quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Maneiras de tocar Piazzolla

Astor Piazzolla ter nasceu em Mar del Plata, Argentina, mas passou a infância em Nova York, na região conhecida como Little Italy. Poderia ter virado um mafioso, mas tornou-se músico e compositor dos mais importantes.

Piazzolla não parecia ser o cara mais simpático desse mundo. Em imagens disponíveis na internet, no máximo, um meio sorriso. Sofreu as agruras de ter “mexido” em uma tradição inquebrantável como o tango. Respeitadíssimo, não se pode dizer que os amantes desse gênero o levassem em alta consideração.

Em certa ocasião, se não me engano, no primeiro Montreux Jazz Festival brasileiro, em meados dos anos 1970, foi programada uma apresentação inicial com todos a maioria dos músicos escalados para convidados e para ser exibido ao vivo pela TV. Uma das atrações, o trumpetista e saxofonista alto Benny Carter, ao terminar o seu número, apresentou-o dizendo algo como: Agora vocês vão ouvir Astor “Pizzaiolo”. O argentino, nem abriu um sorriso. Entrou mudo, saiu calado.

Um dos primeiros discos que ajudou-o a tornar conhecido internacionalmente foi Summitt (Reunion Cumbre), lançado em 1974. É bom, interessante, mas não representa bem o seu repertório. É uma parceria com o sax barítono Gerry Mulligan. Se você é um curioso e não conhece essa gravação, é fácil descarregar pela internet, e foi reeditado dezenas de vezes, cad vez, com uma capa diferente.

Hoje, no Brasil inclusive, há uma oferta enorme de Piazzollas, a maioria na forma de coletâneas.
Piazzolla. Está muito bem representado, no entanto, como compositor em dezenas (centenas, talvez) de discos. Na sua maioria – nisso teve sorte – os discos tributos ou aqueles que contêm suas composições estão entre o bom e o ótimo: coisas de primeira, com ótimos intérpretes. Bom gosto puxa bom gosto.

Dentre eles, podem ser citados o vibrafonista americano Gary Burton e vários de músicos eruditos como Daniel Barenboim, Yo-Yo Ma, Gidon Kremer, Patrick Gallois e Göran Söllscher, Sérgio e Odair Assad, e o pianista Emanuel Ax.

Um dos melhores registros da música de Piazzolla não está em um disco dedicado exclusivamente a ele. Mi Buenos Aires Querido (Teldec, 1996) é o álbum no qual o pianista e regente Daniel Barenboim presta um tributo ao país em que nasceu. Das 14 músicas que compõem o CD, metade é de Piazzolla. São especiais as “estações” portenhas – Verano Porteño, Inverno Porteño, Primavera Porteña e Outono Porteño –, e Adiós Nonino. Barenboim imprime um tom mais intimista, menos dramático, acompanhado apenas do bandaneón de Rodolfo Mederos e do baixo de Héctor Console. É tango minimalista, com a classe de um dos grandes virtuoses do piano, politicamente engajado na questão palestina-israelense e maestro de obras de grande fôlego, como as óperas de Richard Wagner. Aliás, aqui está outro diferencial: ele é um judeu que quebrou com o tabu de não tocarem o autor de Tristão e Isolda e o ciclo do Anel dos Nibelungos.

Ouça Otoño Porteño, com Barenboim.



No universo do jazz, as gravações de Gary Burton estão em um patamar superior. O vibrafone é um instrumento que combina muito bem com o tango. O CD se chama Reunion (Concord Jazz, 1998) e conta com o pianista Pablo Ziegler, um dos maiores especialistas do gênero junto com o bandaneonista Rodolfo Mederos. Foi registrado em DVD uma apresentação de 2009, em Buenos Aires, sob o mesmo título – Reunion –, lançado pela Music Brokers em edição argentina. Um parêntesis: outro que se aventura por esse repertório com competência é o francês Richard Galliano. Há um registro ao vivo dele no acordeão e Michel Portal no bandaneón no CD Blow Up (Dreyfus Jazz, 1997) tocando Libertango, simplesmente excepcional. Executam também Oblivion, com Galliano no acordeão e Portal, aqui, na clarineta.

Veja Gary Burton tocando Libertango, do DVD da apresentação de Buenos Aires, em 2009. A banda: Pablo Ziegler (piano), Héctor Console (contrabaixo), Fernando Suárez Paz (violino), Ricardo Lew (violão), e Marcelo Nisinman (bandaneón).



Dentre os eruditos que se aventuraram pelo universo de Piazzolla, dois álbuns do violonista Gidon Kremer são muito interessantes, pois não se prendem somente às composições, sendo várias, releituras que transcendem ao tema original. Um se chama Hommage à Piazzolla (Nonesuch, 1996), e o outro, Astor Piazzolla, El Tango (Nonesuch, 1997). No segundo, Kremer conta com convidados especias muito especiais: Milva, em Rinasceró (Preludio para el año 3001), e Caetano Veloso, em El Tango, em que recita um poema de Jorge Luís Borges.

Ouça Oblivion, com Gidon Kremer (violino), Per Arne Glorvigen (bandaneón), Vadim Sakharov (piano) e Alois Posch (contrabaixo).



Assista à apresentação de Milva, com Astor Piazzolla em programa da RAI, interpretando Rinasceró (Preludio para el año 3001). Não é a do CD de Gidon Kremer.



Mais recentemente, foi lançado Piazzolla!, com a Orchestre National de Jazz. Os temas são arranjados pelo americano Gil Goldstein. É música executada por uma pequena orquestra composta por sopros, guitarra, teclados acústicos e elétricos, baixo e bateria. Não tem bandaneón, o que faz boa diferença em relação ao que estamos acostumados a ouvir e associamos ao tango e à Piazzolla. São arranjos sofisticados e muito interessantes.

Ouça Libertango, com solos de Vincent Lafont no Fender Rhodes e no Wurlitzer – algo bem incomum nesse tipo de repertório –, uma guitarra bela e delicada de Pierre Perchaud, e um naipe de sopros com flautas e saxofones em intervenções pontuais.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Assista ao vídeo da Orchestre National de Jazz sobre o projeto Piazzolla!, com exclamação, como frisa Daniel Yvinec, diretor musical.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A noite enluarada de Ella Fitzgerald, Margaret Whiting e Claude Williamson

Claude Williamson, em 1956
De bons pianistas, boas cantoras e boas intenções o mundo está cheio. Milhares de pianistas ganham admiradores quase particulares, como um troféu, um segredo pouco compartilhado (senão, deixa de ser segredo). Existe uma expressão perfeita para esses músicos no mundo do jazz: são os “underrated”.

Um deles — conheço alguns que gostam muito — é Claude Williamson. Lançou poucos discos. Iniciou no jazz depois de cursar a New England Conservatory, em Boston, EUA, acompanhando Charlie Barnett. Mudou-se para a California e tocou com muita gente associada ao som “west coast”. Acompanhou Art Pepper, Bud Shank, Red Norvo e, por dois anos, a gloriosa cantora June Christy, antiga crooner da orquestra de Stan Kenton. Substituiu Russ Freeman, outro egresso da banda de Kenton, na Lighthouse All Stars. Afastou-se do jazz e, contratado da rede de TV NBC, tocou no programa de Andy Williams e, como empregado tem de ir para onde o dono manda, no da dupla Sonny & Cher. Gerações mais recentes conhecem Cher por seu jeito extravagante de se vestir (uma periguete sênior dos States), mas ela começou em dupla com o antigo marido bigodudo. Sonny Bono despareceu. Cher é um exemplo, comoTina Turner, das mulheres que deram certo depois que saíram do jugo de seus homens.

Mesmo não fazendo parte da “panelinha” dos que têm Williamson como “segredo”, possuo dez registros em disco dele. De quando em quando, me ponho a ouví-lo no meu iPod ligado no falante Altec Lansing que fica no meu quarto. Há duas noites, serviu para embalar o início do meu sono. Entre desperto e naquele átimo da sensação de não se saber acordado ou dormindo, notas de piano me chamaram a atenção e, sem saber se era sonho ou realidade, pensei comigo: conheço esse tema. Nessa hora, já me sentia desperto. Era Claude Williamson e a música, Moonlight in Vermont.

Claude deveria, por obrigação, tocá-la. Nasceu em Vermont, um dos menores e menos populosos estados norteamericanos. Localizado na ponta leste que divide fronteira com a região de Quebec, Canadá, chama-se Vermont, em razão dos verts monts que compõem a sua paisagem. É, guardadas as proporções, algo como a versão brasileira da região da serra da Mantiqueira que divisa Minas Gerais e São Paulo. Temos até uma cidade chamada Monte Verde (faz parte de Camanducaia). Como aqui, Vermont é uma região turística; é a Campos do Jordão dos novaiorquinos.

Moonlight in Vermont foi composta por Karl Suessdorf e a letra é de John Blackburn. Ganhou o primeiro registro na voz de Margaret Whiting, em 1945 (segundo a Wikipedia, foi em 1944). Muitos intérpretes gravaram Moonlight in Vermont. São imperdíveis as gravações de Betty Carter, Sarah Vaughan e, principalmente, a de Ella Fitzgerald com Louis Armstrong.

Margaret é menos conhecida do que as citadas acima, mas está no panteão das grandes cantoras americanas. Filha de Richard Whiting, compositor de Hooray for Hollywood, Too Marvelous for Words e Sentimental and Melancholy, as duas últimas em parceria com Johnny Mercer, tornar-se cantora foi um passo natural. A casa dos Whiting era frequentada por Maurice Chevalier e Al Jonson e um dos melhores amigos foi Johnny Mercer, compositor também, que, mais tarde, fundou a gravadora Capitol. É uma pena que tenha Richard morrido cedo – 46 anos. Orfã, muito cedo, Maggie, como era chamada em casa e pelos amigos, teve o apoio de Mercer para tornar-se uma das grandes intérpretes da música americana.

Depois desse blah blah todo, melhor ouvir a gravação de Whiting. Minha discoteca tem falhas como a de nela não constar nenhum CD de Luan Santana (nem nunca ouvi a tal música famosa de Michel Teló), mas discos de Whiting fazem parte dela. Felizmente. E é por isso que tenho a gravação de 1945 e a de 1954. A disponibilizada é a mais antiga.




Não posso deixar de colocar a de Claude Williamson. É mais ou menos recente: é de 2000. Williamson, depois de ficar afastado do jazz, quando trabalhou na televisão, voltou a gravar jazz no fim dos anos 1970. Aqui é acompanhado por Bill Crow no baixo e David Jones na bateria. O CD é da Venus, gravadora japonesa que se especializou em registrar, principalmente, música no formato piano, baixo e bateria. É coisa fina.




Um registro excepcional, como disse, é o de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong pelo selo Verve. Parece que estamos em Vermont, sem nunca termos ido para lá. Prestando-se atenção na letra (“Telegraph cables, how they sing down the highway/ And they travel each bend in the road/ People who meet in this romantic setting/ Are so hypnotized by the lovely// Evening summer breeze/ The warbling of a meadowlark/ Moonlight in Vermont”), temos essa impressão. Quando Ella, até ouvimos os trinados de uma cotovia.