O nome do disco pode ser considerado um enigma: Mr. X. O “X” é uma variável, esse senhor pode ser qualquer um ou, resolvida a equação, resultaria no Mr. Morby Ferber. Não existem muitas referências na internet sobre ele, imagine em outro lugar. Os músicos que tocam no disco poderiam ser uma boa pista. Pensei. E não estava errado.
No site oficial de Ferber, está dito que nasceu em 1958. Na adolescência, participou de uma banda de que tocava Led Zeppelin, Jimi Hendrix, Cream, The Beatles e Santana, dentre outros. “Então, ouvi o grande guitarrista cigano Django Reinhardt no rádio; aquilo me causou um enorme efeito”. Com 18 anos, como é praxe em Israel, seu país de nascimento, teve que servir o Exército por três anos. A única maneira de continuar a tocar guitarra nesse período seria entrar na banda do Exército. Depois disso, passou a gravar e a tocar com outros músicos em Israel, não necessariamente tocando jazz. Com 23 anos foi estudar na Berklee College of Music. Passou a compor: “… a melhor coisa que me aconteceu em Boston foi que, de repente, passei a escrever música”.
Uma observação: quem se interessou em aprender a tocar guitarra e nasceu nos anos 1950 não escapou da poderosa influência do rock e de grandes guitarristas como Eric Clapton, Jimmy Page e Jimmi Hendrix. Os que bandearam para a música instrumental, como Ferber, podem ter tido um “click” com Django Reinhardt ou de terem suas atenções dirigidas a Wes Montgomery, Jim Hall ou Grant Green, mas a força das guitarras no rock foi decisiva para a transformação da linguagem da guitarra no jazz.
Mr. X é de 1995. Quinze anos, para alguns, é muito tempo. Na música, não é. Paul McCartney acaba de fazer 70 anos (em 18 de junho) e seus maiores sucessos ultrapassam em muito a idade de seus ouvintes: os Beatles lançaram o primeiro disco em 1963 e nele foi gravado I Saw Her Standing There. Mas Ferber não era tão jovem em 1995.
Ouvindo-se a primeira faixa – a que dá nome ao disco – a primeira lembrança é 80/81 (ECM, 1981), álbum duplo de Pat Metheny em que o guitarrista é acompanhado pelos saxofones tenor de Michael Brecker e Dewey Redman. O sopro de Liebman é mais parecido com o do primeiro. Metheny e Ferber nasceram no mesmo mês (agosto); Pat nasceu quatro anos antes, de onde pode se concluir que, se a guitarra de Ferber lembra a do americano, é porque deve tê-lo ouvido. Pat, com vinte anos, estava tocando com Gary Burton; em 1976 lançou o primeiro disco como líder, pela gravadora ECM (Bright Size Life). Em 1995, quando Ferber lançou Mr. X, Pat tinha vinte anos de carreira nas costas.
A segunda faixa – Formerly With No One – é um belo tema: destaque para o baixo de Eddie Gomez. A Minor Tune, composição de Ferber, também, é um dos pontos altos, com Silence, original manjadíssimo – e maravilhoso – de Charlie Haden. Os solos de Liebman no sax soprano, o baixo que desenha belas linhas melódicas e a sempre criativa bateria de Jack DeJohnette apenas valorizam a guitarra do israelense. Fred Astaire in Chicago (bom título, não?) é outra de Ferber. A música em si? É boa, mas não tanto quanto a próxima – Zipora (to My Mother) – reflexiva, belos sons de Ferber, acompanhado do piano de Brad Hatfield, enquanto o baixo, a bateria e sons abstratos de percussão a complementam. 21st Century é a última. Pelo nome dá para desconfiar. É a grande peça do disco, ou melhor, seria. Peca pela pretensão. É a mais “tensa”; os sons dos teclados eletrônicos, com seus acordes, são como trombetas de “anunciação” dos novos tempos. Os solos de saxofone são frenéticos, aqui a guitarra também é mais distorcida, e é a única em que Naná participa com a voz. Tem 13 minutos. Não precisava.
Ouça Zipora (to My Mother).
Veja Mordy Ferber tocando com Dave Liebman.

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