quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Mick Jagger e as mulheres

Chrissie Shrimpton e Mick Jagger
Quando a canção Angie foi lançada, em agosto de 1973, rapidamente chegou ao topo das paradas musicais. A especulação passou a ser quem poderia ter sido a musa inspiradora de tão tocante balada. Logo passaram a especular que poderia ser Angela, mulher de David Bowie. Do jeito que o casamento era aberto, com direito tanto com homens e com mulheres, era possível. Tão possível como uma transa de Mick Jagger com o inglês compositor de Ziggy Stardust. Outra Angie especulada foi Angie Dickinson, atriz com beleza, sensualidade e capacidade de despertar pensamentos pra lá de pecaminosos. Jagger disse, à época, que nem conhecia Angie. Mentira. Mas nem por isso teria sido a inspiradora. Segundo Keith Richards, a canção poderia chamar-se Mandy ou Randy. Ele tinha composto uma sequência de acordes e mostrou-a a Jagger, que fez a letra. Simples assim.

Ouça Angie.



Se Angela Bowie não serviu de inspiração, outras foram, como, por exemplo, a de Hey Negrita. Mick Taylor havia saído dos Rolling Stones. Procuravam outro guitarrista. Pensaram em Jeff Beck, Rory Gallagher e Peter Frampton, mas esses eram muito bons para aceitarem o papel de segundo de Richards, principalmente o primeiro, de ego descomunal. Terminaram por escolher Ronnie Wood. Para mostrar serviço, o ex-Faces mostrou um riff para Mick e Keith. Adoraram. Bob Marley era sucesso mundial e aquele riff daria um belo reggae. Assim surgiu Hey Negrita. Negrita era como Jagger chamava carinhosamente sua mulher, a nicaraguense Bianca Jagger, née Bianca Pérez-Mora Macias, como diria o saudoso Telmo Martino. Depois que foi trocada por Jerry Hall, soube dar a volta por cima. Bianca vinha de uma família de possses e formara-se advogada pelo Institut d'études politiques de Paris. Evidente que, sendo mulher do rolling stone, tornou-se celebridade do jet set e muitos a viam como fútil. Tendo nascido em uma republiqueta da América Central dominada pela família Somoza, Bianca, após a separação trabalhou como advogada em questões relacionadas aos direitos humanos e é membro da Anistia Internacional.

Ouça Hey Negrita.



Antes de Bianca e Angie
As Tears Go By, de 1965, foi composta para Marianne Faithfull, mas não foi inspirada nela. Ambos tiveram um namoro relativamente tempestuoso, bem menos que o de Chrissie Shrimpton, mas isso foi depois que Marianne da gravação da música. Nos “swinging years” de Londres, o primeiro encontro dos dois é assim descrito em Músicas & Músicos, por seus autores Michael Healey e Frank Hopkinson: “Subindo em uma mesa do bar do Thames Hotel, Chrissie se pendurou nas redes de pesca que decoravam o teto do salão. Depois, com a ajuda da plateia lá embaixo, foi amparada e passada de mão em mão, como uma crowd surfer, conseguiu chegar até o palco. Caminhou até Jagger e, diante de todos, deu um beijo e tanto naqueles lábios de Rolling Stone.” Mick ficou gamado.

Menos rodado na vida, apaixonou-se perdidamente pela bela Chrissie, irmã da também modelo, mais conhecida que ela, Jean Shrimpton, a musa de David Bailey. Pediu-a em casamento mais de uma vez e chegou a apresentá-la à família. Mas naquele meio doideira, tudo estava a ponto de sair do controle. Os dois tomaram um ácido e Chrissie passou por uma “bad trip”. Foi a inspiração de Mick para compor 19th Nervous Breakdowm. Ouça.



Imaturo, Jagger era possessivo e controlador. Com uma garota amalucada como Chrissie, não era lá muito fácil. Ele pagava suas contas e tentava mantê-la sob controle. Essa sensação de que tinha a garota nas mãos, inspirou-o a compor Under My Thumb. A letra dizia mais ou menos que conseguira transformar aquele “cão indomável” no “mais doce bicho de estimação”.

Ouça Under My Thumb.


Veja uma versão da época em http://youtu.be/OezHRns06-8

Nada mais claro da infantilidade de Mick do que outra canção inspirada em Chrissie: Stupid Girl. É uma coleção de insultos e impropérios infantis.

Ouça Stupid Girl.




Desse jeito, impossível dar certo. Chegou ao fim mesmo quando Mick passou a gostar de Marianne Faithful. O início do namoro foi ótimo. Coincidências: quando descobriu a pulada de cerca do namorado, Chrissie tentou o suicídio ingerindo soníferos. Quando Mick terminou com Marianne, ela também tentou o suicídio. Nesses dois casos o amor não matou. Foi quase.

A primeira noite com Faithful inspirou Let’s Spend the Night Together.


Uma curiosidade. Quando foi lançada, no The Ed Sullivan Show, trocaram “spend the night together” por “spend some time together”.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Grachan Moncur III, o Thelonious Monk do trombone

Grachan Moncur III. Com um nome desses tinha que tornar-se alguém na vida. Foi fácil quando virou músico profissional. Nem precisou esquentar a cabeça para inventar um nome artístico, como Paul David Hewson, que virou Bono Vox. Alguns poderiam ter mantido seus nomes originais, como Declan Patrick MacManus, certo que um tanto pomposo, mas preferiu Elvis Costello para homenagear seus ídolos. Meu amigo Zeca Leal gostava de Phineas Newborn, Jr. Costumava dizer que alguém com um nome desses tinha de ser bom.

Várias coisas poderiam fazer pensar que Grachan Moncur III estava destinado a ser uma estrela à altura de outro trombonista: J.J. Johnson. Mas, hoje, poucos o conhecem e não sabem o que perdem.

O pai de Grachan era baixista profissional e o primo, o saxofonista Al Cooper, foi membro do Savoy Sultans. Quando criança, em Newark, eram frequentadores da casa Dizzy Gillespie, Babs Gonzalez e James Moody. Sarah Vaughan, amiga de sua mãe, quando aparecia por lá, exercitava seus dotes culinários. Estudou piano e violoncelo antes de experimentar o trombone. Nem tinha dez anos.

Em Newark, lugar de pobres e negros, perto de Nova York, o ambiente musical fervilhava. Moncur foi tocar na orquestra da Associação Cristã de Moços. Um que tocava lá era Wayne Shorter. Sua mãe, temendo que o filho se envolvesse com drogas, uma praga em Newark, preferiu que ele fosse fazer o colégio na Carolina do Norte. Formado e de volta às origens, entrou na banda do pianista Nat Philips. Mais uma vez, cruzou com Wayne Shorter. Depois, cada um foi para o seu canto.

Estudou na Manhattan School of Music e na Julliard. Montou seu grupo. Fizeram uma audição em um clube e o dono topou que tocassem lá… sem ele. Mas Deus estava do seu lado. Pouco tempo depois, foi convidado para tocar na orquestra de Ray Charles, uma estrela já naquela época. Ficou um ano e meio viajando com o cantor. O trombone de Moncur chamou a atenção de Art Farmer e Benny Golson.

Ser membro do Jazztet, do trompetista e do saxofonista, foi o grande passo. Farmer disse-lhe que, pela criatividade dos solos, poderia compor. Sonny’s Back foi a primeira, feita em homenagem ao seu ídolo Sonny Rollins. Mostrou-a a Golson, autor de clássicos como Killer Joe e Moanin’. Gostou tanto que virou o tema de encerramento das apresentações da banda.


Ouça Sonny’s Back.




Moncur disse que, em apenas meia hora, com Art Farmer ensinando-lhe como fazer notações musicais, sentado ao piano, valeu mais que todo o aprendizado nas escolas. Deu tão certo como compositor que, até em álbuns em que era sideman, como em alguns gravados com Jackie McLean, a maioria dos temas era dele.

Um dos trombonistas mais conhecidos na história do jazz é J.J. Johnson. Ficou famoso pela rapidez com que tocava. As maiores influências de Moncur foram Frank Rosolino, Trummy Young e Bennie Green, mais do que J.J. Ele não moldou seu estilo calcado na velocidade. Ficou conhecido pelas frases curtas e sincopadas. Era um modo muito original, que lembrava o de Thelonious Monk ao piano.

Apesar de ter participado de muitos álbuns pela Blue Note, tem poucos lançados como líder. Mas o selo ficou conhecido por gravar com vários líderes diferentes mas com os mesmos músicos. Em um disco de Wayne Shorter, o pianista era Herbie Hancock, e no dele como líder, o saxofonista poderia ser Shorter. Por essa razão, percebe-se uma semelhança entre discos de autores diferentes. Pode-se dizer que existia um “som Blue Note”.

No caso de Moncur, sua presença em títulos de Jackie McLean é marcante, inclusive por várias composições de sua autoria incluídas. São quatro os álbuns que contam com a participação do trombonista: Destination… Out! (Blue Note, 1963), One Step Beyond (1963), ’Bout Soul (1967), e Hipignosis (1974). Um traço interessante de alguns desses discos é a formação diferenciada, contando com a adição do vibrafone de Bobby Hutcherson.

Um bom exemplo é Love and Hate, composição de Moncur, que está em Destination… out! Belíssima.




Neste mesmo ano, lançou seu primeiro como líder: Evolution. Tinha muitas semelhanças com os discos de Jackie McLean. Isso acontecia muito por Moncur, autor de várias composições e também um dos instrumentistas. Os mesmos McLean e o vibrafonista Bobby Hutcherson estão no disco de estreia. Em vez de Roy Haynes, o baterista era Tony Williams. Sua batida vigorosa é incomparável. É um dos maiores da história.

Ouça a excepcional música título.




Tudo parecia correr como um grande rio. Em 1965, lançou Some Other Stuff, melhor ainda. Além de Williams, conta com Cecil McBee no contrabaixo, Herbie Hancock ao piano, e lá estava novamente, seu companheiro de Newark: Wayne Shorter.

Ouça Nomadic. Preste atenção na combinação do trombone de Grachan e no sax de Wayne e na bateria de Tony.



As semelhanças com as composições de Thelonious Monk ficam evidentes em Thandiwa.



Ouça também Gnostic.




A vida de Moncur depois dos anos 1960
Alguma coisa saiu do fluxo do rio. Não que Grachan tenha se perdido no meio do caminho. A música dele nunca poderia concorrer com as de Mick Jagger e Keith Richards e John Lennon e Paul McCartney. Não era popular como Help! ou As Tears Go By. Suas músicas eram cerebrais, diferentes. O passo natural era ser mais vanguarda ainda. Foi tocar com músicos ligados ao avant-garde como Marion Brown, Roswell Rudd, Dave Burrell, Andrew Cyrille, Archie Shepp e Roscoe Mitchell. Não havia meios de ficar tão popular quanto J.J Johnson, indo por essa seara.

E assim foi. Quase não se fala de Grachan Moncur III. É uma pena. É um grande músico e autor de composições originalíssimas. Um dos maiores produtores da história, Michael Cuscuna diz que as músicas do trombonista “são únicas, como as de Monk, e associadas aos títulos, criam uma imagem vívida. […] Suas composições, mesmo próximas às convenções musicais, são também abertas e líricas e obedecem a uma lógica intrínseca.”


Durante estada em Paris, em 1969, Grachan gravou New Africa e Aco Dei de Madrugada. Compôs sob encomenda Echoes of Prayer, em 1974, para ser executada pelo Jazz Composer’s Orchestra, e em 2004, lançou Exploration pela Capri Records.

Ouça um trecho de New Africa.



Ouça também Exploration.