quinta-feira, 9 de abril de 2020
Ellis Marsalis, Jr. é mais uma vítima da Covid-19
Foi impressionante.Depois de começar como sideman na banda de Art Blakey, Wynton Marsalis assinou com a major Columbia Records. Lançou o primeiro álbum, em 1982. Com uma banda de joven, como eles — Branford Marsalis, Kenny Kirkland, Charnett Moffett e Jeff “Tain” Watts —, Wynton despertou imediato interesse da crítica. Chamou a atenção também porque era um bando de meninos vestindo costumes impecáveis, gravatas idem, e tocavam muito bem. Havia no modo de vestir deles um conceito intrínseco que Wynton passou a defender com convicção: a volta às raízes do verdadeiro jazz. Era a antítese de Miles Davis. Resumo: o jazz havia se desviado demais de seus preceitos originais. O establishment adorou. Chamaram-nos de “young lions”.
Com “Think of One” (1983), ganhou um Grammy. Antes de ir para o jazz, sua intenção era a de ser um músico erudito. Por essa versatilidade, à vontade nessa seara, a Columbia lançou um disco com Wynton tocando concertos clássicos de Haydn, Mozart e Hummel. Era o garoto de ouro na Columbia, um substituto à altura de Miles Davis. Alternou-se por anos em álbuns de jazz e eruditos.
Seu irmão mais velho, o saxofonista Branford Marsalis, conseguiu um contrato na mesma gravadora. Serviu para alimentar uma “competição” entre irmãos, que nunca existiu de fato. Eram muito diferentes. Enquanto Wynton era o conservador da família, Branford, sideman do primeiro disco do irmão mais novo, saiu da banda para tocar ncom o popstar Sting, que se lançava em carreira solo depois de desfeito o Police. Em seus como líder, introduziu elementos da cultura negra mais popular, como o funk, o hip-hop e o rhythm’n’blues. Chegou a lançar um com o nome Buckshot LeFonque, que era o pseudônimo que Cannonball Adderley usou em certa feita para burlar o contrato de sua gravadora. Os irmãos brincavam que eram Caim e Abel do jazz.
Havia, entretanto, alguém até então desconhecido, ou pouco conhecido, o pai. Ellis Marsalis, Jr. Era um pianista que tinha tocado com Cannonball Adderley, Nat Adderley, Al Hirt e Dewey Redman, mas se notabilizara como professor em New Orleans. Alguns de seus alunos ficaram conhecidos no meio do jazz, como Harry Connick Jr., Donald Harrison e Terence Blanchard.
No mesmo ano em que Wynton estreou na Columbia, foi lançado “Fathers & Sons”, ideia de Dr. George Butler, produtor principal da gravadora na época, os irmãos Marsalis com o então desconhecidíssimo Ellis Marsalis, o pai, alternando com o jovem Chico Freeman e o VonFreeman.
Com seis filhos para criar, Ellis não saiu de New Orleans. Preferiu ficar como professor de música em universidades locais e administrar o motel da família.
Com filhos criados e a súbita fama, Ellis foi convidado a gravar e, eventualmente, viajar para outros lugares para tocar. Foi o pianista de vários álbuns de Wynton e participou como sideman de outros. Como líder, lançou perto de vinte álbuns, geralmente, em formatos menores, como trios, quartetos e quintetos e outros ao piano solo.
Mesmo excelente executando standards, deve-se ressaltar sua qualidade como compositor. Dos álbuns que conheço, destaco “Heart of Gold” (1991), em trio formado por Ray Brown e Billy Higgins, e “Whistle Stop”, excelente, acompanhado pelos “young lions” Branford Marsalis, Robert Hurst e os bateristas Jeff “Tain” Watts e Jason Marsalis, em que, além executa várias composições próprias e temas de seus conterrâneos sulistas Alvin Batiste, Harold Batiste, Jim Black e Nat Perrilliat. O que se evidencia, mesmo acompanhado, é a qualidade de seus solos ao piano. É o que fica demonstrado no solo piano “Ruminations in New York” (2005).
Obra prima
A partir de uma ideia simples e brilhante, Ellis gravou com o seu filho Branford o álbum “Loved Ones”. Todas as canções se referem a elas, as mulheres. São números clássicos do cancioneiro americano de autoria de Duke Ellington, Victor Young, Cole Porter, Jimmy van Heusen, Sammy Fain, Leonard Bernstein, Al Dubin e Harry Warren, Gus Kahn, George Gershwin e outros, clássicos como “Laura”, Maria”, “Miss Otis Regrets”, Stella by Starlight” e outras, além de “Dear Dolores”, de autoria de Ellis homenageando a mãe de seus filhos.
Acesse a playlist que fiz no Spotify.
Se estiver indisponível diretamente no blog, acesse por https://open.spotify.com/playlist/0PvdzhO8DP76jmvu0hsWnf?si=RR5xyQFwSw-4AfGNL549Lg
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
O encontro especial de Kurt Elling e Branford Marsalis
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| Kurt Elling. Outro fã do “soul patch” |
Quase desconhecido no Brasil até hoje, acredito, depois de ser considerado o melhor pelos críticos da Downbeat por uns quinze anos seguidos, em 2013, foi “destronado” por Gregory Porter. Não sei se é justo. É provável que os britânicos estejam um pouco fartos da rainha Elisabeth, assim como, os cubanos, de Fidel, que acaba de falecer. Cansa, né. Chega uma hora em que desejamos uma mudança, por melhor que sejam os que estão no trono.
Um dos fatores responsáveis pela “queda” de Elling pode ser a de que seus dois últimos álbuns não acrescentem muita coisa em relação aos anteriores. Reverenciado pela crítica, não imagino que seja amado pela patuleia. Apesar de ser desse grupo, desde o começo, achei-o um cantor diferenciado, o melhor na minha opinião. Não tem o apelo popular de um Michael Bublé ou Jamie Cullum, o que, serve como elogio.
Terminada a apresentação no Bourbon, para a minha e a surpresa de outros, postava-se na saída para cumprimentar um a um os que saíam. Adorei o seu gesto. Simples e de extrema cortesia. Poderia ter trocado algumas palavras ou pedido um autógrafo, porém, devido a surpresa, apenas trocamos um cumprimento. Naquela época, Kurt tinha os cabelos compridos, em corte reto, que passavam um pouco da nuca e um montículo de barba logo abaixo do lábio que descubro agora chamar-se “soul patch”, como o de Dizzy Gillespie.
O tempo passou e Elling, de vez em quando cansa do “soul patch”, mas volta a usá-lo. Deixou a magreza para trás e a cabeleira, mais curta, continua impecavelmente cofiada.
Aproveitando a proximidade do Natal, acaba de lançar o seu “sings Christmas”. Diferente de qualquer disco de Natal, sempre com aqueles temas batidos tocados de maneira burocrática, é bem Kurt: há sempre um traço de originalidade e de ousadia. Quem sabe, essa pode ser a razão de não ser tão popular. Recusa-se a caminhar nas vias do meramente conhecido, mesmo quando interpreta standards. Em seus álbuns além de clássicos do cancioneiro americano, sempre há algum número fiferente. Canta músicas do repertório brasileiro, em português, geralmente – e não fica apenas na bossa nova –, espanhol, francês e até arrisca um lied, de Johannes Brahms, como no último “Passion World” (Concord Jazz, 2015), Além de algumas composições de próprio punho, gosta de ciscar em outros ninhos. Com aquela surpresa positiva, encontramos, por exemplo, uma música do King Crimson, ou alguma do Weather Report, com letras dele.
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| Branford e Kurt. O “soul patch” ficou branco |
O primeiro da família Marsalis a tornar-se conhecido foi Wynton. Pouco depois, foi a vez de Branford, que teve seu primeiro álbum lançado pela mesma gravadora, a Columbia. Aí descobriram que os dois tinham um tremendo pianista na família, o pai Ellis Marsalis Jr., cuja fama se circunscrevia aos limites de New Orleans. Ellis Jr., por sua vez, era filho de músico. Ellis Sr. tocava bateria. Não parou por aí. Mais dois filhos de Ellis são músicos: Delfayo (trombone) e Jason (bateria).
O nome de Wynton está ligado à turma que ficou conhecida como “young lions”. Surgiram vários músicos, jovens arrumadinhos que abraçaram a causa dos que pretendiam resgatar os “nobres valores” do jazz. Com boas razões, muitos devem ter achado um retrocesso. O mundo tinha mudado bem desde Fats Waller e Louis Armstrong, e o que era considerado jazz foi “contaminado” por essas transformações.
Branford Marsalis, um ano mais velho que Wynton, surgiu para o mercado logo depois. Ao contrário do irmão, parecia mais aberto musicalmente, mais permeável aos outros gêneros como o rock, o rap e o hip-hop. Estreou como líder pela mesma Columbia. Aparecia engravatado, mas mostrava que seu projeto não era resgatar a “pureza perdida”. Em suas incursões iniciais, ele e Kenny Kirkland, pouco mais velho que os “brothers”, mas pianista dos dois em alguns álbuns, foram tocar com o pop Sting, ex-Police. Por essas e outras coisas, Branford era o antagonista de Wynton. Por essas diferenças dizia-se que um era Caim, e o outro, Abel. Nada confirma. Aparentemente, sempre se deram bem.
Uma confirmação de suas diferenças foi a banda Buckshot LeFonque, bem fora do que se convencionou ser classificado como jazz. Enveredou-se por trilhas sonoras para o cineasta Spike Lee. Em seus movimentos, aos poucos, caminhou em direção a um jazz mais clássico, com o pianista Joey Calderazzo, parceiro constante nos últimos anos.
Movimentos ascendentes
O primogênito dos Marsalis, em seus últimos trabalhos, sem precisar mostrar ao que veio, em plena maturidade, tende aos climas melancólicos. No solo “In My Solitude” (OKeh, 2014), explora a acústica da Grace Cathedral, onde foi gravada, e as canções e improvisos são sempre em tom menor, até como forma de amoldar-se ao ambiente. No disco em duo com o pianista Joey Calderazzo, o título, por si, é uma boa pista: “Songs of Mirth and Melancholy” (2011).
Vai logo lá! Link para baixar o álbum:
https://mega.nz/#!8otxwSyR!_24YmgkGFU2WR-hFZ54_RCjAK_yqGKWEPpu_K_2aCos
terça-feira, 28 de abril de 2015
Branford Marsalis rumo aos clássicos
Ao ouvir o último CD de Branford Marsalis – In My Solitude –, um solo registrado na Grace Cathedral, San Francisco, CA, lembrei-me de um álbum seu com temas da música erudita. Como o tempo é célere, percebo que Romances for Saxofone foi lançado há quase trinta anos, mais exatamente, em 1986, pelo selo CBS, atual Sony. Em uma estimativa bem otimista, devo ter ouvido esse CD, pela última vez, há uns 25 anos. É muito tempo.
O irmão mais famoso
Em um show que a família Marsalis se apresenta, um dos dois brinca com a história de Caim e Abel. Em 1980, Wynton Marsals, o irmão mais novo, participava da banda de Art Blakey, e no ano seguinte, contratado pela Columbia, lançaria seu primeiro solo. Incensado pela crítica, devido ao enorme talento, sua gravadora resolveu lancá-lo também como intérprete de música clássica. Com convidados de peso como Kathleen Battle e Yo-Yo Ma, Wynton gravou o repertório mais conhecido para o trompete, explorando composições de Mozart, Hummel, Haydn, Purcell, Teleman, Pachelbel, Vivaldi e Biber.
Wynton, carismático e falante, tornou-se o porta estandarte da geração chamada pela crítica de “Young Lions”. Sua música e a de outros que emergiam na mesma época, retomavam a linguagem do bebop e do hard bop, ou seja, tornavam-se baluartes da retomada do jazz que havia saído dos trilhos no fusion jazz e no free jazz de Cecil Taylor e Ornette Coleman. Ao mesmo tempo em que conquistavam fãs nostálgicos e puristas do mainstream, inimigos declarados da “desvirtuada” de Miles Davis, ele passou a ser visto como um “careta”, o que não deixa de ser verdade. O tempo, no entanto, tem mostrado que é importante uma figura que resgata certos valores que não devem ser relegados. Mal comparando, Wynton é o Tinhorão do jazz.
O irmão mais velho, e nesse sentido que surge a história de Caim e Abel, vai por outra seara. Menos careta e aberto às influências do rock e de outros gêneros “pobres”, comete o despautério de acompanhar o mais que pop Sting, criador de uma das grandes bandas dos anos 1980, o The Police. Aliás, que beleza a intervenção de Branford em Every Breath You Take, no Live Aid, em 1985.
Assista à apresentação, com Sting.
Veja também Branford com Sting em Roxanne.
O irmão moderninho
Branford gravaria seu primeiro álbum apenas em 1986, apesar de ser mais velho que Wynton. Scenes in the City, lançado pela mesma CBS, não tinha nada a ver com o que o irmão trompetista estava fazendo. Na música título, funde música e narração. Apesar do estilo coxinha, bem vestido, terno e gravata, por dentro, o primogênito dos Marsalis parecia mais aberto ao contemporâneo. O pai, Ellis, abençoado pianista disse sobre ele: “Branford era um abençoado. Poderia tocar um blues e dizer para ele: ‘toque o que você ouve’, e ele tocava. Então eu tocava uma linha de baixo de blues para que ele pudesse ouvir todas as doze notas e dizer-lhe para elaborar sobre isso, e ele fazia. Às vezes, tentava enganá-lo, mas não conseguia.”
Desassossegado, Branford, aventuraria-se por outras searas. Montou o Buckshot LeFonque, fundindo jazz, rhythm’ and blues, hip hop e rock. Tocou ainda com o Grateful Dead. E continuou lançando bons discos mais voltados ao jazz: Bloomington (1991), The Dark Eyes (1996), Loved Ones (1996), Requiem (1998), e Eternal (2004). Loved Ones é especial, pois é um duo com o pai Ellis.
Ouça, com os dois, Laura.
De Eternal, ouça a emocionante Gloomy Sunday.
Ouça outra especial, de Eternal: The Last Goodbye.
Aos clássicos
Enquanto o repertório para o trompete, na música erudita, é razoável e permite o brilho de estrelas como Alison Balsom e Håkan Hardenberger, o do saxofone é praticamente inexistente, principalmente como instrumento principal. Uma das razões é a de que foi inventado em meados o século XIX. Se foi para ser usado em orquestras, fato é que deu mais certo em bandas militares e, depois, no jazz. Os compositores mais conhecidos a usar o sax foram Georges Bizet (L’arlesienne), Maurice Ravel (Bolero), Debussy (Rapsodie pour Orchestre et Saxophone), Rachmaninov (Symphonic Dances). Outros que compuseram para o instrumento foram Vaughan William, Benjamin Britten, Darius Milhaud, Heitor Villa-Lobos e Paul Hindemith.
Se o saxofone pouco protagonizou no terreno dos clássicos, não se pode pensar no jazz sem ele. Mas é bem razoável que saxofonistas queiram tocar temas da música erudita. Não são muitis os que fizeram. Além de Branford Marsalis, lembro agora apenas de Grover Washington, Jr. que gravou Aria (Columbia, 2000). Este registra temas eruditos em um contexto mais jazzístico que Branford, que optou por usar o sax soprano, e o tenor menos, em transcrições para orquestra.
Dentre os compositores escolhidos estão Villa-Lobos, Ravel, Debussy, Stravinsky, Rachmaninov, Fauré, Colombier, Satie e Mussorgsky. O repertório é bem conhecido, mas é um CD muito prazeroso de se ouvir e Branford não fica nem um pouco atrás do irmão em termos de talento e técnica.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Os melhores discos segundo a revista Downbeat (parte 2)
1. Vijay Iyer Trio, Accelerando (ACT) - 115 votos
2. Sonny Rollins, Road Shows vol. 2 (Doxy/EmArcy) - 69
3. Keith Jarrett, Rio (ECM) - 68
4. Gregory Porter, Be Good (Motéma) - 56
5. Miguel Zenón, Alma Adentro: The Puerto Rican Songbook (Marsalis Music) - 54
6. Brad Mehldau, Live in Marciac (Nonesuch) - 52
7. Matt Wilson’s Arts & Crafts, An Attitude for Gratitude (Palmetto) - 40
8. Corea, Clarke White, Forever (Concord)
9. Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project (Concord) - 38
10. Tim Berne, Snakeoil (ECM) - 33
O álbum que foi considerado o quarto melhor do ano é de Gregory Porter. Be Good é o seu segundo disco. É a revelação como cantor; foi o segundo classificado, atrás de Kurt Elling. Este é hors-concours: leva todas há muito tempo, com justiça (sobre ele e seu pianista Laurence Hobgood, leia http://bit.ly/MXCcHL). Porter é, se me faço entender, sem ironias, um Kevin Mahogany menos vitaminado. Há uma característica bem específica em relação aos cantores negros que os diferencia: o registro da voz, e como no caso de Mahogany, tende a uma forma de interpretar mais conectada ao blues e até ao rhythm’ blues. É um grande cantor. Comentarei, com maiores detalhes sobre Porter em outra ocasião, pois ele merece. Por enquanto, ouça Painted on Canvas.
O álbum Live in Marciac é mais um solo de Brad Mehldau. Para os que não possuem nenhum disco do pianista, é uma boa. É um combo com dois CDs e um DVD. Por conta de uma “overdose” de Mehldau durante todos esses anos, confesso, não ouvi com a atenção que ele merece. Mehldau, para mim, é como aquela velha Levi’s 501 que está guardada no armário. Sabemos que é um porto seguro, mas a deixamos guardada à procura de novidades.
Um comentário: o saudoso Carlos Conde não gostava de piano solo; gostava mesmo era do tradicional formato trio piano, baixo e bateria. Perguntei se tinha gostado de Live in Tokyo (Nonesuch), na ocasião de seu lançamento em 2004. Perguntei porque Brad tinha se tornado um dos meus pianistas preferidos. Respondeu: “O disco é muito triste. Coitado, esse rapaz deve ter algum problema.” Pensando bem, sua observação tinha alguma lógica. Em um longo texto em Elegiac Cycle (WB, 1999), Brad desvela seu amor pelo romantismo germânico; não é à toa que sua editora se chama Werther Music.
Na repetição de seu costumeiro repertório percebem-se as mudanças no desenvolvimento dos temas, desconstruindo-os cada vez mais. Parece mais uma viagem particular de Brad e, por isso, é um tanto difícil ocorrer uma maior empatia. Em Live in Marciac, a seleção é bem eclética, como é de seu feitio. São seis temas próprios e quatro standards (It’s All Right with Me, Lilac Wine, My Favorite Things e Dat Dere). Brad é responsável pela inclusão de certas canções contemporâneas do repertório popular. Algumas estão nesse disco: Lithium (Kurt Cobain), Exit Music (for a Film) (Radiohead), Martha My Dear (Lennon & McCartney), e Things Behind the Sun (Nick Drake). O destaque do disco é Dat Dere, de Bobby Timmons. Ouça.
Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Se você quiser tiver interesse, leia mais alguma coisa sobre Brad Mehldau em: http://bit.ly/MxnvIK e http://bit.ly/GD0MZ8.
O terceiro disco comentado é Snakeoil (ECM, 2012), de Tim Berne. É mais avant garde do que os outros dois. O início de Simple City – a primeira faixa – lembra um pouco o clássico Nefertiti The Beautiful Has Come, de Cecil Taylor, gravação de uma apresentação de novembro de 1962 no Café Montmartre, em Copenhagen, Dinamarca, pelas primeiras notas de piano e a posterior entrada do sax alto de Berne. Em Nefertiti, o sax alto era de Jimmy Lyons, e a bateria, de Sunny Murray. É um disco bem interessante. Tocam com Tim, Oscar Noriega (clarinetas), Matt Mitchell (piano) e Chess Smith (bateria e percussão). O som é sempre tenso, dramático, às vezes, impressionista, climático, enfim, é um bom disco. Merece estar entre os dez melhores. A banda é afinadíssima. Um destaque é Noriega na clarineta e clarineta baixo.
Ouça Scanners. Decerto não é o gênero que cai melhor no gosto da maioria, mas para quem gosta é um prato cheio.
Do décimo primeiro ao trigésimo
A Dowbeat, desta vez (não me recordo se em 2011 foi assim, também), classificou até o trigésimo. Estão incluídos, For True (Trombone Shorty), Samdhi (Rudresh Mahanthappa), Charlie Haden e Hank Jones (Come Sunday), Matthew Shipp (The Art of the Improviser), Charles Lloyd (Athens Concert), Branford Marsalis e Joey Calderazzo (Songs of Mirth and Melancholy), Chick Corea, Eddie Gomez e Paul Motian (Further Explorations), 3 Cohens (Family), Christian McBride (Conversations with Christian McBride) e Tierney Sutton Band (American Road). Cito apenas os que ouvi, nem todos com a atenção devida.
Trombone Shorty tem pouco mais de 25 anos e já é considerado um dos melhores trombonistas (toca trumpete também) pela crítica. For True conta com participações de Jeff Beck e Lenny Kravitz. O som de Shorty é um jazz mesclado por tinturas de rap e funk e, naturalmente, com o som de New Orleans, sua cidade natal. É vibrante, jovem e esfuziante.
Veja Shorty em Buckjump, a primeira faixa de For True.
Nem tão vibrante é Songs of Mirth and Melancholy. Bem, canções de alegria e melancolia. Esta última palavra não é antônimo de alegria. Ao contrário do disco de Trombone Shorty, este não é para sair pulando pela sala. O álbum de Branford Marsalis com o pianista Joey Calderazzo, com exceção de One Way e Bri’s Dance (a primeira e a última), tende mesmo à melancolia. Branford Marsalis tinha gravado antes em duo com piano, Loved Ones (Columbia 1995), com seu pai Ellis, belíssimo. Songs of Mirth and Melancholy é quase tão bom quanto.
Ouça Hope, uma das melhores do CD.
Está ficando longo. Serei mais curto. Dois dos citados já foram objetos nesse blogue: Come Sunday, de Hank Jones e Charlie Haden (leia em http://bit.ly/OlS6MC), e Athens Concert, de Charles Lloyd e Maria Farantouri (leia em http://bit.ly/MxItap).
Samdhi, de Rudresh Mahanthappa, ficou em 13º lugar. Poderia estar entre os dez melhores. Foi o melhor saxofonista alto neste ano, pela Downbeat. Já tinha me impressionado quando se apresentou com Vijay Iyer em São Paulo, no Bridgestone Music Festival de 2008. O line up De Rudresh é excepcional, com o guitarrista David Gilmore (por favor, não confunda com David Gilmour, do Pink Floyd), Rich Brown no baixo elétrico, Damion Reid na bateria, e "Anand" Anantha Krishnan tocando mirdangam e kanjira.
Ouça Killer, do álbum Samdhi.
American Road, de Tierney Sutton Band, 26º, merecia melhor colocação. É uma das boas cantoras da atualidade e tem o pianista Christian Jacob como ótimo parceiro.
Conversations with Christian McBride ficou em 25º. É o melhor disparado em seu instrumento – contrabaixo – e arrasa também no baixo elétrico. É um álbum de duos com astros do pop como Angelique Kidjo e Sting, sendo a maioria intérpretes do jazz como Dee Dee Bridgewater, Hank Jones, Russell Malone, Dr. Billy Taylor, Roy Hargrove e Ron Blake. Bom disco.
Veja e ouça Sting e Christian McBride em Consider Me Gone, composição do britânico.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
O jazz se encanta com Pavane pour une infante défunte, de Maurice Ravel
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| Maurice Ravel e seu piano |
Pavane é composição da juventude; fora composta quando ainda era estudante. Como outras dezenas, fora feita originalmente para o piano e, depois, feita uma versão orquestral pelo próprio Ravel. Nesse quesito sempre foi um mestre; basta ouvir a transposição para orquestra que fizera de uma obra alheia: Quadros de Uma Exposição, de Mussorgsky.
Não deve ter havido peça mais maltratada do que a conhecida como “Ode à Alegria”, que corresponde ao último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven, por intérpretes da música popular. Perpetraram versões “pop”, virou hino e tema de encerramento de eventos esportivos etc. Lembro de uma versão da Ode à Alegria lançada no fim da década de 1960 – ou será início dos 1970? – que atingiu sucesso estrondoso. Beethoven e Schiller mereciam um pouco mais de consideração. Perto do que foi feito, a versão “elétrica” do tecladista Walter Carlos, mais tarde, Wendy Carlos, para o filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, era refresco. No entanto, Beethoven não foi a única vítima dos intérpretes da música popular: tanto Mozart como Chopin e Richard Strauss tiveram suas músicas “vulgarizadas” para o gosto da patuleia. Esse tipo de “popularização” faz com que alguns incorram em casos parecidos à de uma amiga que, ouvindo um pedaço da Ode à Alegria, no original, disse: “oh, é a música do Laranja Mecânica!”. Beethoven não estava no seu repertório de conhecimentos.
Considerando-se alguns desses casos, pode-se dizer que Ravel foi mais respeitado. Há muito está no repertório dos jazzistas. Para o piano, é natural, pois muitos desses instrumentistas tiveram aprendizado clássico e conhecem bem música erudita. Mas não é só no piano que ela tem sido interpretada. A primeira que devo ter ouvido é uma de Larry Coryell, no álbum The Restfull Mind (Vanguard, 1974). Dos discos de Coryell, esse e Spaces (Vanguard, 1969) estão entre os melhores que gravou. The Restfull Mind é quase um disco da banda Oregon, com o acréscimo de Coryell; o único ausente do Oregon é o saxofonista e clarinetista Paul McCandless (os outros são Ralph Towner, o percussionista Colin Walcott e o baixista Glen Moore). Para que tenha atingido o estado de arte, a participação de Ralph Towner foi essencial. Excelente violonista, melhor até que Coryell, tecnicamente, “inaugurou” duos de violão que fez com o belga Philip Catherine e, mais tarde, com John McLaughlin, Al DiMeola e Paco de Lucia. Sem tirar o mérito de Coryell, responsável pela totalidade das composições e arranjos sobre obras de Ravel e do, relativamente obscuro Robert De Visée, instrumentista e compositor da corte de Luís XVI, Towner é corresponsável pela qualidade de The Restfull Mind. A Pavane de Ravel é um duo de Towner e Coryell, com arranjos do último.
Dentre as interpretações que conheço, além dessa, de Coryell, há outra no CD, com o título da peça de Ravel vertida para o inglês – Pavane for a Dead Princess (Venus Records, 2006) –, pelo pianista Steve Kuhn, tendo como sidemen o baixista David Finck e o baterista Billy Drummond. O tema recebe uma interpretação jazzística mesmo, em que Kuhn não se limita às notas originais. É interessante, mas nada de excepcional.
Os que estão acostumados a ouvir a Pavane em seu desenho original, apenas ao piano, ou na sublime versão orquestral não ficarão assustados ou mortificados e, muito menos, rogarão alguma praga em Art Farmer por sua interpretação que está contida em Big Blue (CTI, 1979). Acompanhado pela guitarra bela e econômica de Jim Hall, o vibrafone (essencial para o “clima”) de Mike Manieri, Mike Moore no baixo, e Steve Gadd na bateria, apesar dos improvisos e solos de praxe das improvisações jazzísticas, mantém-se no clima algo etéreo e evocativo da composição original.
Uma quarta interpretação da Pavane por alguém ligado ao jazz é a de Branford Marsalis em Creation (CBS, 2001). Esse álbum é dedicado apenas a composições eruditas de Ravel, Debussy, Fauré, Satie, Jacques Irert e Darius Milhaud, interpretadas por Branford nos saxes e a Orpheus Chamber Orchestra. A Pavane de Marsalis é fiel à original, arranjada para sax soprano.
A ligação mais incontestável com o jazz da Pavane está representada na música The Lamp Is Low. Essa composição da década de 1930 foi composta por Peter DeRose e Bert Schaffer com letras de Mitchell Parish e é uma adaptação dessa composição. Foi cantada pela primeira vez por Mildred Bailey e, posteriormente, por Frank Sinatra, Johnny Hartman, Carmen McRae, Doris Day e Ella Fitzgerald (são as que conheço).
Ouça Pavane for a Dead Princess com Larry Coryell.
A Pavane com Branford Marsalis é com ele no sax soprano, com a Orpheus Chamber Orchestra. Ouça.
Uma interpretação da Pavane, muito boa, é a do genial e discreto pianista Steve Kuhn.
Ouça a de Art Farmer. É de uma sonoridade rica, com guitarra de Jim Hall, e vibrafone, captando toda a magia hipnótica da música de Maurice Ravel.




