Piazzolla não parecia ser o cara mais simpático desse mundo. Em imagens disponíveis na internet, no máximo, um meio sorriso. Sofreu as agruras de ter “mexido” em uma tradição inquebrantável como o tango. Respeitadíssimo, não se pode dizer que os amantes desse gênero o levassem em alta consideração.
Em certa ocasião, se não me engano, no primeiro Montreux Jazz Festival brasileiro, em meados dos anos 1970, foi programada uma apresentação inicial com todos a maioria dos músicos escalados para convidados e para ser exibido ao vivo pela TV. Uma das atrações, o trumpetista e saxofonista alto Benny Carter, ao terminar o seu número, apresentou-o dizendo algo como: Agora vocês vão ouvir Astor “Pizzaiolo”. O argentino, nem abriu um sorriso. Entrou mudo, saiu calado.
Um dos primeiros discos que ajudou-o a tornar conhecido internacionalmente foi Summitt (Reunion Cumbre), lançado em 1974. É bom, interessante, mas não representa bem o seu repertório. É uma parceria com o sax barítono Gerry Mulligan. Se você é um curioso e não conhece essa gravação, é fácil descarregar pela internet, e foi reeditado dezenas de vezes, cad vez, com uma capa diferente.
Hoje, no Brasil inclusive, há uma oferta enorme de Piazzollas, a maioria na forma de coletâneas.
Piazzolla. Está muito bem representado, no entanto, como compositor em dezenas (centenas, talvez) de discos. Na sua maioria – nisso teve sorte – os discos tributos ou aqueles que contêm suas composições estão entre o bom e o ótimo: coisas de primeira, com ótimos intérpretes. Bom gosto puxa bom gosto.
Dentre eles, podem ser citados o vibrafonista americano Gary Burton e vários de músicos eruditos como Daniel Barenboim, Yo-Yo Ma, Gidon Kremer, Patrick Gallois e Göran Söllscher, Sérgio e Odair Assad, e o pianista Emanuel Ax.
Um dos melhores registros da música de Piazzolla não está em um disco dedicado exclusivamente a ele. Mi Buenos Aires Querido (Teldec, 1996) é o álbum no qual o pianista e regente Daniel Barenboim presta um tributo ao país em que nasceu. Das 14 músicas que compõem o CD, metade é de Piazzolla. São especiais as “estações” portenhas – Verano Porteño, Inverno Porteño, Primavera Porteña e Outono Porteño –, e Adiós Nonino. Barenboim imprime um tom mais intimista, menos dramático, acompanhado apenas do bandaneón de Rodolfo Mederos e do baixo de Héctor Console. É tango minimalista, com a classe de um dos grandes virtuoses do piano, politicamente engajado na questão palestina-israelense e maestro de obras de grande fôlego, como as óperas de Richard Wagner. Aliás, aqui está outro diferencial: ele é um judeu que quebrou com o tabu de não tocarem o autor de Tristão e Isolda e o ciclo do Anel dos Nibelungos.
Ouça Otoño Porteño, com Barenboim.
No universo do jazz, as gravações de Gary Burton estão em um patamar superior. O vibrafone é um instrumento que combina muito bem com o tango. O CD se chama Reunion (Concord Jazz, 1998) e conta com o pianista Pablo Ziegler, um dos maiores especialistas do gênero junto com o bandaneonista Rodolfo Mederos. Foi registrado em DVD uma apresentação de 2009, em Buenos Aires, sob o mesmo título – Reunion –, lançado pela Music Brokers em edição argentina. Um parêntesis: outro que se aventura por esse repertório com competência é o francês Richard Galliano. Há um registro ao vivo dele no acordeão e Michel Portal no bandaneón no CD Blow Up (Dreyfus Jazz, 1997) tocando Libertango, simplesmente excepcional. Executam também Oblivion, com Galliano no acordeão e Portal, aqui, na clarineta.
Veja Gary Burton tocando Libertango, do DVD da apresentação de Buenos Aires, em 2009. A banda: Pablo Ziegler (piano), Héctor Console (contrabaixo), Fernando Suárez Paz (violino), Ricardo Lew (violão), e Marcelo Nisinman (bandaneón).
Dentre os eruditos que se aventuraram pelo universo de Piazzolla, dois álbuns do violonista Gidon Kremer são muito interessantes, pois não se prendem somente às composições, sendo várias, releituras que transcendem ao tema original. Um se chama Hommage à Piazzolla (Nonesuch, 1996), e o outro, Astor Piazzolla, El Tango (Nonesuch, 1997). No segundo, Kremer conta com convidados especias muito especiais: Milva, em Rinasceró (Preludio para el año 3001), e Caetano Veloso, em El Tango, em que recita um poema de Jorge Luís Borges.
Ouça Oblivion, com Gidon Kremer (violino), Per Arne Glorvigen (bandaneón), Vadim Sakharov (piano) e Alois Posch (contrabaixo).
Assista à apresentação de Milva, com Astor Piazzolla em programa da RAI, interpretando Rinasceró (Preludio para el año 3001). Não é a do CD de Gidon Kremer.
Mais recentemente, foi lançado Piazzolla!, com a Orchestre National de Jazz. Os temas são arranjados pelo americano Gil Goldstein. É música executada por uma pequena orquestra composta por sopros, guitarra, teclados acústicos e elétricos, baixo e bateria. Não tem bandaneón, o que faz boa diferença em relação ao que estamos acostumados a ouvir e associamos ao tango e à Piazzolla. São arranjos sofisticados e muito interessantes.
Ouça Libertango, com solos de Vincent Lafont no Fender Rhodes e no Wurlitzer – algo bem incomum nesse tipo de repertório –, uma guitarra bela e delicada de Pierre Perchaud, e um naipe de sopros com flautas e saxofones em intervenções pontuais.
Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Assista ao vídeo da Orchestre National de Jazz sobre o projeto Piazzolla!, com exclamação, como frisa Daniel Yvinec, diretor musical.
Assista ao vídeo da Orchestre National de Jazz sobre o projeto Piazzolla!, com exclamação, como frisa Daniel Yvinec, diretor musical.

