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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Sempre bom sonhar com Diana Krall


Um grande feito de Diana Krall foi o de trazer milhões de ouvintes ao universo do jazz, ou mais genericamente, ao que chamam de “Great American Songbook”. Outros, como Harry Connick, Jr., este no início de sua carreira, e Michael Feinstein, com repertório voltado aos grandes compositores americanos do século 20, nem chegaram perto de sua popularidade.

Krall começou estimulada pelo contrabaixista Ray Brown e de seu professor, o pianista Jimmy Rowles. Depois de se lançar no Canadá pelo selo Justin Time, foi contratada pelo selo americano Impulse. Desde então, ganhou a crítica, por sua maestria ao piano, muito influenciada pelo estilo de execução de Nat King Cole. Para o público menos afeito ao jazz, o que chamou atenção foi o seu lado cantora. Coincidência: King Cole grande pianista, teve vários seguidores, como o genial Oscar Peterson, mas ficou famoso como cantor. Suas vozes são únicas, inconfundíveis. Ambas são cálidas, sensuais, Cole no seu registro de barítono e Krall, no de contralto. 

Casamento e filhos. Para a surpresa de muitos, Diana Krall casou com Elvis Costello, do universo do rock, em 2003. Quem duvidava que não fosse durar, enganou-se também. Estão juntos até hoje. Mais surpreendente ainda: preferiram sair de uma metrópole e irem morar em na pequena Nanaimo, cidade natal dela, a 50 e poucos quilômetros de Vancouver, na Columbia Britânica. Com filhos gêmeos adolescentes, Diana e Elvis têm uma vida de casal padrão, principalmente, nesses tempos de pandemia, impossibilitados de fazerem apresentações ao vivo.

O título do penúltimo álbum de Diana é “Turn Up the Quiet” (Verve, 2017) é bem apropriado à vida que estava e continua vivendo. O álbum é seu último trabalho com o produtor Tommy LiPuma, colaborador de vários discos desde “Only Trust Your Heart” (1995).

“This Dream of You”, o recém lançado álbum, pode ser considerado uma continuação do anterior. São gravações que não estavam prontas em 2017. Ainda bem que existia esse material. Nesses tempos de isolamento social foi possível concluí-las. E não pense que por serem “sobras” de gravação são descartáveis. É um novo álbum, mesmo sendo um “to be continued” de “Turn Up the Quiet”.

A diversidade das formações resultam em belos resultados. Em “But Beautiful”, “That’s All”, “Almost Like Being in Love” e “Singing in the Rain” a banda é aquela que conhecemos bem: Anthony Wilson na guitarra, John Clayton no contrabaixo e Jeff Hamilton na bateria, e ela no piano. Conhecem-se tão bem que tocam por telepatia. Tudo é perfeito sem grandes esforços.

A outra formação é composta por Marc Ribot na guitarra, Stuart Duncan no violino, Tony Garnier no contrabaixo e Karriem Riggins na bateria: “Just You, Just Me” e “How Deep Is the Ocean”. Com o acréscimo de Randall Krall, temos ”This Dream of You”, a música título, de Bob Dylan.

Ouça “How Deep Is the Ocean”.


Em um único número — “There’s No You” — o trio é completado pelo brilhante Christian McBride e Russell Malone, guitarrista excepcional, que tocou nos primeiros álbuns de Diana. É um dos destaques do disco, justamente, pela guitarra de Malone e a grande qualidade dela como cantora. Que voz! Com a maior simplicidade, nos envolve.

McBride e Malone participam também de “Autumn in New York”, aqui com um arranjo orquestral matador do mestre Alan Broadbent. Cabe ao mesmo Broadbent, desta vez ao piano um dos destaques do álbum: “Don’t Smoke in Bed”. Amo essa música. Agradeço por poder ouví-la na voz de Diana, apesar de a minha preferida continuar sendo a de kd lang, e não a de Nina Simone. Um segundo duo matador é “I Wished on the Moon”, com John Clayton, seu baixista de longa data.

O vídeo oficial de “Autumn in New York”.

 

Agora é sentar, abrir um vinho e sonhar. 

Ouça o álbum.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As minhas duas preferidas de Paul McCartney depois do fim dos Beatles

Paul por Linda McCartney
Quando assisti ao show de Paul McCartney no Engenhão, Rio de Janeiro, em maio de 2011, percebi a minha ignorância em relação ao seu repertório pós Beatles: gente de menos de 20 anos cantava junto canções que eu mal conhecia. Assumindo minha ignorância musical digo que, das que conheço, as duas que mais gosto são Ram On e Junk. Num esforço “auditivo” ouvi três horas de Paul na coletânea Wingspan e All the Best! Vou contrariar muita gente, mas considero-as bem inferiores em relação às que assinava com John Lennon. Gosto de Ram (1971), Wild Life (1971), o primeiro Wings, e Tug of War (1982). Gosto também de Unplugged (The Official Bootleg), mas por razões bem específicas.

Junk é quase uma vinheta: tem apenas 1 minuto e 55 segundos. Foi lançada no primeiro disco depois da separação dos Beatles, em 1970. Ram on é do segundo, o que me faz crer – na minha opinião, repito – que piorou depois disso.

Ouça Ram On.




Ouça o Junk original, com Paul.




Existem vários cover de Junk. A de John Denver, lançada em 1971 deve ter sido a primeira e é muito boa. Ouça.




As que tenho em meus arquivos também são boas. Uma delas é a da brasileira BluBell (Bel Garcia, assinava BlueBell e depois tirou o “e”), acompanhada por ukulele – presumo –, instrumento que Paul gosta de tocar de vez em quando.




Mais uma: cantada por Kim Liggett, está no disco Easy to Remember (2004), do clarinetista Ken Peplowski.




Mas a melhor é a da cantora lírica Anne Sofie von Otter em disco com Elvis Costello – For the Stars (2004) –, lançado pela Deutsche Grammophon. Juntaram com Broken Bycicles, de Tom Waits. Ficou genial.



Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Dezembro maldito

Ao contrário do que escreveu T.S. Eliot – “Abril é o mais cruel dos meses” –, dezembro parece mais. Parece que ficamos na expectativa de algo prestes a acontecer: não apenas mortes, mas tragédias naturais, daquelas que parecem vingança dos deuses ou da natureza, como tsunamis, enchentes, cidades devastadas pela água. Em 2001, estava na praia, televisão ligada: Cássia Eller morreu; no 29º dia de dezembro.

E como farsa ou para corroborar nossos maus presentimentos, acontecem coisas. Imagino que deve ocorrer uma espécie de caos coletivo: a impressão é a de que todo mundo fica estressado e meio “desgovernado”. Se o período é de Festas, esse tempo deveria ser o de alegrias, congraçamentos e anseios por paz. Essa “obrigação” pela felicidade pode ter efeito contrário.

Mortes, quanto mais próximas do fim do ano e, se acontecem com pessoas ainda jovens, ficam tingidas de dramatismo maior. Não lembro mais daqueles que morreram no fim de 2010, mas, em 2011, foram registradas muitas; desde a de esportistas como Sócrates (muito jovem ainda), de pessoas ligadas ao teatro como Sérgio Brito (17), Rodolfo Bottino (11); à música, como o saxofonista Sam Rivers (26) e o trombonista e pianista Bob Brookmeyer (16), ambos octogenários; a cantora Cesária Évora (17); o grande desenhista e cartunista Ronald Searle (30), com 92 anos; artistas plásticos como a expressionista abstrata Helen Frankenthaler (27) e o brasileiro Mário Gruber (30); estadistas como Vaclav Hável (também poeta, no dia 18); o ditador da Coreia do Norte Kim Jong-Il; e jornalistas e escritores como o ateísta Christopher Hitchens (15), a alemã Christa Wolf (1), e Daniel Piza, este, dois dias antes que findasse o ano.

Piza e seu Machado, lançado pela Imprensa Oficial
Desses todos, o único que cheguei a conhecer pessoalmente foi o Piza. Fui autor do projeto gráfico de seu livro Machado de Assis – um gênio brasileiro. Imaginava-o arrogante ou qualquer coisa parecida em virtude de, tão jovem, ter coluna fixa em um grande jornal, possuir tanta informação. Pelo contrário; era simples, afável, até demais, e não tinha o mínimo daquela pose de “sabichão”. Uma vez, veio com uma mochila e imaginei que estivesse trazendo livros para escanearmos algumas imagens. Perguntei. Não. Eram apetrechos esportivos para o jogo de futebol, mais tarde.

Uma coisa que me surpreendeu foi a rapidez com que Piza escrevia. Quando fui chamado para elaborar o projeto gráfico, recebi dois capítulos iniciais. Ao mostrá-lo, pela primeira vez, perguntei pelos outros capítulos. Respondeu-me: “Estou escrevendo”. Em um mês, entregara tudo. Pela rapidez com que escrevera, a possibilidade de conterem erros era grande. Foi sugerido que as páginas entregues fossem revistas por dois revisores que conheciam muito bem sobre Machado e sua obra. Piza aceitou tranquilamente, sem crise, sem achaques de superstar. Aceitou também nossas sugestões de imagens, além das que pretendia inserir.

Casualmente, saindo um pouco do foco de Machado, conversamos sobre música e literatura. Disse, com a maior naturalidade, que tinha estudado com George Steiner, sem transparecer alguma superioridade ou sapiência. Lembro que, conversando sobre literatura latinoamericana, recomendou-me Juan José Saer.

Ficou marcado o fato de Piza ter “enforcado” Jesus, quando trabalhou na Folha de S. Paulo. Virou motivo de chacota entre seus pares; alguns passavam perto dele e colocavam a mão no pescoço e outros diziam “não se preocupe, seu pescoço não está na forca”. Por distração, sim, e por proximidade de datas, era factível confundir de Tiradentes com Jesus. E depois, até uma criança de três anos sabe que Cristo morreu na cruz, principalmente, num país tão católico como o nosso.

Quando o livro sobre Machado foi lançado, a revista Veja fez uma matéria sem assinatura descendo a lenha no escritor e não na obra. Golpe baixo. Houve também uma crítica bem negativa de Luis Augusto Fischer em Zero Hora, de Porto Alegre, e outra de Wilson Martins, de O Globo. Todas foram respondidas. A melhor resposta de Piza, bem pessoal, foi dirigida a Martins: alguém que considerava Josué Montello o maior escritor brasileiro e não gostava de João Cabral de Mello Neto não podia ser bom crítico.

O que era uma qualidade, ao mesmo tempo, era um defeito: escrevia muito rápido. E, deveras, Piza deixara passar muita coisa, que também passou pelos revisores editoriais. Tinha ficado surpreso ao ficar sabendo que não havia ninguém ajudando-o, um assistente ou alguém que fosse fazendo um pente-fino à medida que escrevia. Muitos desses erros foram corrigidos na segunda edição e o livro teve boa vendagem.

Os domingos, pelo menos os meus, agora em 2012, serão diferentes. Concordando ou discordando, pulando uma coisa ou outra, sua coluna em O Estado de S. Paulo era uma fonte de informação de qualidade. Não gostava de quando falava mal do governo petista, não por questão partidária. Pulava, assim como me recuso a ler qualquer coisa de Ferreira Gullar falando mal do governo, apesar de admirá-lo quando fala de artes plásticas e literatura. Do mesmo modo, acho um horror petistas falando mal do PSDB.

O que vai ficar marcado em mim, repito, é essa impressão que tive ao conhecê-lo e, acho, que está explicitado em uma entrevista concedida ao português João Pereira Coutinho, em janeiro de 2008. Tomo a liberdade de reproduzir alguns trechos.

1. O conhecimento não é "virtude", no sentido de que não redime ninguém. Mas anima, dá prazer – e principalmente alternativa aos desprazeres. Não vejo valor inerente à ignorância. Vejo valor em não crer que haja sabedoria plena.

2. Acho que é pretensão pura, mesmo. Vontade de ser celebrado em vida e post mortem. Vontade de estar na história. O problema desses escritores não é tentarem ser Mann ou Dostoiévski, é pensarem como Napoleão. Essa vaidade besta é que os impede de ter autocrítica e de ir pouco a pouco escrevendo uma obra gradual e verdadeira, que dá trabalho, muito trabalho... Monteiro Lobato tem uma imagem que adoro: diz que o estilo é como um subproduto das buscas do autor, como o cheiro que surge na fruta madura. Diz mais, diz que isso só acontece perto dos 40 anos na prosa. Pode conferir: todo grande prosador atingiu o auge depois dos 30-35. Por sinal, foi com a minha idade, 38 anos (que completarei em 28 de março), que Proust se enfiou naquele quarto de cortiça para escrever a 'Recherche'. Meu azar é não ser Proust. Minha sorte é saber que não sou.

3. Muita gente pensa que arte é terapia, é confissão, é modo de ocupar os jovens com lazer em vez de deixá-los à mercê do crime. Não: artes e ideias são formas de intensificar a vida, de multiplicar nossas opções, de ir além da vidinha apoiada sobre as muletas emprego & família... Quando olho para meus livros, CDs e DVDs, penso: quanta coisa boa para (re)viver!

Como uma pequena homenagem ao Piza, coloco Almost Blue, de um dos seus preferidos – Elvis Costello –, aqui cantado pelo mestre Chet Baker.