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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Estate, João Gilberto, USP 1977

Parece – digo “parece” porque reconto algo de alguém que ouviu de outrém e, assim por diante – que a história é a seguinte: o cantor, pianista e compositor italiano Bruno Martino abrira um show de João Gilberto na Itália. Impressionado com uma das músicas que ouvira, mais tarde, procurou-o. Conversaram e passaram várias horas até João decorar a harmonia e a letra dela. Chamava-se Estate.

Depois de alguns anos sem gravar, João lançou, em 1973, o álbum Amoroso. Sucesso imediato. Eu e meus amigos corremos às lojas para comprá-lo. Tornou-se o disco de cabeceira de muitos de meus colegas da USP. Falávamos só dele. A piada que fazíamos era a de que João Gilberto era a única pessoa que tinha o direito de dizer “besame mu(n)cho”. Não estávamos loucos não, apesar da maconha que corria solta no campus da USP e no bosque da Biologia, outrora aberta e não cercada como agora. Prestem atenção: ele canta “muncho”.

A primeira música já era um choque: um ‘S Wonderful, de George e Ira Gershwin, num ritmo bossa nova “nunca dantes” ouvido, na orquestração delicada do alemão Claus Ogerman. A segunda também era uma novidade: João cantando em italiano Muito estranho. Conhecíamos, “sabidos” que éramos, como a maioria dos jovens recém-saídos da adolescência, João Gilberto en Mexico, conhecido também como Farolito, álbum em que cantava em espanhol Farolito, Bésame Mucho e Eclipse, do grande Lecuona.

Ouça Bésame Mucho, gravada no México.




Pois então, a América descobriu Estate. Existem várias gravações cantadas disponíveis nos sites de vendas de CD. Conheço a de Roseanna Vitro, a de John Pizzarelli, de Susanne McCorkle, de Carla Cook, e a melhor, a de Shirley Horn. Sua interpretação é brilhante. Lenta, quase parando, como sói cantar, cada sílaba é um pedaço de uma bela arquitetura que vai se erguendo. Ironicamente, a italiana Caterina Valente gravou-a em inglês sob o nome de Maybe This Summer. No mercado americano é conhecida pelo seu nome original ou por Summer.

Existem muitas versões instrumentais: a do pianista francês Michel Petrucciani, a da suave harmônica do belga Toots Thielmans, de duas gravações do baixista “dançarino” Ray Brown, a do baixista Richard Davis com o estupendo piano de John Hicks e a da pianista JoAnne Brackeen. Considero, no entanto, a mais bonita e poética a do vibrafonista Bobby Hutcherson numa gravação ao vivo no Village Vanguard.

Confira.




Para quem quiser ouvir o Estate em sua língua nativa, importem urgentemente o último CD de Roberta Gambarini, So in Love. Tem também um da brasileira Eliane Elias, que depois do sucesso de Diana Krall resolveu também cantar. Olhe, não estou falando mal dela, não!

Ouça Estate com Roberta Gambarini, em apresentação ao vivo, com o grande trompetista Enrico Rava.




Relaciono a seguir os álbuns citados:
João Gilberto: Amoroso
Shirley Horn: I Thought About You e Here’s to Life (é deste a melhor interpretação, fora a do nosso João Gilberto)
Roberta Gambarini: So in Love
Carla Cook: Simply Natural
Eliane Elias: Bossa Nova Stories
Roseanna Vitro: Softly
John Pizzarelli: Bossa Nova
Susannah McCorkle: Sabiá
Michel Petrucciani: Estate
Ray Brown: Live at Scullers
Richard Davis & John Hicks: Homage to Diversity
JoAnne Brackeen: Take a Chance
Bobby Hutcherson: In The Vanguard

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Eu vi Mercedes Sosa

Sosa esteve no Brasil em 1976
Uma das coisas mais marcantes durante a minha passagem pela USP foi a apresentação de Mercedes Sosa.

Meses depois que entrei na Faculdade de Arquitetura, a Universidede entrou em greve, e a tônica dominante foi a política. Um tanto compulsoriamente ficamos politizados. Vivíamos em assembleias e em formações de grupos de trabalho. Como um Fla x Flu, as tendências se digladiavam. O domínio, na FAU, era o do grupo de linha trotskista, Liberdade e Luta, e o “inimigo” maior, a Refazendo. Nas festas da Libelu tínhamos rock e tropicalistas, nas da Refazendo, samba e Chico Buarque.

Nesse meu primeiro ano – foi em 1976 – quase no fim dele, aconteceu a apresentação de Mercedes Sosa no Anfiteatro da USP, localizado nas franjas do bosque da Biologia. Governava, nessa época, o general Ernesto Geisel. Seu ministro do Exército, Sylvio Frota, aspirava sucedê-lo e isso representava um retrocesso mais à direita ainda. Seu subordinado no II Exército, Ednardo d’Ávila Mello, depois de o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho terem sido mortos nas dependências do DOI-CODI, foi afastado.Os estudantes, em bom número, temiam o recrudescimento da ditadura, e, engajaram-se na luta pelo restabelecimento da democracia e até, por um governo efetivo de esquerda. O chefe de polícia do governador Paulo Egydio era a representação do demônio repressor na figura de um senhor de cabelo escovinha e olhar satânico. Diante do engajamento cada vez maior dos estudantes, a polícia pôs Brucutus (esses veículos eram chamados assim) nas ruas, lançando jatos de água colorida contra os manifestantes. Culminou com a invasão da PUC em 1977, da polícia, quebrando tudo, jogando bombas de efeito moral. Resultado: três estudantes sofreram graves queimaduras. Essa invasão, segundo o Rui (falo dele abaixo), “foi uma represália à realização, em São Paulo, do encontro preparatório à recriação da UNE, quando a Faculdade de Medicina foi cercada, mas os representantes da organização foram liberados como estudantes da faculdade e estes ficaram para ser presos e viabilizar o Encontro.”

Um colega uspiano, depois de feita uma vaquinha para angariar dinheiro, colocou um anúncio da morte do nobre chefe da polícia, na Folha de S. Paulo. O melhor de tudo: muito contrariado, o “doutor” assistiu ao próprio “enterro” da rampa da Escola de Polícia, na entrada da Cidade Universitária. A convocação ao enterro foi uma atitude bem humorada – e moleque até – contra os descalabros e excessos que estavam ocorrendo.

Sosa é considerada uma das maiores propagadoras da música folclórica latina e tem sua imagem ligada à canção de protesto. No ano em que se apresentou no Brasil, Isabelita Perón, viúva do caudilho argentino, a quem substituíra, foi deposta. Assumiu uma junta militar liderada por Jorge Videla. Em 1979, viu sua apresentação ser interrompida na cidade de La Plata. Deixou o país para voltar apenas em 1982, ano que corresponde à derrocada do regime sob o governo do general Leopoldo Galtieri.

A apresentação aconteceu em uma tarde ensolarada de outubro (ou novembro?, não me lembro). Em decorrência da situação política, o fato de Sosa se apresentar em São Paulo e ainda na USP, se revestia de uma importância especial. Representava um ato contra a ditadura. Numa certa altura, duas pessoas do DCE pediram que cantasse uma música de Violeta Parra. Sosa perguntou se se podia cantar uma música proibida. Responderam que o campus da USP era território livre. Cantou La Carta. Em algumas situações, a catarse funciona. Imagine uma situação dessas no meio de estudantes universitários que viviam ou temiam um retrocesso político.

Meu amigo Rui Moreira Leite estava bem próximo de Mercedes. Quando terminou a apresentação, deu-lhe de presente uma xilogravura de sua autoria com duas imagens relacionadas às eleições em Portugal (após a queda do regime salazarista, em 1974, fora aprovada, em abril de 1976, a Constituição, e assim se instaurava o regime democrático). Ganhou um beijo de Mercedes Sosa.

Com a minha memória virando uma peneira, esse relato foi possível graças à memória prodigiosa do amigo Rui, o do beijo de Mercedes.

A música disponibilizada é a conhecida Alfonsina y el Mar, de Ariel Ramirez e Felix Luna. Foi gravada por Sosa em 1969 no disco Mujeres Argentinas. A outra interpretação é a do espanhol El Cigala. Tem gente que não gosta dele. Eu gosto muito.



El Cigala.


Sosa canta La Carta.