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quinta-feira, 9 de maio de 2019

Opções geniais para se ouvir Nature Boy

ahbez é o barbudo
Três registros novos que relaciono são interessantes de serem vistos/ouvidos. Uma delas abre o filme Moulin Rouge, de Baz Luhrman, que junto com Chicago, de Rob Marshall são os dois melhores musicais da década passada. Esta versão de David Bowie é muito boa, como a maioria das coisas que faz, imprimindo sempre a sua marca. A outra, bem diferente – não vou dizer por quê –, que não existe em CD, é a de Jamie Cullum. Imperdível. A terceira é de uma cantora muito boa, que merece ser “buscada” na Internet para quem não a conhece: Lizz Wright. Existe uma versão no YouTube que deve ser vista.

Além das versões cantadas, existem alguns registros apenas instrumentais. Para os que desejam as mais tranquilas, recomendo a de Art Pepper, grande alto-sax, que teve uma carreira um tanto atribulada devido ao seu problema com drogas. Ela está no álbum Straight Life e tem como sidemen o pianista maior Tommy Flanagan, Red Mitchell no baixo e Billy Higgins na bateria. Outra muito boa, que está em Blue Moods, é a de Miles Davis. O trumpete em surdina tem aquele tom melancólico é apenas dele. Acompanhado por Charles Mingus no baixo, o destaque é o vibrafone de Teddy Charles. A do guitarrista Joe Pass – esse é outro que andou um bom tempo preso por conta de consumo de drogas pesadas – e do trombonista “mais rápido do oeste” J.J. Johnson é excepcional. J.J. inicia com o tema em “surdina” e Joe a finaliza com um rápido solo de sua guitarra semi acústica fenomenal. A música é curta e faz com que fiquemos com aquela sensação de que “tiraram o doce da boca da gente”.

Ouça a de Miles.




A de John Coltrane – a que designaria como a versão “amalucada” – é uma longa faixa de oito minutos. Ele apresenta o tema no sax tenor sobre uma colchão bem caracteristicamente coltraneano com o piano “cheio de notas” e arpegiado de McCoy Tyner, notas de baixo no arco e a bateria brilhante e enérgica de Elvin Jones. Após um começo dramático e lento, Coltrane se lança naqueles solos contínuos, ricos e intensos. No fim da faixa, Art Davis faz um breve solo meio atonal no arco. Tudo que é dele é imperdível.




Temos uma versão bossa nova, de outro sax tenor do primeiro time, mas menos conhecido. Falo de Zoot Sims. Esta faixa está no álbum The Bossa Nova Sessions. Muita gente, na década de 1960 sucumbiu ao gênero mais exportado do Brasil. Não foram apenas Charles Byrd e Stan Getz.

Ouça.




A versão que designaria de “desconstruída” é a do pianista Jacky Terrasson. Sua maior característica é a de nunca começar pelo tema: lá no meio da música você fica sabendo o que ele está tocando. Muito bom.




Todos os CDs citados não foram prensados no Brasil. Para aquele que deseja tê-los a opção é importá-los. A outra é a de procurar pela Internet, fazer um download “piratão” ou comprá-las pelos sites de venda de música.


Bela versão de Bowie:



A de Lizz Wright, citada logo no início. É uma ao vivo.




Finalmente, Jamie Cullum.


terça-feira, 14 de julho de 2015

Jutta Hipp, quem diria, foi parar no Queens

Zoot Sims e Jutta Hipp
Quando Adolf Hitler subiu ao poder, Jutta Hipp tinha oito anos, tinha 14, Hitler invadiu a Polônia, 21 a guerra terminou. Leipzig, sua cidade natal, ficara do lado que ficara sob controle soviético. Mudando-se para o lado ocidental, era considerada então uma refugiada.

De família protestante de classe média, não tinha mais nada. Estava desnutrida e sem dinheiro. Conheceu um soldado afro americano, e do relacionamento, nasceu Lionel, evidente homenagem ao vibrafonista Lionel Hampton. Pelas leis segregacionistas americanas da época, não podia assumir nem ela e nem o filho. Jutta entregou-o para a adoção.

O curso na escola de artes em Leipzig de nada adiantaria para a sua sobrevivência. Suas aulas de piano na infância e adolescência e o gosto que tomara pelo jazz, ouvindo com amigos em transmissões de rádio clandestinas – o nazismo não apreciava o jazz – circunstancialmente, serviria para levantar um pouco de dinheiro.

Em pouco tempo, excursionava pelo país com o saxofonista Hans Koller e passou a liderar um quinteto. Nos anos logo após a guerra, o crítico Leonard Feather viajava pela Europa a fim de conhecer bons músicos europeus e levá-los à América, e fazer um intercâmbio entre eles. Foi assim que se surpreendeu com o talento de Jutta. Arrumou-lhe um visto. Foi morar em Nova York, em 1956. Por recomendação de seu “descobridor”, tocou por seis meses no Hickory House, apresentou-se no Newport Jazz Festival e gravou um álbum na Blue Note, tendo a participação do tenorista Zoot Sims. Quem a ouvia, impressionava-se com a sua arte. Art Blakey foi um deles. Dizem que a generosidade do crítico não era gratuita. Seus interesses iam além dos estritamente musicais.

O que era prenúncio de um belo futuro como uma estrela do jazz não vingou. Fica a pergunta: por que? Depois de tantas dificuldades que tinha passado, o mais comum dos mortais pensaria que, a partir daí, tudo ficaria melhor. Mas a insegurança e a timidez levaram Jutta a afogar-se em altas doses etílicas e muita fumaça, de cigarro, seja dito. Não era maconha nem outros tipos de drogas, que circulavam nas mãos de traficantes nas noites novaiorquinas. O álcool era a sua fuga. O medo de ficar sem dinheiro, que fizera muita falta nos tempos da guerra, permaneceu. Não querendo ficar sujeita às instabilidades naturais da vida de um músico, arrumou um emprego fixo em uma loja de roupas. Continuava a tocar, eventualmente. Aparecendo cada vez menos, caminhou para o ocaso.

A pianista que chamara a atenção por sua técnica refinada, que lembrava muito o estilo de Lennie Tristano e lançara um grande álbum com Zoot Sims no saxofone tenor, não se sentia à vontade nos palcos. Certa vez perguntada por que preferia pintar em vez de tocar piano, dissera que pinturas eram vistas e não quem as executava. Detratores de Leonard Feather dizem que sua carreira não evoluiu porque rechaçou as investidas do crítico. Jutta chegou a se queixar com Atilla Zoller, que, por um tempo, foi seu namorado. Afastou-se totalmente do ambiente da música. Consta que a única amizade do meio que manteve foi a do saxofonista alto Lee Konitz, que a visitava esporadicamente. Até 2000, a gravadora Blue Note desconhecia o seu paradeiro e não sabia como entregar-lhe os cheques com os royalties das gravações da década de 1950. Morava no Queens. Em 2003, faleceu vítima de um câncer no pâncreas.


Do álbum de 1956, ouça Violet for Your Furs, com Zoot Sims no tenor.





Maestria de Hipp em Dear Old Stockholm.





Ouça These Foolish Things do álbum gravado no Hickory House.





Algumas gravações do tempo em que ainda morava na Alemanha atestam que era uma pianista pronta quando emigrou para os EUA graças ao auxílio de Leonard Feather. Teve como parceiros musicais os saxofonistas alto Hans Koller e Emil Mangelsdorff, e o irmão Albert Mangelsdorff, fabuloso trobonista. Ouça What’s New.