terça-feira, 19 de junho de 2012

Muito estranho, esse Iggy Pop

Iggy Pop em 1973 (esquerda); em 2011 (direita)
É chover no molhado dizer que Iggy Pop é um dos ícones do rock. Famoso pelas performances e mergulhos suicidas sobre o público, da época dos lendários The Stooges, o “iguana” continua vivo e muito bem, como seus pares “stonianos” que, apesar das rugas, mantêm-se esguios, bem ao contrário de muitos dos seus contemporâneos que, além de dinossauros do rock, viraram “baleias” do rock. Até o cabelo está lá sobre seu cérebro, se aquilo não for uma peruca.

Mas… pessoal, hein!, não me senti muito bem na única vez que o vi no palco. Pop (é nome artístico; o real é James Newell Osterberg) sempre gostou de apresentar-se sem camisa, talvez, a chamado de Narciso, para exibir o abdômen definido e bem musculoso (daria até para concorrer a Mr. Universo, dos pobres, não naquele em que Schwarzeneger foi vencedor). Nessa apresentação, Iggy saltava qual um canguru desgovernado, o som estava muito alto e extasiava-se em abaixar a calça de couro preta e mostrar os glúteos brancos para a plateia. Há quem gostou. Eu, não.

Iggy Pop acaba de lançar Après (com apenas meia hora de música, esta à venda apenas para download). O título é ótimo para um disco de covers: “après-Gainsbourg”, “après-Edith Piaf”… Ouvindo o álbum, a primeira conclusão a que se pode chegar é que Pop daria um bom crooner. Voz gravíssima, tem personalidade. Podia ser um cantor de churrascaria, podia embalar muito bem um Baile da Saudade. Manda bem em Only the Lonely, superclássico na voz de Frank Sinatra.

Já que é “Après”, cinco das faixas são francesas e cantadas nessa língua. Uma sexta poderia ser, mas é da dupla Lennon & McCartney; apesar do nome – Michelle –, é inglesa. A que abre é Es si tu n’existais pas, de Joe Dassin e Toto Cutugno. Foi cantada por Johnny Haliday, Mireille Mathieu e Dalida (acho que poucos a conhecem, fora o amigo Mansur Bassit; suicidou-se em 1987, quando tinha 54 anos, mas antes do fato consumado havia tentado uma vez, depois que Luigi Tenco, seu namorado na época, suicidou-se por ter sua composição Ciao Amore, Ciao desclassificada no tradicional Festival de San Remo). As outras, bem conhecidas, são La javanaise, de Serge Gainsbourg, La vie en rose, eternizada por Edith Piaf, Syracuse, e, finalmente, Les passantes, canção de Georges Brassens. Em La javanaise e La vie en rose, a interpretação chega a ser sofrível. A curiosidade no clássico consagrado por Piaf é o solo inicial do trumpete, como a de outra interpretação inesquecível: a de Louis Armstrong. Se Iggy é sofrível nessas duas, nas restantes, se redime. Em Es si tu n’existais pas não faz feio, nem em Syracuse, se bem que é covardia compará-lo a Henri Salvador. Les passantes é a melhor das francesas com o senhor Osterberg soltando o vozeirão. Agora, não se esqueça que Iggy Pop é um americano cantando em francês. Em alguns momentos seu “accent” é de lascar.

As anglo-americanas do álbum são Everybody’s Talkin’, tema de Perdidos na Noite (Midnight Cowboy, grande filme de John Schlesinger, com Dustin Hoffman e Jon Voigt), do companheiro de noitadas regadas a muito álcool de John Lennon, na época em que tinha levado um pé na bunda de Yoko Ono (depois reataram o casamento), Michelle, dos Beatles, e dois standards – Only the Lonely e What Is This Thing Called Love. Canta com competência em todas essas, mas já que citei Yoko Ono, a melhor faixa é I’m Going Away Smiling; não é melhor que o original, mas é bem boa.

É a que você vai ouvir.



Agora, no Youtube há uma interpretação de I’m Going Away Smiling de Yoko e Antony, aquele do Antony & The Jonhsons, de arrepiar. Assista. Se você não conhece Antony (é sem “H” mesmo), está perdendo tempo. Leia sobre ele em http://bit.ly/OCkQyJ (“As relações entre Kazuo Ohno e Antony & The Jonhsons”).

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