Ao ouvir o último CD de Branford Marsalis – In My Solitude –, um solo registrado na Grace Cathedral, San Francisco, CA, lembrei-me de um álbum seu com temas da música erudita. Como o tempo é célere, percebo que Romances for Saxofone foi lançado há quase trinta anos, mais exatamente, em 1986, pelo selo CBS, atual Sony. Em uma estimativa bem otimista, devo ter ouvido esse CD, pela última vez, há uns 25 anos. É muito tempo.
O irmão mais famoso
Em um show que a família Marsalis se apresenta, um dos dois brinca com a história de Caim e Abel. Em 1980, Wynton Marsals, o irmão mais novo, participava da banda de Art Blakey, e no ano seguinte, contratado pela Columbia, lançaria seu primeiro solo. Incensado pela crítica, devido ao enorme talento, sua gravadora resolveu lancá-lo também como intérprete de música clássica. Com convidados de peso como Kathleen Battle e Yo-Yo Ma, Wynton gravou o repertório mais conhecido para o trompete, explorando composições de Mozart, Hummel, Haydn, Purcell, Teleman, Pachelbel, Vivaldi e Biber.
Wynton, carismático e falante, tornou-se o porta estandarte da geração chamada pela crítica de “Young Lions”. Sua música e a de outros que emergiam na mesma época, retomavam a linguagem do bebop e do hard bop, ou seja, tornavam-se baluartes da retomada do jazz que havia saído dos trilhos no fusion jazz e no free jazz de Cecil Taylor e Ornette Coleman. Ao mesmo tempo em que conquistavam fãs nostálgicos e puristas do mainstream, inimigos declarados da “desvirtuada” de Miles Davis, ele passou a ser visto como um “careta”, o que não deixa de ser verdade. O tempo, no entanto, tem mostrado que é importante uma figura que resgata certos valores que não devem ser relegados. Mal comparando, Wynton é o Tinhorão do jazz.
O irmão mais velho, e nesse sentido que surge a história de Caim e Abel, vai por outra seara. Menos careta e aberto às influências do rock e de outros gêneros “pobres”, comete o despautério de acompanhar o mais que pop Sting, criador de uma das grandes bandas dos anos 1980, o The Police. Aliás, que beleza a intervenção de Branford em Every Breath You Take, no Live Aid, em 1985.
Assista à apresentação, com Sting.
Veja também Branford com Sting em Roxanne.
O irmão moderninho
Branford gravaria seu primeiro álbum apenas em 1986, apesar de ser mais velho que Wynton. Scenes in the City, lançado pela mesma CBS, não tinha nada a ver com o que o irmão trompetista estava fazendo. Na música título, funde música e narração. Apesar do estilo coxinha, bem vestido, terno e gravata, por dentro, o primogênito dos Marsalis parecia mais aberto ao contemporâneo. O pai, Ellis, abençoado pianista disse sobre ele: “Branford era um abençoado. Poderia tocar um blues e dizer para ele: ‘toque o que você ouve’, e ele tocava. Então eu tocava uma linha de baixo de blues para que ele pudesse ouvir todas as doze notas e dizer-lhe para elaborar sobre isso, e ele fazia. Às vezes, tentava enganá-lo, mas não conseguia.”
Desassossegado, Branford, aventuraria-se por outras searas. Montou o Buckshot LeFonque, fundindo jazz, rhythm’ and blues, hip hop e rock. Tocou ainda com o Grateful Dead. E continuou lançando bons discos mais voltados ao jazz: Bloomington (1991), The Dark Eyes (1996), Loved Ones (1996), Requiem (1998), e Eternal (2004). Loved Ones é especial, pois é um duo com o pai Ellis.
Ouça, com os dois, Laura.
De Eternal, ouça a emocionante Gloomy Sunday.
Ouça outra especial, de Eternal: The Last Goodbye.
Aos clássicos
Enquanto o repertório para o trompete, na música erudita, é razoável e permite o brilho de estrelas como Alison Balsom e Håkan Hardenberger, o do saxofone é praticamente inexistente, principalmente como instrumento principal. Uma das razões é a de que foi inventado em meados o século XIX. Se foi para ser usado em orquestras, fato é que deu mais certo em bandas militares e, depois, no jazz. Os compositores mais conhecidos a usar o sax foram Georges Bizet (L’arlesienne), Maurice Ravel (Bolero), Debussy (Rapsodie pour Orchestre et Saxophone), Rachmaninov (Symphonic Dances). Outros que compuseram para o instrumento foram Vaughan William, Benjamin Britten, Darius Milhaud, Heitor Villa-Lobos e Paul Hindemith.
Se o saxofone pouco protagonizou no terreno dos clássicos, não se pode pensar no jazz sem ele. Mas é bem razoável que saxofonistas queiram tocar temas da música erudita. Não são muitis os que fizeram. Além de Branford Marsalis, lembro agora apenas de Grover Washington, Jr. que gravou Aria (Columbia, 2000). Este registra temas eruditos em um contexto mais jazzístico que Branford, que optou por usar o sax soprano, e o tenor menos, em transcrições para orquestra.
Dentre os compositores escolhidos estão Villa-Lobos, Ravel, Debussy, Stravinsky, Rachmaninov, Fauré, Colombier, Satie e Mussorgsky. O repertório é bem conhecido, mas é um CD muito prazeroso de se ouvir e Branford não fica nem um pouco atrás do irmão em termos de talento e técnica.
Vamos ouvir a Bachiana no. 5.
Veja Branford executando a Pavane, de Gabriel Fauré.
Ouça Vocalise, de Serguei Rachmaninoff.

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