quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Dinah Washington, a Miss ‘D’

Retrato de Quincy Jones quando jovem
Depois que produziu Michael Jackson, Quincy Jones virou celebridade.

Jackson era um dos participantes do filme The Wiz (1978), fracasso comercial, produzido pela Motown Productions, braço da gravadora que alçou a música negra aos primeiros lugares das paradas musicais. Quincy participava do filme como arranjador e músico. Jackson pediu-lhe um nome para produzir seu disco. Nasceu assim a parceria. Jones disse mais ou menos assim: “Você está na frente dele”. Michael aceitou. Fizeram juntos Off the Wall (1979), Thriller (1982) e Bad (1987). Thriller vendeu 140 milhões de cópias.

Muitos desconheciam o passado glorioso de Jones como produtor de jazz. A partir de então, era “o cara”, parceiro de Jackson. Seu nome passou a estampar outras páginas, que não as das revistas especializadas de jazz. Casou-se com uma bela atriz: Nastassja Kinski. As “Caras” “da vida” estampavam o belo casal multi étnico. Quincy era um quase sessentão e Nastassja, uma bela moça balzaquiana (31, quando se casou com ele). Antes que falem alguma coisa, diga-se que Jones era ainda, como se dizia antigamente, um boa pinta. Mais novo, foi responsável pela surra que Miles Davis deu em sua então mulher, Frances. A razão, escreveu na autobiografia, foi a de que ela “deu bola” para Quincy. Davis, enciumado, justificou que a surra foi merecida.

Bem antes de Michael Jackson, Jones foi trompetista da banda de Lionel Hampton. Perceberam seus dons de arranjador e condutor. Trabalhou com Count Basie, Duke Ellington, Sarah Vaughan, Gene Kruppa e Dizzy Gillespie. Estudou composição com Nadia Boulanger (professora de Egberto Gismonti também) e Olivier Messiaen, um dos compositores mais importantes do século XX.. Tornou-se um dos músicos mais requisitados em Hollywood e dirigiu a Barclay, braço francês da Mercury Records. Desse jeito, tão ativo assim, nem é tão anormal que tenha sido produtor do disco mais vendido de todos os tempos e seja o responsável por We Are the World, projeto para angariar fundos para as vítimas da fome na Etiópia. Como uma coisa puxa outras, hoje, Jones é responsável por uma série de projetos de ajuda humanitária, tendo criado, inclusive, a Quincy Jones Listen Up Foundation.

Quincy Jones largou o trompete, e nos anos 1950 e 60 se transformara em requisitado arranjador e produtor. Dentre as mulheres, além de Sarah Vaughan, trabalhou com Ella Fitzgerald, Peggy Lee e Dinah Washington.

Bom, esse longo preâmbulo é para dizer que ando ouvindo The Swingin’ Miss ‘D’, de Dinah Washington, lançado em 1956. E adorando. Fora o trio imbatível Ella-Sarah-Billie, havia uma penca de boas cantoras. Dinah era uma delas. Vaidosa, com problemas para manter o peso e chegada a uma bebida alcoólica, a mistura com remédios de emagrecer não deu certo. Morreu com 39 anos, ao lado do sétimo marido. É isso mesmo: sétimo. Cantava muito e gostava de casar. Apesar dos milhões de fãs, seu prestígio não era tanto entre os críticos especializados, provavelmente, por gravar canções de estilos muito variados. Dinah nunca foi uma jazz singer qual Sarah e Ella. Se quisesse, no entanto, não iria fazer feio. Basta ouvir Dinah Jams, de 1954, ao lado de Clifford Brown, Clark Terry, Harold Land, Junior Mance, Richie Powell e Max Roach.

Em The Swingin’ Miss ‘D’, os arranjos e regência de Quincy Jones são vigorosos e combinam muito com o estilo “pra cima” de Washington, com uma orquestra na qual incluem-se Lucky Thompson, Jerome Richardson, Jimmy Cleveland, Urbie Green, Ernie Royal, Doc Severinsen, Charlie Shavers, Clark Terry, Ernie Wilkins e Benny Golson. Temos standards como Caravan, Makin’ Whoopee, Perdido, as “bluesy” I’ll Drown on My Tears (ficou mais conhecida com Ray Charles) e You Let Me Love Grow Cold, porém, Dinah se supera em baladas como You’re Crying e I’ll Close My Eyes. São essas as que você vai ouvir.

You’re Crying.




I’ll Close My Eyes.



terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Mais uma de Bowie do novo disco: “The Stars (Are out Tonight)”

O disco novo de Bowie está anunciado para ser lançado em 11 de março. Chama-se The Next Day. Está disponibilizado um vídeo de The Stars (Are Out Tonight), que é a segunda do álbum. Duas publicações inglesas tiveram o privilégio de ouvi-lo em primeira mão. Leia a crítica que saiu em The Guardian: http://bit.ly/V1wlGn.

Se o restante das músicas estiver no nível de The Stars, vem coisa boa.

Veja o clipe.

“Don’t explain”: não precisa explicar (mais uma vez)

Nina Simone, uma das intérpretes de Don’t Explain
Contei a história (http://bit.ly/11os1zc), outro dia, de onde Billie Holiday tirou a ideia para a música. Billie nunca foi boa com casamentos. Os homens a exploravam, batiam e a drogavam. Um deles – Jimmy Monroe –, numa manhã chegou com a camisa manchada de batom e tentou se explicar. Billie disse: “don’t explain”. Boa, não? Conheço um caso real de uma conhecida que foi acordada pelo barulho da máquina de lavar. Levantou-se e encontrou o marido sentado ao lado da máquina. Sem camisa.

A dor é ótima inspiradora para a criação de obras geniais, e não é só na música. E é por isso que adoro músicas tristes; porque muitas delas são obras primas. Trágico? Nem tanto. Sádico? Nem tanto. Sou obrigado, no entanto, a admitir que estou tendo prazer por conta da dor alheia.

Don’t Explain é uma das minhas “torch songs” preferidas. É uma música cantada por mulheres. No jazz foi interpretada por Nina Simone, Helen Merrill, Natalie Cole, Etta James, June Christy, Anita O’Day, Dee Dee Bridgewater, Nnenna Freelon, Rosemary Clooney, enfim, por todo o primeiro time feminino. As exceções são Robert Palmer, Lou Rawls e Damien Rice, são os que lembro agora. No caso do último, é um duo com Lisa Hannigan (acho que é mulher ou namorada dele). Sua participação é pequena e canta num registro agudo, a ponto de se confundir com a voz de Lisa. Combina.

Tocada apenas, há uma infinidade de interpretações: John Coltrane, Dexter Gordon, Chet Baker, Jim Hall, Steve Kuhn, Wynton Kelly, para citar algumas. Apesar de ser, basicamente, um standard jazzístico, caiu no gosto de intérpretes “pops”. A melhor, sem dúvida, é a de Cat Power. Ouça e você vai ver que não estou mentindo.



Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Há uma versão disponível com Lisa Stansfield no YouTube, mas é de uma apresentação em um clube de jazz londrino, o Ronnie Scott. O som do sax tenor logo no início diz tudo.



Outra interpretação clássica é a de Nina Simone. Como Cat Power, a americana é especialista em “torch songs”. Dá até vontade de cortar os pulsos.




Dentre as instrumentais, ouça a de Wynton Kelly. A guitarra é de Kenny Burrell.




Ouça também uma interessante interpretação de Malia, cantora nascida na República de Malawi, antiga colônia inglesa.