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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Horizontes de Brad Mehldau

O explorador da música Brad Mehldau
As grandes lojas, ou, pelo menos, as mais conhecidas na década de 1970, eram o Museu do Disco e a Hi-Fi. Esta última ficava no shopping Iguatemi, que era o único naquela época. À custa de bom marketing e de preços nem tanto, era a de maior sucesso. A melhor mesmo, em termos de música popular era o Museu do Disco, que trazia as novidades em discos importados caríssimos, principalmente para os padrões financeiros de seus consumidores, na maioria, estudantes que viviam de mesadas. As outras duas importantes eram a Bruno Blois e a Brenno Rossi, mais focadas em discos de jazz e música erudita.

O comprador do Museu do Disco era o Odair. Viajava constantemente e os adquiria de grandes atacadistas americanos. A primeira loja ficava na rua Dom José de Barros, quase esquina com a Avenida São João. Abriram outra no mesmo Shopping Iguatemi a 50 metros da Hi-Fi. O mercado foi mudando e as duas lojas não existem mais, assim como a Bruno Blois e a Brenno Rossi. Depois de sair do Museu do Disco, trabalhou em outros estabelecimentos menores situados nas rua Pamplona, e o outro, na alameda Jaú. Com o fim dessa loja, ficou um tempo na loja Laserland, situada na Avenida Rebouças, uma das últimas a ter um bom catálogo de música erudita, popular e jazz. Depois, nunca mais ouvi falar dele. Muitos de nós “descobríamos” por onde andava e ficávamos clientes das lojas por onde passou.

Na pequena loja, próxima ao Colégio Dante Alighieri, foi que “conheci” o pianista Brad Mehldau, apresentado pelo Odair. Era um cara antenado, não apenas em relação ao rock, mas ao jazz também. Recomendou-me um CD chamado The Art of the Trio, volume I, isso em 1997. Desde então, Mehldau está na minha CDteca, com mais de uma dezena de títulos.

Jovem, Mehldau, se destacou em um dos formatos mais tradicionais do jazz, o trio. Dos primeiros discos lançados pela Warner, o primeiro foi Introducing Brad Mehldau, e os três posteriores se chamavam The Art of the Trio I, II e III.

No primeiro, cinco são standards e quatro, composições próprias. Os títulos dão uma pequena pista do que será dito adiante: Angst, Young Werther, London Blues, e Say Goodbye. Angst é uma expressão cara ao romantismo alemão; Os Sofrimentos do Jovem Werther, de J. W. Goethe é considerado o marco do romantismo alemão. O protagonista de Goethe provocou uma onda de suicídios na época.

Um outro elemento relevante à tendência de Mehldau em se identificar com esse sentimento “romântico”, tendendo à melancolia e à dor, é a escolha das músicas do repertório popular. Provavelmente, digo provavelmente porque não tenho certeza, ele foi o primeiro a incorporar ao jazz, composições de Nick Drake (sobre ele, leia em http://bit.ly/v65tVj), um inglês atormentado que pôs fim à vida com 26 anos. Outra “escolha” – podemos dizer “descoberta”, de tão belas que são as suas interpretações – foram composições da banda inglesa Radiohead, liderada por Thom Yorke: Exit Music (for a Film), Paranoid Android, e Knives Out. Ultimamente, depois de algumas visitas ao Brasil, tem interpretado O Que Será?, de Chico Buarque e Milton Nascimento. Músicas dos Beatles não são novidade no repertório jazzístico. Algumas canções já podem ser consideradas standards, tal o número de intérpretes que se curvaram à beleza das linhas melódicas de John Lennon, de Paul McCartney e de George Harrison.

Emblemático mesmo, em relação a essa identificação com o romantismo alemão foi seu quinto disco solo. Elegiac Cycle (WB 1999). Em um longo texto, no encarte, aborda temas ligados à criação artística, transcendência, morte, perenidade e imortalidade. Acerca do título: “Sempre fui atraído por obras de arte elegíaca, que lamentam tantos tipos de perda, do mais profundo até a mais prosaica das mortes – o que os franceses chamam apropriadamente de ‘petite-mort’.” Cita como exemplos Goodbye Pork Pie Hat, de Charles Mingus, e Alabama, de John Coltrane. Menciona também exemplos de obras que não são elegíacas propriamente, mas possuem um caráter elegíaco, segundo Mehldau, caso das obras finais de Brahms ou a “pungência de Bill Evans” em You Must Believe in Spring, gravada pouco tempo antes de morrer, aos 51 anos. Mehldau diz, ainda, que “em um nível profundo e íntimo, há o medo do nosso próprio fim, que, paradoxalmente, nos impulsiona a viver e criar.”

O longo texto do encarte de Elegiac Cycle revela um intérprete diferenciado, mais intelectualizado que a maioria de seus pares. Bem, as coisas podem ser bem específicas: um grande talento musical pode até ser analfabeto ou, como sempre foi e é comum, não ter tido aprendizado formal teórico ou prático. Alguns foram tão geniais, como Erroll Garner, a ponto de o nosso pianista mor, Nelson Freire, dizer que gostaria de tocar como ele. O que quero dizer com isso é que essa faceta de Brad é externa à música. Certo? Mais ou menos certo. No caso dele, percebe-se, em vista dos álbuns posteriores, que essa reflexão filosófica está vinculada a uma ligação com o romantismo alemão, não apenas literária, mas à música de Schubert, principalmente, em um formato caro ao compositor, os lieder. Apesar de ter morrido muito jovem – 31 anos – em decorrência da sífilis, compôs cerca de 600 canções. Esse gênero teve continuidade com Schumann, Brahms, Hugo Wolf, Gustav Mahler e Richard Strauss, com Maurice Ravel, Claude Debussy e Gabriel Fauré, Mussorgsky e Rachmaninov, e na língua inglesa, Benjamin Britten e Vaughan Williams.

Não sei dizer se é um tanto extemporânea essa “retomada” do lied que Brad Mehldau realizou em dois álbuns posteriores: Love Sublime (Nonesuch, 2006) e Love Songs (Naive, 2009). Não são discos para todos os paladares, até para os seus fãs costumeiros. É preciso alguma “iniciação” à música erudita e até ao gênero mais específico que é o lied.

Love Sublime segue bem a cartilha do lied. Sete poemas de Rainer Maria Rilke (Livro das Horas) serviram de base para os lieder. Segundo Mehldau, “esses poemas são o testemunho da espiritualidade no desenvolvimento de um jovem, e eles falam para a ambivalência que muitos de nós experimentamos na medida em que questionamos e formulamos nossas crenças.” Dá para perceber como esse “arcabouço intelectual” é essencial na sua obra. Completam o CD três canções com letras do poema The Blue Estuaries, de Louise Bogan, a partir de sugestão de sua parceira nessa empreitada, Renée Fleming, e a canção título – Love Sublime – composta pelo pianista e sua mulher Fleurine. Apesar de todas essas boas referências (Mehldau, a excepcional soprano americana e Rilke), confesso que não gostei muito. A culpa é de Schubert, Mahler e cia.: é impossível deixar de compará-lo com esses mestres, levando-se em conta que o lied é um gênero (bem) particular.

Love Songs é um álbum – na minha opinião, mais uma vez – melhor. Desta feita, a parceira é a sueca Anne Sofie von Otter. As canções que compõem o primeiro CD são o resultado de uma encomenda feita pelo Carnegie Hall ao pianista para que compusesse canções para a voz de von Otter. Os poemas escolhidos foram os dos americanos e.e. cummings e Sara Teasdale, e do inglês Philip Larkins. Sem querer comparar e já comparando, o canto de Renée Fleming, em algumas ocasiões, parece um tanto deslocado (ou será o piano de Mehldau?), o que não acontece na performance de von Otter. Mesmo assim, as canções compostas por Mehldau são tensas e um tanto pesadas. Minha impressão é a de que falta alguma delicadeza e riqueza de cores e modulações tão presentes nos lieder de Schubert que, a meu ver, representa sua maior influência ao compô-las.

Agora, esqueça das reservas feitas quanto ao primeiro CD. No segundo, von Otter mescla a entonação lírica com a voz branca. A sueca deu mostras de que, mesmo fora do território lírico, é superlativa, no CD For the Stars (2001), que gravou com Elvis Costello, pela Deutsche Grammophon.

A primeira faixa do segundo CD é Avec les temps, de Léo Ferré. É um início de arrepiar, e com domínio total cantando em francês. Esse alto nível se mantém nas interpretações de Chanson des Maxence, de Michel Legrand, em Chanson des vieux amants (esta, belíssima) e em Dis, quand reviendras-tu, de Barbara. Algumas músicas registradas são bem conhecidas pois são do repertório popular, como Calling You, parte da trilha do filme Bagdad Café, e Blackbird, de Lennon & McCartney (Mehldau gravou mais de uma vez, tanto em piano solo como em formato trio. Outro ponto alto é Marcie, da candaense Joni Mitchell; digo ponto alto em relação a um disco de qualidade superior.

O propósito inicial, ao falar de Brad Mehldau, foi o de fazer algumas considerações sobre o CD Modern Music, do pianista em duo com Kevin Hays, lançado em 2011. Essas considerações ficaram longas demais. Pois assim, esse CD fica para a próxima.

Im abemdrot, de Franz Schubert, cantada por Anne Sofie von Otter.


Anne Sofie von Otter canta o clássico What Are You Doing the Rest of Your life?, de Michel Legrand, acompanhada por Brad Mehldau. Essa canção está no segundo CD de Love Songs.


Brad Mehldau interpreta Exit Music (for a Film), de Radiohead.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

As “sophisticated ladies” de Charlie Haden

Um início como esse é infalível. Melody Gardot canta If I’m Lucky (Edgar De Lange e Josef Myrow). É uma intérprete que vai se firmando com muita propriedade. Tem uma voz envolvente, é dramática na medida certa, como algo prestes a explodir, mas não explode; contém-se. [sobre ela, leia em http://bit.ly/gkVOri]

A próxima é o que dá o plot do CD: Sophisticated Lady, instrumental. É pessoal: tenho algum problema em relação ao saxofone de Ernie Watts; confesso minha dificuldade de gostar de seu sopro; acho meio despersonalizado. As referências de juventude – paixões pela trinca Lester Young/ Coleman Hawkins/ Ben Webster – atrapalharam em avaliações posteriores quanto aos tenores. Preconceito é preconceito; quem não os tem? A outra “bronca” era com Norah Jones. Deixei de ter. A bronca, creio, foi mais pela forma de que foi “vendida” para o público. Norah tem aquela voz que parece cantada por alguém que está deitado do seu lado numa noite calma de meia-estação. Seu Ill Wind, em vez de ser “ill”, é suave. Sem ser uma crítica, Norah é um pouco monocórdica. É seu jeito de cantar e, pronto.

Charlie Haden começou tocando, em 1957, com o pianista Hampton Hawes, porém tornou-se conhecido tocando com o revolucionário Ornette Coleman. O baixista é um artista multidirecional: foi, ou é free, modal, country folk e – sem isso serem gêneros –, marxista, engajado (foi expulso de Portugal por ter falado mal do ditador António Salazar num Festival de Jazz em Estoril, quando este senhor governava com mãos de ferro), e nostálgico: tem a ver com alguma coisa ser nostálgico e ser marxista ao mesmo tempo? Desculpe-me pela ironia: ser marxista e nostálgico não é um pleonasmo?

O lado nostálgico de Haden é o Quartet West (CH, baixo; Alan Broadbent, piano; Ernie Watts, sax tenor; Larance Marable, bateria – no começo foi Billy Higgins), criado em1987. Para quem gosta de música dos anos 1930-50 é um prato cheio. Os discos lançados são aulas magistrais de bom gosto. Os arranjos de Broadbent mesclam o som do quarteto com o da orquestra. São, basicamente, baladas. Haden e o pianista inseriram trechos de registros antigos de cantoras como Billie Holiday e Helen Forrest, e os resultados são pra lá de interessantes. Com frequência, somos levados a montar um cinema imaginário noir ouvindo as músicas do Quartet West, visualizando louras de olhares esgazeados e homens com seus costumes impecáveis envoltos por névoas, em jogos visuais de claros/escuros.

Nos primeiros, as cantoras eram “ressuscitadas” e mixadas nas performances do Quarteto. Sophisticated Ladies é o segundo em que há cantoras vivas convidadas. O primeiro foi Art of the Song (1999), com as participações de Shirley Horn – já morreu – e Bill Henderson. No recente, além das duas citadas acima, há Cassandra Wilson cantando My Love and I; Ruth Cameron, mulher de Haden e cantora ocasional, com Let’s Call It a Day; Diana Krall (Goodbye); e a cantora lírica Renée Fleming (A Love Like This).

Reconheça-se que Art of the Song é mais estruturado, mas esse último não deixa de ser um belo disco. De um tempo para cá, resolveram falar mal de Diana Krall – muita gente odeia aquelas que ficam muito conhecidas e caem demais no gosto popular –, mas é ainda uma cantora classuda e, pronto. Outra classuda é Cassandra Wilson, convenha-se, apesar dos rompantes experimentalistas em seus discos solo. O tom grave de sua voz é pura presença e pede silêncio quando a ouvimos. A melhor surpresa, no entanto, é Renée Fleming. É ela que vamos ouvir.





Ouça Melody Gardot cantando If I’m Lucky.




Para a felicidade dos brasileiros, o CD foi lançado aqui.