A próxima é o que dá o plot do CD: Sophisticated Lady, instrumental. É pessoal: tenho algum problema em relação ao saxofone de Ernie Watts; confesso minha dificuldade de gostar de seu sopro; acho meio despersonalizado. As referências de juventude – paixões pela trinca Lester Young/ Coleman Hawkins/ Ben Webster – atrapalharam em avaliações posteriores quanto aos tenores. Preconceito é preconceito; quem não os tem? A outra “bronca” era com Norah Jones. Deixei de ter. A bronca, creio, foi mais pela forma de que foi “vendida” para o público. Norah tem aquela voz que parece cantada por alguém que está deitado do seu lado numa noite calma de meia-estação. Seu Ill Wind, em vez de ser “ill”, é suave. Sem ser uma crítica, Norah é um pouco monocórdica. É seu jeito de cantar e, pronto.
Charlie Haden começou tocando, em 1957, com o pianista Hampton Hawes, porém tornou-se conhecido tocando com o revolucionário Ornette Coleman. O baixista é um artista multidirecional: foi, ou é free, modal, country folk e – sem isso serem gêneros –, marxista, engajado (foi expulso de Portugal por ter falado mal do ditador António Salazar num Festival de Jazz em Estoril, quando este senhor governava com mãos de ferro), e nostálgico: tem a ver com alguma coisa ser nostálgico e ser marxista ao mesmo tempo? Desculpe-me pela ironia: ser marxista e nostálgico não é um pleonasmo?
O lado nostálgico de Haden é o Quartet West (CH, baixo; Alan Broadbent, piano; Ernie Watts, sax tenor; Larance Marable, bateria – no começo foi Billy Higgins), criado em1987. Para quem gosta de música dos anos 1930-50 é um prato cheio. Os discos lançados são aulas magistrais de bom gosto. Os arranjos de Broadbent mesclam o som do quarteto com o da orquestra. São, basicamente, baladas. Haden e o pianista inseriram trechos de registros antigos de cantoras como Billie Holiday e Helen Forrest, e os resultados são pra lá de interessantes. Com frequência, somos levados a montar um cinema imaginário noir ouvindo as músicas do Quartet West, visualizando louras de olhares esgazeados e homens com seus costumes impecáveis envoltos por névoas, em jogos visuais de claros/escuros.
Nos primeiros, as cantoras eram “ressuscitadas” e mixadas nas performances do Quarteto. Sophisticated Ladies é o segundo em que há cantoras vivas convidadas. O primeiro foi Art of the Song (1999), com as participações de Shirley Horn – já morreu – e Bill Henderson. No recente, além das duas citadas acima, há Cassandra Wilson cantando My Love and I; Ruth Cameron, mulher de Haden e cantora ocasional, com Let’s Call It a Day; Diana Krall (Goodbye); e a cantora lírica Renée Fleming (A Love Like This).
Reconheça-se que Art of the Song é mais estruturado, mas esse último não deixa de ser um belo disco. De um tempo para cá, resolveram falar mal de Diana Krall – muita gente odeia aquelas que ficam muito conhecidas e caem demais no gosto popular –, mas é ainda uma cantora classuda e, pronto. Outra classuda é Cassandra Wilson, convenha-se, apesar dos rompantes experimentalistas em seus discos solo. O tom grave de sua voz é pura presença e pede silêncio quando a ouvimos. A melhor surpresa, no entanto, é Renée Fleming. É ela que vamos ouvir.
Ouça Melody Gardot cantando If I’m Lucky.
Para a felicidade dos brasileiros, o CD foi lançado aqui.

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