terça-feira, 26 de junho de 2012

Bom dia, tristeza. Ou: a melhor das tristezas

George Shearing e Mel Tormé: parceiros ideais
A melhor interpretação — cantada pelo menos — de Good Morning Heartache é a de Billie Holiday. Essa composição de Dan Fisher, Irene Higginbotham e Ervin Drake, foi gravada pela primeira vez (presumo, não estou cem por cento certo) por Billie para a gravadora Decca, em 22 de janeiro de 1946, com a orquestra de Bill Stegmeyer (Gordon ‘Chris’ Griffin e Joe Guy nos trompetes, Bill Stegmeyer no sax alto, Hank Ross, Armand Camgros e Bernie Kaufman no sax-tenor, Joe Springer no piano), Tiny Grimes na guitarra, John Simmons no contrabaixo, e Sidney Catlett na bateria. Muitos, posteriormante, a gravaram: Dinah Washington, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Billie Eckstine, Dee Dee Bridgewater, Joe Williams, Carmen McRae, Rosemary Clooney, Etta James, Natalie Cole.

Pelo título, pode se presumir que não é uma canção “para cima”. Canta a dor que não sai dela: “Bom dia, tristeza/ Achei que tínhamos nos despedido noite passada/ Me virei e revirei e achei que você tinha ido embora/ Mas aqui está você com o alvorecer/ […] // Bom dia, tristeza/ Você é aquela/ Que me conhece bem/ Poderíamos até dar umas voltas por aí/ Bom dia, tristeza/ Sente-se.”

Na Capitol, George Shearing registrou dois discos em seu nome é grafado com o mesmo peso do segundo, gente do primeiro time, como você vai ver: com Peggy Lee — Beauty and the Beat (1959) —, trocadilho evidente sobre “A Bela e a Fera”, e Nat King Cole Sings/George Shearing Plays (1962).

Pela Concord Jazz, gravou discos com Mel Tormé (Top Drawer, A Vintage YearAn Evening with George Shearing & Mel Tormé, An Evening at Charlie's, Mel and George "Do" World War II e A Vintage Year), Brian Torff (On a Clear Day e Blue Alley Jazz), Ernestine Anderson (A Perfect Match e Dexterity), Marian McPartland (Alone Together), Carmen McRae (Two for the Road), Michael Feinstein (Hopeless Romantics), Gary Burton (Bright Dimensions) e Hank Jones (The Spirit of 176). Pela Telarc, gravou com John Pizzarelli, The Rare Delight of You. Como Shearing gravou muita coisa, posso ter esquecido de alguns dos que gravou em “dupla”.

George Shearing nasceu na Inglaterra. Era o mais novo dos nove irmãos. Nasceu cego (leia mais em Ensaio” sobre a cegueira no piano). Cego de nascença e de família numerosa: filho da classe operária. O que lhe salvou de herdar a pobreza dos pais foi o talento revelado quando ainda criança no piano. Pouco depois do fim da 2ª Grande Guerra, emigrou para os EUA e passou a tocar em casas de jazz. Dono de estilo bem pessoal, além da linguagem jazzística, absorveu as lições de compositores da música erudita, como Erik Satie e Claude Debussy. Bright Dimensions, que gravou com o vibrafonista Gary Burton, em 1984, é um bom exemplo dessa combinação do erudito com o jazz. Não apenas instrumentista, Shearing, de vez em quando, cantava (e bem), e é autor de dois clássicos: September in the Rain e Lullaby of Birdland. O inglês, mesmo naturalizado americano, recebeu o título de “Sir” pelas mãos da rainha Elizabeth II, em 2007. Honraria merecida para alguém que gravou cerca de 300 discos em seus 91 anos de vida.

Apesar de ter gravado dois discos em duo com o baixista Brian Torff, Good Morning Heartache não está em nenhum deles; está no álbum “An Evening with George Shearing & Mel Tormé”. Os dois gravaram muitos discos juntos. Eram o que definem como “a perfect match”.

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George Shearing e Jack Kerouac. O autor de On the RoadPé na Estrada, na tradução de Antônio Bivar, para a Editora Brasiliense — tinha verdadeira paixão pelo jazz. Esse gênero, nas décadas de 1940-50, era o que foi o rock na década seguinte. Kerouac adorava o pianista inglês. Leia um trecho:

De repente, Dean encarou fixamente um canto escuro atrás do palco e balbuciou: “Sal, Deus acaba de chegar”. Olhei. George Shearíng. E, como sempre, estava com a cabeça cega apoiada em sua mão pálida, com todos os poros do ouvido bem abertos, como o ouvido de um elefante, sempre escutando os sons da noite americana e rearranjando-os à sua maneira inglesa e notuma. […] Depois de uma hora o conduziram fora do palco. Ele retornou para seu canto escuro, o velho Deus Shearing; os rapazes comentaram, desiludidos: “Já não resta mais nada, depois dele.”

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