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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Um novo Charles Lloyd é sempre garantia de boa audição

Jason Moran, Reuben Rogers e Eric Harland, com o líder Lloyd
A banda se chamar Charles Lloyd New Quartet revela dois sentidos. Como é possível o “new” para uma banda que toca junto há bom tempo? Jason Moran, Reuben Rogers e Eric Harland estão há dez anos com Charles Lloyd. É um septuagenário com a energia de um rapaz. Os três estão próximos do 40. Antigamente seriam senhores de meia idade, considerando a média, e hoje, significa que são “novos”. Bom, devo imaginar então que é “new” por essa razão.

Desde que mudou para o selo Blue Note, “Passin’ Thru” é o terceiro. O primeiro, “Wild Man Dance”, retirado de apresentação ao vivo na Polônia, guardava várias conexões com sua “fase ECM”, e também com o último que saiu por lá. “Athens Concert”, mais um ao vivo, é creditado com o nome do americano com a cantora grega Maria Farantouri. A suite “Wild Man Dance” foi gravada em 2013 no Jazztopad Festival in Wroclaw, Polônia, conta com Sokratis Sinopoulos, na lyra, e Miklos Lucacks  no cimbalom. Nesse gap de dois anos entre o show e o lançamento em disco, Lloyd deve ter recebido o convite do Blue Note Records.

“I Long to See You”, com a formação que ele chamou de The Marvels (os habituais Reuben Rogers e Eric Harland, Bill Frisell na guitarra e Greg Leisz na pedal steel guitar em lugar do pianista Jason Moran), apresenta uma sonoridade bem mais americana e diferente do “som ECM”. Frisell e Leisz parceiros em outras investidas musicais com ligação particular com o universo norte americano, reforçam a opção de Lloyd como determinante da mudança de rota. Alguns temas retêm essa característica de forma bem evidente, como “Shenandoah”.

“La Llorona”, como a citada, é um “traditional”, ou seja, canção folclórica de origem desconhecida, só que do outro lado do muro que o presidente Trump planeja construir. É uma canção que Lloyd gravou mais de uma vez. Digamos que americaniza-se com o uso do pedal steel guitar, tão característico da música folk e country, assim como o banjo. Há mais dois “trads” no repertório de “I Long to See You”. A participação de Willie Nelson, em “Last Night I Had the Strangest Dream”, de Ed McCurdy, e a conhecida “Masters of War”, de Bob Dylan, aprofundam essa característica. Há também outra participante especial: Norah Jones, em “You Are So Beautiful”, contratada do mesmo selo Blue Note.

Passagem
No recém lançado “Passin’ Thru”, com seu New Quartet, o novo e o velho se fundem também na escolha das músicas. “Passin’ Thru”, a música título, teve seu primeiro registro em 1963, quando Lloyd ainda não lançara nenhum LP como líder. Estava preparado, certamente: “Man from Two Worlds”, do baterista Chico Hamilton, todas as composições são dele, com exceção de uma, do guitarrista Gábor Szbór, que irá participar de várias formações das bandas lideradas por Lloyd na década de 1960.

Ouça “Passin’ Thru”.




A outra antiga é “Dream Weaver”, que tinha sido tocada em 1965 em apresentações ao vivo com o quarteto composto por Gábor Szabó, Ron Carter e Pete LaRoca. No ano seguinte, seria o título do álbum em que liderou o quarteto com os então jovens Keith Jarrett, Cecil McBee e Jack DeJohnette. O “novo quarteto” representa a passagem do antigo para o tempo presente. “É um pequeno planeta, e estamos passando por ele em nossa jornada para Um [“journey to One”, no original]. Em cada de vez em quando existem importantes intersecções. Este quarteto com Jason, Reuben e Eric reuniu-se de forma muito orgânica em abril de 2007. Das notas do nosso primeiro concerto, sabia que era uma formação mágica.” Com essas palavras Lloyd define perfeitamente seus encontros com esse fabuloso quarteto e o título “Passin’ Thru” encaixa-se perfeitamente.

Ouça o registro original de “Dream Weaver”, com Keith Jarrett, Cecil McBee e Jack DeJohnette.




Ouça a versão 2017 de “Dream Weaver”.




Os dois temas estão entre os meus muitos filhos, como afirma: “Eles deixaram a casa e voltaram. Eu deixei a minha casa e voltei. Quando nos visitamos, vemos que temos muitas histórias para contar. Assim como amadureceram, eu também.  Quando eu saio agora, trago muitos anos de experiência que não tinha quando era um jovem idealista.”

Quando Lloyd começava, John Coltrane encontrava-se no auge. O envolvimento com Alice Coltrane resultou em transformações na sua música, espiritualizada, intensa e transcendente. Percebe-se desde o início a influência dele nas composições de Lloyd. Em seu retorno, depois de um tempo afastado, quando flertou com a explosão do pop/rock dos anos 1960, que o levou a tocar com os Beach Boys, não mudou o foco da sua música.

Voltou ao mundo do jazz tocando com Michel Petruccianni, em 1982. Essa parceria está registrada no álbum “Monterux ’92”. Quando iniciou sua parceria, em 1989, com a ECM, sua carreira pulou para um novo patamar: era o jovem idealista, com anos de experiência, como está afirmado dois parágrafos antes. Nunca deixou de tocar suas composições da década de 1960. São novas leituras, densas, tensas, meditativas, abertas às sonoridades do continente africano e asiático

O velho “new” quartet é assim definido por ele: "Quando nos reunimos como uma unidade, achamos que a música e o amor só cresceram mais profundamente. O vínculo de nossas experiências compartilhadas dentro e fora do palco informa e expande a música. Um período de dez anos cobre um monte de território, mas no período do Universo, é um mero nanosegundo ".

Pelas suas afirmações é possível se perceber um viés místico, como essa do “nanossegundo”, da nossa insignificância frente ao universo. É isso que permeia pela sua música o tempo todo e é o seu diferencial e a beleza suprema na audição de Charles Lloyd. “Passin’ Thru” não é o seu melhor disco – ainda prefiro os da fase ECM –, mas é essencial para entender sua passagem pela Terra a nos brindar com sua música. Recebeu 4 estrelas na Downbeat, e é o que daria também.

A melhor canção, além das citadas, é a última – “ Shiva Prayer” –, composta em memória de Judith McBean. Mais uma vez, uma afirmação dele que corrrobora esse seu lado místico: “uma oração e meditação para ela”.



quinta-feira, 14 de julho de 2016

Saiu a lista dos melhores do ano 2016, pela Downbeat

Kamasi Washington, destaque na Downbeat
Como é tradicional, há 64 anos, no mês de agosto sai a lista dos melhores na Downbeat. Em razão de quase nenhum – ou todos – foi lançado no Brasil e pouco comentado aqui, vai aqui a lista dos des melhores discos do ano.

1. Kamasi Washington: The Epic (Brainfeeder)
2. Maria Schneider Orchestra: The Thompson Fields (Artistshare)
3. Cécile McLorin Salvant: For One to Love (Mack Avenue)
4. Henry Threadgill’s Zooid: In for a Penny, In for a Pound (PI Recordings)
5. Steve Coleman & The Council of Balance: Synovial Joints (PI Recordings)
6. Charles Lloyd: I Long to See You (Blue Note)
7. Tom Harrell: First Impressions (Hugh Note)
8. Christian McBride: Live at the Village Vanguard (Mack Avenue)
9. Michael Formanek’s Ensemble Kolossus: The Distance (ECM)
10. Charles Lloyd: Wild Man Dance (Blue Note)

O primeiro
O jovem saxofonista Kamasi Washington – nasceu em 1981 –, no ano passado, nem estava entre os melhores “rising star” e muito menos na principal. Como do nada, na Downbeat com a lista dos melhores de 2016, não apenas ficou em primeiro no item “saxofone tenor “rising star”, como teve seu disco The Epic em primeiro lugar, desbancando medalhões como Charles Lloyd, Henry Threadgill, Tom Harrell e Maria Schneider.

O título diz tudo. Soa épico.  Produzido pelo multitalentoso e eclético Flying Lotus, The Epic é um poema sinfônico ambicioso e surpreendente por suas dimensões. Kamasi une uma banda composta de saxofones, trompetes, teclados e base ritmica, acrescido de um coral e uma orquestra. E mais: tem aproximadamente três horas. Nas passagens iniciais lembra um pouco alguns álbuns de McCoy Tyner da década de 1970 em formações maiores, como Fly with the Wind. Os coros, por sua vez, lembram, de vez em quando, o Marvin Gaye de What’s Going On.

Veja a apresentação de The Epic na íntegra.




Se você preferir ouvir o registro em estúdio.




Na minha opinião, não é o melhor álbum de jazz do ano, mas confesso não ter um preferido absoluto entre esses dez. Devido a longa duração, é um tanto cansativo. É bom? Sim. Mas não é o que eu naturalmente buscaria ouvir.  Outros, como os de Charles Lloyd e de Tom Harrell, são mais prazerosos, talvez por serem mais palatáveis.

Os outros
Se você for um ouvinte desavisado como eu e ficasse curioso de ouvir ou comprar alguns dos dez melhor classificados, iria direto para os álbuns de Charles Lloyd. I Long to See You é mais interessante por ser um pouco diferente dos da fase ECM, como ainda é um pouco Wild Man Dance.

Com banda composta por Bill Frisell e Greg Leisz, I Long to See You é bem americano e essa é a diferença com o “Lloyd ECM”. Ouça Shenandoah, tema mais traditional americano, impossível.





No ano retrasado, Cécile McLorin Salvant foi a surpresa, como Washington está sendo desta vez. Surgindo do nada, emplacou como melhor cantora “rising star” e teve WomanChild como o melhor lançamento do ano. Continua prestigiada e o seu For One to Love ficou em terceiro agora. É inferior ao anterior. É mais intimista e já não conta com o impacto de ser uma estreante.

Alguns classificados são queridos pela crítica e assíduos frequentadores das listas não apenas da Downbeat. Maria Schneider é a campeã. Tudo o que lança é elogiado. Tem a melhor big band, junto a de Darcy James. Tom Harrell é outro. Não só grande trompetista, quase sempre apresenta composições próprias em seus discos, o que não é tão comum. O surpreendente em Harrell é que apresenta-se ativo e lançando álbuns regularmente, seja esquizofrênico e tenha tido problemas como espasmos musculares involuntários consequência dos medicamentos pesados que é obrigado a tomar.

De todos os listados, os álbuns de Henry Threadgill, Steve Coleman e Michael Formanek são a face mais avant garde do jazz. Os dois primeiros estão ligados à cena vanguardista de Chicago. Dos três, o de Steve Coleman (Synovial Joints) é o melhor. Threadgill é o gênio criador do Air (foi criada bem antes da banda eletrônica Air dos franceses Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel) e do Very Very Circus, Make a Move e agora o Zooid. Com essa banda, gravou In for a Penny, In for a Pound. Com essa composição ganhou o 2016 Pulitzer Prize of Music. É o reconhecimento para um dos gênios da música atual.

Assista à apresentação de Threadgill no Library of Congress. Uma das características marcantes do som do saxofonista/flautista é a presença de instrumentos não tão usuais no jazz como o violoncelo e a tuba. Na atual formação, Liberty Ellman, bem conhecido na cena novaiorquina, é um dos destaques, pela sua forma peculiar de tocar o violão. Confira.



Formanek vem de uma ótima sequência de grandes álbuns pela ECM. Small Places foi considerado um dos melhores lançamentos de 2012. Neste, contou com o sax alto de Tim Bern, o piano de Craig Taborn e a bateria de Gerald Cleaver, enquanto em The Distance, montou uma big band com 19 membros em que estão incluídos Mary Halvorson, Thomas Fujiwara, Tim Berne e Ralph Alessi.

Veja o promocional com Formanek falando sobre o projeto.




Veja também Steve Coleman com o seu The Council of Balance, em Synovial Joints.




Por último, Christian McBride. É o melhor contrabaixista hoje, craque no acústico e quando pega o elétrico, é tão bom quanto. Live at the Village Vanguard é com o trio formado pelo pianista Christian Sands e Ulysses Owens. Não é dos melhores álbuns de trio, mas pelo jeito, os críticos gostaram.

Ouça Cherokee.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Charles Lloyd voltou americanizado

Após uma longa temporada como contratado da ECM (1989–2013), gravando um disco bom atrás do outro, desde o ano passado, Charles Lloyd está no selo americano Blue Note. I Long to See You, lançado agora em janeiro, já é o segundo. Lloyd estreou com Wild Man Dance. Este foi tirado de uma apresentação no Jazztop Festival, em Wroclav, Polônia. Para quem ouviu ou conhece os últimos álbuns do saxofonista e flautista, encontrarão uma conexão deste com Athens Concert, duplo que saiu em 2011. Nele não conta com a cantora Maria Farantouri, mas inclui dois músicos gregos: Sokratis Sinopoulos, na lyra, que havia participado do concerto de Atenas, e Miklos Lucacks num instrumento chamado cimbalon. Orestante é o básico de um quarteto, mas a presença dos gregos imprime um caráter mais “world music”.

Uma coisa em comum, apesar da diferença de idade, com Sonny Rollins, também saxofonista tenor, foi o interesse pela música e cultura oriental e pelo rock’n’roll. Rollins, que foi comparado a John Coltrane, teve uma carreira um tanto errática devido a uma certa irresponsabilidade com os compromissos firmados. Passou mais de uma temporada afastado do meio musical. Interessou-se pela ioga e meditação e visitou a Índia algumas vezes. Interessou-se pelo rhythm’n’blues, o rock e o funk. Incorporou guitarras elétricas e chegou a participar de gravações com os Rolling Stones.

Lloyd despontou um pouco mais tarde, no início dos 1960 e passou a gravar como líder em 1964, quando assinou contrato com a Columbia Records. No espírito da época, arregimentou a guitarra de Gabor Szabo e não seguia a tradição do bop. Teve entre seus liderados Keith Jarrett e Jack DeJohnette. Como Rollins, interessou-se por outras culturas e pelo rock. Foi para a costa oeste e embebeu-se da cultura hippie e passou uma temporada tocando com os Beach Boys.

Depois da Columbia, Lloyd foi para a Atlantic e por razões diferentes, passou uma década um tanto esquecido. Gravou pela Elektra e teve o ascendente Michel Petrucciani tocando com ele. A virada acontece quando lança Fish out of Water, em 1989, pela ECM. Não tinha mudado radicalmente. Vista hoje, a sua música dos anos iniciais apenas foi sendo depurada. Sob as mãos do produtor Manfred Eicher, parecia que toda a intensidade dramática e melódica do som do seu tenor e da flauta atingia uma maturidade produzindo sons que o aproximava da beleza intensa do John Coltrane da época de Meditations e A Love Supreme. E foi assim, num continuum de grandes discos. Os músicos podiam ser diferentes em cada um, mas essa atmosfera de espiritualidade hipnotizante é o grande elo entre eles.

Agora, quase octogenário, mudou de ares. No novo álbum, esse músico nascido nos Estados Unidos, está menos ECM e mais americanizado. Essa mudança, que pode até assustar um pouco, é bem evidente em I Long to See You. Não é à toa que a música de abertura seja Masters of War, de Bob Dylan. Simbolicamente, é como se ele voltasse aos anos 1960.

Ouça Masters of War.




Outro fator a se levar em consideração, é a de que Lloyd toca com dois guitarristas. Teve Calvin Newborn e Gabor Szabo, e durante os anos ECM, contou com a participação de John Abercrombie. No novo álbum, os dois são Bill Frisell e Greg Leisz. Suas participações dão o tom “americanizado”. Ambos não seguem a tradição de Django Reinhardt ou de Charlie Christian, Estão mais para Greg Allman, da lendária Allman Brothers. 

Bill sempre teve uma queda pelo country folk. Chegou a gravar um disco cujo título é Nashville. Não é o único em sua discografia que vai por essa levada. Com Greg, que toca “pedal steel-guitar”, instrumento típico do country-folk, isso fica patente. Mesmo com Lloyd como líder, em princípio, o que predomina é isso. Não é uma crítica. É uma constatação. Frisell e Leiz são os “marvels” de Lloyd, com com Reuben Rogers e Eric Harland, que já tocavam com o saxofonista nos discos da ECM. 

A segunda faixa é Of Course, Of Course. É boa, mas não tem o tom do que conhecemos dele.




Os propósitos mais comerciais da Blue Note estão evidentes com as participações especiais. Uma é de Willie Nelson em Last Night I Had the Strangest Dream, que faz par conceitualmente com Masters of War, outro número anti-bélico dos anos 1960. A outra participação é de Norah Jones em You Are So Beautiful, de Billy Preston, que virou carne de vaca após a morte de Lady Di. Com ela, fica bem mais interessante do que a com Joe Cocker. Uma constatação quando ouvimos os solos melancólicos de Charles Lloyd: tem um dos mais belos sons no sax tenor atualmente.

Confira.




La Llorona não é novidade no repertório de Lloyd. O tom melancólico da canção combina perfeitamente com as guitarras de Frisell e Leisz. Junto com outra tradicional, que é a conhecida Shenandoah, e Barche Lamsel, a última e mais longa, são os destaques.

Ouça La Llorona. Uma observação. O YouTube, geralmente, bloqueia arquivo de gravadoras mais conhecidas. O álbum tinha sido postado na íntegra, mas foi tirado. Corra e ouça antes que isso aconteça.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Charles Lloyd no Brasil

Maria Farantouri e Charles Lloyd no concerto em Atenas
Domingo próximo, vou realizar um dos meus desejos: ver Charles Lloyd tocar. Ele é um daqueles casos em que, quanto mais velho, melhor fica. Depois de bom tempo “desaparecido”, em 1989, gravou Fish Out of Water, pela ECM (leia em http://bit.ly/L4cHlg). E depois: incansável, lança quase um disco por ano. Lloyd vendeu mais de um milhão de seu LP Forest Flower, em 1966. Era um recorde em se falando de álbuns de jazz. Em plena era Beatles, Rolling Stones e Jimi Hendrix, parecia que estava decretado o fim dos dias gloriosos desse gênero. Duke Ellington e Count Basie não conseguiam mais sustentar suas bigbands. A impressão era de que Charlie Parker, Miles Davis e Coleman Hawkins tinham como destino o ocaso. Muitos músicos americanos tinham emigrado para a Europa e lá eram prestigiados.

O jazz se realimentava da música pop absorvendo novos ritmos. O selo Blue Note tinha Herbie Hancock, Grant Green, John Patton em seu plantel: era um som mais funkeado, mais “moderno”, absorvendo elementos do soul, do rhythm’ blues e do blues. Eram jovens que reescreviam o gênero com um som mais balançado e menos agressivo que o hardbop ou o “free jazz” de Ornette Coleman e Cecil Taylor. Miles Davis, sensível às mudanças, absorveu as lições de Hendrix, adicionou guitarras e instrumentos eletrônicos e chegou a participar de grandes festivais do rock como o da Ilha de Wight, e radicalizou com o LP duplo Bitches Brew. Charles Lloyd foi tocar com o grupo californiano Beach Boys e com o Grateful Dead, participou de discos do Canned Heat, de Roger McGuinn e The Doors. Deixara o jazz, aparentemente. Reapareceu em grande estilo com os discos da ECM. Entre os fins de 1960 e fim dos 90 continuou ativo, mas pouco aparecendo. Na década de 1980, Lloyd gravou alguns álbuns como líder mas quase sempre tiradas de apresentações ao vivo, como é o caso de Montreux ’82, com Michel Petrucciani, Palle Danielsson e Son Ship Theus.

Pode-se dizer que Lloyd renasceu e foi surfar, não com Brian Wilson, dos Beach Boys, mas numa nova grande vaga, que representou seu segundo apogeu. Vinte e dois anos depois de Fish Out of Water, Lloyd continua a surpreender; e olhe que está com 74 anos.

Agora, no ano passado, lançou Athens Concert, gravação ao vivo na capital grega. Além do trio que o acompanha – Jason Moran ao piano, Reuben Rogers no baixo e Eric Harland na bateria –, nessa apresentação teve como convidados especiais a cantora Maria Farantouri, Socratis Sinopoulos na lira (grega, imagino; não tem nada var com um harpa e é tocado com arco) e Takis Farazis no piano. Numa primeira audição, soa um tanto estranho. Não estamos acostumados a ouvir música cantada em grego. Na entrevista dada a O Estado de S. Paulo, Lloyd a compara a Billie Holiday. Farantouri cantou, quando tinha 16 anos, com Mikis Teodorakis e participou, mais recentemente, de gravações da pianista Elena Karaindrou, compositora de várias trilhas sonoras dos filmes do diretor Theo Angelopoulos.

Depois do choque inicial, constatamos que Charles Lloyd ainda é capaz de nos surpreender. Tanto no sax tenor, seu instrumento primeiro, na flauta ou no tárogató, de origem turca (segundo a Wikipedia, mas parece que foi criado na Hungria, mais ou menos à época em que surgiu o saxofone), que parece uma clarineta, seu sopro é de uma beleza meio etérea e sempre emocionante. Ele faz música para ser ouvida numa situação próxima ao estado de graça. Lembra, em muitos momentos, o John Coltrane de Meditations e A Love Supreme. A voz de Maria é quente e sombria, expressiva e melancólica ao mesmo tempo, algo difícil de descrever.

Athens Concert coincide com a atual situação de crise econômica e política da Grécia. Desde sua criação e independência como um país, no século XIX, períodos difíceis foram frequentes em razão de questões territoriais com seus vizinhos. Mais recentemente, nos anos 1960, passou por um período de uma ditadura militar.

Antes de ser uma intérprete, Maria Farantouri é uma das pessoas que ficaram conhecidas pelo ativismo contra a ditadura. De 1989 a 1993, foi eleita para uma cadeira no Parlamento grego pelo Pasok, partido de tendência socialista. Por essa e outras razões o mais recente disco de Charles Lloyd é emblemático.

Assista a um trecho de Greek Suite, em performance deles na Alemanha.



Há um excerto belíssimo do concerto, que corresponde ao início da apresentação de Athens Concert. Assista.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Keith Jarrett no Rio de Janeiro

Jarrett grunhe, dá gritinhos, mas toca muito
Como a água de um rio, que nunca percorre o mesmo caminho por mais de uma vez, as notas do piano de Keith Jarrett foram se aventurando por terrenos inexplorados naquele dia em Colônia, Alemanha. Quando foi lançado em dois LPs, Köln Concert, fez um sucesso como nunca um disco de jazz fizera, talvez com exceção de Forest Flower (1966), de Charles Lloyd, músico com quem tocara por certo tempo no início da carreira, atingindo a marca de um milhão de discos vendidos.

Quando fez essa apresentação, em 24 de janeiro de 1975, Jarrett já era um talento reconhecido: tinha feito parte da banda do “flower power” Charles Lloyd, participara da formação elétrica de Miles Davis, e gravara discos pelos selos Atlantic e Impulse com sidemen poderosos (Dewey Redman, Charlie Haden e Paul Motian).

Depois de Köln Concert faria outros discos em que, sentado ao piano, no qual os sons se encadeavam em ondas de improváveis improvisos. Várias performances posteriores, sempre ao vivo, foram disponibilizadas em discos pela ECM Records: Bremen-Lausanne, The Sun Bear Concerts (Osaka, Tóquio, Kioto, Nagoya e Sapporo, em 1976), Paris Concert (1988), Vienna Concert (1991), La Scala (1995), Paris/London – Testament (2009) [leia em http://bit.ly/rZjOMg], e agora, nos brinda com a lindíssima apresentação realizada, no Rio de Janeiro, em seu tour por terras brasileiras, no ano passado.

É uma “fórmula” de mais de 35 anos. Haveria, naturalmente, um desgaste ou diluição nesse eterno “repetir-se a si mesmo”. Não é o que acontece, porém. A exemplo das dezenas – e um quase milhar de apresentações – de discos gravados com o baixista Gary Peacock e o baterista Jack DeJohnette, num dos formatos mais tradicionais – o trio –, quase que exclusivamente compostos de standards conhecidos do público apreciador de jazz, mesmo assim, apresentam algo de original.

Capa do último álbum de Keith Jarrett
Os solos de Jarrett eram longos. Valorizava ou, intimamente procurava, demonstrar sua capacidade improvisativa em longos solos nos quais os momentos de “respiro” eram os de mudança de rota – ora agitado, ora rítmico; em outras, poético ou melancólico. Os últimos – Testament e Rio – demonstram que tem optado por pequenos fluxos improvisativos, como pequenas peças que se juntam de acordo com o seu estado de espírito. Mesmo que o público – ou a sinergia com ele – seja um dado importante, no fundo, os improvisos são “viagens internas”.

Rio se divide em quinze partes. A primeira, quebrada em síncopes marcadas pela mão esquerda, é um solo de pouco mais de seis minutos que causa certa estranheza do público que acaba de entrar em “contato” com Jarrett. A Parte II é em tom menor e representa algo mais “musical”, prenúncio de que os improvisos possam se inclinar por essa vertente. É reflexiva, tateante e explorativa como se estivesse a procurar uma linha. A apresentação segue um tanto morna, sem deméritos; morna porque o que esperamos de Jarrett é sempre o máximo, por conta das expectativas em que nele depositamos. Seria o caso de se perguntar qual é a amplitude da capacidade de um instrumentista como ele em ser sempre inovador. Não é difícil, portanto, percebermos cacoetes – cacoetes como um sotaque, como um modo constituinte de cada ser – que estavam presentes em solos de discos tão antigos como Fort Yahuh (1973), ou El Juicio (Atlantic, 1971).

A Part VII, que corresponde à primeira do segundo CD, é de linha melódica simples e próxima de códigos que associamos naturalmente aos valores do belo. A próxima parte (a oitava) é quase uma ruptura desse estado que tendemos a desejar que se mantenha, mas os primeiros acordes de sabor impressionista e toques orientalizantes da nona nos jogam em terrenos etéreos e, parcialmente, ao penúltimo. As “partes” não se interligam necessariamente, mas percebe-se que os solos nesse segundo CD parecem mais bem construídos, menos tateantes, e os ouvintes, mais comprometidos com o clima da apresentação, respondem mais calorosamente por meio de aplausos. As partes XII e XIII são emocionantes, principalmente a última. É difícil dizer se Rio é melhor (ou pior) que o solo anterior – Paris/London –, mas para nós, brasileiros, com uma ponta de orgulho patriótico, nos sentiremos orgulhosos por ter esse disco gravado no Rio de Janeiro.

Ouca a Parte XII do maravilhoso Rio.




Leia também sobre Jasmine, duo do pianista com Charlie Haden: http://bit.ly/rLYSsm
“Keith Jarrett em São Paulo”: http://conteudodalata.blogspot.com/2011/06/keith-jarrett-em-sao-paulo.html

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

As duas vidas de Charles Lloyd

Charles Lloyd, sempre de óculos
Charles Lloyd é de 1938, portanto tem 72 anos. De 1989 para cá, contratado pela gravadora alemã ECM, de Fish out of Water até o último, Mirror, são 15 álbuns gravados como frontman. É bastante. Esquisito para um músico tão prolífico ter ficado tanto tempo desaparecido. Ligado aos movimentos místicos orientais, dizem que nesse tempo ficou dando aulas de meditação transcendental.

Mais esquisito é porque seu disco gravado na Atlantic – Forest Flower (1966) – vendeu mais de um milhão, cifra excepcional no jazz, principalmente, na década de 1960, quando houve a explosão do rock (Beatles, The Rolling Stones, Jimi Hendrix, etc.). Nesse disco é acompanhado por um time de “iniciantes” de primeira: Keith Jarrett, Cecil McBee no baixo, e Jack DeJohnette na bateria. De volta à cena, levado à ECM por Jarrett, gravou esparsamente, sempre em registros ao vivo – Montreux ’82 (Elektra Musician), e A Night in Copenhagen (Blue Note, 1982). Nesse meio-tempo, andou gravando com a banda folk-rock californiana Beach Boys, Roger McGuinn, The Doors e Canned Heat.

Nos 15 CDs gravados pela ECM, quase todos são irrepreensíveis. Um plantel de músicos de primeira e de estilos únicos tem sido seus sidemen. Nos dois últimos – Rabo de Nube (2008) e Mirror (2010) – o quarteto é formado pelo baixista Reuben Rogers, o baterista Eric Harland, e pelo brilhante Jason Moran. O pianista faz diferença; é um dos cinco melhores em atividade. Como acompanhante no quarteto de Lloyd “pega menos pesado” do que em suas aventuras como líder. Em perfeita harmonia com o saxofonista, produz sons melódicos e belos. É que, no fundo, Lloyd não mudou muito. É adepto da música modal, seu negócio não é tocar “sheets of sound”, e, na falta de melhor expressão, produz um som espiritualizado. Lembra um pouco o John Coltrane dos anos 1960.

Mirror (ECM), só importado
Rabo de Nube, produto de um registro ao vivo na Basileia, foi colocado nas nuvens pela crítica, obtendo alguns prêmios de melhor disco do ano. Uma das músicas – Migration of Spirit – é maravilhosa, daquelas de paralisar o tempo.

É bem possível que ocorra o mesmo com o mais recente Mirror. É um disco tão bom quanto o anterior. É reflexivo e, dessa vez, tem vários standards: I Fall in Love Too Easily, Go Down Moses, Monk’s Mood, e Ruby, My Dear. Tem mais uma, para relembrar de seus “tempos flower power”: Carolina No, dos Beach Boys. A curiosidade é que Lloyd nunca lembrou tanto John Coltrane. Sem deméritos, há horas em que suas linhas de improviso são puro Coltrane. Como diria o grande Emerson Fittipaldi, “eu recomendo”.

Ouça a bela La Llorona.