quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Tom de Biglione

Victor Biglione empunha sua Washburn
Victor Biglione veio com seis anos ao Brasil e por aqui ficou. É um dos grandes guitarristas brasileiros, apesar de ter nascido em Buenos Aires. O que ele faz com a sua Washburn J6 Montgomery não está escrito em algum lugar. Faz jus ao guitarrista Wes Montgomery, que nomeia a guitarra.

Classificá-lo como instrumentista jazz fusion é reducionismo. Seu dedilhado é a de um jazzista que segue a trilha de Wes Montgomery e Grant Green. Não é barulhento como John Scofield (graças a Deus), é melódico e mestre em construir linhas harmônicas de ótimo gosto. Realizou discos (muito bons) com Andy Summers (ex-Police) e Marcos Valle. É excepcional o CD Live in Montreal, com o tecladista e compositor de Samba de Verão.

Excepcional mesmo, ou tanto quanto, é o CD dedicado ao compositor Antonio Carlos Jobim, Uma Guitarra no Tom (Delira Music, 2009). Constam no disco clássicos como Lígia, Só Danço Samba, Chovendo na Roseira (Double Rainbow) e Samba de Uma Nota Só. Confira Victor tocando Água de Beber.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ahmad Jamal: o artista quando jovem

Conta rápida. 1955 para 2010 são 55 anos. Nesse ano Ahmad Jamal gravou o álbum Chamber Music of the New Jazz acompanhado apenas de um guitarrista e um baixista; sem bateria. Não sei se foi Nat “King” Cole quem a inventou, mas a consagrou., antes de ficar megafamoso como cantor, tinha seu trio de jazz. Influenciou muitos, inclusive Oscar Peterson.

O jovem Ahmad
Miles Davis era fã de Ahmad. Gravou uma composição dele – Ahmad’s Blues – em Workin’ (Prestige, 1956). Em maio de 2010, o pianista apresentou-se no Bridgestone Music Festival e era esperado como uma das principais atrações. Mas não é a sua primeira vez em terras brasileiras. Salvo engano – culpa da má memória – Jamal esteve num dos São Paulo–Montreux Jazz Festival, no fim dos anos 1980. Lembro até do Hilton Raw, um dos fãs incondicionais de Miles, dizer que Ahmad era o pianista preferido do trumpetista. Procuro, porém, na Internet e não vejo uma referência sobre sua vinda. Pode ser sinal de que naquele tempo Ahmad era pouco conhecido no Brasil.

Para os que nem adolescentes eram nos anos 1980 não devem saber nada sobre esse festival, que não era só de Jazz – como em Montreux –; tinha a noite mais voltada ao blues e outra ao rock (apresentou-se até, o jamaicano Peter Tosh). Foi a primeira nesse formato aqui. Aconteceu um parecido no Rio de Janeiro em que se teve grandes atrações como Pat Metheny, McCoy Tyner e o Weather Report, quando o baixista era Jaco Pastorius. O festival em SP continuou com outro nome depois: Free Jazz Festival, que não tinha muito de “free” (o nome era por conta de uma marca de cigarros). Para se ter uma ideia do quão importantes foram esses eventos, basta citar alguns dos que vieram: John McLaughlin, Chick Corea, Hermeto Pascoal, Stan Getz, Al Jarreau… quer mais? Zoot Sims, Benny Carter, Philip Catherine, Larry Coryell… a lista é extensa. Esse contato que os brasileiros puderam ter com intérpretes, dos mais tradicionais aos mais modernos, serviu em muito para o desenvolvimento do gosto do brasileiro pela música instrumental.

Jamal, no fundo, não mudou muito sua maneira de tocar. Em São Paulo e no Rio, em 2010, apresentou-se com seu trio e participação do percussionista Manolo Badrena, o que em essência, não deixa de ser a formação tradicional piano/baixo/bateria. Sua composição mais conhecida, Poinciana, faz parte de qualquer apresentação sua. Se não tocar, é bem capaz de ser linchado. Faz parte da escrita. Ou do destino.

Chamber Music of the New Jazz é um belo disco, mas com formação um pouco diferente. Não tem bateria, como foi dito. Em seu lugar, temos a guitarra de Ray Crawford. O estilo econômico, sincopado e de variações abruptas de andamento estão, desde já. Jamal não mudou muito. Mudamos nós.

Ouça A Foggy Day. Interpretação personalíssima.



Assista também Ahmad tocando Darn that Dream.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O “malfalado” Jeffery Smith e seu Afro Blue

São muito mais mulheres que homens entre os cantores, principalmente no jazz. Em qualquer lugar desse mundo ouve-se falar de um novo talento feminino. A razão é a de que, inconscientemente, introjeta-se o mito do canto das sereias. Isso é apenas uma conjectura, mas é real a diferença quando o assunto é gênero.

O cantor mais representativo do jazz, há muitos anos tem sido Kurt Elling. Como cometas, alguns surgem na lista dos melhores e desaparecem. Os perenes têm sido Kurt, Andy Bey, Tony Bennett e Mark Murphy. Em 2010, Giacomo Bates é citado. E não é um iniciante. Como melhor “Rising Star” nas vozes masculinas, foi eleito Sachal Vasandani. Também é pouco conhecido. É bom, tem swing, mas pode ter o destino de tantos outros: desaparecer das listas dos melhores, enquanto Kurt está destinado a manter-se na primeira colocação por um bom tempo.

Um desses de quem se falou alguma coisa é Jeffery Smith, principalmente, por ter sido “ajudado” por Shirley Horn. Assinou um contrato com a Verve/Gitanes. O primeiro foi Ramona (1995), com o trio da pianista/cantora. Em 1998 foi a vez de A Little Sweeter, acompanhado por Kenny Baron, e em 1999, gravou Down Here Below, que contém uma brilhante interpretação de Afro Blue, original de Mongo Santamaría.

Antes de ser “descoberto” por Shirley Horn, foi crooner da banda de Claude Bolling. Depois do CDs lançados pela Verve, pouco se ouve falar de Smith. Apesar do nome incomum – Jeffery é muitas vezes grafado erradamente Jeffrey – e sobrenome mais que comum, uma coisa pode ser empecilho para que seja mais conhecido: tem um homônimo, músico e negro como ele, que é guitarrista. Até para se adquirir um disco de Smith no site da Amazon é complicado por conta desse fato.

Mesmo com o pouco destaque – imerecido –, Smith é um cantor que impressiona. A voz de barítono remete naturalmente aos grandes cantores com essa característica: Johnny Hartman, Billy Eckstine e Joe Williams. Chega a ser estranho que pouco se fale dele. Ouça Afro Blue e aquilate se é bom cantor ou não.