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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Pra cima com a viga, moçada

Chuvas, tempestades, terremotos e tsunamis têm castigado o mundo. No meio de tanta desgraça, quase despercebidamente, J.D. Salinger, autor de “Apanhador no Campo de Centeio” morreu. É um livro que marcou algumas gerações posteriores à Segunda Grande Guerra e é bem possível que as atuais ainda sejam capazes de se impressionar com as desventuras de Holden Caulfield. Uso “morte” em vez de “desaparecimento” pois Salinger há muito tinha “desaparecido”. Do mesmo modo que é estranho a alta exposição a que estão sujeitos até profissionais não exatamente ligados ao show business — como os escritores — é também o “deixem-me só” de JDS. Não é o único. Já houve Rimbaud — era mais fácil “sumir” antigamente —, e depois do autor de “Apanhador”, temos o exemplo de Thomas Pynchon e, no Brasil, o de Dalton Trevisan.


Jack White, Jimmy Page e The Edge.
Em uma matéria numa publicação americana, acho que no New York Times, ficamos sabendo que Salinger circulava tranquilamente na pequena Cornish, New Hampshire, e gostava de ir à igreja pelos almoços com rosbife que lá eram oferecidos a US$ 12 e era visto sempre a fazer as compras no supermercado Price Chopper. Nada mais prosaico para quem ficou conhecido como “o” misterioso escritor.

É muito reducionista — e até maldade — relacionar a sua importância à influência “maldita” que possa ter tido sobre alguém como Mark David Chapman, que assassinou John Lennon. Parece que “Apanhador…” era seu livro preferido e o carregava quando descarregou sua arma acertando quatro tiros no cantor após pedir um autógrafo. É fazer pouco de alguém que, com sua obra, influenciou mais de uma geração. Depois de “Apanhador…”, li quase tudo o que escreveu — o que não é muito – e em muitas ocasiões, tratei de presentear amigos e amigas que não conheciam JD. Mas meu livro preferido é “Nove Estórias”. Sempre gostei de títulos. Atraiu-me pela estranheza, o conto “Um Dia Ideal para os Peixes-Banana”. Tornou-se um dos meus preferidos.

“Raise High the Roof Beam, Carpenters”, em sua primeira tradução no Brasil, chamou-se “Para Cima com a Viga, Moçada!” e saiu pela Editora Brasiliense. Na outra tradução, de Jorio Dauster, pela Companhia das Letras, chamou-se ‘Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira”. Prefiro a primeira porque o “Para cima” me parece mais enérgico e tem mais a ver com os “clamores” da juventude.

Salinger é pretexto apenas para o título deste texto e também por representar uma época em que houve a explosão de uma das manifestações musicais mais poderosas: o rock. Independente de considerar-se uma manifestação da baixa cultura, como muitos pensam, foi uma ferramenta poderosa para uma radical transformação nos costumes. Foi ferramenta e também foi fruto. E qual é o instrumento ícone do rock: a guitarra. É o instrumento em que o acústico torna-se elétrico, amplificando-se em poderosos decibéis.

Davis Guggenheim (diretor do filme catástrofe “Uma Verdade Incoveniente”) conseguiu juntar três grandes guitarristas de diferentes gerações e montar um documentário. É um prato cheio para os amantes do rock e até para os nem tanto. “A Todo Volume” (‘It Might Get Loud”), título desse filme feito em 2008, passou quase despercebido pelo público ao ser exibido comercialmente. Vi na Mostra Internacional de Cinema em 2009 e digo que gostei. Sem muita autocrítica. Paixões não são lá muito autocríticas. Que prazer! Lembrou-me que na minha adolescência apaixonara por Led Zeppelin e pela guitarra de Jimmy Page e também que, ao descobrir o outro — este com “i” e um “m” — passava meus dias a ouvir seus discos. Faço parte de um em milhões de pessoas.

As três gerações são Jimmy Page, dos anos 1960/70, The Edge, da banda U2, uma das mais longevas do universo do rock — estão na estrada desde início dos anos 1980 e continuam bons —, e Jack White, do White Stripes. É incrível o respeito que um tem pelo outro: cada um aprendeu com o outro e admiram-se. É incrível que o Led Zeppelin ainda impressione o adolescente dos anos 10 deste século. São 40 anos de lá para cá. A guitarra poderosa de Jack White, nos primeiros discos do White Stripes, são puro Page. E isso não é demérito. E a White cabe tocar com um de seus ídolos.

É um verdadeiro presente àqueles que gostam de rock, difícil de descrever. É melhor vivê-lo assistindo a esse filme. É uma sinergia incrível quando tocam juntos os hoje clássicos da dupla Page & Plant, como “In My Time of Dying” ou “I Will Follow”, um dos primeiros sucessos do U2. E é demais ver como a pulsão primordial do rock continua viva nas mãos de jovens como Jack White, brilhante guitarrista e cantor. Sua energia não se esgota em vários discos lançados pela banda White Stripes e seus outros projetos como a banda Raconteurs e, mais recentemente, o Dead Weather.

O final do documentário guarda uma pérola: os três interpretam “The Weight”, uma das grandes composições de Robbie Robertson, do The Band. O DVD foi lançado em duas versões, a normal e em BluRay.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A solidão de Jack White

Jack White e suas olheiras
Ao ouvir Missing Pieces, a primeira faixa de Blunderbuss, primeiro disco solo da parte masculina da dupla White Stripes, fica-se com a sensação de que aquele velho Jack se perdeu em algum lugar. Quando o White Stripes lançou o primeiro disco, pouco antes do fim do século XX, foi um choque. Aquilo era para fechar o século mesmo. Como era possível apenas duas pessoas – ele, Jack, e Meg White – fazerem tanto barulho? Fiquei pensando em truques de gravação, fitas pré-gravadas, overdubs, mas quando os vi no Credicard Hall, percebi que era possível. Meg, furiosa, de carinha entre o angelical e aquela menina que protagonizou O Exorcista… Linda Blair… esse era o nome, golpeava a bateria com raiva. A técnica estava em algum plano desnecessário. Meg personificava a fúria assassina e, no caso, a vítima era a bateria.

Não que Missing Pieces seja ruim. Mas, começar com umas notas no Fender Rhodes que se replicam na batida da bateria e no baixo? Muito calmo para o que se espera de Jack. Na faixa seguinte – Sixteen Saltines –, aí sim, lá está o velho Jack. De vez em quando penso que ele é uma mistura de Robert Plant e Jimmy Page numa só pessoa. White explora todos os sons da guitarra; não é à toa que o colocam no patamar de Hendrix. É o que se conclui ouvindo-se Freedom at 21, a seguinte. Que bom gosto nas distorções e overdubs!

As seguintes – Love Interruption, Blunderbuss, Hypocritical Kiss, Weep Themselves to Sleep, I’m Shakin’, Trash Tongue Talker, Hip (Eponymous) Poor Boy, I Guess I Should Go to Sleep, On and On and On e Take Me With You When You Go – são bem diversas entre si. A diferença entre o tempo do White Stripes e o do solo é o uso mais intensivo do piano e “puxadas” de slide guitar. Jack é country (com direito a cordas), é rock britânico, americano, folk e blues. O disco solo corresponde ao fim do White Stripes – nesse ínterim, montou o The Racounteurs, com Brendan Benson, Jack Lawrence e Patrick Keeler, e o Dead Weather, com Alison Mosshart (The Kills), Jack Lawrence e Dean Fertita (Queens of The Stone Age) – e de seu casamento. Mas o disco não pode ser rotulado de triste. Segundo Jack, rompimentos não precisam ser, necessariamente, trágicos ou tristes, conforme disse à Folha de S. Paulo.

Apesar do estranhamento, para quem se acostumou com Jack no White Stripes, aos poucos, acostuma-se com o Jack líder solitário. Em Blunderbuss, algumas músicas são muito boas: Hypocritical Kiss, Weep Themselves to Sleep, On and On and On. Fazem valer os reais que se gastam.

White faz os diabos com a guitarra, e canta, ao mesmo tempo. É fenomenal mesmo e a crítica já o coloca entre os melhores de todos os tempos. Thales Menezes, na Folha de S. Paulo (9/5/2012), diz que “uma revista o deixou atrás apenas de Jimi Hendrix, outra indicou que só Eric Clapton foi melhor”. O fato é que White ouviu todos esses grandes guitarristas e assimilou a técnica, tanto de Hendrix como a de Jimmy Page (na minha opinião, quem mais o influenciou) e de Buddy Guy. É um instrumentista versátil, tira tudo da guitarra e é ótimo compositor. Jack White caminha em várias direções. É a expressão de seu talento.

Fique com Sixteen Saltines. É poderosa.



E, com Hypocritical Kiss, só com as meninas.



Ouça Weep Themselves to Sleep.



Veja Jack cantando Freedom at 21, só com as meninas, de novo. Ele montou uma banda só de mulheres; alterna com uma com os homens.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um café para Jack, do White Stripes

“Sua respiração é doce, seus olhos são como/ Duas joias no céu/ Sua postura é ereta seus cabelos são suaves/ Sobre o travesseiro no qual pousa/ Mas eu não sinto afeição/ Nem gratidão nem amor/ Sua lealdade não é para mim mas para as estrelas acima.” Após a primeira estrofe, vem o refrão “One more cup of coffee for the road/ One more cup of coffee for I go,/ To the valley below.” Há uma interrupção, ou melhor, uma voz que morre “descendo o vale”.

Que história é essa? Ao sabermos que “Sua irmã vê o futuro/ Como sua mãe e ela./ Você nunca aprendeu a ler ou escrever./ Não há um livro na sua estante/ E seu prazer não conhece limites/ E sua voz soa como o canto da cotovia./ Mas seu coração é qual um oceano/ Misterioso e escuro.” A garota deve ser uma cigana, uma andarilha. O prazer não conhece limites, mas seu coração é misterioso e escuro.

One More Cup of Coffee é a quarta canção do álbum Desire (CBS 1976) e é cantada em dueto com a cantora folk Emmylou Harris. É desse disco a conhecida Hurricane, que trata da prisão do boxeador peso médio Rubin Carter, preso acusado de triplo homicídio, em 1966. Foi solto em 1985.


Em 1999, uma banda formada apenas de duas pessoas, o guitarrista e vocalista Jack White e uma moça ensandecida na bateria chamada Meg White, lançou o primeiro disco, apenas com o nome dela: The White Stripes. Têm preferência pelo branco e o vermelho nas roupas. Os dois branquelos fizeram um disco realmente “enfurecido”. A décima terceira música é One More Cup of Coffee. Enfurecida e bela. Ouça.