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| A litofania Bernardaud, de Limoges |
Mas, sabendo do meu gosto pela música, presenteou-me com dezenas de CDs. Pelo fato de ter muitos – muitíssimos, na verdade –, dar discos ou DVDs para mim, é tarefa difícil; se não são lançamentos recentíssimos, a probabilidade de que eu já o tenha é de 99%. Nos últimos tempos, tenho comprado bem menos – música popular, raro; jazz, pouco; música erudita, mais. Apesar de ter cerca de 800 CDs de clássicos, sempre existem lacunas. No meu caso, são os russos, um pouco, por preconceito, que está sendo quebrado – culpa do Armênio Guedes. Têm sido gratas as “descobertas”: Shostakovich, Prokofiev e Rachmaninov. A obra pianística deste último, então, tem tornado minha vida mais prazerosa. Seus Moments Musicaux, na interpretação de Vladimir Ashkenazy, têm sido a coisa que mais ouvi nos últimos seis meses. Paulatinamente, descubro que existem mais russos que apenas Stravinsky e Mussorgsky.
Com tantos discos que tenho, nesses anos todos, a Ellen me surpreendeu com discos que desconhecia. Foi assim com, por exemplo, o grupo português Madredeus. Em uma de suas viagens, em Paris, ouviu a voz de Teresa Salgueiro na loja de Issey Miyake – ou foi na Comme des Garçons? Quase ninguém os conhecia em 1990, quando foi lançado o disco que me trouxe: Existir. Era o segundo lançamento. Se Madredeus não era ainda internacionalmente conhecido, efetivamente, passou a ser depois que Lisbon Story, dirigido pelo alemão Wim Wenders foi lançado. Aparecem em várias ocasiões cantando ou ensaiando. Não é apenas uma participação especial: com Rütiger Vogler, que faz o papel de um engenheiro de som de um filme sobre Lisboa, o Madredeus é coprotagonista.
Além de Existir (me emociona até hoje ouvir No Pomar das Laranjeiras), lembro do primeiro do Gotan Project, desconhecido aqui naquele tempo, e também de Salt, primeiro CD de Lizz Wright. É dela, depois de alguns parágrafos de rodeios e volteios, que quero falar alguma coisa, por sugestão da amiga Marisa Marcondes Leal.
Com tantos discos que tenho, nesses anos todos, a Ellen me surpreendeu com discos que desconhecia. Foi assim com, por exemplo, o grupo português Madredeus. Em uma de suas viagens, em Paris, ouviu a voz de Teresa Salgueiro na loja de Issey Miyake – ou foi na Comme des Garçons? Quase ninguém os conhecia em 1990, quando foi lançado o disco que me trouxe: Existir. Era o segundo lançamento. Se Madredeus não era ainda internacionalmente conhecido, efetivamente, passou a ser depois que Lisbon Story, dirigido pelo alemão Wim Wenders foi lançado. Aparecem em várias ocasiões cantando ou ensaiando. Não é apenas uma participação especial: com Rütiger Vogler, que faz o papel de um engenheiro de som de um filme sobre Lisboa, o Madredeus é coprotagonista.
Além de Existir (me emociona até hoje ouvir No Pomar das Laranjeiras), lembro do primeiro do Gotan Project, desconhecido aqui naquele tempo, e também de Salt, primeiro CD de Lizz Wright. É dela, depois de alguns parágrafos de rodeios e volteios, que quero falar alguma coisa, por sugestão da amiga Marisa Marcondes Leal.
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| Lizz Wright |
Lizz é contratada da Verve Forecast, a mesma que abrigou durante um tempo Toninho Horta. É meio que uma segunda linha (sem que signifique ser inferior) da gravadora Verve, mais direcionada ao jazz. A Forecast abriga um elenco mais crossover, algo com “cheiro” de jazz, porém com fortes pitadas de outros gêneros. No caso de Lizz, percebe-se a força da influência da gospel music (não essa – desculpe – coisa horrorosa dos “crentes” brasileiros) e alguns toques de folk e country americano. Aos primeiros sons de Lizz, nota-se que estamos diante de uma rainha – não da linhagem da britânica Elisabeth ou de alguma herdeira dos Bourbons –, tal a majestade quase impositiva de seu canto. Visualmente, é majestática. Tem presença e lembra, por seu aspecto cool, outra cantora negra: Cassandra Wilson.
Salt, o primeiro, lançado em 2003 tem como um dos produtores Tommy LiPuma, craque que tem em seu cartel Miles Davis, Diana Krall, Natalie Cole, Barbra Streisand e Anita Baker. O disco abre com um clássico de Chick Corea, que teve a brasileira Flora Purim como sua primeira intérprete: Open Your Eyes, You Can Fly. Não tem o calor da de Flora, ritmico e elétrico por conta do belo baixo elétrico de Alphonso Johnson, teclados de George Duke e percussão do marido Airto Moreira. Arranjada por John Cowherd, é ritmada também, com um sabor meio bossa-novista, um Hammond B3 colorindo em econômicas intervenções a voz morna de Wright. A primeira, do repertório do jazz, é o clássico Afro Blue, de Mongo Santamaria e Oscar Brown Jr. Aqui, mais uma vez, dá um tratamento mais cool, sem a extroversão latina do original, mas é bem interessante o arranjo de Brian Blade, com o piano de Danilo Perez.
O próximo standard é Goodbye, de Gordon Jenkins. Interessante: os arranjos e a concepção subvertem o original, e por isso, são originais, diferentes. Aqui, o clima de balada se dilui em ritmo mais acelerado; é menos dramático. A próxima – Vocalise/End of the Line – é reflexiva, com lindo solo de violoncelo. Fire, a nona faixa, é um original de Wright, boa canção em que sua chama passeia, preguiçosamente, em volta dos sons de um Hammond B3. Os originais restantes de Wright – Blue Rose e Silence – são bons também. Salt, quando lançado, alcançou a segunda posição no Billboard Top Contemporary Jazz, em 2004. Bom começo.
Lizz passou bem pelo teste da “segunda vez”. Muitos que fazem um grande disco de estreia passam por isso: é a expectativa de fazer algo melhor ou ser a decepção do “sorte de principiante”. Em Dreaming Wide Awake, cabe a Taste of Honey, de Rick Marlow e Bobby Scott, abri-lo; e que abertura! Hit the Ground, com o violão de Chris Bruce e guitarra de Bill Frisell (acho que é dele), é outra bela música. Seu Old Man, de Neil Young, é outro destaque. Começa simples, com violão e pouca instrumentação. Cresce no refrão com brilhante e elegante mistura de violões e guitarras distorcidas e sobreposições de vozes. É a minha preferida. A seguinte, Wake Up, Little Sparrow, de Ella Jenkins, é outro ponto alto. A instrumentação do álbum inteira é sempre sóbria e cada intervenção sonora é realizada na medida certa. Esse é um dos trunfos do disco: combina perfeitamente com a voz contida de Lizz.
Quem conhece Get Together, original de Chet Powers (é de 1964), cantada por uma banda chamada Youngbloods? Esses americanos não fizeram muito sucesso, mas essa música foi o ponto alto de suas carreiras, isso em fins dos anos 1960. Em seu segundo CD, esse clássico é a nona faixa. Compete com Old Man: é uma belíssima interpretação. O disco tem como “bonus track” a bela Narrow Daylight, parceria do casal Elvis Costello/Diana Krall.
The Orchard (2008) é menos jazz que os outros, se é que se pode dizer que há algo de jazz na música de Wright. Certo é que transita numa senda que divisa o pop do jazz, inventada pelo mercado, ou mais especificamente, pelas gravadoras especializadas em jazz e até em música erudita (principalmente a Deutsche Grammophon, que andou lançando discos “crossover” de Sting, Elvis Costello e Cia.). Lizz Wright é, de algum modo, a “opção” da Verve, assim como Norah Jones, Amos Lee, e até Marisa Monte são Blue Note, sua maior concorrente na área do jazz..
No terceiro álbum, não há nenhum standard jazzístico. Várias composições são da lavra de Lizz, em parceria, principalmente com o violonista/guitarrista Toshi Reagon, membro da banda. Exceções mesmo são I Idolize You, de Ike Turner, e Thank You, de Jimmy Page e Robert Plant, do Led Zeppelin. O CD vale por duas baladas matadoras: When I Fall, e Speak Your Heart.
Fellowship, de 2010, é parecido com The Orchard. Talvez seja mais “negro”. O meddley gospel (quinta faixa) é matador. A seguinte, a tradicional Sweeping Through the City é quase uma canção a capella, com Lizz e um backing vocals, não fosse uma discreta percussão. All the Seeds é um vocalise dobrado com participação de Angelique Kidjo. Dura exatos 1:18 minuto: perfeito para abrir Presence of the Lord, clássico de Eric Clapton. O Senhor está onipresente desde a quinta faixa. É uma sequência extraordinária. É quebrada com uma interpretação totalmente original e acústica (violões, percussão e palmas) de In from the Storm, de Jimi Hendrix. Em outra incursão – Oya –, Angelique Kidjo (em All the Seeds divide a autoria também) desvela suas raízes africanas (nasceu no Benin). Nesse disco em que o “Senhor se apresenta”, não poderia faltar Amazing Grace… de arrepiar.
Get Together, com Lizz Wright
Ouça Get Together, com os Youngbloods.
Lizz Wright canta Old Man, de Neil Young
Salt, o primeiro, lançado em 2003 tem como um dos produtores Tommy LiPuma, craque que tem em seu cartel Miles Davis, Diana Krall, Natalie Cole, Barbra Streisand e Anita Baker. O disco abre com um clássico de Chick Corea, que teve a brasileira Flora Purim como sua primeira intérprete: Open Your Eyes, You Can Fly. Não tem o calor da de Flora, ritmico e elétrico por conta do belo baixo elétrico de Alphonso Johnson, teclados de George Duke e percussão do marido Airto Moreira. Arranjada por John Cowherd, é ritmada também, com um sabor meio bossa-novista, um Hammond B3 colorindo em econômicas intervenções a voz morna de Wright. A primeira, do repertório do jazz, é o clássico Afro Blue, de Mongo Santamaria e Oscar Brown Jr. Aqui, mais uma vez, dá um tratamento mais cool, sem a extroversão latina do original, mas é bem interessante o arranjo de Brian Blade, com o piano de Danilo Perez.
O próximo standard é Goodbye, de Gordon Jenkins. Interessante: os arranjos e a concepção subvertem o original, e por isso, são originais, diferentes. Aqui, o clima de balada se dilui em ritmo mais acelerado; é menos dramático. A próxima – Vocalise/End of the Line – é reflexiva, com lindo solo de violoncelo. Fire, a nona faixa, é um original de Wright, boa canção em que sua chama passeia, preguiçosamente, em volta dos sons de um Hammond B3. Os originais restantes de Wright – Blue Rose e Silence – são bons também. Salt, quando lançado, alcançou a segunda posição no Billboard Top Contemporary Jazz, em 2004. Bom começo.
Lizz passou bem pelo teste da “segunda vez”. Muitos que fazem um grande disco de estreia passam por isso: é a expectativa de fazer algo melhor ou ser a decepção do “sorte de principiante”. Em Dreaming Wide Awake, cabe a Taste of Honey, de Rick Marlow e Bobby Scott, abri-lo; e que abertura! Hit the Ground, com o violão de Chris Bruce e guitarra de Bill Frisell (acho que é dele), é outra bela música. Seu Old Man, de Neil Young, é outro destaque. Começa simples, com violão e pouca instrumentação. Cresce no refrão com brilhante e elegante mistura de violões e guitarras distorcidas e sobreposições de vozes. É a minha preferida. A seguinte, Wake Up, Little Sparrow, de Ella Jenkins, é outro ponto alto. A instrumentação do álbum inteira é sempre sóbria e cada intervenção sonora é realizada na medida certa. Esse é um dos trunfos do disco: combina perfeitamente com a voz contida de Lizz.
Quem conhece Get Together, original de Chet Powers (é de 1964), cantada por uma banda chamada Youngbloods? Esses americanos não fizeram muito sucesso, mas essa música foi o ponto alto de suas carreiras, isso em fins dos anos 1960. Em seu segundo CD, esse clássico é a nona faixa. Compete com Old Man: é uma belíssima interpretação. O disco tem como “bonus track” a bela Narrow Daylight, parceria do casal Elvis Costello/Diana Krall.
The Orchard (2008) é menos jazz que os outros, se é que se pode dizer que há algo de jazz na música de Wright. Certo é que transita numa senda que divisa o pop do jazz, inventada pelo mercado, ou mais especificamente, pelas gravadoras especializadas em jazz e até em música erudita (principalmente a Deutsche Grammophon, que andou lançando discos “crossover” de Sting, Elvis Costello e Cia.). Lizz Wright é, de algum modo, a “opção” da Verve, assim como Norah Jones, Amos Lee, e até Marisa Monte são Blue Note, sua maior concorrente na área do jazz..
No terceiro álbum, não há nenhum standard jazzístico. Várias composições são da lavra de Lizz, em parceria, principalmente com o violonista/guitarrista Toshi Reagon, membro da banda. Exceções mesmo são I Idolize You, de Ike Turner, e Thank You, de Jimmy Page e Robert Plant, do Led Zeppelin. O CD vale por duas baladas matadoras: When I Fall, e Speak Your Heart.
Fellowship, de 2010, é parecido com The Orchard. Talvez seja mais “negro”. O meddley gospel (quinta faixa) é matador. A seguinte, a tradicional Sweeping Through the City é quase uma canção a capella, com Lizz e um backing vocals, não fosse uma discreta percussão. All the Seeds é um vocalise dobrado com participação de Angelique Kidjo. Dura exatos 1:18 minuto: perfeito para abrir Presence of the Lord, clássico de Eric Clapton. O Senhor está onipresente desde a quinta faixa. É uma sequência extraordinária. É quebrada com uma interpretação totalmente original e acústica (violões, percussão e palmas) de In from the Storm, de Jimi Hendrix. Em outra incursão – Oya –, Angelique Kidjo (em All the Seeds divide a autoria também) desvela suas raízes africanas (nasceu no Benin). Nesse disco em que o “Senhor se apresenta”, não poderia faltar Amazing Grace… de arrepiar.
Get Together, com Lizz Wright
Ouça Get Together, com os Youngbloods.
Lizz Wright canta Old Man, de Neil Young



