quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Uma nega chamada Lizz Wright

Primeiro, perdoe-me pelo “nega”: é carinhoso (a referência é Jorge Benjor). E, que nega bonita! Minha primeira vez com Lizz Wright aconteceu por causa da amiga Ellen Leite. Sempre generosa, toda vez que viajava para a Europa (duas vezes por ano, no mínimo), trazia uma lembrança, um presente. Dois deles estão na galeria da minha vida: são duas litofanias Bernardaud em porcelanas de Limoges. Explico melhor. Litofanias são desenhos em porcelanas translúcidas “em que os claros e as sombras se obtêm por gradual espessamento da massa.” (a definição está em Novo Dicionário da Língua Portuguesa Universal, Texto Editores, 2007). As peças são em formato circular (veja a imagem ilustrativa; mais fácil assim para entender) e abrigam uma vela que, acesa, realça o desenho e exala deliciosa fragrância).

A litofania Bernardaud, de Limoges
Mas, sabendo do meu gosto pela música, presenteou-me com dezenas de CDs. Pelo fato de ter muitos – muitíssimos, na verdade –, dar discos ou DVDs para mim, é tarefa difícil; se não são lançamentos recentíssimos, a probabilidade de que eu já o tenha é de 99%. Nos últimos tempos, tenho comprado bem menos – música popular, raro; jazz, pouco; música erudita, mais. Apesar de ter cerca de 800 CDs de clássicos, sempre existem lacunas. No meu caso, são os russos, um pouco, por preconceito, que está sendo quebrado – culpa do Armênio Guedes. Têm sido gratas as “descobertas”: Shostakovich, Prokofiev e Rachmaninov. A obra pianística deste último, então, tem tornado minha vida mais prazerosa. Seus Moments Musicaux, na interpretação de Vladimir Ashkenazy, têm sido a coisa que mais ouvi nos últimos seis meses. Paulatinamente, descubro que existem mais russos que apenas Stravinsky e Mussorgsky.

Com tantos discos que tenho, nesses anos todos, a Ellen me surpreendeu com discos que desconhecia. Foi assim com, por exemplo, o grupo português Madredeus. Em uma de suas viagens, em Paris, ouviu a voz de Teresa Salgueiro na loja de Issey Miyake – ou foi na Comme des Garçons? Quase ninguém os conhecia em 1990, quando foi lançado o disco que me trouxe: Existir. Era o segundo lançamento. Se Madredeus não era ainda internacionalmente conhecido, efetivamente, passou a ser depois que Lisbon Story, dirigido pelo alemão Wim Wenders foi lançado. Aparecem em várias ocasiões cantando ou ensaiando. Não é apenas uma participação especial: com Rütiger Vogler, que faz o papel de um engenheiro de som de um filme sobre Lisboa, o Madredeus é coprotagonista.

Além de Existir (me emociona até hoje ouvir No Pomar das Laranjeiras), lembro do primeiro do Gotan Project, desconhecido aqui naquele tempo, e também de Salt, primeiro CD de Lizz Wright. É dela, depois de alguns parágrafos de rodeios e volteios, que quero falar alguma coisa, por sugestão da amiga Marisa Marcondes Leal.
Lizz Wright
Lizz é contratada da Verve Forecast, a mesma que abrigou durante um tempo Toninho Horta. É meio que uma segunda linha (sem que signifique ser inferior) da gravadora Verve, mais direcionada ao jazz. A Forecast abriga um elenco mais crossover, algo com “cheiro” de jazz, porém com fortes pitadas de outros gêneros. No caso de Lizz, percebe-se a força da influência da gospel music (não essa – desculpe – coisa horrorosa dos “crentes” brasileiros) e alguns toques de folk e country americano. Aos primeiros sons de Lizz, nota-se que estamos diante de uma rainha – não da linhagem da britânica Elisabeth ou de alguma herdeira dos Bourbons –, tal a majestade quase impositiva de seu canto. Visualmente, é majestática. Tem presença e lembra, por seu aspecto cool, outra cantora negra: Cassandra Wilson.

Salt, o primeiro, lançado em 2003 tem como um dos produtores Tommy LiPuma, craque que tem em seu cartel Miles Davis, Diana Krall, Natalie Cole, Barbra Streisand e Anita Baker. O disco abre com um clássico de Chick Corea, que teve a brasileira Flora Purim como sua primeira intérprete: Open Your Eyes, You Can Fly. Não tem o calor da de Flora, ritmico e elétrico por conta do belo baixo elétrico de Alphonso Johnson, teclados de George Duke e percussão do marido Airto Moreira. Arranjada por John Cowherd, é ritmada também, com um sabor meio bossa-novista, um Hammond B3 colorindo em econômicas intervenções a voz morna de Wright. A primeira, do repertório do jazz, é o clássico Afro Blue, de Mongo Santamaria e Oscar Brown Jr. Aqui, mais uma vez, dá um tratamento mais cool, sem a extroversão latina do original, mas é bem interessante o arranjo de Brian Blade, com o piano de Danilo Perez.

O próximo standard é Goodbye, de Gordon Jenkins. Interessante: os arranjos e a concepção subvertem o original, e por isso, são originais, diferentes. Aqui, o clima de balada se dilui em ritmo mais acelerado; é menos dramático. A próxima – Vocalise/End of the Line – é reflexiva, com lindo solo de violoncelo. Fire, a nona faixa, é um original de Wright, boa canção em que sua chama passeia, preguiçosamente, em volta dos sons de um Hammond B3. Os originais restantes de Wright – Blue Rose e Silence – são bons também. Salt, quando lançado, alcançou a segunda posição no Billboard Top Contemporary Jazz, em 2004. Bom começo.

Lizz passou bem pelo teste da “segunda vez”. Muitos que fazem um grande disco de estreia passam por isso: é a expectativa de fazer algo melhor ou ser a decepção do “sorte de principiante”. Em Dreaming Wide Awake, cabe a Taste of Honey, de Rick Marlow e Bobby Scott, abri-lo; e que abertura! Hit the Ground, com o violão de Chris Bruce e guitarra de Bill Frisell (acho que é dele), é outra bela música. Seu Old Man, de Neil Young, é outro destaque. Começa simples, com violão e pouca instrumentação. Cresce no refrão com brilhante e elegante mistura de violões e guitarras distorcidas e sobreposições de vozes. É a minha preferida. A seguinte, Wake Up, Little Sparrow, de Ella Jenkins, é outro ponto alto. A instrumentação do álbum inteira é sempre sóbria e cada intervenção sonora é realizada na medida certa. Esse é um dos trunfos do disco: combina perfeitamente com a voz contida de Lizz.

Quem conhece Get Together, original de Chet Powers (é de 1964), cantada por uma banda chamada Youngbloods? Esses americanos não fizeram muito sucesso, mas essa música foi o ponto alto de suas carreiras, isso em fins dos anos 1960. Em seu segundo CD, esse clássico é a nona faixa. Compete com Old Man: é uma belíssima interpretação. O disco tem como “bonus track” a bela Narrow Daylight, parceria do casal Elvis Costello/Diana Krall.

The Orchard (2008) é menos jazz que os outros, se é que se pode dizer que há algo de jazz na música de Wright. Certo é que transita numa senda que divisa o pop do jazz, inventada pelo mercado, ou mais especificamente, pelas gravadoras especializadas em jazz e até em música erudita (principalmente a Deutsche Grammophon, que andou lançando discos “crossover” de Sting, Elvis Costello e Cia.). Lizz Wright é, de algum modo, a “opção” da Verve, assim como Norah Jones, Amos Lee, e até Marisa Monte são Blue Note, sua maior concorrente na área do jazz..

No terceiro álbum, não há nenhum standard jazzístico. Várias composições são da lavra de Lizz, em parceria, principalmente com o violonista/guitarrista Toshi Reagon, membro da banda. Exceções mesmo são I Idolize You, de Ike Turner, e Thank You, de Jimmy Page e Robert Plant, do Led Zeppelin. O CD vale por duas baladas matadoras: When I Fall, e Speak Your Heart.

Fellowship, de 2010, é parecido com The Orchard. Talvez seja mais “negro”. O meddley gospel (quinta faixa) é matador. A seguinte, a tradicional Sweeping Through the City é quase uma canção a capella, com Lizz e um backing vocals, não fosse uma discreta percussão. All the Seeds é um vocalise dobrado com participação de Angelique Kidjo. Dura exatos 1:18 minuto: perfeito para abrir Presence of the Lord, clássico de Eric Clapton. O Senhor está onipresente desde a quinta faixa. É uma sequência extraordinária. É quebrada com uma interpretação totalmente original e acústica (violões, percussão e palmas) de In from the Storm, de Jimi Hendrix. Em outra incursão – Oya –, Angelique Kidjo (em All the Seeds divide a autoria também) desvela suas raízes africanas (nasceu no Benin). Nesse disco em que o “Senhor se apresenta”, não poderia faltar Amazing Grace… de arrepiar.



Get Together, com Lizz Wright




Ouça Get Together, com os Youngbloods.




Lizz Wright canta Old Man, de Neil Young

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Louca me chamam Gal Costa e Dinah Washington

Simplesmente, Gal
Em Caras e Bocas, tremendo disco de Gal Costa, o poeta e (grande) tradutor Augusto de Campos foi parceiro de Carl Sigman, Bob Russell, Irving Mills, E. de Lange, Duke Ellington e Bob Dylan. Suas incursões são sempre benvindas. Foi sempre genial traduzindo poetas difíceis como Stephane Malarmé e o americano superlativo e.e. cummings, mas sempre teve olho para manifestações consideradas menos nobres como a poesia provençal ou a música popular brasileira (é autor do fundamental Balanço da Bossa e Outras Bossas, Editora Perspectiva, 1974). A tradução – ou versão – de composições do cancioneiro popular existe desde sempre. Basta lembrar de All of Me, que virou Disse Alguém, na versão do multitalentoso (aventurou-se pelas rádios, foi redator de programas de TV e de uma coluna de turfe em O Globo, e compositor, em preciosas parcerias, de clássicos como De Conversa em Conversa, Pra Que Discutir com Madame e Tintim por Tintim) Haroldo Barbosa. Essa prática se disseminou em versões, às vezes pavorosas, de sucessos populares da música internacional, cantadas por Roberto Carlos, Renato e Seus Blue Caps, Os Incríveis, Ronnie Von e Os Fevers, em que, por exemplo, Girl, de Lennon & McCartney, virava Meu Bem. Não cabe ao Brasil, porém, a exclusividade de criar versões de sucessos em inglês na língua pátria.

Não foram meros acasos suas versões contidas em Caras e Bocas (Philips, 19xx). Foi partícipe ao ver incorporado um poema de John Donne traduzido por ele, em música de Péricles Cavalcanti, ser cantada por Caetano Veloso (Elegia). O namoro de Caetano com o concretismo foi bem sério e inúmeras interações aconteceram, como no poema Pulsar, de Augusto de Campos, ou em composições de Caetano Veloso como Batmacumba (parceria com Gilberto Gil), em que a letra faz o desenho da letra “K”, Relance (1973), De Palavra em Palavra e Júlia Moreno (ambos no álbum conceitual Araçá Azul, 1972), Asa (“Pássaro um/ Pássaro pairando um/ Pássaro momento um/ Pássaro ar/ Pássaro pousa/ Pássaro repousa/ Pássaro som/ […[/ Passa voou/ Passa avoou/ Pássaro par.), do disco Joia (tinha acento agudo no “O” naquele tempo), de 1975.

Soa sempre estranho ouvir uma canção com a qual estamos acostumados com as sonoridades da língua em que foi composta (tento imaginar My Way cantada em japonês). São os casos de Solitude, de Duke Ellington, Crazy He Calls Me, de Carl Sigman e Bob Russell, e It’s All Over Now, Baby Blue, que virou, na versão de Campos, Negro Amor (é ousado esse título para algo que, traduzido, seria “Agora está tudo acabado, baby blue”). A tradução de Crazy He Calls Me foi mais fácil: “Louca me chamam”. Já “solitude” é uma palavra tão específica, que não houve outro jeito: continuou “solitude”. Na versão, sim: “solitude” virou “solidão” (“Nessa solidão/ Eu choro/ As horas que não tocam mais/ Nessa solidão/ Devoro”).

Dinah canta um espetacular Crazy He Calls Me
Lembro que, na época do lançamento de Caras e Bocas – 1977 –, estava em Salvador. Quando somos jovens, os discos “encarnam” na gente; não parávamos de ouvir (nesse tempo se dizia “ouvi o disco até furar”; explicação: o som era produzido pela agulha de diamante sobre a superfície de vinil, e ocorria um desgaste por atrito mesmo) os lançamentos, se os tivéssemos à mão. Na casa em que ficamos tinha esse disco de Gal. Todo mundo lá cantava de cor (bem que podia ter um acento agudo aqui para soar foneticamente correto, mas o “cor” vem de “coração”, segundo um amigo) o disco todo. As que mais adorava eram, justamente, Louca Me Chamam, e a última Um Favor, de Lupicínio Rodrigues. “E refletindo um segundo/ Resolvi pedir ao mundo/ Que me fizesse um favor/ Para que eu não mais chorasse/ Que alguém me ajudasse/ A encontrar meu amor/ […]/ Quem puder gritar que grite/ Quem tiver apito, apite/ Faça esse mundo acordar/ Para que onde ela esteja/ Saiba que alguém rasteja/ Pedindo pra ela voltar.” Maravilhoso. Ouvir Lupicínio, às vezes, faz mal, mas é sempre maravilhoso.


O melhor Crazy He Calls Me. A coisa do “melhor” será sempre uma discussão. Os fãs mais fanáticos de Billie Holiday poderão até dizer que não sei de nada, mas minha preferida é a de Dinah Washington. Não é possível se esquecer a de Anita O’Day. Até onde eu sei, Gal Costa é a única a ter cantado Louca Me Chamam.

Dinah Washington canta Crazy He Calls Me.




Gal Costa canta Louca Me Chamam.




A letra de Louca Me Chamam, por Augusto de Campos.

Eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser, moverei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor, eu sei/ Eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser, andarei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como luar que move a palha/ Me abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso ensinar/ Eu te darei pra sempre/ Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como luar que move a palha/ Me abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso ensinar/ Eu te darei pra sempre/ Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor sou eu