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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Mel Tormé, Carlos Conde, Alberico Cilento e Siero

Carlos Conde foi uma referência para muitos de nós quando o assunto é jazz. Por muitos anos, até pouco antes de adoecer, manteve seu programa na Rádio Cultura, sempre trazendo novidades do gênero, adquiridas em suas viagens semestrais a Nova York e a outros lugares. Em cada viagem comprava cerca de 200 CDs. Para que não fossem apreendidos pela alfândega, jogava fora as caixinhas (jewel boxes), trazia os disquinhos em porta CDs da Case Logic, as capas e encartes em um envelope. 

Apesar da diferença de idade, ficamos amigos. Minha timidez impedia de abordá-lo e me apresentar. Outro grande especialista e colecionador era o Alberico Cilento. Via-o sempre na Grammophone, uma loja cuja matriz era no Rio de Janeiro, na avenida Juscelino Kubitshek, em São Paulo, e também na Edgar Discos, na rua Lacerda Franco, Pinheiros, que vendia mais discos usados do que novos. Não lembro direito de como ficamos amigos. Frequentei muito sua casa no Jardim Marajoara. Gostava de mostrar trechos de música com solos que considerava memoráveis. Aprendi muito com ele.

Por várias décadas, Alberico foi um dos bam-bam-bam do atendimento da DPZ. Ganhava muito bem mas nunca trocou seu Fiat 147; seus amigos diziam, “troca por um carro mais decente, mais de acordo com a sua posição”. Preferia ter um Steinway de um quarto da cauda do que se exibir andando em carrões. Na verdade, tinha dois pianos de um quarto de cauda. O Steinway da sala era para seus amigos músicos, como João Donato, tocarem. O Blüthner, que ficava na sua sala de música, onde ficava seu aparelho de som, os milhares de LPs e CDs, era para ele se exercitar como mero amador.

Não lembro também como foi a primeira vez em que conversei com o Carlos Conde. É bem provável que tenha sido na Grammophone. Vários compradores compulsivos de LPs, CDs e fitas de vídeo cassete (depois surgiram os Laser Discs, que eram caríssimos e tiveram vida curta) baixavam aos sábados de manhã na loja. É possível que Alberico tenha me apresentado ao Conde. Um outro colecionador que estava sempre lá era o Sieiro, um espanhol de voz forte, como a do Conde. Era mais eclético; gostava de todos os gêneros musicais, fora o sertanejo, certamente. Para se ter uma ideia, quando resolveu vender seus LPs que se encontravam no sítio em Mairiporã, entrou em contato com o músico e cantor Ed Motta e este arrematou 800 LPs de uma vez.

Apesar da diferença de idade, uns 25 anos, ficamos amigos. Do seu círculo de amizade de apaixonados por jazz eu era o mais novo. O negócio dele era o jazz trio, mais do que qualquer outra formação. Odiava jazz latino, vibrafones e congas. Nem podia ouvir falar de Tito Puente. Sendo um adolescente na década de 1970, fui iniciado no que chamavam de rock progressivo (Yes, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, Van der Graaf Generator). Daí, passar a me interessar pela música estritamente instrumental foi um passo natural. Conheci Weather Report, Soft Machine, Chick Corea e Miles Davis. 

Conde, Russell Malone e eu
Meu gosto se inclinava aos mais modernos também, como John McLaughlin, Miles Davis elétrico, Weather Report e outros, apesar de gostar muito dos mais antigos, como Duke Ellingotn, Coleman Hawkins, Lester Young e tantos outros, muitos deles a partir das dicas dos meus amigos jazzófilos. Como todo bom colecionador, Conde gostava de bisbilhotar o que os outros estavam comprando. Olhava os que tinha separado e dizia: Chick Corea? “Mas você é jovem, então, tudo bem”.

Com o tempo fomos ficando próximos. Como ganhava muitos convites para shows por conta de seu programa, passou a me convidar para vários deles. Os melhores eram os do Bourbon Street. Sentávamos sempre na primeira fileira. Assim, assisti às apresentações de Bucky Pizzarelli (umas três vezes), Carol Welsman, Nnena Freelon, John Carter, Russell Malone, Karyn Allyson e outros mais. Depois dos shows, íamos ao camarim e ele sempre pedia que os artistas autografassem os CDs e LPs que levava. Todos os que tenho autografados, consegui-os porque ia na cola dele.

A história do disco com assinatura falsa. Acho que existe ainda a Jazz Record Center, uma loja que fica no oitavo andar de um prédio na West 26th Street. Conheci por causa dele. Além de venderem discos novos, a especialidade são itens de colecionadores e uma vasta memorabilia como pôsteres, livros, camisetas e revistas. Um dos itens são LPs e CDs autografados. Foi aí que descobri que o Conde não pedia autógrafos apenas porque era fã. Ele levava para Nova York e vendia. 

Certa vez, logo depois de voltar de Nova York, Conde disse com a maior alegria de que tinha vendido um LP do Mel Tormé autografado por 120 dólares. Daí Alberico contou que ele e um outro amigo resolveram pregar uma peça nele dando o LP em que eles próprios falsificaram o autógrafo, sabendo da idolatria que elnutria pelo cantor. Nunca imaginariam que ele levasse o disco para vender. Resposta do Conde: “Agora já foi; está vendido”.

Um último parágrafo. Nos Estados Unidos, muitos discos são anunciados nas revistas com datas de lançamento determinadas. Desafortunadamente, o CD “The Classic Concert”, com Mel Tormé, Gerry Mulligan e George Shearing, gravação de um show de 1982 no Carnegie Hall, sairia alguns dias depois que Conde já não estaria em Nova York. Ele ficou louco. Como sabia que eu estava indo para lá pouco depois, ligou para mim pedindo que comprasse o disco. Disse que assistiu ao show e era importante tê-lo. Claro, comprei para ele e para mim na J&R. Ouça o CD.


sábado, 12 de setembro de 2020

Carlos Conde e o 11 de setembro

O Conde, como era conhecido Carlos Conde, pelos amigos, foi um dos maiores colecionadores e expert do jazz, no Brasil. Teve um programa de jazz por muitos anos na rádio Cultura, interrompido pouco antes de sua morte.

Apesar da diferença de idade — cerca de vinte anos —, fiquei amigo do Carlos Conde ao ponto de, frequentemente, ser convidado a ir em apresentações em que ganhava convites, na condição de ter um programa especializado em jazz na rádio Cultura. Nas do Bourbon Street, Edgar, um dos sócios, reservava a mesa mais próxima do palco. Nnena Freelom, Carol Welsman, James Carter, John Pizzarelli tocaram e cantaram a menos de três metros de nós.

Ele tinha por hábito viajar duas vezes por ano aos Estados Unidos. Era um cliente conhecido da loja mais especializada em jazz em Nova York, a Jazz Record Center, localizada em um prédio próximo à Union Square. Trazia mais de cem CDs por vez. Jogava as “jewel box” e trazia apenas os CDs, encarte e capas dentro de um Case Logic, para não dar na vista. Comprava as “jewel box” no Brasil e remontava-os.
 
Houve uma vez em que estivemos no mesmo período em Nova York e nos desencontramos. Não existiam celulares, o que dificultou a nossa comunicação. A gente se encontrou no check in do aeroporto, pois voltávamos na mesma noite. Coincidência.

Em outra ocasião, tinha acabado de voltar e nos dias seguintes quem ia para lá era eu. Nos Estados Unidos, os lançamentos acontecem em datas anunciadas. Por um dia, não conseguiu comprar o CD “The Classic Concert Live” (Concord Jazz 2005), de uma apresentação de seu cantor preferido, Mel Tormé, no Carnegie Hall, com Gerry Mulligan e George Shearing. Ele disse: “Preciso ter esse CD. Eu estava no show. É o primeiro em que tenho certeza de que estava na plateia.” Comprei na J&R, uma de nossas preferidas, localizada perto da prefeitura. Bem downtown, a J&R era um conjunto de lojas, uma do lado da outra, em que se vendia desde utensílios domésticos, equipamentos de som, CDs a computadores. Ele, como eu, íamos uma vez por dia, pelo menos. Fazia parte do meu roteiro, junto com a Tower, localizada no Village. Na volta, ainda passava na HMV da Times Square.

Fui até as Torres Gêmeas apenas na primeira vez em que fui a Nova York. Acho que há pontos turísticos que devem ser visitados uma vez apenas. É o suficiente. Peguei o barco para conhecer a estátua da Liberdade em uma única ocasião. Ao Empire State fui umas três vezes, isso porque em cada uma delas, estava com alguém que não o conhecia. Portanto, o World Trade Center “sumiu” da minha vida. Por essa razão não percebi que ficava a pouco mais de um quarteirão da J&R.

Um dia depois do atentado às Torres Gêmeas, me liga o Conde e diz: “Você sabe qual é o meio mais fácil de ir à J&R?” Depois de uma pausa, completou: “de avião.” Não entendi prontamente. Desculpe. É uma piada de humor negro e hoje soa um pouco incoveniente. Mas foi o que ele disse. O Conde tinha umas tiradas muito espirituosas. Era um lado divertido dele. Não presenciou o ocorrido porque voltou dois dias antes. Sua mulher e a filha ainda estavam em Nova York. Tiveram que adiar a volta.

No ano seguinte, fui a Nova York. Foi aí que percebi como as Torres eram perto da J&R. Fui até lá. Era um imenso buraco cercado por tapumes.

Agora vai um “Body and Soul”, pelo Mel Tormé. Era a canção preferida do Conde. Tinha todas as gravações que conheceu.



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Azul é apenas uma cor ou um sentimento?

Dave Lambert, Jon Hendricks e Annie Ross
Num filme visto em uma das Mostras de Cinema organizadas por Leon Cakoff, Isabella Rossellini é uma baronesa, dona de uma fábrica de cerveja em Winnipeg, Canadá. Passa na época da crise econômica de 1929, a Lei Seca em vigor. Pensando na prescrição da Lei, resolve montar uma competição mundial para promover sua fábrica. Nome do concurso: “The Saddest Music in the World”.

O filme é de 2003, mas não lembro do ano em que assisti. Sei que seu diretor, Guy Maddin, era um dos homenageados e foram exibidos vários de seus trabalhos na ocasião. A “originalidade” do canadense era a de realizar filmes em branco e preto, como se fossem dos primórdios do cinema: movimentos truncados, falta de sincronismo, dizeres explicativos entre as cenas etc.

Não exatamente por ser diferente que fui ver. Foi pelo título, por Isabella Rossellini e a portuguesa Maria Medeiros. Agora, na breve pesquisa que fiz, descubro que foi baseado num argumento de Kazuo Ishiguro, escritor que acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Uma curiosidade: o nipo-britânico é expert em jazz – escreveu em revistas e jornais sobre o assunto, inclusive sobre Billie Holiday, que é citada mais abaixo – e é parceiro de Jim Tomlinson em algumas músicas cantadas por Stacey Kent.

Domingo lúgubre
Bem antes de assistir ao filme, ouvi uma história contada pelo Zeca Leal, cerca de trinta anos mais velho que eu, conhecedor profundo de jazz, enquanto gravávamos em fita cassete um disco de Mel Tormé, seu cantor preferido depois de Frank Sinatra.

Quando tocava “Gloomy Sunday”, o Zeca contou-me que quando a música foi lançada, houve uma onda de suicídios. É realmente uma canção que seria finalista no concurso inventado pela baronesa no filme, se fosse uma das candidatos. Coincidência ou não, o concurso acontece em 1933, mesmo ano em que “Gloomy Sunday” foi composta por Rezsõ Seress. Guy Maddin devia saber da história de “Szomóru Vasárnap” – é o título original.

Os versos do húngaro se referem a alguém que pensa em suicídio depois da morte da amada, num domingo. Pensando bem, é o pior dia da semana, mesmo agora. Pensa: depois de um daqueles almoços fartos, meio bêbado, você dá uma descansada, acorda com aquele mau humor e, daqui a pouco vai pedir uma pizza delivery esperando o início do “Fantástico”. Não tem poesia num domingo desses, portanto, vamos voltar com a história de Seress.

Composta em 1933, foi lançada só em 1935, cantada por Pál Kálmar. A primeira versão em inglês é de 1936, cantada por Paul Robeson. Existe mais de uma versão em inglês. A consagrada é de Sam M. Lewis. A gravação mais conhecida é a de Billie Holiday, que saiu em 1941. A de Mel Tormé, que imaginava ser anterior à de Billie, é posterior.

Ouça, com Billie Holiday.




A minha segunda eleita é a de Mel Tormé, de vez em quando, a primeira, lançada em 1958. Ouça.




Tardes tristes
No espectro, o azul é considerado uma cor fria. Em inglês, pode significar melancolia, tristeza ou sentimento de depressão.

Uma canção, bem menos popular, e até onde sei, não provocou nenhum suicídio, é “Blue”, composta pelo pianista Gildo Mahones, com letra de Jon Hendricks, um dos cantores mais célebres da história do jazz. Além de compositor, Hendricks ficou conhecido mesmo por incorporar letras em temas do bop, coisa difícil devido à complexidade rítmica e que, na maioria dos casos, interessantes são as improvisações. Colocou letras em músicas de Horace Silver, Dizzy Gillespie, John Coltrane, Benny Golson, Clifford Brown, Randy Weston e outros. Por isso foi chamado de “poet laureate of jazz”, pelo crítico Leonard Feather, e o “James Joyce of jive”, pela revista Time. É um caso para ser estudado pela medicina: apresentou-se até 2015. Agora, em 2017, ainda criou letras para as músicas de “Miles Ahead”, de Miles Davis com Gil Evans. 

Além da carreira solo, está na história por ser um dos melhores conjuntos vocais de todos os tempos, o Lambert, Hendricks & Ross, completados por Dave Lambert e a bela Annie Ross. Ela ficou de 1957 a 1962 no trio. Foi substituída depois por Yolande Bavan. Annie, além da carreira solo, trabalhou como atriz (uma das atuações foi em “Shortcuts”, de Robert Altman), Lambert morreu em um acidente de carro, em 1966, e Hendricks seguiu em carreira solo.

O autor do tema de “Blue”, Gildo Mahones era o pianista do trio comandado pelo baixista Ike Isaacs, que acompanhou o LH&R nos álbuns lançados pela Columbia. É parte de “High Flying”, gravado em 1961.

“Blue”, na minha opinião é mais triste que “Gloomy Sunday”. Assim como os domingos são maçantes, os fins de tarde tendem a ser melancólicos. A razão de muitos terem tirado suas vidas num domingo por causa da música envolvem fatos ou sentimentos em sincronicidade, talvez uma tristeza sem fim, bem quando a música toca no rádio.

Quanto a mim, sinto uma certa melancolia ao entardecer. Acho que essa percepção ficou mais aguda quando, ao voltar para a casa, em meio a um trânsito infernal, ouvi “Blue” e, pela primeira vez, prestei atenção na letra. Mais ou menos assim: “Cada tarde, na hora em que o dia cai, cada tarde, quando a hora da noite é noite, vem um sentimento, um sentimento de solidão. Me encontra mesmo aonde não estou; me lembra que não existe ninguém mais triste que eu, que sentimento, esse sentimento de solidão.” E termina com esses versos: “Toda manhã tento saudar o dia com um sorriso/ Quando chega a tarde/ Depois de ficar um momento sozinho/ Me vem um sentimento / Que sentimento de solidão/ I’m blue/ I’m blue/ I’m Blue.”

A letra de “Blue” ficou marcada indelevelmente em mim. Agora, em qualquer hora em que ouço, seja dia, tarde ou noite, sinto um aperto no peito, e penso: “I’m blue”.

Ouça a música, com Lambert, Hendricks & Ross. A única outra gravação de “Blue” que conheço é a de Annie Ross, depois de ter saído do trio.









terça-feira, 26 de junho de 2012

Bom dia, tristeza. Ou: a melhor das tristezas

George Shearing e Mel Tormé: parceiros ideais
A melhor interpretação — cantada pelo menos — de Good Morning Heartache é a de Billie Holiday. Essa composição de Dan Fisher, Irene Higginbotham e Ervin Drake, foi gravada pela primeira vez (presumo, não estou cem por cento certo) por Billie para a gravadora Decca, em 22 de janeiro de 1946, com a orquestra de Bill Stegmeyer (Gordon ‘Chris’ Griffin e Joe Guy nos trompetes, Bill Stegmeyer no sax alto, Hank Ross, Armand Camgros e Bernie Kaufman no sax-tenor, Joe Springer no piano), Tiny Grimes na guitarra, John Simmons no contrabaixo, e Sidney Catlett na bateria. Muitos, posteriormante, a gravaram: Dinah Washington, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Billie Eckstine, Dee Dee Bridgewater, Joe Williams, Carmen McRae, Rosemary Clooney, Etta James, Natalie Cole.

Pelo título, pode se presumir que não é uma canção “para cima”. Canta a dor que não sai dela: “Bom dia, tristeza/ Achei que tínhamos nos despedido noite passada/ Me virei e revirei e achei que você tinha ido embora/ Mas aqui está você com o alvorecer/ […] // Bom dia, tristeza/ Você é aquela/ Que me conhece bem/ Poderíamos até dar umas voltas por aí/ Bom dia, tristeza/ Sente-se.”

Na Capitol, George Shearing registrou dois discos em seu nome é grafado com o mesmo peso do segundo, gente do primeiro time, como você vai ver: com Peggy Lee — Beauty and the Beat (1959) —, trocadilho evidente sobre “A Bela e a Fera”, e Nat King Cole Sings/George Shearing Plays (1962).

Pela Concord Jazz, gravou discos com Mel Tormé (Top Drawer, A Vintage Year, An Evening with George Shearing & Mel Tormé, An Evening at Charlie's, Mel and George "Do" World War II e A Vintage Year), Brian Torff (On a Clear Day e Blue Alley Jazz), Ernestine Anderson (A Perfect Match e Dexterity), Marian McPartland (Alone Together), Carmen McRae (Two for the Road), Michael Feinstein (Hopeless Romantics), Gary Burton (Bright Dimensions) e Hank Jones (The Spirit of 176). Pela Telarc, gravou com John Pizzarelli, The Rare Delight of You. Como Shearing gravou muita coisa, posso ter esquecido de alguns dos que gravou em “dupla”.

George Shearing nasceu na Inglaterra. Era o mais novo dos nove irmãos. Nasceu cego (leia mais em “Ensaio” sobre a cegueira no piano). Cego de nascença e de família numerosa: filho da classe operária. O que lhe salvou de herdar a pobreza dos pais foi o talento revelado quando ainda criança no piano. Pouco depois do fim da 2ª Grande Guerra, emigrou para os EUA e passou a tocar em casas de jazz. Dono de estilo bem pessoal, além da linguagem jazzística, absorveu as lições de compositores da música erudita, como Erik Satie e Claude Debussy. Bright Dimensions, que gravou com o vibrafonista Gary Burton, em 1984, é um bom exemplo dessa combinação do erudito com o jazz. Não apenas instrumentista, Shearing, de vez em quando, cantava (e bem), e é autor de dois clássicos: September in the Rain e Lullaby of Birdland. O inglês, mesmo naturalizado americano, recebeu o título de “Sir” pelas mãos da rainha Elizabeth II, em 2007. Honraria merecida para alguém que gravou cerca de 300 discos em seus 91 anos de vida.

Apesar de ter gravado dois discos em duo com o baixista Brian Torff, Good Morning Heartache não está em nenhum deles; está no álbum “An Evening with George Shearing & Mel Tormé”. Os dois gravaram muitos discos juntos. Eram o que definem como “a perfect match”.

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George Shearing e Jack Kerouac. O autor de On the Road — Pé na Estrada, na tradução de Antônio Bivar, para a Editora Brasiliense — tinha verdadeira paixão pelo jazz. Esse gênero, nas décadas de 1940-50, era o que foi o rock na década seguinte. Kerouac adorava o pianista inglês. Leia um trecho:

De repente, Dean encarou fixamente um canto escuro atrás do palco e balbuciou: “Sal, Deus acaba de chegar”. Olhei. George Shearíng. E, como sempre, estava com a cabeça cega apoiada em sua mão pálida, com todos os poros do ouvido bem abertos, como o ouvido de um elefante, sempre escutando os sons da noite americana e rearranjando-os à sua maneira inglesa e notuma. […] Depois de uma hora o conduziram fora do palco. Ele retornou para seu canto escuro, o velho Deus Shearing; os rapazes comentaram, desiludidos: “Já não resta mais nada, depois dele.”