mais variadas coisas. Como ouço música até para dormir – ou mal dormir –, nada mais natural que distrair-se com listas, vendo o meu ídolo por tantos anos no sax barítono e no soprano, John Surman, depois de ficar tanto tempo em primeiro, estar em 11º na primeira categoria e, na segunda, nem constar na “63rd Annual Critics Poll”, da Downbeat.

Antigamente, se não me engano, colocavam apenas os 10 melhores do ano. Foram aumentando e, na última, citam 42. Naturalmente, não ouvi todos. Vou relacionar apenas alguns que achei interessantes – outros menos –, que podem despertar a curiosidade de alguns.

Billy Childs, Map to the Treasure: Reimagining Laura Nyro (11º). O pianista é um bom arranjador e nesse álbum em que faz tributo à compositora e cantora, morta precocemente aos 49 anos. O álbum conta com várias participações especiais como a de Renée Fleming, a celebrada soprano americana, de conhecidas cantoras como Rickie Lee Jones, Lisa Fischer, Alison Krauss, Dianne Reeves e a emergente Becca Stevens e músicos como Esperanza Spalding (cantando), Wayne Shorter, Chris Botti, Chris Potter e a estrela erudita Yo-Yo Ma. Os álbuns de Childs são sempre instigantes pelos bons arranjos.

Ouca Map to the Treasure, com vocais de Lisa Fischer. Para quem não sabe, é a backing dos Rolling Stones.



Chris Potter, Imaginary Cities (12º). o saxofonista tenor, que tocou por muito tempo na banda de Dave Holland e é um bons (ficou em 4º lugar em seu instrumento pela Downbeat). É o segundo que grava pela ECM. Fez parte da Unity Band, com Pat Metheny, Ben Williams e Antonio Sanchez. Foi lançado um único álbum deles, em 2012.

Chris fal sobre Imaginary Cities.




Mark Turner, Lathe of Heaven (13º). Não está entre os meus saxofonistas tenor preferidos, mas isso quer dizer apenas que tudo é questão de gosto. Até por isso, Lathe of Heaven está em 13º. Sinal de que muitos não concordam comigo.

Ouça The Edenist.




The Cookers, Time and Time Again (14º). Os “cookers” são Billy Harper, Donald Harrison nos saxofones, David Weiss e Eddie Henderson, trompetse, George Cables, piano, Cecil McBee, contrabaixo, e Billy Hart na bateria. Não dá para ignorar uma formação dessa. É bem bom. Estaria na minha lista dos dez.

Veja os “cookers” em Sir Galahad. Nada como a experiência. David Weiss é o mais novo. Grande Billy Harper.




Anat Cohen, Luminosa (14º). Faz alguns anos que não tem ninguém para Anat, na clarineta. Na última votação teve exatamente o dobro do segundo, que foi o cubano expatriado Paquito D’Rivera. Há uma coisa em comum entre esses dois: são apaixonados pela música brasileira. A israelense tem sangue latino. Toca choros como ninguém. Sua paixão é tão grande que seu álbum tem esse título que tão bem combina com ela e sua música. Anat merece um texto separado. Só para adiantar, ela abre com Lília, de Milton Nascimento. Não para por aí. Tem K-Ximbinho, Edu Lobo e Severino Araújo. Na minha lista estaria entre os dez melhores.

Ouça Anat em In the Spirit of Baden.




Keith Jarrett/Charlie Haden, Last Dance (16º). Tudo o que os dois gravaram é, no mínimo bom. É o que é esse álbum. É o complemento de Jasmine. Todos os registros foram feitos na casa do pianista em 2007. Ouça e leia em http://bit.ly/1IuEue8. Leia também sobre os duos de Haden com outros grandes músicos em http://bit.ly/1LWaQ0u.

Ouça alguns trechos de Last Dance.




Sonny Rollins, Road Shows 3 (17º). Noutro dia (re)li uma história ótima sobre a imprevisibilidade do saxofonista. Na década de 1950, o saxofonista tenor era celebrado como um dos grandes, depois de lançar os hoje clássicos Saxophone Colossus e Tenor Madness. Antes, já tinha passado uma pequena temporada na cadeia por roubo e lutava contra o vício de heroína. Um certo comportamento errático, dando várias pausas na carreira, tornando-se muçulmano e depois abraçando seitas orientais, foi morar na Índia, e ficou por lá um tempo fazendo ioga e meditação. Max Gordon, dono do clube Village Vanguard, em certa feita, soube que ele estava em Nova York. Conseguiu falar com ele ao telefone. Sonny foi encontrar-se com Max vestido com uma túnica branca que ia até os pés e com a cabeça calva, com o cabelo desenhando uma cruz no topo. Este lhe ofereceu um drink. O saxofonista disse-lhe que não bebia mais. Naquela terça-feira de abril, em 1976, Sonny apareceu com sua banda. Estava em forma ainda. Arrebentou. Depois de um intervalo de meia hora, aconteceria a segunda parte do show. A banda voltou, mas Sonny tinha sumido, para a surpresa de todos.

Por excelência e por sua imprevisibilidade, Sonny é uma lenda viva. Tem 84 anos e ainda toca. É Road Shows 3, porque já foram lançados dois. O primeiro foi o disco do ano pela Downbeat em 2009. Este terceiro merece eatr entre os vinte melhores do ano, até pelo que Sonny fez pela música. Max Gordon considerava-o o melhor tenorista de sua geração, melhor que Billy Harper, Dexter Gordon e Johnny Griffin. Bom, Gordon é um dos meus preferidos. Rollins está abaixo na minha lista. Mas, o velhinho manda bem. Tem fôlego para fazer solos espetaculares ainda.

Ouça Biji, a primeira faixa.




Tony Bennett e Lady Gaga, Cheek to Cheek (19º). O que esperar de um ancião quase nonagenário e uma cantora que adora mostrar as suas nem tão divinas tetas? Bem, chamar Tony de ancião é um insulto. Impressionante como mantém a verve de grande cantor. E Lady Gaga, para a minha, a nossa e a sua surpresa, manda bem nos standards. Sobre esse álbum, leia http://bit.ly/1MpEQpH.

Veja Tony e Lady Gaga cantando Anything Goes, Cheek to Cheek e They All Laughed.




Marc Ribot Trio, Live at The Village Vanguard (20º). Sem ser um virtuose, Marc se diferencia pelo som original que tira da guitarra. É o que faz, por exemplo Ry Cooder. Suas participações em álbuns de outros músicos são sempre interessantes. Deve ter tocado com todo mundo. Tocou em vários discos de Tom Waits. Este ao vivo é muito bom.

Ouça Sun Ship.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os melhores discos do ano, segundo a revista Downbeat

O mês de agosto é quando sai, na Downbeat, a lista dos melhores segundo a crítica. Em dezembro sai o “Readers Poll”. Primeiro, vou listar os dez melhores discos:

1. Vijay Iyer Trio, Accelerando (ACT) - 115 votos
2. Sonny Rollins, Road Shows vol. 2 (Doxy/EmArcy) - 69
3. Keith Jarrett, Rio (ECM) - 68
4. Gregory Porter, Be Good (Motéma) - 56
5. Miguel Zenón, Alma Adentro: The Puerto Rican Songbook (Marsalis Music) - 54
6. Brad Mehldau, Live in Marciac (Nonesuch) - 52
7. Matt Wilson’s Arts & Crafts, An Attitude for Gratitude (Palmetto) - 40
8. Corea, Clarke White, Forever (Concord)
9. Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project (Concord) - 38
10. Tim Berne, Snakeoil (ECM) - 33



Vijay Iyer (© ACT / Jimmy Katz)
Com tantos lançamentos, é impossível acompanhar tudo, mesmo que meus ouvidos passem os dias a ouvir música. Dos dez listados, ouvi seis, e desses, o que mais gostei mesmo foi o de Keith Jarrett (escrevi sobre esse álbum duplo em http://bit.ly/MF8xTz). Sobre o disco de Chick Corea e seus companheiros do Return to Forever, faço menção quando da apresentação deles no BMW Jazz Festival, edição 2012 (http://bit.ly/SSSvGE). De vez em quando me enjoo de Corea, mas é gênio; acho que isso acontece um pouco por sua prolixidade e por, a cada hora, gravar discos de gêneros tão diferentes. No último ano (2011-2012) foram lançados seis discos, sendo dois com os companheiros do Return to Forever (Forever e The Motherships Returns), dois duos (Hot House, com Gary Burton – veja: http://bit.ly/L3cXmz –, e Orvieto, com o pianista Stefano Bollani), outro em trio, com Eddie Gomez e Paul Motian (Further Explorations, 2012), e um último (The Continents, 2012), erudito, lançado pela Deutsche Grammophon.

Vijay Iyer é a bola da vez, assim como Jason Moran foi na votação do ano passado. Além de ter seu disco Accelerando considerado o melhor do ano, ficou em primeiro lugar nas categorias “Jazz Artist”, “Jazz Goup”, “pianista”, e foi até lembrado na categoria “Rising Star”, ficando em segundo lugar. Nessa categoria, ganhou, com 2% de votos a mais, Robert Glasper, possível candidato a ser a “bola da vez” em anos vindouros na categoria principal.

Accelerando é um bom disco. Está no nível dos anteriores. Filho de indianos, Iyer passou pela Yale University e pela Columbia, estudante de matemática e física, e o título de sua dissertação de mestrado era Microstructures of Feel, Macrostructures of Sound: Embodied Cognition in West African and African-American Musics. Alta cultura, não? Não é possível uma simples transposição do conhecimento científico para as habilidades musicais, no entanto, percebe-se uma tremenda sofisticação no que toca; e, para arrematar, seus discos são belamente ilustrados por obras de um dos melhores artistas atuais: Anish Kapoor. Quem mora em São Paulo, Brasília ou Rio de Janeiro deve ter visto a bela exposição promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em 2006.

Veja uma das obras de Anish Kapoor (Ascension), no CCBB. Kapoor é gênio. Veja também uma entrevista sobre Leviatan, exposta no Grand Palais, em Paris, no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=12Ni0c4D27Y&feature=fvwrel). É uma obra impressionante. Pena que não estava em Paris em no segundo quadrimestre de 2011.





Ouça Mmmhmm (Steve Ellison, Stephen Bruner), do álbum Accelerando. Iyer toca com Stephen Crump no baixo e Marcus Gilmore na bateria. É uma das faixas mais interessantes. Vijay imprime uma melodia meio estranha em acordes repetitivos nos graves, com predominância de acordes nos médios e agudos em tons dramáticos, enquanto a “cozinha” parece tocar outra música.




Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Basicamente, o som de Iyer é tenso. Toca sempre em um ritmo em que há poucos espaços de respiração, quase sem silêncios, em ritmos quebrados.


O segundo melhor do ano

Rollins. Até no visual, inova
Coube a Sonny Rollins, com seu Road Shows, vol. 2, com, praticamente, metade dos votos. Este e o primeiro volume são de gravações de shows no Japão e do Beacon Theatre em comemoração aos seus 80 anos ocorridos em setembro de 2010. Esse mês é emblemático na vida do saxofonista. Rollins morava a quatro quadras do World Trade Center. No dia 11, em 2001, teve de sair às pressas de seu apartamento levando apenas seu saxofone. Tinha, na agenda, uma apresentação em Boston marcada para cinco dias depois. O show virou CD. O nome? Without a Song: The 9/11 Concert. Rollins nasceu em 7 de setembro de 1930.

A voz está fraca. Percebe-se quando fala para apresentar os músicos ou anunciar os temas. Quando começa a tocar, aí, é outra história; mantêm vigor invejável. Não parecem ser a mesma pessoa. Na votação dos críticos, no sax tenor, foi considerado o melhor do ano, com 20 % de votos a mais que Joe Lovano. Justiça? Deve ser mais por aquele sentimento de reverência aos mais velhos. Rollins é o último de uma geração posterior à de Coleman Hawkins, Ben Webster e Lester Young. São seus contemporâneos, John Coltrane, Dexter Gordon, Stan Getz e Johnny Griffin. Todos estão mortos. Dos que estão vivos – Houston Person e Charles Lloyd –, ambos são mais novos que Rollins; nasceram, respectivamente, em 1934 e 1938.

O set de Road Shows vol. 2 consiste de temas conhecidos. Valorizam o disco convidados especiais como Jim Hall (In a Sentimental Mood), Ornette Coleman – com um longo solo –, e o baixista Christian McBride e o baterista Roy Haynes, em Sonnymoon for Two, e, finalmente, o trumpetista Roy Hargrove, em I Can’t Get Started e Rain Check. A música que fecha o CD é St. Thomas, o tema mais conhecido de Rollins. Dos músicos acompanhantes, o destaque mesmo é a guitarra delicada de Russell Malone.

Ouça Sonnymoon for Two.



Um gênio como o sax tenorista só deve ser reverenciado, mas é um exagero Road Shows vol. 2 ser considerado o segundo melhor do ano.

A carreira de Sonny Rollins passou por algumas oscilações, algumas provocadas por ele mesmo. Em 1950, foi detido por roubo à mão armada. Antes disso, já tinha tocado com Babs Gonzalez, Jackie McLean e Kenny Drew. Apesar de condenado a três anos de cadeia, Dez meses depois saiu e ficou em liberdade condicional. Violou-a ao ser preso por porte de heroína. No total, passou três anos detido. Conseguiu se livrar do vício por meio de tratamento à base de metadona. Foi a sua sorte.

Antes de fazer parte da legendária banda de Clifford Brown e Max Roach, havia tocado com Miles Davis e Thelonious Monk. Em 1956 lançou o disco que é considerado um dos melhores de todos os tempos, não dele, mas da discografia do jazz: Saxophone Colossus. Estava sendo considerado o melhor saxofonista tenor pela crítica, mas na mesma época John Coltrane começava a se firmar como líder. Foi eclipsado, porém não deixou de lançar discos muito bons, principalmente nos que era acompanhado apenas pela bateria e pelo baixo, sem piano.

A década de 1960 foi um tempo de grandes transformações sociais, e Rollins não iria ficar “fora” dessa”. Foi fazer ioga e ligou-se, como muitos, a certas práticas orientais. Na música, incorporou instrumentos eletrônicos como a guitarra e o baixo elétrico e também absorveu influências do R&B, do funk de Sly and The Family Stone e até do pop. Sonny não foi o único. O mesmo aconteceu com Charles Lloyd e muitos outros intérpretes do jazz.

Um solo de Rollins é reconhecível de longe. Waiting on a Friend é uma das faixas em que participa no disco Tattoo You (1981), dos Rolling Stones. As outras duas são Neighbours e Slave.