quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Grande guitarra, a de Mimi Fox

Mimi Fox com sua Heritage 575
Mimi é um nome fofo. É uma característica de sílabas dobradas. Fox é raposa, ou pode significar, esperto. Seu nome se resume a sete letras: Mimi Fox. Tremenda guitarrista e pouco se sabe dela. Estranho. Por seis anos seguidos figurou na lista de melhores guitarristas na revista Downbeat, na década passada. E agora, procure no Google. Poucas referências. Por que? Uma guitarrista de quem Jim Hall disse: “Mimi foi uma revelação quando a ouvi pela primeira vez. Não era só que sua técnica fosse excepcional, era que soava muito original para mim. Deixou-me impressionado.” Um elogio desses, partindo de um dos maiores guitarristas de todos os tempos do jazz, merecia ser estampado em um cartaz.

Ao acessar seu site (www.mimifoxjazzguitar.com), vejo que continua se apresentando em vários lugares e que ensina na escola de jazz de Berkeley, California. Não confunda com a conhecida Berklee, que fica em Boston. O último disco lançado foi Standards, Old and New.

Se esqueceram de Mimi, fui um deles também. Descobri que tinha o seu Standards, lançado em 2001, fuçando em minha coleção. Fiquei surpreso. A capa é uma imagem dela tocando guitarra, desfocada, para dar ilusão de movimento. É um álbum solo. Os standards são bem conhecidos: All Blues, de Miles Davis, Donna Lee, de Charlie Parker, Naima, de John Coltrane, Footprints, de Wayne Shorter, e outros. É um tour de force de guitarra. Às vezes, a impressão é a de um showcase do que é possível de se fazer com seis cordas, tal o virtuosismo de Mimi. E, por falar em virtuosismo, o álbum lembra muito Virtuoso #1, #2 e #3, de Joe Pass. Sua técnica lembra ele.

Bom, vamos conferir?

Ouça Wave, de Jobim.


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Ouça My Foolish Heart.

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terça-feira, 22 de outubro de 2013

A tragédia ronda Bobby Womack

Bobby Womack quando jovem
Um dos primeiros sucessos dos Rolling Stones foi It’s All Over Now. Seu autor não gostou nem um pouco. Conformou-se rapidamente quando viu bastante dinheiro caindo em sua conta bancária pelos royalties.

A família Womack, percebendo que o talento dos filhos pequenos, criou a The Womack Brothers, a exemplo dos Jacksons, que teve o menor, Michael o mais bem sucedido. Foi assim que Bobby Womack começou. Os pequenos Womack’s chamaram a atenção de Sam Cooke, este prometeu ajudar-lhes. Bobby, logo depois, tornou-se membro de sua banda, tocando a segunda guitarra.

Sam Cooke era uma estrela da música soul (sobre ele, leia http://bit.ly/X8NI4y e http://bit.ly/19qjpLt), mas teve carreira curta. Em 1964, estava com uma mulher chamada Bertha Franklin no Motel Hacienda. Foi morto pelo gerente em circunstâncias não muito bem explicadas. Bertha não era mulher dele. Bobby foi consolar a viúva Barbara Campbell. Três meses depois, quando o defunto nem tinha esfriado, os dois se casaram. Foi um escândalo. Na autobiografia, Womack revela outro fato, mais escandaloso ainda: manteve relações com Linda, filha adolescente de Barbara e Sam, quando ainda estava casado com a mãe.

Bobby Womack não é um hitmaker como foram Sam Cooke, Otis Redding e Marvin Gaye, todos mortos em circunstâncias trágicas. Redding se foi em um acidente aéreo em seu próprio avião, quando tinha 26 anos. Gaye foi assassinado pelo pai pastor. Mesmo assim, emplacou alguns hits e não é um artista a ser desprezado.

Sua carreira é permeada de alguns “acidentes de percurso”. O filho Vincent cometeu o suicídio quando tinha 21 anos, em 1986. Truth, do seu segundo casamento, morreu criança, em 1976, decorrência de um acidente doméstico. Outro acontecimento trágico foi a morte do irmão Harry, assassinado pela namorada ciumenta.

Com tanta desgraça, usuário mais ou menos controlado de algumas drogas ilegais, principalmente cocaína, passou da conta e atrapalhou a carreira. Participou como sideman de várias gravações, mas como líder, seus discos deixaram de sair regularmente.

Ficou 18 anos sem lançar nada, no ano passado, saiu The Bravest Man in the Universe, com produção de Damon Albarn, líder do Blur e do Gorillaz, e Richard Russell. Não é um grande disco, apesar da crítica tê-lo elogiado, por uma tendência natural de respeito aos medalhões, algo que ocorreu também em relação a Salomon Burke e Gil-Scott Heron, mortos recentemente. Apenas o último, que também teve a carreira atrapalhada por drogas, ficando preso por isso até, fez uma grande rentrée com I’m New Here (2010).

Ter como produtor Damon Albarn é positivo por um lado – a contemporaneidade – e pode ser um problema ao inserir elementos eletrônicos. Não chega a descaracterizar o estilo de Womack. O bom é que Bobby gostou do resultado, que não gosta de Snoopy Dog, rap, de hip-hop e de outras modernidades.

Ouça aqui duas faixas de The Bravest Man in the Universe.

Daiglo Reflection, com participação de Lana Del Rey.




Ouça Stupid. Os produtores fizeram uma introdução com a voz de Gil-Scott Heron, morto (leia sobre ele em http://bit.ly/19ZUkrG. Ouça, no mesmo post, a íntegra de I’m New Here, seu último disco).




Lembrado e com planos de lançar outro álbum, Womack, há pouco descobriu um câncer no intestino, do qual se tratou. Foi constatado também que está com princípio do mal de Alzheimer. Como desgraça pouca é bobagem, o irmão mais novo, Cecil, morreu agora, em fevereiro. Vida sofrida, não?

Hits antigos de Womack

Bobby, além de composições próprias, gravou outros compositores como James Taylor e George Harrison. Um dos seus covers de maior sucesso é California Dreamin’.

O diretor Quentin Tarrantino, bom explorador de tesouros esquecidos, usou Across 110th Street na abertura de Jack Brown. Veja Womack em apresentação no programa de Jools Holand.